Combater a cultura do ódio com novas narrativas!

Matar LGBTs não é um desvio dentro de uma cultura de ódio, mas sim a norma. E essa norma precisa ser identificada como tal e combatida politicamente!

pulse boitempo

Por Leonardo Fabri.*

Quando soube da notícia de que cinquenta pessoas foram brutalmente assassinadas, outras cinquenta e três feridas, dentro de uma boate em Orlando – e que a responsabilidade repousava nas mãos de um único indivíduo – fiquei imediatamente enfurecido. Obviamente farei o devido recorte sobre a sexualidade das vítimas (motivo pelo qual elas se tornaram vítimas em primeiro lugar), mas inicialmente gostaria de tratá-las como pessoas: essa categoria analítica tão essencial para que qualquer possibilidade de alteridade ocorra, categoria essa negada constantemente pela cultura homofobica tão enraizada em nossa sociedade.

A homolesbotransfobia apresenta-se estruturalmente e reveste-se como um elemento de normalidade, uma coisa que reflete e refrata o tecido social. Todo imaginário é criado dentro dessa perspectiva, que alimenta a construção de todas as estruturas sociais (família, religiosidade, educação, cultura, entretenimento), dando ossatura para os símbolos partilhados coletivamente. Dessa forma somos socializados para identificar com precisão e de forma  binária,  as chaves de oposição “certo” e “errado”, “normal” e “anormal”. Quer dizer, é quase impensável que uma pessoa heterossexual tenha algum tipo de preocupação de como será lida pela comunidade em que está inserida que na hora de expressar sua heterossexualidade. Heterossexuais não “se assumem” como tais, porque o “normal” não precisa ser assumido. Mais do que isso: a heterossexualidade cria os critérios para que outros pressupostos sejam definidos. Se a marca da homossexualidade funciona como categoria é porque é a heterossexualidade que é lida como regra universal.

Coincidentemente, as características normais e certas, geralmente são as partilhadas pelo grupo que detém materialmente o poder, leia-se o capital. Logo, esse grupo social universaliza suas epistemologias, num processo de dominação simbólica de toda a sociedade. Para nós é inconcebível enxergar a heterossexualidade como mais uma categoria . Ao contrário, partirmos dela enquanto fator de normalidade e catalogamos seus “desvios”. O mesmo se dá com o masculino, com a branquitude, com o ocidental e com os países do norte global. Essas categorias são tratadas como pressupostos universais, a medida pela qual tudo é medido, o fator por si só de relação a qualquer coisa. E isso, levado à sua radicalização, fomenta e justifica episódios como o ocorrido no último dia 12 de junho.

As narrativas hegemônicas na mídia

Devido à própria impossibilidade de se negar o horror desse fato, ocorrido no seio do “país da liberdade”, a cobertura da grande imprensa foi exaustiva e intensa. Dessa cobertura, no entanto, duas narrativas se sobressaíram e infelizmente não dão conta da problemática como um todo, em suas possibilidades de resolução e entendimento. Por um lado, temos uma mídia conservadora, racista, homolesbotransfóbica e principalmente xenófoba, que rapidamente ignorou o crime de ódio, e o catalogou como uma ação terrorista, com todo o peso e significado que a palavra terrorismo tem desde o ano 2001. Essa perspectiva tem por objetivo claro a invisibilização da discussão sobre o controle de armas em território estadunidense e a afirmação da posição imperialista do país frente a sua política externa, legitimando um discurso de combate ao radicalismo islâmico, normalizando uma ideia de violência inerente a esse grupo étnico-religioso. Não mencionar o ódio a LGBT’s equivale a compactuar com a violência sistêmica e estrutural que esse grupo sofre.

Por outro lado, uma contra narrativa surgiu, não em oposição direta à levantada pela ala conservadora, mas paralela a ela. Esse discurso explorou a imagem do assassino como um “homossexual enrustido”, embora eu prefira a expressão “heterossexual forçado”, uma pessoa que teria reprimido a própria sexualidade e por isso despertado a violência contra outros LGBT’s que viveriam plenamente a sua essência. Por mais que isso seja uma possibilidade, a sua veracidade pouco importa, pois a constatação a esse fato surgiu antes do mesmo ser comprovado. Ou seja, é como se para uma parcela significativa da população somente uma pessoa “enrustida” sexualmente fosse capaz de cometer tal atitude. Aqui reside minha crítica: transferir para o campo do indivíduo um problema social é pouco eficaz, uma vez que esse método não abrange as especificidades da cultura de ódio. Mais uma vez estamos transferindo o problema do campo político, econômico, sociológico, para a seara da instabilidade, do transtorno e do desvio individual. Matar LGBTs não é um desvio dentro de uma cultura de ódio, mas sim a norma. E essa norma precisa ser identificada como tal e combatida politicamente! Se não somos sequer capazes de repensar os repertórios lúdicos e culturais desde a infância  no que diz respeito aos papéis de gênero, de raça, de sexualidade e de classe, será que deveríamos nos espantar com a materialização dessa combinação num ato dessa proporção? Esse homicídio em massa também é fruto de cada piada, de cada olhar de reprovação, de cada riso maldoso ou ofensa direta proferida contra a população LGBT, porque sua origem vem do mesmo lugar: do ódio ao “anormal”.

Uma questão de imaginário político

Ilustração do livro infantil Monstro rosa, de Olga de Díos. Próxima autora do selo infantil da Boitempo, o Boitatá!

Precisamos ressignificar as nossas percepções de normalidade, disputar as narrativas que legitimam as ações e criar um novo repertório simbólico e cultural para balizar nossos referenciais.

Sou um grande defensor da ludicidade e da capacidade da literatura de causar empatia. De todas as modalidades de arte, a literatura e em especial a literatura infantil é uma das mais eficazes em transportar uma pessoa para dentro do corpo e da mente de outra. O livro infantil tem duas vantagens em seu dispositivo: ele é pensado para ser lido tanto por sua narrativa oral, quanto pela sua narrativa visual e pede uma leitura compartilhada, unindo duas ou mais pessoas dentro de seu universo e criando um laço entre elas (não existe sensação mais acolhedora do que encontrar alguém que ama o mesmo livro que você).

É com vista nessa concepção do papel da literatura infantil hoje que a Boitempo, casa editorial da qual me orgulho de fazer parte, lançará em breve duas obras que integrarão o selo infantil Boitatá Pássaro amarelo e Monstro rosa. Da autora e ilustradora madrilena Olga de Díos, os livros apresentam personagens que não se encaixam dentro dos padrões de seus colegas, apresentando o sentimento de não pertencimento e de exclusão. Pelo menos nos livros os personagens tomam as rédeas de suas vidas e encontram soluções criativas e divertidas para lidar com a adversidade: o pássaro amarelo que não pode voar como seus amigos por possuir asas curtas em demasia (numa clara alusão às deficiências motoras), vale-se de sua engenhosidade e talento para criar uma máquina que o permita voar (e compartilhar esse saber com outros animais); já o monstro rosa, que nasce rosa, grande, gordo e sem muito equilíbrio, precisa lidar com a monocromia normativa de seus amigos brancos, magros e lidos como elegantes, até perceber que o mundo é muito maior do que imaginara, e que vale a pena, buscar por si só, lugares que o aceitem como realmente é.

Compreender a existência das disputas políticas presentes nos mais variados discursos é tarefa de qualquer pessoa que esteja comprometida com uma real democracia. Diante de um episódio tão desumano e aterrador como este de junho de 2016 em Orlando, cada um elegerá as suas produções de sentido e respectivas justificativas, que fazem ver o mundo como o veem. Formar uma geração de leitores empática, crítica e consciente das contradições da sociedade é uma excelente estratégia contra hegemônica, frente ao crescente conservadorismo e do pensamento fascista.

***

Leonardo Fabri é formado em arte dramática com especialização em produção cultural, atuando como dramaturgo, ator e produtor em projetos de teatro e literatura infantil há 10 anos. Atualmente cursa ciências sociais, dedicando suas pesquisas na sociologia da infância e políticas públicas para educação. Como pesquisador literário integrou a equipe de resenhadores da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato entre 2012-2014, tendo passagem pela editora Oxford University Press do Brasil e Livraria Cultura. Na Boitempo é responsável pelo departamento de relacionamento e divulgação educativa.

2 comentários em Combater a cultura do ódio com novas narrativas!

  1. É IMPORTANTE QUE SE DEIXE OUVIR A VOZ DE QUEM PODE COM ARGUMENTOS CLAROS DE PROFUNDO COMPROMISO ÉTICO-POLÍTICO REALIZAR UM ESCRITO PASSIVEL DE SER LIDO POR TODOS AS PESSOAS DE QUALQUER FRANJA ETAREA E IDENTIDADE SEXUAL PARA COMBATER O ODIO AO DIFERENTE MAS TAMBÉM PARA DESTRUIR O ODIO PRESENTE NA AFIRMAção DESSAS DIFERENçAS,
    EDUCAR É O CAMINHO VIAVEL NESSE PROPÓSITO E NAO SE RESTRINGE ÁS AULAS POIS OS MEIOS DE COMUNICAção MASSIVA SAO TAMBÉM FORMADORES DE OPINIAO E O TRABALHO TAMBÉM DEVE CONTEMPLAR A POTENCIA DESTE MEIO PARA TAL COMPROMISO DE MANERA QUE POSSAMOS LEVANTAR A BANDEIRA DE QUE UM “MUNDO MELHOR É POSSIVEL”

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  2. Antonio Elias Sobrinho // 26/06/2016 às 1:08 // Resposta

    Qualquer pessoa, mesmo precariamente versado sobre a história e as formas de dominação, sabe que a forma mais elementar da ideologia dos dominantes é tentar esconder,os acontecimentos da realidade através de mitificações. Assim, o ódio com relação aos diferentes, que ameaçam e agridem a chamada normalidade, deve encontrar subterfúgios aleatórios, porém que sejam capazes de convencer multidões. No caso, aqui, é transferir uma ação praticada contra um contingente de pessoas consideradas intoleráveis, para 1 terreno distinto, já palatável que é a luta contra o terrorismo ou, ainda, individualizando algo que é social. O artigo, nesse sentido, apesar da linguagem muito rebuscada e técnica, é importante para acender o debate sobre o ódio social.

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