2016, o ano que não deveria ter começado…

Quando o Papa Gregório XIII instituiu seu novo calendário em 1582, o mundo pulou magicamente de 4 de outubro para 15 do mesmo mês. 10 dias (de 5 a 14 de outubro) foram simplesmente suprimidos. Fico assaltado por uma dúvida: me refugiar nestes dias que não existiram, o que equivaleria a um exílio para sempre, ou pedir ao Papa Francisco I que cancele o ano de 2016, fazendo-nos pular de 2015 para 2017, o ano do centenário da Gloriosa Revolução.

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Por Flávio Aguiar.

Já tivemos 1968, o ano que não terminou (Zunir Ventura), 1958, o ano que não deveria terminar (Joaquim Ferreira dos Santos), 1958, o ano em que o mundo descobriu o Brasil (filme de José Carlos Asberg) e agora temos “2016, o ano que não deveria ter começado”, de Flávio Aguiar, com vários coadjuvantes: Eduardo Cunha, Michel Temer, José Serra, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Aécio Neves, Rede Globo, coxinhas coiós, e muitos mais etcéteras, que assim vão ficar para a história.

2016 está sendo pior do que 1964. Quando há um golpe militar, os tanques vão na frente, atrás vem a tigrada (como se chamavam os repressores/torturadores de DOPS, DEOPS, DOI-CODIS, CENIMARES, etc.) e depois vem a caterva dos civis.

Nesta nova modalidade de golpe, inaugurada entre nós depois dos ensaios de 2000 em Washington (votação de 5 x 4 na Suprema Corte Norte-Americana elegendo Bush, the Second), Honduras e Paraguai, é a caterva que vai na frente.

Resultado: a confusão é total. Uma hora Renan cai, outra hora sobe, Moro é flagrado em convescote particular com Aécio Neves, revista diz que Temer é o homem do ano, Serra dá shows de gafes internacionais, policiais federais e orgulham de seu partidarismo, com ajuda de promotores e juízes, a presidenta do Supremo telefona ao presidente para acertar os relógios da quebra constitucional… Enfim, é o inferno astral do país. 1964 foi o ano dos gorilas, este é o ano dos macacos de fogo (calendário chinês). Já tivemos o ano (1978) dos Marimbondos de fogo, de José Sarney… segundo Millôr, um livro que quando você larga, não consegue pegar mais. Agora temos Anônima intimidade (2013), de Michel Temer, um livro que quando você quer largar, não consegue: ele não desgruda, é como pixe no sapato. “Incêndios/Tomam conta de mim/Minha mente? Minha alma/Tudo meu/ Em brasas/Meu corpo/Incendiado” – E o pior é que o Brasil vai queimando junto…

Como se não bastasse o golpe, a Leva Jeito de Fascio, o Temer, o Cunha, o FHC choramingando, o Serra de cotovelos afiados, o Aécio vomitando sorrisos, o Alckmin temperando seu xuxu, o Sartori degolando o Rio Grande, vieram o Brexit, o Trump, a morte do Fidel, e o Doria em São Paulo com seu sorriso Colgate/Palmolive…

Quando o Papa Gregório XIII instituiu seu novo calendário em 1582, o mundo pulou magicamente de 4 de outubro para 15 do mesmo mês. 10 dias (de 5 a 14 de outubro) foram simplesmente suprimidos. Fico assaltado por uma dúvida: me refugiar nestes dias que não existiram, o que equivaleria a um exílio para sempre, ou pedir ao Papa Francisco I que cancele o ano de 2016, fazendo-nos pular de 2015 para 2017, o ano do centenário da Gloriosa Revolução. 

Como estou pensando seriamente em pedir asilo ao Vaticano (já que sou coroa posso me tornar coroinha), levarei a questão ao Sumo Pontífice que, nesta altura, é o mais proeminente governante de esquerda de todo o planeta. O temporal, o mores!

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

7 comentários em 2016, o ano que não deveria ter começado…

  1. Tania Elias Magno da Silva // 03/01/2017 às 19:47 // Responder

    excelente análise.

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  2. Mari Santos // 05/01/2017 às 4:23 // Responder

    Não gostaria de fazer um comentário tão pessimista, mas 2017 já não comecou bem.Rebeliões nos presídios, assassinatos, chacinas desemprego , ameaca de velhice ao desamparo…Decididamente, nada vai bem por aqui. Mas o mau exemplo vem de cima e o país está à deriva . Não consigo ouvir, muito menos confiar nesses pseudoministros , quando vêm a público dar suas ” explicacões ” a respeito de fatos que deveriam ser considerados vergonha nacional. Mas claro , na verdade, eles não sabem o que significam: vergonha, decência,ética, moral, respeito ao povo que representam e com o qual deveriam estar preocupados. Leis, Constituicão? Tudo pode ser adaptado de acordo com o momento. “Mal termina o que mal comeca”, não é o título de um conto de William Shekespeare?. Pois é. Não refiro-me ao ano, mas a este governo e seus ministros que absolutamente não representam nosso povo. Olho para seus rostos e lembro-me de seus maus feitos de passado tão recente que minha memória ainda os retem. Por esse motivos e por outros que certamente ainda virão, Flavio Aguiar, o recurso que nos resta é mesmo pedir asilo ao Papa Francisco que no presente momento, parece ser uma das consciências mais sensatas destes nossos tristes tempos .

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  3. Flávio Aguiar // 05/01/2017 às 16:03 // Responder

    Obrigado, Mari. Lembremos Brecht: os que lutam sempre, estes são os indispensáveis. Que o exemplo do Papa Francisco continue nos estimulando. Forte abraço, Flavio.

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  4. Flávio Aguiar // 05/01/2017 às 16:03 // Responder

    E obrigado também ao Anísio, do Lado Escuro da Lua!

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