Teitelboim: política e literatura numa voz do Chile

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Por José Paulo Netto.

Ao que me consta, o chileno Volodia Teitelboim (nome de pia: Valentín Teitelboim Volosky), nascido em 1916, em Chillán, província de Ñube, e falecido em 2008, em Santiago, não é muito conhecido no Brasil.

Suponho, todavia, que dois grupos de brasileiros devem saber bem da sua existência. Em primeiro lugar, aqueles – mais velhos hoje – que acompanharam a tragédia que, para os chilenos, significou o golpe do 11 setembro de 1973, levando ao poder o general Pinochet. Volodia, que se encontrava em viagem à União Soviética, só por isto escapou da morte e já no dia seguinte iniciou a denúncia do genocídio que se cometia contra os seus compatriotas: de então até 1988, através de duas emissões semanais da Rádio Moscou (o programa Escucha Chile!), ele vocalizou a resistência chilena – uma seleção das suas alocuções foi publicada em dois volumes, em 2011, pelas Ed. LOM, de Santiago, sob o título Noches de radio. Em segundo lugar, o grupo daqueles – jovens ou não – especialistas em literatura latino-americana: certamente estes sabem que Volodia foi uma das mais significativas figuras da importante generación del [19]38, que tanto contribuiu para dinamizar a literatura chilena. Se estes têm notícias também do papel que Volodia desempenhou na organização da cultura de seu país (sendo, por exemplo, fundador e diretor, a partir de 1954, da revista Aurora, publicada em Santiago), os mais velhos conheceram o periódico político-cultural que Volodia também fundou e dirigiu, desde o exílio, na sua luta contra o pinochetismo, Araucaria de Chile, editada trimestralmente em Madri entre 1978 e 1989.

Recordemos, inicialmente, Volodia – o homem político. Ao fim da adolescência, vinculou-se ao Partido Comunista fundado em 1922 por Luis Emilio Recabarren (1876-1924). Ativista desde cedo nas lutas sociais, destacou-se como liderança estudantil na Universidad de Chile, na qual se formou em Direito (1945). Já com ponderável experiência na militância partidária, mas antes de completar 30 anos, passou a formar parte de organismos da direção nacional do Partido Comunista, razão pela qual sofreu em cárceres, em isolamento no campo de prisioneiros políticos de Pisagua (criado por Gonzáles Videla, presidente do Chile entre 1946 e 1952, instrumento dos norte-americanos na abertura da Guerra Fria) e viveu as agruras da clandestinidade. Em 1961, elegeu-se deputado por Valparaíso e depois, por duas legislaturas, senador por Santiago. Nesta condição influiu no governo da Unidade Popular (1970-1973, liderado pelo socialista Salvador Allende, seu amigo pessoal) e foi um dos articuladores da resistência no exílio, experimentado como um senador apátrida, uma vez que o regime de Pinochet cassou-lhe até a nacionalidade. Personalidade mundialmente respeitada, pôde regressar legalmente ao país em 1988 e assumiu, em 1989, a secretaria-geral do Partido Comunista no difícil período de transição à democracia – dando lugar, em 1994, a Gladys Marín, heroína da resistência interna, falecida em 2005, aos 64 anos. De 1995 em diante, já com a saúde comprometida, Volodia, que tinha a seu crédito uma copiosa intervenção jornalística e política de caráter conjuntural, dedicou-se sobretudo ao seu ofício de escritor.

Acabo de usar a expressão ofício de escritor. Utilizei-a rigorosamente: Volodia foi, antes e acima de tudo, um notável escritor – não por acaso, em 2002 foi-lhe concedida a maior honraria literária do Chile: o Prêmio Nacional de Literatura.* Sua obra estritamente literária tem como ponto de partida a elaboração (juntamente com Eduardo Anguita), em 1935, da seminal Antología de la poesía chilena nueva, referência até hoje obrigatória nos estudos sobre a produção poética no Chile do século XX. Já ali se podem entrever, in nuce, os traços que se explicitariam ulteriormente no seu labor de crítica e de criação: o gosto refinado na identificação de valores estéticos, o ensaísmo crítico bem calibrado e a finura na artesania estilística – ademais de uma cultura literária envolvia de clássicos russos (Hombre y hombre, 1969) a latino-americanos ilustres, como J. L. Borges (Los dos Borges, 1996) e J. Rulfo (Por ahí anda Rulfo, 2005).

A riqueza do ensaísmo crítico de Volodia é verificável em livros como El pan y las estrellas (1973), mas é sobretudo saliente nos imprescindíveis estudos que dedicou à vida e à obra dos mais notáveis poetas do seu país – Gabriela Mistral pública y secreta, 1991, Huidobro: la marcha infinita, 1993 e Neruda, ed. def. 1996.**

Da criação literária de Volodia, o destaque vai para Hijo del salitre (1952, com entusiástico prólogo de Pablo Neruda) e se estende a Pisagua: La semilla en la arena (1972), que um crítico, Pedro Lastra, considerou serem “parte da melhor tradição da narrativa épico-social chilena” – e creio que este status também deve ser conferido a La guerra interna (1979), que se caracteriza (e diga-se de passagem, se distingue de suas obras anteriores) pelos recursos experimentais de que se vale.

Contudo, o que me importa salientar é que a militância política e o ofício de escritor não se apresentam em Volodia como duas vocações distintas: na sua trajetória de mais de seis décadas de intervenção social e elaboração literária, ainda que considerando a especificidade própria a cada uma dessas esferas de objetivação humana, Volodia foi capaz de relacioná-las numa rara unidade. Demonstra-o o seu grande e último empreendimento: as suas memórias, a obra autobiográfica Antes del olvido.

Em seus quatro volumes, publicados entre 1997 e 2004,*** uma prosa límpida sob a qual pouco se esconde um sóbrio artesão da linguagem oferece, em cerca de duas mil páginas, um painel – rigoroso, mas delicado – do mundo que Volodia encontrou e procurou transformar. Nenhum narcisismo, nenhuma ode ao próprio umbigo: apenas o testemunho de um homem que, narrando seus encontros e desencontros, viveu os principais dramas da humanidade ao longo de século XX. E esses dramas vêm refigurados para o leitor mediante a imaginação peculiar aos grandes escritores: em Antes del olvido, Volodia conseguiu ser absolutamente fiel à epígrafe (extraída de Antonio Trabucchi) que escolheu para a obra: “A fantasia da memória do escritor transforma as recordações em literatura”.

Antes del olvido é a prova, rara – mas cabal –, de que uma política generosa pode vir junto da melhor literatura, fecundando-a e dela se nutrindo.

NOTAS

* Criado em 1942, antes de Volodia receberam o prêmio, entre outros, Pablo Neruda (1945), Gabriela Mistral (1951), Nicanor Parra (1969), Eduardo Anguita (1988), Jorge Edwards (1994), Raúl Zurita (2000) e, depois dele, Isabel Allende (2010) e Antonio Skármeta (2014).

** Ao que sei, esta biografia definitiva de seu amigo Neruda é o único texto do autor vertido ao português: V. Teitelboim, Neruda. Porto: Campo das Letras, 2004.

*** Valho-me das seguintes edições – vol. 1, Un muchacho del siglo XX. Santiago: Ed. Universitaria; vol. 2 – Un hombre de edad media; vol. 3 – La vida, una suma de historias; vol. 4 – Un soñador del siglo XXI. (os volumes 2 a 4 saíram sob o selo da Ed. Sudamericana, também de Santiago).

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

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