O paradigma do sofrimento e o conflito Israel-Palestina

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Por Christian Ingo Lenz Dunker.

Normalmente quando pensamos no conflito que se arrasta desde 1948 entre Israel e Palestina pensamos em três paradigmas para seu tratamento ou solução: a dimensão histórico-religiosa, a perspectiva político-econômica e a saída futura pela mediação ou conciliação. Gostaria de propor, à guisa de experimento teórico e tomando o caso como um modelo mundial para a solução de conflitos, o que não deixará de interessar aos clínicos e psicanalistas, que assumamos um quarto paradigma: o paradigma do sofrimento. Pensar a partir do sofrimento é levar em conta a dinâmica de reconhecimento, a narrativa e a trasitividade entre os envolvidos no que diz respeito a quem ocupa o lugar de agente e quem é que sofre a ação. Isso significa pensar para além da contagem de vítimas e carrascos ou da dinâmica entre reconciliação e vingança.

Quando o assunto é a comparação entre formas de sofrimento, aprendemos que esta é por um lado inevitável e por outro impossível. Inevitável porque o sofrimento não é a dor, mas a interpretação que fazemos de uma experiência no interior de uma narrativa e de uma gramática de reconhecimento. Todo sofrimento é transitivo e contagioso, todo sofrimento procura suas causas determinando ou indeterminando um saber e nisso reside seu potência transformativa, clínica e política. Sofremos com o outro e com a interpretação que o outro faz de nosso sofrimento. Mas sofremos também e ainda mais quando o sofrimento não é reconhecido, nomeado ou transmitido como experiência coletiva. Por isso, se o outro desconhece ou invalida nossa experiência de sofrimento ela se torna ainda pior. E é aqui que surgem o empuxo e a necessidade de inverter o que se sofreu impondo um sofrimento análogo ao agente a quem imputamos a causa do nosso sofrimento. “Um olho por um olho, um dente por um dente”, significava, originalmente, apenas um olho, por apenas outro, e não dois, três, e quatro olhos. Ou seja, trata-se deste “a mais” – que a psicanálise chama de “a mais” de gozar – que forma a tênue fronteira entre vingança, reparação, justiça e retribuição.

A perspectiva para a qual eu vos convido baseia-se em um caso clínico real, no qual um psicanalista judeu atende um paciente palestino. Neste microcosmo de relações, podemos encontrar perspectivas novas para um conflito que obviamente possui inúmeras características incomparáveis com um conflito local de onde parto.

O analista chega nervoso para a sessão porque seu analisante é sempre pontual e ele, ao contrário do habitual, sempre se atrasa:

 “Vocês judeus são bastante estúpidos não? Nem chegar na hora ao próprio consultório vocês conseguem. Enfiar uma chave na fechadura é um trabalho que leva meia hora. Por que se admirar então que vocês tentam explodir uma casa e explodem dez que estão em volta, mesmo com todas as bombas e foguetes inteligentes que vocês têm? E sabe o que mais? Vocês não dão a mínima por serem assim. […] me diga, doutor, você não tem vergonha?”
(Yoram Yovell, O Inimigo no meu Quarto. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 100.)

Sendo ele o único estudante árabe em um curso de psicologia da Universidade de Jerusalém, sua queixa clínica era simples: sentia-se um lobo solitário do qual ninguém gostava. Um estrangeiro em qualquer lugar e ademais encantara-se por uma jovem judia que nem sequer sabia de sua existência.

“Você sabe como é ficar olhando uma garota o tempo todo e não existir para ela? Me diga, você faz ideia de que nós sabemos, nós sentimos que para vocês nós não somos   seres humanos de verdade? Vocês nem sequer nos odeiam, na maior parte do tempo. Simplesmente nos ignoram.”
(Idem, p.104)

Para isso, há uma política na psicanálise. Dissolver o apego que Amin Khouri apresenta para com sua própria identidade, assim como suspender a demanda de ser tratado como um exemplar de uma classe, como um caso de um gênero. Isso poderia levá-lo a fazer-se reconhecer para além de seus predicados como árabe tornando-se e tomando-se como um sujeito singular. É uma ótima política que se traduz em uma péssima estratégia. Dizer para aquele que não consegue se separar de sua identidade e é constantemente punido ou diminuído por ela que ele deve se desfazer disso parece um duplo ato de reconhecimento negativo: suspende a força agregadora e coletivizante da identidade e ao mesmo tempo, deixa intocado o fato de que os outros continuam a lhe impingir preconceito e menos valia.

Mas o fato clínico intrigante aqui é que apesar de sentir-se pouco acolhido ou amado por seu próprio psicanalista ele não deixava de vir e de gastar o dinheiro ganho com muito custo por seus pais incultos que se desdobravam para que ele estivesse na universidade.

O ódio é um sentimento poderoso. Ele é um doping fantástico para que pessoas sem recursos e desamparadas continuem a insistir em suas jornadas. O ódio é também um antídoto contra a indiferença. Finalmente, por meio do ódio podemos transformar a passividade de ser ignorado pelo outro na posição ativa daquele que odeia, mas isso tem um custo que é odiar a si mesmo. Por tudo isso, Amin havia se tornado adicto ao ódio. Suas provocações cruzavam o muro gerando em seu analista pensamentos do tipo: ‘e se ele resolver me atacar ou se explodir em meu consultório?’ O ódio reverso e incipiente no analista traduziu-se na pergunta: ‘mas porque então você continua a vir às sessões?’ (Idem, p.110) Outro mau movimento, recebido como desejo de livrar-se do inoportuno paciente e confirmação do desamor no qual ele se entristecia.

Chegamos assim ao momento no qual o psicanalista perde a paciência, diante das provocações de seu paciente e considera seriamente enviá-lo para outro, desistindo do caso, sentindo de que todos seus esforços de acolhimento e empatia apenas alimentavam mais ódio. Amim responde de forma surpreendente dizendo que isso confirma que “ele o abandonaria como o fez sua mãe”. Irritado e inconformado, o analista vocifera que a mãe de Amim era uma dedicada dona de casa que fizera todo possível por ele e ele se portava agora deste modo ingrato (ingratidão que falava obviamente da reação dele também).

Neste ponto somos surpreendidos pela descoberta de que Amin era um filho adotado, que se achava ele mesmo desprezado por sua mãe biológica, em tese, judia. Esse era o motor último de seu ódio a si, saber-se um judeu criado por palestinos árabes. Esta inversão de afetos que atravessam a revelação faz Amin chorar e sorrir pela primeira vez em todo tratamento. Sua impaciência com os atrasos, sua intolerância e agressividade repetiam de modo invertido a narrativa do abandono. E medo que ele causava às mulheres confirmava o desamor.

“Ela me expulsou de sua vida sem nenhum remorso, como vocês nos expulsaram desta terra, também sem nenhum remorso, e como ainda nos expulsarão novamente, se tiverem uma chance. Foi o que vocês fizeram em 1948. Você sabe como nós chamamos o que vocês fizeram? A-Nakba: o Holocausto.”
(Idem, p.127).

Aqui vem a última virada do caso. A nova inversão de perspectiva que permite que este que vive segregado como palestino, mas que se sente judeu, sendo ainda israelense e muçulmano permita-se reconhecer na experiência de despossessão de uma mãe que abandona seu filho. Quando ele consegue experimentar a coragem de uma mãe que entrega seu filho para outro criar, uma transformação essencial se processa: do ódio em desamparo produtivo. Os fatos são os mesmos, mas a perspectiva de que a mãe que entrega seu filho para a doação também sofre, e não apenas o filho abandonado, muda tudo. Isso desloca Amin da sua posição de vítima, mas também faz seu analista cair da posição de impotente prestativo. E isso ocorre sem que ao mesmo tempo sejamos levados à posição conciliatória tradicional na qual todos somos vítimas e nos irmanamos nesta mesma vulnerabilidade.

A pena e a culpa são afetos muito pouco transformadores, tanto do ponto de vista político quanto clínico, assim como o ódio e a inveja, eles formam uma espécie de ciclo de retorno sem progressão. Talvez tenha sido esta a última lição política de Freud ao hipotetizar, em seu testamento teórico, que Moisés era um estrangeiro, ou seja, que a relação de posse fundamental consigo, com o corpo, com a história pode e deve ser revertida em desposessão. Esta também foi a tese de Vladimir Safatle ao argumentar que:

“[…] talvez nunca sejamos capazes de separar cultura e produção de identidades defensivas […] mas devemos analisar a possibilidade de afirmar que a política nasce através da atualização de algo que poderíamos chamar de ‘potência de despersonalização’ que sobe à cena da vida comum, levando os sujeitos a não falarem mais como se fossem portadores de identidades e interesses particulares.”
(Vladimir Safatle. O circuito dos afetos. São Paulo, Cosacnaify, 2015. p.353.)

O primeiro passo nesta direção talvez seja suspender a crença na geografia unitária, ou seja, nossa confiança de que se os termos do problema forem consensuais aos participantes, poderíamos ter uma espécie de “linguagem comum” a partir da qual ele pode ser tratado e resolvido. Esta teoria do mediador, do ponto de equilíbrio ou da referência comum pode ser útil em muitas situações, mas não em todas. Ela tem contra si o sério inconveniente de equalizar identidades em torno da posse de um traço predicativo ou elemento comum de parte a parte. Como vimos no exemplo clínico acima, o elemento comum pode ser justamente o desencadeador do ódio, seja este elemento o território, a diáspora, a capital sagrada ou o profeta ancestral Ishmael.

Este elemento comum é o que unifica “nós” e “eles”. Por exemplo, durante os anos 1920 um dentista de Berlim escreveu a Freud informando-o que os árabes estavam usando a telepatia ara comunicar-se entre si entre vilas distantes. Freud cordialmente provê ao dentista explicações sobre a implausibilidade da telepatia. O detalhe aqui é que por várias razões Freud ele mesmo acreditava na telepatia, e, portanto, teve que se desvencilhar de suas próprias crenças para dizer o que disse. Também vai nesta direção o comentário de Max Eitington ao chegar à Palestina em 1933

“Depois de tudo, são as mesmas pessoas, com os mesmos problemas que estamos acostumados a lidar, mas claramente nem judeus ortodoxos nem árabes estão aptos para qualquer forma de psicanálise.”

Podemos intuir que ambos estão presos às suas próprias geografias e ao sistema de crenças projetivas que uma geografia comporta como contraperspectiva. Deveríamos assumir, como paradigma alternativo uma situação semelhante àquela descrita por Lévy-Strauss ao abordar duas tribos em guerra permanente. A tribo A quando convidada a desenhar o mapa do conflito desenha os As em cima e os Bs em baixo supondo que os Bs querem tomar seu lugar superior, um motivo mais do que legítimo para manter-se em guerra. Contudo ao verificarmos o mapa do conflito produzido pela tribo B vemos que eles se colocam na porção central do território e localizam os As na região periférica do mesmo.

Esta tem sido também a posição de Žižek ao afirmar, por exemplo:

“O que os dois lados deveriam aceitar é que ao renunciarem ao controle político de Jerusalém, não estão efetivamente renunciando a nada. Antes, estão conseguindo a elevação e Jerusalém a um autêntico lugar sagrado e extrapolítico. O que perderiam seria precisamente o que já, por si próprio, merece ser perdido: a redução da religião a uma parada em jogo na peça do poder político.”
(Slavoj Žižek, Violência: seis reflexões laterais. São Paulo: Boitempo, 2014. p. 207.)

Algo análogo foi dito por Edward Said em 2001:

“[…] os judeus israelenses e os árabes palestinos estão presos na visão do inferno de Sartre, ou seja, que o inferno são os outros. Não há saída. A separação não pode funcionar em uma terra tão pequena, não mais d que podia o apartheit. […] Portanto cabe a nós fornecer a resposta que o poder e a paranoia não podem dar . Não é suficiente falar em paz em termos gerais. Devem-se fornecer as bases concretas para isso, e essas só podem vir de uma visão moral, e não do pragmatismo ou da praticidade. Se nós temos que viver devemos conquistar a imaginação, não apenas de nosso povo, mas de nossos opressores. E temos que agir de acordo com os valores democráticos humanos.”
(Edward Said, Cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2001. p. 109)

***

Duas boas novas da Boitempo: A nova edição da revista da Boitempo, a Margem Esquerda #27, contém um longo ensaio do historiador Perry Anderson que faz um aprofundado e original balanço crítico do passado e do presente do conflito Israel/Palestina. E vem aí, em 2017, pela Boitempo… Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo, livraço de Judith Butler!

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012 e um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo, 2015). Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), também vencedor do prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

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