O marxismo libertário de Michael Löwy

isabel loureiro

Por Isabel Loureiro.

Avesso a qualquer tipo de dogmatismo e ortodoxia, Michael Löwy tem um papel fundamental na formação dos marxistas brasileiros há quase meio século. Ao incorporar em suas reflexões elementos provenientes de teorias, tradições e experiências práticas anticapitalistas fora do campo do marxismo, aliando ao seu ímpeto rebelde uma rigorosa pesquisa acadêmica no intuito de proceder a uma crítica radical da civilização capitalista, ele mostra que o marxismo é bem mais do que uma teoria clássica a ser ensinada aos estudantes de ciências humanas. O autor de Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, que faz parte da jovem geração universitária engajada na crítica ao mundo da mercantilização universal, encontrou na obra do sociólogo franco-brasileiro um repertório de ideias explosivas que, integradas a uma visão de mundo coerente e arejada, contribuem para dar esteio teórico à indignação com as barbaridades do capitalismo, sobretudo o contemporâneo.

Na busca do sentido da obra em análise, Fabio Mascaro Querido leva a cabo – com sucesso – uma tarefa que não é simples, dada a variedade e a complexidade dos temas tratados. Ele mostra que, na interpretação dos autores e correntes intelectuais em que se inspira – Rosa Luxemburgo, Max Weber, os românticos, os surrealistas, o messianismo judaico, o cristianismo de libertação na América Latina, as utopias libertárias –, Löwy tem um claro fio condutor herdado de Marx, Lukács, Goldmann e Walter Benjamin, a saber, a compreensão do marxismo como teoria da práxis e como crítica da modernidade capitalista, o que confere à sua obra unidade e coerência teórica. Em estilo claro e didático, mobilizando uma pertinente literatura conexa, além de fazer boas exposições dos debates intelectuais na França, que iluminam o cenário em que Michael Löwy se movia, Fabio observa como as ideias deste vão sendo elaboradas em diálogo e/ou polemizando com as interpretações do marxismo desde o começo do século XX, e também com autores e correntes fora do campo do marxismo, como a ecologia. Ter lidado, já na década de 1980, com um tema que era anátema nos meios marxistas, dá mostras de sua capacidade de captar as novas contradições do capitalismo.

Inspirado em Walter Benjamin, para quem o materialismo histórico volta ao passado a partir do presente, Fabio reconstrói a trajetória intelectual de Michael Löwy a partir de sua militância no ecossocialismo para então remontar às suas origens. A já citada compreensão do marxismo como teoria da práxis – numa clara rejeição do marxismo mecanicista e determinista hegemônico no século XX –, aliada à descoberta da crítica da ideia de progresso feita por Benjamin, conduziu Löwy a uma condenação radical da civilização capitalista, a qual, em tempos recentes, se traduziu politicamente em uma adesão ao ecossocialismo. Dado o esgotamento histórico da civilização capitalista, o ecossocialismo, ao combinar a crítica marxista da acumulação e expansão do capital com a crítica do crescimento quantitativo feita pelos ecologistas, produz uma fecundação recíproca das duas tendências que, no entender de Michael Löwy e de seu comentador, permite uma atualização do marxismo. Se o ecossocialismo é hoje uma das correntes político-intelectuais mais promissoras no campo ecológico, é porque recusa tanto o fetichismo das forças produtivas (mais apropriadamente chamadas de forças potencialmente destrutivas) quanto o “capitalismo verde”, apoiado por boa parte dos ecologistas, que se contentam com a correção dos “excessos” do produtivismo capitalista. Essa reflexão de Löwy, indica nosso autor, desembocou num marxismo não produtivista, crítico do ideário progressista herdado do Iluminismo, sem, contudo, cair nas armadilhas do relativismo pós-moderno.

Numa época em que a expectativa da revolução social sumiu do horizonte, Fabio acredita, com razão, que esse ponto de chegada permite reconstruir com maior clareza a trajetória de Löwy, em particular no tocante ao problema da renovação do marxismo como crítica radical da modernidade. A pesquisa sobre a dimensão romântico-revolucionária do marxismo, iniciada nos anos 1980, quando Löwy lançou-se a uma reflexão sobre questões tipicamente românticas – como o problema da dominação da natureza e dos efeitos deletérios da produção industrial moderna –, levou-o a concluir que somente a transformação qualitativa do paradigma produtivo e tecnológico existente permitirá a sobrevivência da humanidade. Aqui está, no entender do nosso autor, um ponto-chave na trajetória de Löwy. Tal qual Marcuse anteriormente, é como se ele – na contramão de Engels – defendesse a volta do socialismo científico ao socialismo utópico. Em suma, tanto Michael Löwy quanto Fabio Mascaro Querido, para quem o “marxismo é o herdeiro moderno das tradições utópicas do passado”, acreditam que o restabelecimento da dimensão utópica do marxismo é imprescindível no trabalho de revitalização dessa corrente.

A leitura de Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade indica que a renovação do pensamento anticapitalista pede a descolonização do imaginário e, como consequência, a criação de modelos de uma sociedade alternativa, de visões de um futuro inteiramente outro. Para isso, é preciso explorar as manifestações da esperança onde quer que apareçam, como queria Bloch, mencionado por Fabio. Essa empreitada complexa requer uma aliança entre a crítica implacável do presente e a revalorização da imaginação criativa que, colocada para funcionar, conduz ao impulso utópico, combustível necessário à ação transformadora das relações sociais. Mesmo que por enquanto nada disso apareça claramente à luz do dia, tanto Michael Löwy quanto Fabio Mascaro Querido apostam na possibilidade da emancipação humana. Eis o impulso profundo que dá alento às trajetórias de ambos, tanto a do mestre quanto a do jovem discípulo. E, como todo bom discípulo, Fabio não se esquiva de apontar pontos polêmicos no pensamento do mestre Löwy, oferecendo assim uma ótima introdução à sua obra.

Isabel Loureiro


PROMOÇÃO DE LANÇAMENTOmichael lowy banner

O mais novo lançamento da Boitempo introduz a trajetória crítica e os debates suscitados pela experiência intelectual de um dos mais influentes pensadores da esquerda hoje: Michael Löwy. À luz das transformações políticas, culturais e ideológicas das últimas décadas, Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidde analisa a forma através da qual o sociólogo franco-brasileiro transformou o tema da crítica da modernidade no eixo de suas proposições em defesa da atualização do marxismo. Escrito pelo sociólogo e pesquisador Fabio Mascaro Querido, o livro constitui também material precioso para quem quiser mapear mais sistematicamente o conjunto da obra de Löwy, suas inspirações e interlocuções, dos anos de formação reavaliando a experiência filosófica e política de György Lukács e Rosa Luxemburgo, passando pela incorporação da crítica benjaminiana e romântica da ideologia moderna do progresso, aos atuais engajamentos na luta ecossocialista.

A Boitempo e o autor convidam para a noite de autógrafos do livro Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, na terça-feira dia 05 de abril de 2016, a partir das 19h no Restaurante El Guaton (Rua Mourato Coelho, 861, São Paulo).

PROMOÇÃO DE LANÇAMENTO

Pra comemorar o lançamento, a Boitempo realiza em seu site uma promoção especial para os leitores interessados em aprofundar o estudo da obra de Michael Löwy. Na compra de um Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, de Fabio Mascaro Querido, mais um livro clássico de Michael Löwy, o leitor ganha um desconto especial de 20% na compra do combo.

Ao todo, são três combos, que reúnem os livros Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, de Michael Löwy e Robert Sayre, Walter Benjamin, aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”, de Michael Löwy (com texto integral de Walter Benjamin) e O capitalismo como religião, com ensaios inéditos de Walter Benjamin, selecionados e comentados por Michael Löwy.

A promoção é válida até dia 30 de abril de 2016, somente pelo site da Boitempo. Confira os combos promocionais abaixo.

COMBO #1

Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade
+
Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade

Economize 20% levando o combo com Revolta e melancolia, que recupera as fontes românticas do marxismo para reabilitar uma crítica da ideologia moderna de progresso.

COMBO #2

Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade
+
Walter Benjamin, aviso de incêndio: uma leitura das “teses sobre o conceito de história”

Economize 20% no combo com o Walter Benjamin: aviso de incêndio, livro com tradução integral do texto de Benjamin, comentado por Löwy.

 

COMBO #3

Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade
+
O capitalismo como religião

Economize 20% levando o combo com O capitalismo como religião, com ensaios inéditos de Benjamin, selecionados e comentados por Löwy.

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A Boitempo Editorial, o restaurante El Guaton e o autor convidam a todos à noite de autógrafos de lançamento do livro Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, de Fábio Mascaro Querido. Gratuito e aberto ao público em geral, o evento ocorre a partir das 19h no Restaurante El Guaton, localizado na Rua Mourato Coelho, 861, na Vila Madalena (SP).

Noite de autógrafos do livro Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade, de Fabio Mascaro Querido (Boitempo)
Terça-feira, 05 de abril de 2016
A partir das 19h
Restaurante El Guaton
Rua Mourato Coelho, 861 | Vila Madalena | (11) 3034-4118
http://www.elguaton.com.br/

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