Recordando Garaudy, um homem de fé

"A trajetória de Roger Garaudy não me parece a de um “renegado”. Ao longo dos seus quase cem anos de vida, jamais traiu os valores fundamentais com que se comprometeu na juventude. Examinada com atenção e sem preconceitos, a sua trajetória revela-se como o itinerário de um teólogo frustrado que nunca perdeu a fé."

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Por José Paulo Netto.

Hoje, quando se menciona o nome de Roger Garaudy (Marselha, 1913 – Paris, 2012), o que logo vem à lembrança é um episódio, degradante, de 1987: o filósofo (que se convertera ao islamismo em 1982 e já assumira um novo nome, Ragaa) prestou-se ao miserável papel de testemunha da defesa no julgamento do “Carniceiro de Lyon”, o criminoso nazista Klaus Barbie (1913-1991). Ou um outro, da segunda metade dos anos 1990: no seu livro Os mitos fundadores da política israelense, a sua defesa da causa palestina pôde ser associada a uma postura antissemita na medida em que negava a ocorrência do Holocausto e Garaudy se viu às voltas com a discutível Lei Gayssot, dispositivo legal francês de 1990 que pretende punir a xenofobia e o racismo.          

Esses episódios não podem ser esquecidos: lamentáveis, fazem parte da sua biografia e, necessária e definitivamente, a comprometeram. E serviram a muitos marxistas (bem como a intelectuais simpáticos ao marxismo e a outros nem tanto) para livrar-se dos problemas postos pelas opções de Garaudy com um recurso simples: caracterizar a sua trajetória como a de um “renegado”.

É fato que a pecha de “renegado” cabe a muitas personalidades que frequentaram a esquerda no século XX. Citemos apenas dois exemplos em que o rótulo foi utilizado com justiça: no caso de Eudocio Ravines (1897-1978), o peruano que José Carlos Mariátegui (1894-1930) escolheu para sucedê-lo na direção do partido proletário que fundou em 1928 – Ravines traiu o Amauta e o seu legado e terminou seus dias escrevendo, diz-se que a serviço da CIA, em favor de Pinochet e Somoza; e no caso do norte-americano Irving Kristol (1920-2009), que começou na juventude trotskista, editou nos anos 1950 uma das mais influentes revistas da Guerra Fria, a Encounter – que a CIA efetivamente financiou –, e acabou por receber, em 2002, das mãos de George W. Bush, a Presidential Medal of Freedom. São exemplos entre dezenas – é fato que, no século XX, a galeria da esquerda exibe não poucos “renegados”.

Garaudy com seu livro Os mitos fundadores da política israelense (Les mythes fondateurs de la politique israelienne. Paris: Vieille Taupe, 1995)

Mas a trajetória de Garaudy não me parece a de um “renegado”. Ao longo dos seus quase cem anos de vida, jamais traiu os valores fundamentais com que se comprometeu na juventude – valores articulados por um substantivo humanismo. Examinada com atenção e sem preconceitos, a sua trajetória revela-se como o itinerário de um teólogo frustrado (o que ele mesmo, certa feita, admitiu ter pretendido ser) que nunca perdeu a fé. Eis o que foi Garaudy: um homem de fé – e alguém acrescentaria: de boa fé, a mesma boa fé de que sempre deram provas dois dos seus amigos mais diletos, o francês Abbé Pierre (1912-2007) e o brasileiro D. Helder Câmara (1909-1999).

A boa fé é atributo subjetivo indispensável a todo homem e a toda mulher que desejem cumprir uma vida assentada na autenticidade de ideais e de ações – é a condição necessária para tanto, mas está longe de ser a condição suficiente. A boa fé, por si só, não é garantia contra erros e equívocos – que podem ser graves. A trajetória de Garaudy mostra-o claramente.

Foi sem abdicar da sua fé de militante cristão que, em 1933, em Marselha, Garaudy inscreveu-se no Partido Comunista Francês. Pagou caro pela sua resistência ao fascismo e ao colaboracionismo do governo de Vichy: entre 1940 e 1943, passou por vários campos de prisioneiros políticos, inclusive desterrado em Argel. Solto em 1944, vai para Paris. Nas primeiras eleições após a Libertação, é eleito para a Assembleia Nacional : terá atividade parlamentar (deputado e senador) de 1945 a 1962, chegando a ocupar a vice-presidência da Assembléia Nacional.

Prestigiado por Maurice Thorez (1900-1964), secretário-geral do PCF de 1930 até sua morte, ascendeu na hierarquia partidária: em 1945 está no Comitê Central e, nos anos 1950, chega ao seu núcleo dirigente, a Comissão Política. Até 1956, teve ativa participação na política cultural do PCF e elaborou dezenas de ensaios e artigos teóricos e publicou, em 1953, a sua tese de doutorado, orientada por Gaston Bachelard (1884-1962), Teoria materialista do conhecimento. Este, que consideraria depois o “pior dos meus livros”, apoiado, segundo ele mesmo, na “nefasta teoria do reflexo”, é bem representativo da sua obra até a mal-chamada “denúncia do culto à personalidade” (1956) de Stalin. Nas suas memórias, eis o que escreve com relação a esses anos: “No que concerne aos meus erros pessoais e minhas responsabilidades, quero destacar o principal: ter contribuído, como teórico do marxismo, à difusão do pensamento dogmático de Stalin”.*

Mas é na virada dos anos 1950/1960 e ao longo desta última década que Garaudy situa-se como o ideólogo oficial do PCF – e, ademais de exercer a docência universitária, viaja por todos os continentes, contacta líderes e personalidades políticas os mais diversos e se torna mundialmente conhecido. É o período em que seus inúmeros livros são editados em vários países** e seu prestígio como teórico marxista ganha dimensão internacional.

Na década de 1960, Garaudy põe-se a batalhar por um marxismo livre do enrijecimento dogmático: então, notabiliza-se pelo seu empenho de liberar o marxismo (e liberar-se a si mesmo) da hipoteca do marxismo-leninismo stalinista. Duas são as batalhas principais – aliás interligadas – em que se empenhou: no interior do PCF, lutou pela superação do doutrinarismo que travava a análise concreta e contemporânea da sociedade francesa e procurou oferecer uma alternativa a ele (no seu Para um modelo francês de socialismo [Pour um modèle français du socialisme. Paris: Grasset, 1968]); e, no clima da renovação do pensamento católico (a experiência anterior dos padres operários franceses, a convocação do concílio Vaticano II, a divulgação do pensamento de Teilhard de Chardin), Garaudy se tornou um paladino do diálogo entre cristãos e marxistas. Ao fim da década, perdeu as duas batalhas: suas posições são derrotadas no PCF e a renovação que ele esperava do pensamento católico não avançou.

Para ele, foi especialmente traumática a sua derrota no PCF. Garaudy, que discordara frontalmente da ação do partido na conjuntura de maio de 1968 e, em seguida, colocara vigorosamente em questão o aborto da “Primavera de Praga” pela intervenção do Pacto de Varsóvia (leia-se: intervenção da União Soviética) na Checoslováquia, logo sentiu o peso da máquina burocrática controlada por Georges Marchais (1920-1997), que ele qualificava como “o coveiro do PCF”. O XIX Congresso do PCF (fevereiro de 1970) marcou a sua exclusão do partido a que dedicou 37 anos de sua vida.

Nas três décadas seguintes, afastado do movimento comunista e diluindo a incidência marxista no seu pensamento num caldo cultural heteróclito (e necessariamente eclético), dedicou-se a uma publicística de caráter multiculturalista e frequentemente profético-utópica, irradiada pela Fundación Roger Garaudy (criada em Córdoba, em 1987). Sua conversão ao islamismo – foi um homem de fé, não nos esqueçamos – deu o tom a seu novo militantismo, cujas implicações teóricas e políticas, muito problemáticas, não cabe sinalizar neste espaço.

Mas cabe aqui uma observação sobre o “marxismo aberto” defendido por Garaudy nos anos 1960. Tomemos um de seus exemplos prático-políticos. No diálogo que propôs entre marxistas e cristãos, Garaudy enfatiza algo indiscutível: o socialismo não será construído sem os cristãos e, menos ainda, contra eles. Este suposto político é correto. A questão é que Garaudy procurou fundamentá-lo teoricamente com o seu “marxismo aberto”: na necessária tentativa de superação do dogmatismo e do doutrinarismo, a proposição teórica de Garaudy “abriu” tanto o marxismo que, nas suas mãos, ele se tornou absolutamente carente de rigor (o que Althusser, por exemplo, viu claramente) – no plano estritamente teórico, não há como conciliar o marxismo com o cristianismo, salvo com o risco de desnaturar a ambos. O “marxismo aberto” de Garaudy é muito mais “aberto” que “marxismo” – basta examinar com cuidado obras como Marxismo do século XX ou Um realismo sem fronteiras para percebê-lo claramente. Essa “abertura”, deve dizer-se, não afeta o conjunto da obra de Garaudy daqueles anos – são ainda valiosos, entre outros, o seu estudo sobre Hegel (Deus morreu [Dieu est mort. Paris: PUF, 1962]) e a sua biografia intelectual de Marx (Karl Marx. Rio de Janeiro: Zahar, 1967). 

Em suma, penso que aos marxistas, discordando de Garaudy em momentos distintos do seu itinerário intelectual e político, não cabe tratá-lo como um “renegado”. O marxismo foi uma longa e fundamental estação na trajetória de Garaudy e a ele o marselhês deu contributos importantes – o fato de a sua condição de homem de fé tê-lo levado a outros caminhos e estações não pode servir para a sua sumária desqualificação.

NOTAS

* R. Garaudy, Minha jornada solitária pelo século. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996 – citações  extraídas das páginas 81, 83 e 96.

** A larga bibliografia de Garaudy envolve mais de meia centena de títulos. Vários deles foram publicados no Brasil e em Portugal, países em que teve audiência extremamente significativa. De seus livros escritos até 1970, foram traduzidos ao português, entre outros, Perspectivas do homem, O pensamento de Hegel, Lenin, Karl Marx, Do anátema ao diálogo, Marxismo do século XX, Um realismo sem fronteiras, O problema chinês, A grande virada do socialismo e Toda a verdade. Sua atividade literária e publicística prosseguiu intensa após sua expulsão do PCF – entre o que se verteu ao português, mencione-se Dançar a vida, A alternativa, O projeto esperança, Ainda é tempo de viver, Apelo aos vivos, Para a libertação da mulher, Promessas do Islã, Lembra-te – breve história da União Soviética, Deus é necessário?, O Ocidente é um acidente: por um diálogo das civilizações e Religiões em guerra – o debate do século.

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

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