Olimpíadas 2016: O esporte é o que menos importa

Isto aqui, ioiô, é um pouquinho de Brasil, iaiá

olimpiadas mauro iasi

Por Mauro Luis Iasi.

Um pouquinho, sinhá, só um pouquinho. Uma parte não se mostra naquilo que se apresenta como imagem ideológica. Seleciona-se, assim como os atletas em busca do índice olímpico, aquilo que aparecerá na imagem refletida do real.

Este é um Brasil que canta e é feliz, este é um país em que uma menina negra da favela chega ao ouro, este é um país que se esforça muito, luta diariamente vencendo obstáculos. Este é um Brasil, no entanto, que canta porque é triste, no qual crianças negras são abatidas a tiros nas favelas, em que os juízes saem para jantar com os vencedores, um país em que se trabalha muito e se ganha pouco enquanto poucos ficam com quase tudo. Como nas Olimpíadas.

Como em toda imagem ideológica, as Olimpíadas também mostram e demonstram muito naquilo que escondem. Não é uma mera falsidade, pura manipulação. Isto aqui, sinhô, é bastante do Brasil. Os jogos são um funil seletivo no qual passam apenas os melhores entre os melhores, os campeões, os semideuses olímpicos, que disputam poucos lugares no pódio e só um pode ser de ouro. A livre concorrência entre indivíduos desiguais em condições, igualados pelas regras comuns da disputa. Iguais em direito, desiguais de fato. Indivíduos, heróicos, enfrentando dificuldades até alcançar os louros da vitória.

Mas, isso é o óbvio. Uma outra dimensão se insinua de forma mais sub-reptícia. Há vagas especiais para aqueles que não atingiram os índices, para que todos os países participem como convidados, há equipes para abrigar os refugiados e, depois, há as Paraolimpíadas. Todos os círculos, de todas as cores, se irmanam num abraço como as argolas do mágico que com perícia esconde o truque. A mensagem para o mundo é a importância de cuidar da natureza e do equilíbrio ambiental, a paz mundial, assim como a importância da educação e do cuidado com as crianças.

Vejam, não há nada de errado neste discurso, assim como não há nada de errado nos jogos, na emoção da disputa, no reconhecimento do esforço dos atletas, na beleza dos esportes. A dimensão ideológica atua em outra dimensão que exige um pouco de distanciamento.

Os jogos que defendem o equilíbrio ambiental, por exemplo, não cumpriram com suas metas. Fizeram uma Pira Olímpica menor, para economizar energia, mas na conta da compensação de carbono resta um déficit de 31% por conta do replantio insuficiente de mudas em relação a emissão de gases associados às obras para receber o evento. O esgoto jogado na Baía da Guanabara, cuja promessa seria tratar 80%, não chegou nem à metade da meta. A limpeza e canalização dos rios da bacia de Jacarepaguá, segundo os dados da “Jornada de lutas: Jogos da Exclusão”, tiveram suas obras paralisadas no final de 2015, com um ano de atraso no prazo previsto, e sem nenhum resultado, apesar das empreiteiras Andrade Gutierrez e Carioca Engenharia terem abocanhado a bagatela de R$ 235 milhões pelas obras.

Enquanto se festeja a inclusividade dos jogos, a generosa inclusão de nações sem índice olímpico ou a oportunidade para refugiados (alguns vindos de países que foram bombardeados pelas nações européias que depois se negaram a recebê-los em seus territórios), os megaeventos desalojaram mais de 77 mil pessoas desde 2009. No Rio de Janeiro, inúmeras famílias foram desalojadas na Vila Autodromo, Vila Recreio II, favela Metro Mangueira, Vila Harmonia e outras muitas apenas para criar terrenos vazios para a futura especulação imobiliária.

Pombinhas de papel simbolizam a paz no mundo e a cidade é tomada pelo exército e a polícia. A ocupação na Maré, durante a copa do mundo em 2015, consumiu R$ 599 milhões em 15 meses. Os organizadores dos “Jogos da Exclusão” estimam que entre 2010 e 2016 a prefeitura do Rio investiu R$ 303 milhões em programas sociais em todas as favelas da cidade. O conjunto dos gastos com segurança podem chegar aos 3 bilhões de reais. Os assassinatos cometidos por policiais cresceram 135% em um ano.

Pessoas são retiradas dos estádios por expressar sua posição contra o governo ilegítimo instalado em Brasília e uma lei da mordaça cai sobre os atletas. Enquanto os fogos iluminavam a noite da cidade, a policia descia a porrada nos manifestantes em outro canto.

Mas, o que o esporte tem a ver com tudo isso? Ele não é o culpado pelas razões que levam aos meus queixumes políticos, nem com a ganância das grandes empresas que esfolam mercantilisticamente o evento. Essa é uma questão difícil.

Atletas treinam muito e com dedicação, uns com mais apoio, outros sem nenhum, mas o que importa é que neles podemos ver, algumas vezes, isso que um certo Barão, Pierre de Coubertin, chamou de “espírito olímpico”. E isso é muito bom de se assistir e deve ser ainda mais legal participar. Mas, pesa como maldição de todo “espírito” habitar um “corpo”, objetivar-se e, em certas condições, estranhar-se. A materialidade olímpica é a intensa utilização desse valor de uso para servir de base para o seu valor de troca. Sua transformação em mercadoria, sua mercantilização intensa, independe das formas próprias de seu valor de uso e muito menos das intenções de seus protagonistas, aliás como em todo processo de produção de mercadorias.

O esporte é o que menos importa. O Ministério do Esporte, que quase nunca usa a verba que lhe é atribuída, disponibilizou cerca de 190 milhões para bolsas para aqueles que alcançam índices e podem disputar vagas no esporte de competição. É quase o valor pelo qual o Maracanã foi vendido, cerca de 180 milhões a serem pagos em 30 anos, apesar das obras terem chegado ao estratosférico valor de 1,34 bilhão. Programas de massificação do esporte, formação, estruturas de qualidade, como sempre são abandonados e seus recursos mínguam.

Ao final, as medalhas distribuídas, os lucros das empreiteiras, dos conglomerados de comunicação, dos monopólios envolvidos contabilizados, nossa emoção catártica realizada, a cidade voltará ao seu “normal”. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro seguirá sua crise, os professores do ensino fundamental seguirão com seus salários atrasados, as carcaças de estruturas descartáveis apodrecerão como testemunhas silenciosas do desperdício e da ostentação.

Ai sinhô, ai, ai, sinhá… tem mais uma coisa que está aqui e vai seguir depois:

É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não


Para aprofundar a reflexão, recomendamos a leitura do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas (R$10, impresso; R$ 5,00, e-book).

Onde encontrar?

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Impresso (R$10,00)

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Confira na TV Boitempo o debate de lançamento do livro com Guilherme Boulos, Raquel Rolnik, João Sette Whitaker Ferreira e Jorge Luiz Souto Maior:

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

3 comentários em Olimpíadas 2016: O esporte é o que menos importa

  1. Antonio Tadeu Meneses // 10/08/2016 às 19:43 // Responder

    Muito esclarecedor o texto, a começar pelo título. O esporte é “o que menos importa”, por trás disto há outros interesses muito maiores.

    Curtir

  2. Há outras dimensões latentes, não propriamente nos jogos, que tomados em si se apresentam como eventos em que a destreza, o treino, as múltiplas intelgências se alinham em função da competição. Mas há, oculta, uma lógica do desempenho e da performance. Há latente as cada vez mais aperfeiçoadas drogas de modelagem dos corpos, se sua ocupação como elementos de consumo midiático e exibição de um suposto padrão de beleza e saúde. No Brasil, saúde para poucos, em nosso Brasil, da saúde abandonada, com verbas escassas, da ameaça de desmantelamento que paira sutil como um elefante na neve, sobre o SUS.

    Os jogos da exclusão, trazem a marca da famigerada sigla SMH, das desocupações, da intensa privatização dos espaços públicos, com os Aterros, Lagoas, Centro Presentes integrados por uma joint venture da Fecomercio, Firjam, Sesc e Senac para financiar milicias privadas para manter a ordem. Jogos que são realizados com a nada sutil “visita” de um integrante da PMRJ a uma reunião do PCB, só para “saber o que estava acontecendo”.

    Os jogos marcam, também, o declínio de uma política de conciliação de classes, iniciada na chamada “era Lula”, em que com a fartura do rentismo, as poucas migalhas que sobraram foram para financiar o colossal endividamento do povo trabalhador. Lembra-me, a política de aumento de renda. uma antiga tirinha do personagem “Reizinho”, há muito desaparecida em que um dos seus ministros, ao alertá-lo da total impossibilidade de fazer o povo gastar mais (nas lojas do rei), pela extrema exploração, o reizinho, em um rasgo de inteligência ordena: “Distribuam cartões de crédito para todos…”

    Os jogos marcam, também o fim do que se chamou de Nova República, um mostrengo surgido da derroda da campanha das Diretas Já, como fruto da conspiração PMDB (sempre ele), via Ulisses/Tancredo, para a mudar de governo, mantendo intactas as leis centrais da ditadura militar. A estrutura das Universidades Brasileiras, até hoje, são herdeiras da reforma da ditadura. A constituição cidadã, nada mais foi do que um arremedo em que pontos centrais, ficaram para serem resolvidos por leis complementares ou ordinárias, como a Reforma Tributária.

    Ontem (dia 9 de agosto), tivemos o penúltimo ato daquele processo que se iniciou na noite da infâmia, no circo dos horrore do dia 17 de abril. A desenfreada compra de votos, de benesses, de proteção promovida pelos ‘padrinhos’ Temer e Cunha e pelo Capo di Tutti Capi, o imperialismo americano, terminou com mais uma derrota daqueles que ilusoriamente acreditavam que o senado da república poderia reverter o golpe. Daqueles que, para citar João Bosco, queriam vencer Satã, só com orações.

    Pode parecer utópico, mas não há saída fora da construção de um poder popular em que a democracia lhe seja imanente. Ficou claro que não há saida para o impasse fora do socialismo. É uma longa construção, é um longo caminho, mas lembrando Mao Zedong, uma Longa Marcha, começa com o primeiro passo. Pode ser que os ventos gelados da ditadura do capital soprem mais forte, vamos preservar a nossa chama, ela será a centelha que incendiará o campo popular.

    Organizemo-nos!

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