Viviane Vergueiro: “Estes tempos de golpe são tempos para encararmos as pseudo-virilidades fascistas que acham mais legitimadas para atuar”

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Entrevista especial com Viviane Vergueiro.

Viviane Vergueiro é ativista transfeminista, professora e pesquisadora em identidades de gênero e diversidades corporais no Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade da Universidade Federal da Bahia (CuS-UFBA). Graduada em Ciências Econômicas, é mestra pela Universidade Federal da Bahia no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos. Nesta entrevista, Viviane discorre sobre múltiplos temas, como o conceito de cisgeneridade, embates e tensões acerca dos colonialismos, o processo transexualizador, o golpe parlamentar instalado no Brasil ao longo do ano de 2016 e possíveis consequências para a população LGBT.

Esta conversa, conduzida por Fernando Luiz Salgado da Silva (doutorando em psicanálise pela Universidade de Paris 7) e Maria Luiza Rovaris Cidade (doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro) dá sequência à série de entrevistas do Movimento Democrático 18 de Março (MD18) com grandes intelectuais de esquerda publicadas, no Blog da Boitempo. Leia a primeira entrevista da série, com o sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, clicando aqui, a segunda, com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, clicando aqui, a terceira com o historiador Luiz Marques clicando aqui, a quarta, com o cineasta Eryk Rocha, clicando aqui, a quinta, com o filósofo e crítico social Anselm Jappe, clicando aqui, a sexta com o senador francês Antoine Karam clicuando aqui e a sétima com o Frei Henri Burin des Roziers, clicando aqui.

* * *

Querida Viviane, você, de certa forma, inaugura a articulação da questão da descolonialidade com o debate em torno da cisgeneridade1 e transgeneridade no Brasil. Você pode nos contar como, ao longo de sua trajetória, você percebeu e percebe essa relação?

Bom, para articular esta resposta, acho importante trazer um pouco de minha trajetória pouco antes de iniciar aquilo que definimos, simplificadamente (nos ativismos e academia), como “processo de transição de gênero”.

Entre inquietações pessoais crescentes, no sentido de perceber que as “montagens” (termo do meio crossdresser) refletiam algo mais profundo em termos de minha identidade de gênero (além de inquietações profissionais), comecei a ler produções acadêmicas e não-acadêmicas sobre questões relativas a identidades de gênero.

Entre essas produções, estavam 2 livros que iniciam, para mim, uma percepção da colonialidade do saber em torno das vivências trans e travestis: os livros ‘Transgender Rights’ e ‘Crossing Sexual Boundaries: Transgender Journeys, Uncharted Paths’2. Ambos com participação significativa de pessoas trans enquanto sujeitos, ajudaram a formar uma percepção de que a complexidade destas existências era muito mais ampla que os paradigmas acadêmicos hegemônicos e que estereótipos sociais preocupados com, por exemplo, distinções objetivas/diagnósticas entre “travestis” e “mulheres transexuais”.

A partir deste processo bastante introspectivo e (desde a adolescência) “no armário”, fui definindo para mim a vontade de trabalhar estas questões de identidade de gênero. Comecei a pesquisar possibilidades de um mestrado, concomitantemente às reflexões e agonias sobre como me afirmar socialmente como viviane. Quando, em janeiro de 2012, o CuS (grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade, na UFBA) realizou um curso sobre estudos queer, houve uma oportunidade que acabou culminando na minha mudança para Salvador, e em diversos processos pessoais que foram fundamentais para iniciar minha “transição”.

Nesse período, também foram se fortalecendo as minhas relações e diálogos entre os estudos queer, trans+feminismos e os estudos pós-coloniais/decoloniais, que culminaram no desenvolvimento da dissertação de mestrado. Nela, acredito que 3 aspectos definem a relação entre de+colonialidade, cisgeneridade e as diversidades corporais e de identidades de gênero (que incluem, entre estas diversidades, as “transgeneridades”, mas não somente):

  1. a percepção teórica e prática sobre a colonialidade do saber, poder e ser que naturaliza e hierarquiza a cisgeneridade como ideal corporal e de identidade de gênero;
  2. a existência de perspectivas críticas e complexas por parte de pessoas trans, travestis e gênero-inconformes tem fundamental importância no estabelecimento de inflexões decoloniais em relação a essas colonialidades (na dissertação, uma das ideias é valorizar a autoetnografia como metodologia para essas comunidades, tanto para denunciar violências ciscoloniais3 quanto para multiplicar resistências anticissexistas4);
  3. a relevância em tomar o uso conceitual e analítico da cisgeneridade como uma possibilidade de exercer uma ‘mirada oposicional’ (a partir de bell hooks5).

Essa mirada foi inspirada na potência de conceitos como heterossexualidade e branquitude para serem feitas análises críticas sobre sexualidades e raças-etnias. Além disso, permite-nos, pensar como a colonialidade acadêmica do saber opera na própria recepção do conceito de cisgeneridade, tida por algumas pessoas pesquisadoras como “categoria êmica”6, não uma “categoria analítica”. Nessas hierarquias do saber, torna-se possível cartografar os limites e possibilidades para a existência de pessoas trans, travestis e gênero-inconformes na academia e no mundo em geral. Como algumas pesquisadoras caracterizam, nossas possibilidades de inteligibilidade estão entre a marginalidade, a violência e a invisibilidade cissexista.

Entre 2002 e 2016, como você percebe o panorama da evolução dos direitos de pessoas trans no Brasil? Quais avanços, retrocessos e permanências você apontaria nesse processo histórico?

De forma breve, penso que a evolução dos direitos das comunidades trans e travestis no Brasil não foi proporcional ao aumento da visibilidade sobre nós, especialmente em torno das intersecções de classe e raça-etnia.

Nesse sentido, se nesse período podemos pensar em um avanço no sentido da visibilidade e representatividade dessas populações, ainda estamos longe de se traduzir em uma ampliação consolidada de direitos, a despeito de tantos esforços históricos e presentes de resistências ativistas. Vou trazer alguns elementos:

Saúde: no período apontado, houve a implementação do chamado “Processo transexualizador” do SUS7, a partir de históricas demandas ativistas e do apoio de algumas profissionais da área. Entretanto, é preciso dizer que esse processo ainda se fundamenta em princípios patologizantes, o que se configura em um estigma potencial. Esses princípios psicopatológicos afetam as possibilidades de acesso à saúde de pessoas trans e travestis, assim como a própria concepção de saúde para esta população. Além disso, sem contar as violências cissexistas que existem em larga escala no meio precisam ser enfrentadas e reparadas.

Visto que não se enquadram no diagnóstico de transtorno de identidade de gênero/transexualismo, não sendo portanto “transexuais de verdade”, no jargão, é necessário apontar as dificuldades institucionais em atender as demandas corporais específicas das travestis, a partir das intersecções entre classe e raça-etnia (ver Travestis e Prisões, de Guilherme Gomes Ferreira8). Até hoje, a despeito de sua inclusão explícita no ‘Processo Transexualizador’ (após muita luta dos movimentos), ainda há limitações sérias para efetivamente prover saúde integral às populações trans e travestis, sem que haja estereótipos relacionados a transtornos mentais, inferioridade e exotização. Isso, somado à precariedade de recursos e à falta de transparência nos ambulatórios de saúde, faz da existência desse “Processo” um avanço bem mais tímido do que gostaríamos.

Por sua vez, a partir de 2009 também foi aprovado o uso do nome social no âmbito do SUS. Uma portaria que até hoje não correspondeu a um mínimo processo de transformação nos sistemas de informação e de formação de profissionais. Isso faz com que seja uma medida mais existente no papel do que na realidade.

Nesse sentido, é necessária uma mudança nas formações curriculares da saúde e no paradigma patologizante, o que implica que existamos para além de hormônios e cirurgias específicas.

Educação: Acredito que esse período recente tem trazido um aumento da visibilidade de vozes de pessoas trans e travestis. No entanto, devido a diversos obstáculos, nossa existência nos cistemas9 educacionais ainda é bastante limitada. No âmbito acadêmico, isso se agrava, ao pensarmos que nossa ausência como sujeitos produtores de conhecimento convive com um interesse cada vez maior neste “assunto”.

Em que pese esse ponto, a área educacional tem sido destaque recente (ao menos a partir de 2015), no sentido de que iniciativas educacionais autônomas proliferaram pelo país, com maior participação explícita em exames como o Enem. Cursos de formação para esse exame foram iniciados em diversas cidades, embora nem todos os projetos tiveram condições se manter financeiramente. De todas formas, a multiplicidade de redes formadas deve ser destacada e essa me parece uma potência significativa.

No plano político institucional, é importante salientar o programa Transcidadania, na cidade de São Paulo, um dos primeiros na área a efetivamente investir recursos especificamente às populações trans e travestis10.

A expansão da aprovação do uso do nome social na esfera educacional é um grande destaque deste período também. Em diversas universidades e em algumas instâncias da educação escolar, foram aprovadas resoluções e portarias reconhecendo esse direito, porém assim como na saúde ainda resta muito a fazer para efetivamente implementá-lo. O fato da aprovação de normas sobre o nome social ser um dos únicos direitos explicitamente afirmados dessa população, mesmo ainda sob ameaça em alguns contextos, explicita o ódio que existe contra pessoas trans, as diversas formas corporais e as diversas identidades e expressões de gênero.

Trabalho: algumas iniciativas autônomas têm se destacado nesse ponto, como os sites Transempregos e Transerviços11, assim como alguns programas institucionais pontuais. Até onde acompanho, os avanços neste tema têm sido limitados, especialmente no sentido de ainda haver um número mínimo de pessoas trans e travestis em campos de atuação profissional formal, condizente com nossas formações.

O avanço em relação aos direitos das pessoas trabalhadoras do sexo, uma área bastante marginalizada na qual parte significativa de mulheres trans e travestis atuam, ainda me parece tímido, em parte devido aos moralismos e idealismos que permeiam os debates em torno da prostituição. A existência significativa de mulheres trans e travestis nessas ocupações torna crítico o debate dessas questões. É imprescindível destacar a autonomia dessas pessoas na construção e crítica constante de como articular seus direitos enquanto trabalhadoras em uma sociedade capitalista.

Segurança: essa é uma área em que a brutalidade se soma à falta de dados para produzir a perpetuação das violências contra pessoas trans e travestis no Brasil. A partir de alguns levantamentos, no entanto, aponta-se o Brasil como líder isolado nos assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo12. O descaso e a relação ativa do estado e das polícias militarizadas com as violências contra essas pessoas é patente. Até onde percebo, nossas possibilidades de resistência a elas é reduzida. A questão da segurança, particularmente nas intersecções de classe e raça-etnia, é uma questão crítica que me parece tristemente estável no período, em um processo que, internacionalmente nos movimentos sociais, caracterizamos como genocídio.

Reconhecimento legal: nesse período, houve uma ampliação significativa dos caminhos possíveis para se alterar nome e marcadores de gênero oficialmente, com maior apoio de instituições como as Defensorias Públicas estaduais. No entanto, esses processos seguem dependendo de ações judiciais e, portanto, frequentemente de interpretações de pessoas juízas moldadas mais pelo viés patologizante e inferiorizante do que pelo viés de direito humano à identidade. Tal fato implica em exigências violentas de laudos médicos e psicológicos, na realização de cirurgias e de múltiplas audiências.

Atualmente, o Brasil vive consequências de um golpe parlamentar a partir do qual direitos das minorias foram e estão sendo brutalmente atacados. Apesar do golpe e também a partir dele, a violência e os assassinatos diários de pessoas trans é dado de realidade triste que reitera a face fascista e cis-heteronormativa desse golpe. Embora os assassinatos transfóbicos aconteciam antes, parece haver uma acentuação da institucionalização da transfobia, inclusive com ataques assumidamente protagonizados por pessoas de uma determinada religião. Como entender essa perseguição particular da bancada evangélica aos LGBTs como um inimigo maior de seus valores?

Para responder de maneira sucinta, recorro a uma percepção que me chegou muito a partir dos estudos pós-coloniais/decoloniais, de que os projetos colonizatórios utilizaram as diferenças (de sexualidades, identidades de gênero e modos de vida) para se justificarem – enquanto suposto projeto de “civilização” e melhoria das condições humanas. Esses projetos de genocídio e exploração econômica e política estiveram profundamente ancorados e justificados em perspectivas cristãs, na colonização do continente americano – de Abya Yala13.

Neste sentido, o recrudescimento de macro e micropolíticas contra as maiorias marginalizadas, que se configura a partir do atual golpe parlamentar, pode ser colocado em contexto histórico mais amplo. Questionando, inclusive, as limitações que o projeto de centro-esquerda petista apresentou, em termos do não enfrentamento aos genocídios indígena, negro e de pessoas LGBT. Além disso, tal governo comprovou seu compromisso com o capitalismo desenvolvimentista, com agronegócio, com o corrupto cistema de segurança pública, com os poderes religiosos isentos de impostos e com concessões televisivas.

Assim, creio que é crucial situar os fundamentalismos religiosos como articulados a essa configuração econômica, política e cultural. Tal fato faz das perseguições e discursos pseudo-viris de algumas lideranças políticas religiosas apenas um aspecto pequeno dentro de uma economia que faz girar a roda das remoções e exclusões olímpicas e para construção de hidrelétricas. Como também as polícias racistas e cissexistas, juntamente ao negócio da ‘reabilitação cristã contra as drogas’ com dinheiro público. É preciso cartografar esses nexos de poder.

A institucionalização da transfobia e cissexismo, de maneira implícita e explícita, pode ser compreendida como articulados à constituição dos projetos coloniais, na medida em que eles se orientam por hierarquias raciais, de gênero, sexualidade, etc, que vão definindo quem está na esfera da humanidade, quem pode e quem não pode, quem tem direito a viver e quem não, quem vale o luto e quem não.

Portanto, entender essa perserguição particular da bancada evangélica às pessoas LGBT deve resgatar essa genealogia colonial, para que possamos pensar e atuar no enfrentamento a tal perseguição. Gosto sempre de lembrar uma imagem que Claudia Rodriguez, ativista travesti chilena, que sugere: os corpos travestis, trans, são corpos para odiar. Estes tempos de golpe são, enfim, tempos para encararmos as pseudo-virilidades fascistas que se acham mais legitimadas pelo poder cispatriarcal para atuar.

Você acha que a tomada da direita pelo poder tem relação com um certo retorno de um contexto colonial? Que episódios você analisaria que vivemos um período neocolonial? 

Um dos aspectos centrais em torno do conceito de colonialidade me parece ser o fato de que a colonialidade envolve aspectos socioculturais que se estendem para muito além do que podemos pensar como colonialismo (as relações político-econômicas entre colônias e metrópoles).

Nesse sentido, não haveria necessariamente um retorno de contexto colonial, com esta tomada de poder pela direita, mas um aprofundamento da colonialidade do poder, que tem como um de seus fundamentos a hierarquização racial, que vai se multiplicar em questões econômicas, de escolha de modelo de desenvolvimento, desvalorização de religiosidades e modos de vida, (etc,) e que envolve sem dúvidas aspectos de identidades de gênero e sexualidades.

Para ilustrar essa percepção, é importante notar como os projetos de centro-esquerda e de centro-direita estiveram gravitando em torno de alicerces capitalistas, cada qual com seus grupos de intere$$e específicos em torno da atuação do Estado : mais dinheiro público apoiando a economia capitalista ou mais garantias e liquidez para os mercados financeiros.

Diante de Belo Monte, a invisibilização das lutas indígenas contra genocídios se expressa, entre tantos outros lugares, na sua ausência generalizada nos questionamentos de senadores a Dilma Rousseff, no processo de impeachment. Diante do genocídio de populações negras, a ausência de um debate franco sobre o racismo e cissexismo do complexo industrial da segurança pública e da criminalização de determinadas substâncias é patente. Diante do genocídio de pessoas trans e travestis, a secundarização e rejeição das demandas políticas destas comunidades nos diz de nossa situação subalternizada nos cistemas.

Alguns aspectos que dialogam com a ideia de colonialidade (do ser, saber e poder) me parecem importantes de menção:

  • as restrições para que possamos compreender e formar nossas subjetividades em termos corporais, estéticos e de identidade de gênero, fora de paradigmas inferiorizantes/patologizantes que não tomem a cisgeneridade como norma ou ideal;
  • a quase ausência de pessoas trans e travestis como pessoas sujeitas do conhecimento, em contraste com o interesse cada vez maior por elas como ‘objetos’ de estudo (mesmo que com outros termos mais eufemísticos mas que repetem hierarquias);
  • a pouca margem de ação e decisão das comunidades trans e travestis na definição das políticas que são direcionadas a elas e também nas decisões políticas em geral;
  • a relação subalternizada dessas comunidades em relação aos movimentos LGBT e suas demandas políticas;
  • a invisibilidade de corpos e identidades de gênero fora de padrões cisheteronormativos em diversas esferas, incluindo-se currículos escolares, acadêmicos, profissionais;
  • os limites para o exercício da legítima defesa, por parte de comunidades desproporcionalmente afetadas pela violência do estado policial e por outros agentes.

Em minha compreensão, mais que caracterizar um período neocolonial, a percistência14 ou aprofundamento de alguns destes elementos, com a direita mais explicitamente no poder, caracterizam um período de fortalecimento de colonialidades que, interseccionalmente, têm afetado desproporcionalmente comunidades trans e travestis pelo Brasil e mundo.

Como você analisa a reorganização dos movimentos trans dentro desse contexto de golpe e aumento do fascismo? Os movimentos LGBTs estão mais unidos para compensar o assanhamento da direita? Ou encontram-se enfraquecidos?

Meu temor maior é de que, enquanto movimentos LGBT, sejamos ainda mais fortemente cooptados tanto pelos assanhamentos políticos à direita, com a promoção da “visibilidade” e da “diversidade” bastante limitada e atrelada à nossa assimilação e inclusão aos cistemas capitalistas. Em termos da reorganização dos movimentos, isso é algo que me preocupa.

Por outro lado, espero que possamos reverter e resistir a este quadro, que também é de enfraquecimento de fontes de recursos para os movimentos LGBT e feministas (entre outros), através da formação e fortalecimento de redes autônomas, de coletivos de autodefesa, de iniciativas educacionais, entre outras possibilidades. Sendo assim, penso que os movimentos LGBT têm estado enfraquecidos e desestabilizados diante do atual contexto, mas que tomando em consideração os avanços e presenças institucionais dos últimos anos, há uma importante potência para articulações. Mas teremos de ter criatividade, pois algumas portas institucionais têm sido e serão fechadas, trazendo obstáculos.

Como você analisa a questão da representatividade de pessoas trans nos cargos políticos institucionais, perante nossa conjuntura política atual? Por exemplo, as candidaturas de Indianara Siqueira e Amara Moira para cargos de vereadoras no Rio de Janeiro e em Campinas, respectivamente.

É um processo muito importante, uma disputa política fundamental para uma contraposição em relação aos diversos projetos conservadores e coniventes, cada qual a seu modo, com os genocídios de pessoas trans e travestis. Nesse sentido, espero que essas candidaturas consigam fomentar debates importantes nesse cenário de tamanha complicação política, tanto no âmbito de identidades de gênero como em outros temas críticos. Acredito que as candidaturas de Indianara e Amara, entre outras, tiveram e ainda têm um potencial enorme para isso, inclusive para além de suas cidades de disputa.

Porém, é preciso pensar na representatividade para além de uma questão ontológica, essencialista. A mera presença de pessoas trans candidatas não significa, necessariamente, criticidade em relação aos conservadorismos nem tampouco alinhamento às demandas das comunidades trans e travestis, particularmente nas intersecções de classe e raça-etnia. Temos diversas candidaturas de pessoas trans e travestis bastante articuladas a projetos partidários do campo da direita, como nos partidos autointitulados Democratas e Progressista. Ou seja, pessoas trans e travestis somos complexas e existimos para além de questões trans, por isso é importante analisar essas candidaturas de maneira igualmente complexa. A representatividade por si só pode ser uma armadilha, inclusive.

Você afirma no artigo “É a natureza quem decide?” que o uso de cannabis como bastante útil para seu processo de transição transexualizador. Como entender a potência dessa planta no seu percurso pessoal e acadêmico?

No artigo, minha ideia e objetivo central não eram exatamente apresentar o uso da cannabis como especialmente importante em meu “processo de transição” em si… No resumo, coloco o seguinte. Penso “o uso da cannabis como minimizadora de tensões pessoais e como potencializadora de intervenções acadêmicas críticas”. Essa utilidade muito no sentido de complexificar as perspectivas sobre o que são os processos de ‘transição’, o que eles envolvem.

Finalmente, um aspecto crítico quando quis pensar a cannabis é o de colocar em questão a normatividade careta em torno da produção de conhecimentos. E como isso, que não deixa de dialogar com as colonialidades do saber, do suposto sujeito sereno e europeu de razão, naturaliza e legitima alguns (ab)usos de substâncias legalizadas. Os antidepressivos talvez recebam um lugar especial neste processo em detrimento de outros (ab)usos, delimitando distintos lugares socioculturais para uns e outros. É nesse sentido que pretendo elaborar a criticidade de uma autoetnografia trans lombrada.

NOTAS

1 O termo cisgeneridade indica a existência de uma norma social, a norma cisgênera, que produz expectativas e universalização da experiência humana relacionadas à identidade de gênero no sentido de afirmar que as pessoas são degignadas como homens ou mulheres a partir da genitália. Construído por pessoas trans e afirmado por diversos movimentos sociais, o termo foi inicialmente proposto pelas ativistas estadunidenses Leland Defosse e Julia Serano a partir do final dos anos 1990.
2 Transgender Rights, 2006. Edição: Shannon Price Minter, Paisley Currah, Richard M. Juang. Crossing Sexual Boundaries: Transgender Journeys, Uncharted Paths, 2005. Edição: J. Ari Kane-Demaios e Vern Bullough. Não foram encontradas versões traduzidas para o português brasileiro.
3 O termo “ciscoloniais” se remete às colonialidades de poder e de saber implicadas nos processos de produção e reiteração da norma cisgênera perante as experiências humanas.
 Resistências contra a cisgeneridade e o sexismo enquanto normativas sociais e seus ideais regulatórios.
5 Bell hooks, pseudônimo de Gloria Jean Watkins, é uma intelectual negra estadunidense, professora universitária, ativista feminista e autora de inúmeros artigos e livros. No Brasil, há publicação em português do livro “Ensinando a Transgredir: A educação como prática de liberdade” (Editora Martins Fontes, 2013). O nome bell hooks, escrito em letras minúsculas como denúncia da condição de subalternidade de intelectuais negras, é uma homenagem à sua bisavó materna.
6 Relacionado a um fato antropológico ou a um grupo específico, não a uma perspectiva de análise social.
7 Política pública lançada em 2009 no Sistema Único de Saúde – SUS relacionada à efetivação da cirurgia de transgenitalização para pessoas trans, na qual uma equipe multidisciplinar acompanha e avalia, sob uma perspectiva psiquiátrica, cada pessoa interessada por um período mínimo de dois anos antes da efetivação cirúrgica.
8 Travestis e prisões: Experiencia social e mecanismos particulares de encarceramento no Brasil”. Instituto Fidedigna, 2015.
9 Grafada com a terminologia “cis”, a palavra “cistema” indica a interlocução entre “cisgeneridade” e “sistema”, destacando o caráter cistêmico das formas de normatização cissexistas.
10 Projeto Reinserção Social Transcidadania do município de São Paulo – SP. Segundo o site, “Esse projeto tem como proposta fortalecer as atividades de colocação profissional, reintegração social e resgate da cidadania para a população LGBTT em situação de vulnerabilidade, atendidas pela Coordenadoria da Diversidade Sexual (CADS).” Fonte: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/trabalho/cursos/operacao_trabalho/index.php?p=170430.
11 Site Transempregos: http://www.transempregos.com.br/;  Site Transserviços: http://www.transervicos.com.br/
12 Para mais informações, acessar: http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2015-11/com-600-mortes-em-seis-anos-brasil-e-o-que-mais-mata-travestis-e.
13Abya Yala é o nome escolhido em 1992 pelas nações indigenas da América para designar a América ao invés de nomear Amerigo Vespucci. Essa expressão vem da língua dos Kunas, um povo indigena do Panama para denominar a América e significa terra na plena maturidade.

14A grafia diz respeito à afirmação do termo “cis”.

***

Movimento Democrático 18 de Março (MD18) nasceu da luta contra o golpe de Estado no Brasil. Sediado em Paris, e com grande presença de pesquisadores, professores universitários, artistas e militantes de movimentos sociais, o movimento propõe ampliar a reflexão sobre as possibilidades da esquerda na atual conjuntura de crise. É com esse objetivo que o MD18 inaugura uma série de entrevistas com intelectuais, artistas e militantes de diferentes horizontes, que visam ampliar o debate sobre as formas de resistência que podem e devem advir. O projeto se inicia com a participação de grandes pensadores da esquerda como Michael Löwy, Boaventura de Sousa Santos, Nancy Fraser e Anselm Jappe, além de contar com a colaboração de inúmeros intelectuais brasileiros. As entrevistas serão disponibilizadas em português e em francês no site do MD18.

2 comentários em Viviane Vergueiro: “Estes tempos de golpe são tempos para encararmos as pseudo-virilidades fascistas que acham mais legitimadas para atuar”

  1. Eurico de Arruda Neto // 28/10/2016 às 16:58 // Resposta

    Entendi nada Profa. Viviane. Seu artigo é hermético, para iniciados? Faltou glossário, tradutor, sei lá… eurico

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