A. Lifschitz, editor e crítico

Não creio que o conservadorismo estético do “velho” Lifschitz possa justificar a pouca relevância conferida à sua obra. Lidas hoje, especialmente as suas páginas referidas ao pensamento estético dos “clássicos do marxismo”, bem como o seu combate por uma crítica literária expurgada do “sociologismo vulgar”, decerto permanecem extremamente úteis e contêm preciosas formulações. Com Lifschitz, ainda temos a aprender.

ljpnPor José Paulo Netto.

Tenho à mão a monumental edição (17 volumes, 1946-1955) que Paulo Rónai (1907-1992), o exilado húngaro a quem tanto deve a cultura brasileira, preparou d’A comédia humana, de Balzac, para a “Biblioteca dos séculos”, da velha e saudosa Editora Globo. No décimo volume, Rónai inseriu, à guisa de introdução, o ensaio “Balzac. Uma análise marxista”, de V. Grib. Rónai não sabia praticamente nada do autor, nem mesmo a data efetiva da elaboração do texto (1935) que retirou de uma antologia editada em Cuba; mas sabia tudo de análise literária – por isto, conhecendo apenas este ensaio de Grib, meia centena de páginas, não hesitou em afirmar que ele devia ser “um crítico notável”. Afirmação corretíssima.

À época, faltavam a Rónai, extraordinário erudito, mínimas informações sobre Vladimir Grib (1908-1940). Ele ignorava que o texto que escolhera era representativo das pesquisas de um pequeno cenáculo intelectual soviético que, nos anos 1930, travou um duro combate teórico e político: contra a crítica literária sociologista (a sociologia vulgar aplicada à análise da literatura) e contra as diretrizes da política cultural stalinista, naquela década bem representada por A. A. Fadeiev (1901-1956). Tal cenáculo, a que Grib pertencia (juntamente com, entre outros, V. Alexandrov e I. Chatz), constituía a Nova Corrente, liderada por G. Lukács (1885-1971), então exilado na União Soviética, e Mikhail Alexandrovitch Lifschitz (1905-1983). 

A Nova Corrente formou-se na sequência da dissolução, em 1932, por decisão do Comitê Central do Partido Comunista, da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), que reunia os intelectuais defensores da proposta da cultura proletária (Proletkult), implementada desde 1917 por A. Bogdanov (1873-1928). A Nova Corrente apoiou a decisão partidária por questões de princípio: a seus membros repugnavam o abandono da herança cultural e o sectarismo obreirista próprios do movimento Proletkult; entretanto, afastavam-se simultaneamente das posições assumidas por Fadeiev e dirigentes da União dos Escritores Soviéticos, organismo oficial criado após a dissolução da RAPP e que em 1934, no seu I Congresso, pôs na ordem-do-dia o realismo socialista. Essas duas frentes de luta eram conduzidas sob forma distinta: se a Nova Corrente enfrentava abertamente o legado do Proletkult, a oposição ao oficialismo fazia-se do modo possível sob as condições do surgimento da autocracia stalinista – modo diplomático, elíptico, com alusões esópicas.

A Nova Corrente contou com um periódico para veicular as suas posições: Literaturnyi Kritik (Crítica literária), que, editado em Moscou, circulou a partir de 1933. O periódico teve vida breve, por razões obviamente políticas – foi fechado em 1940. Segundo C. Prévost, com o seu encerramento, Lukács, que colaborava ativamente com Literaturnyi Kritik, deixou de publicar em órgãos soviéticos.

Literaturnyi Kritik, em seus quase sete anos de existência, foi orientado pelo seu principal editor: Mikhail Alexandrovitch Lifschitz (1905-1983). Na primeira metade dos anos 1920, Lifschitz andou pela Vkhutemas, a escola de artes e desenho industrial – similar à Bauhaus alemã – criada (1920) por Lenin e chegou a dar aulas de filosofia na instituição. Em 1929, ingressou como pesquisador no então Instituto Marx-Engels-Lenin, dirigido por D. Riazanov (1870-1938) e aí permaneceu até 1941, quando se alistou voluntariamente para combater nas fileiras do Exército Vermelho.

Já vinha de 1930 a amizade que vinculou Lifshitz a Lukács, quando este passou meses em Moscou e teve conhecimento de textos do “jovem” Marx, ainda inéditos, no Instituto Marx-Engels-Lenin. Foi então que iniciaram a colaboração intelectual que os uniu ao longo dos anos 1930: ambos sustentavam a tese, à época original, de que a partir dos materiais marxianos seria possível construir uma estética especificamente marxista. Em sua atividade conjunta na redação de Literaturnyi Kritik, esta colaboração tornou-se o eixo da atividade crítica de ambos (não sem algumas divergências no que tangia às artes plásticas). Em vários passos de seus textos autobiográficos, Lukács – que dedicou a Lifschitz um de seus livros fundamentais, O jovem Hegel: sobre as relações entre dialética e economia, concluído em 1938, mas só publicado dez anos depois – refere-se à sua relação com ele. Na recente (re)edição russa de textos de Lifschitz, coligidos por V. Arslanov, o volume M. Lifschitz e G. Lukács. Correspondência. 1931-1970 (Moscou: Instituto de Filosofia da Academia de Ciências da Rússia, 2011) oferece eloquentes materiais sobre essa relação.

Já antes dos tempos da Nova Corrente e do seu trabalho no periódico, Lifschitz publicara os importantes ensaios “A dialética na história das artes” (1927) e “A estética de Hegel e o materalismo dialético” (1932). Mas é nos anos da Literaturnyi Kritik que se intensifica a sua produção: são deste período “Questões da arte e da filosofia” (1935), “O leninismo e a crítica da arte” (1936) e “Arte popular e luta de classes” (1938). Em 1933, Lifschitz organiza uma antologia de Marx-Engels sobre a arte e a literatura, que, ampliada em 1938, tornar-se-á modelar (especialmente depois que foi publicada em alemão, em 1948); também é de 1938 uma antologia similar, recolhendo textos de Lenin. Ainda neste período, ele edita uma série – “Clássicos da estética” – em que recolhe textos de Winckelmann, Lessing, Goethe, Schiller e Vico. No Ocidente, entretanto, o trabalho de Lifschitz, extremamente expressivo das ideias da Nova Corrente, nunca foi suficientemente reconhecido; salvo melhor juízo, apenas repercutiu o seu pioneiro ensaio “A filosofia da arte de Karl Marx”, elaborado em 1933 e traduzido ao inglês em 1938*. (Aliás, os principais trabalhos de Lifschitz desse período estão reunidos na antologia Die dreißiger Jahre. Ausgewählte Schriften [Os anos trinta. Escritos selecionados]. Dresden: Verlag der Kunst, 1988.)

Do imediato pós-guerra aos primeiros anos da década de 1950, a atividade intelectual de Lifschitz foi obstaculizada pela sua marginalização na União Soviética (motivada inclusive pelas campanhas anti-semitas levadas a cabo por Stalin em seus últimos anos). De fato, só após a “denúncia do culto” do “guia genial dos povos” (XX Congresso do PCUS, fevereiro de 1956) ele voltou a ter algum protagonismo na cena cultural – sabe-se que seu parecer sobre a novela de A. Solzenitsin, Um dia na vida de Ivan Denissovitch, foi essencial para que A. Tvardovski (1910-1971) se decidisse a publicá-la em 1962.

A partir de então e até os anos 1970, Lifschitz retomou seu trabalho crítico, publicando, em 1968, um inquisitorial às artes plásticas: A crise do feio. Do cubismo à pop art;  em 1978, deu à luz Arte e mundo contemporâneo e, em 1980, A mitologia antiga e moderna. Neste período, ele desenvolveu uma produtiva interlocução com E. A. Ilyenkov (1924-1979), autor do importante A dialética do abstrato e do concreto em “O Capital” de Karl Marx (1960). Também em meados da década de 1970, precisamente em 1975, Lifschitz teve a sua importância reconhecida na União Soviética: tornou-se membro da Academia de Ciências da URSS. E não há dúvida de que esse reconhecimento transcende os marcos do regime soviético – prova-o, em 1994, a criação do Instituto Lifschitz e, no presente século, a já citada (re)edição de seus textos, sob a responsabilidade de Arslanov. No entanto, ainda agora, no Ocidente ele permanece um autor pouco referenciado.

É provável que a parca ressonância da obra de Lifschitz fora da União Soviética e, hoje, das fronteiras russas se deva ao seu conservadorismo em face do desenvolvimento da arte no século XX. Carlos Nelson Coutinho, que teve com ele duas longas entrevistas em Moscou, em 1968 e em 1974, confidenciou-me, à época, que o encontrou, em ambas as ocasiões, “muito conservador”.

Não creio, contudo, que o conservadorismo estético do “velho” Lifschitz – que certamente tem suas bases nas críticas que, já nos anos 1930, ele formulava contra as vanguardas –, não creio que esse conservadorismo possa justificar a pouca relevância conferida à sua obra (extensa, diga-se de passagem). Estou convencido que, lidas hoje, especialmente as suas páginas referidas ao pensamento estético dos “clássicos do marxismo”, bem como o seu combate por uma crítica literária expurgada do “sociologismo vulgar”, decerto permanecem extremamente úteis e contêm preciosas formulações.


* A tradução foi editada no nº 9 de Critics Group Series/Literature and Marxism (New York: Critics Group, 1938) – no nº 5 (1937) desta pequena coleção já saíra o texto de Grib (“Balzac. A Marxist Analysis). Há boas análises de estudiosos norte-americanos sobre a atividade cultural e editorial do Critics Group e, nos anos 1960, foi republicado um periódico por ele animado, que circulou entre 1937 e 1939, Dialectics. A Marxist Literary Journal (New York: Greenwood Reprins, 1968).

Quanto ao “A filosofia da arte de Karl Marx”, o texto foi reeditado nos anos 1970 (The Philosophy of Karl Marx. London: Pluto, 1973) e há tradução castelhana (La filosofía del arte de Karl Marx. México: Siglo XXI, 1981); uma versão francesa está disponível na internet. Em português, de Lifschitz, só conheço o seu prólogo a Marx-Engels (Cultura, arte e literatura. S. Paulo: Expressão Popular, 2010) e três pequenos textos, traduzidos pelo pesquisador M. J. Souza e Silva, da UFPR, disponíveis em Marxists Internet Archive/MIA.

Lifschits

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

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