PEC e Chapecó

O acidente, lembrando Paul Virilio, nos devolve brutalmente a percepção histórica do que está naturalizado.

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[Brasília, 30 de novembro de 2016. Do lado de fora: protesto conta a PEC 241/55 sendo reprimido na esplanada. Do lado de dentro: parlamentares reunidos em um coquetel. Foto: Gisele Arthur.]

Por Ludmila Abílio.

As ironias do destino quiseram que no dia da votação da “PEC da morte” o mundo parasse para encarar a tragédia de um time de futebol brasileiro dilacerado. O acidente, lembrando Paul Virilio, nos devolve brutalmente a percepção histórica do que está naturalizado. Para o governo brasileiro, tamanho acontecimento não só não interrompeu o fluxo, como serviu de acelerador para desviar das tensões sociais.

Desvio feito à base de Choque. Ao contrário da Colômbia, em Brasília as vidraças ainda contam mais que corpos vivos.

A ironia continua. Hoje a mídia recorre ao orçamento doméstico para explicar didaticamente ao telespectador porque o governo, como uma boa e severa dona de casa, resolveu cortar o lanchinho das crianças. Talvez agora pudesse mostrar que o governo toma a mesma decisão que provavelmente tomou o proprietário daquela aeronave. O bom negócio é voar no limite. Direitos sociais andarão na banguela, mas chegaremos lá. Lá onde.

O avião brasileiro parecia ter decolado, mas o país que dá certo, como sempre, resvalou em algum cume da desgraça. O mergulho na crise vai apagando os rastros de um governo que fez a mágica de reduzir a pobreza sem tocar em um fio de cabelo do seleto grupo prime que abocanha a imensa maioria da riqueza do país.

No apagar das luzes, volta o som das panelas que clamam apenas pelo combustível mais puro. Estão de acordo com o plano de voo?

Mas a verdade verdadeira vem daquele relampejo poderoso dos estádios lotados de torcedores que não vieram para torcer. Um outro jogo seria possível.

***

Ludmilla Costhek Abílio é Pós-doutora pela FEA-USP. Possui graduação em Ciências Sociais pela FFLCH-USP (2001), mestrado em Sociologia pela mesma instituição (2005) e doutorado em Ciências Sociais pela UNICAMP. Atualmente é pesquisadora colaboradora do CESIT-UNICAMP. É autora do premiado Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (Boitempo, 2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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