A razão do comum

Pedro Veríssimo reflete, no Espaço do Leitor, sobre algumas das questões apresentadas no mais recente livro de Pierre Dardot e Christian Laval, "A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal", lançado este ano pela Boitempo.

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Por Pedro Veríssimo.

Vivemos um tempo do apelo à eficácia, de vigilância constante do nosso desempenho. Somos cobrados a cada dia a produzir mais e melhor. Cobrados pela “empresa”, pela meta, nunca por alguém de carne e osso que conhecemos e podemos reivindicar por tamanha pressão. “As exigências são ‘sem sujeito’, não têm autor ou fonte identificável” (A nova razão do mundo, p.363). O poder é ilegível. A empresa otimiza gastos, corta uns investimentos e prioriza outros, e, por um conjunto de normas e técnicas disciplinares, constitui os “dispositivo de eficácia” que conduz à normatização de nossas escolhas sempre na lógica do “custo/benefício”. O neosujeito, como classificou Dardot e Laval, é a síntese desse sistema normativo encarnado pelo indivíduo “empresa de si”, que trabalha “para a empresa como se trabalhasse para si mesmo e, assim, elimina qualquer sentimento de alienação e até mesmo qualquer distância entre o indivíduo e a empresa que o emprega (…) Nesse sentido, a gestão moderna é um governo ‘lacaniano’: o desejo do sujeito é o desejo do Outro(p.327), foi assim que Lacan definiu a fantasia.

Então podemos dizer que o que está em jogo no capitalismo avançado são “formas de existência”, ou seja, comportamentos que definem nossas relações de emprego, com o outro e com nós mesmos. Uma forma que tornou a ação coletiva mais difícil, já que “os indivíduos são submetidos a um regime de concorrência em todos os níveis”, o que “definem novos modos de subjetivação. A polarização entre os que desistem e os que são bem-sucedidos mina a solidariedade e a cidadania” (p.9)

Por outro lado, ou melhor, como parte do mesmo lado, a onipresença do marketing nos promete um “gozo último”, a satisfação plena. As marcas se descolam do palpável e viram um espectro que ronda o mínimo de mercadoria possível. O suporte material – geralmente fabricado por mão de obra análoga à escravidão – é cada vez mais um detalhe. O que legitima não é material, mas simbólico. O que condiciona, inclusive, nossas relações com o outro, uma relação de objetalização, quando “não se trata simplesmente de transformar o outro em coisa (…) mas de não poder mais conceder ao outro, nem a si mesmo enquanto outro, nada além de seu valor de gozo, isto é, sua capacidade de ‘render’ um plus” (p.371).  Por isso, “oscilando entre depressão e perversão, o neosujeito é condenado a ser duplo: mestre em desempenhos admiráveis e objeto de gozo descartável” (p.374)

Essa nova racionalidade neoliberal, que interfere na conduta dos indivíduos em todas as esferas de suas relações, se mostra o grande desfio a ser enfrentado pela esquerda: “não podemos contentar-se com uma crítica incisiva à ‘mercantilização generalizada’, ela tem de inventar uma resposta política ‘à altura’ do que o regime normativo dominante tem de inédito” (p.389). Isso já exclui, de pronto, querer reviver práticas políticas decadentes. Lembro de Badiou em A hipótese comunista que afirma: “É melhor não fazer nada do que contribuir para a invenção de maneiras formais de tornar visível aquilo que o Império já reconhece como existente”.

A pergunta que vale a pena fazer, segundo Dardot e Laval é se “a esquerda pode opor uma governamentalidade alternativa á governamentalidade neoliberal”. Segundo Foucault, em o Nascimento da biopolítica, precisamos inventá-la. Para tal é necessário a esquerda dar conta da “pane de imaginação que vem sofrendo” e o primeiro passo é justamente entender essa nova racionalidade neoliberal e assim “promover desde já formas de subjetivação ao modelo da empresa de si”.

Os autores, então, retomam o conceito de “contraconduta” de Foucault, que significa “tanto escapar da conduta dos outros como definir para si mesmo a maneira de se conduzir com relação aos outros”, de maneira prática, trata-se de uma “recusa de se conduzir em relação a si mesmo como uma empresa de si e a recusa de se conduzir em relação aos outros de acordo com a norma da concorrência” (p.400). Essa nova forma de vida só faz sentido se for uma invenção – e prática – coletiva e baseada na cooperação, pois acreditar que o capitalismo encontrará um fim em si e que suas crises recorrentes são exemplos disso é a “pior das crenças” (e a mais cômoda delas).

“Cabe a nós permitir que um novo sentido do possível abra caminho. O governo dos homens pode alinhar-se a outros horizontes, além daqueles que da maximização do desempenho, da produção ilimitada, do controle generalizado. Ele pode sustentar-se num governo de si mesmo que leva a outras relações com os outros, além daquelas da concorrência entre ‘atores autoempreendedores’. As práticas de ‘comunização’ do saber, de assistência mútua, de trabalho cooperativo podem indicar os traços de outra razão do mundo”, a Razão do Comum (p.402).


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Pedro Veríssimo é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e membro do grupo de pesquisa “1 dia, 7 dias” pela mesma instituição. Atualmente pesquisa sobre a racionalidade neoliberal e como essa se relaciona com nossas formas de vida.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

3 comentários em A razão do comum

  1. A maximização do desempenho, a produção ilimitada, o controle generalizado e a visão de si-mesmo como empreendedor são efeitos do capitalismo, em seu estágio neoliberal. De nada adianta combatê-los com política ou atitudes de contraconduta: é como combater pneumonia com aspirina.

    A causa está no fato de que o capitalismo organiza toda a sociedade em torno do capital, do valor, que precisa virar mais valor. A causa é o VALOR, alçado como forma social da sociedade. As pessoas devem ser mais eficientes e competitivas porque suas vidas servem para fazer dinheiro e não o contrário.

    No capitalismo tudo é economia: se não se criticar e atacar a economia, o homo economicus, de pouco adianta resistências parciais aos efeitos do capital. O pós-modernismo, apesar das boas intenções, é aliado do capital, com seu diagnóstico equivocado e suas lutas inócuas.

    A solução é acabar com o capitalismo e o valor como forma social, acabando com todas as suas instituições: dinheiro, estado, direito, política, mercado etc.

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  2. Antonio Elias Sobrinho // 16/12/2016 às 16:25 // Resposta

    O capitalismo se alimenta, de fato, de sua reprodução, que é feita através da exploração cada vez mais intensiva da força do trabalho. Isso é certo. Assim como é certo que essa essa lógica, pelo seu caráter individualista, não pode ser domada por nenhuma racionalidade mais profunda, a não ser que consigamos a sua superação. Como, porém, esse é um projeto hercúleo, que por sinal encontra-se fora do horizonte de curto e médio prazo, não é razoável que fiquemos esperando que isso aconteça para que possamos tentar melhorar a vida dos homens de forma imediata, isto é, dentro mesmo das condições gerais vigentes.

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    • Não sou contra lutas defensivas, também acho-as necessárias, desde que se tenha consciência que elas combatem efeitos e não a causa.
      O problema é com as teorias, ou seja, quanto alguns teóricos confundem os efeitos do capitalismo com a causa. Este é o caso de muita teoria pós-moderna e alguns “marxismos” atuais.

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