10 livros para pensar o Golpe

10 livros golpe

O que significa a esta altura falar em golpe? Há pouco mais de meio século, consolidava-se o golpe que instaurou o regime militar no Brasil. Passadas mais de três décadas desde o início do período de redemocratização, é possível dizer que ainda resta algo da ditadura? É para ajudar a responder essas perguntas e a formular outras no desafio de enfrentar a conturbada conjuntura brasileira de hoje, que a Boitempo preparou uma seleção de 10 leituras para pensar o golpe. São 15 livros de autores nacionais e internacionais, contemporâneos e clássicos, que refletem sobre democracia, ditadura, resistência, estado de exceção, legitimidade, movimentos sociais, mídia, história política e econômica do Brasil, de diversas perspectivas no espectro do pensamento de esquerda: do direito, passando pela sociologia do trabalho, pela ciência política, pela filosofia, pela psicanálise, pela história e até pelo esporte! Vale a pena conferir.

[Enquanto isso, a Boitempo prepara para breve um novo romance nacional sobre o golpe, ontem e hoje. Cabo de guerra, da Finalista do Prêmio São Paulo de literatura Ivone Benedetti, narra a conturbada passagem da ditadura ao Brasil contemporâneo a partir do ponto de vista de um personagem medíocre mas repleto de ambiguidades que se pôs a delatar os companheiros militantes ao regime militar. Através dos olhos e dos conflitos desta figura detestável, assombrada por fantasmas reais e imaginados, o livro lança inúmeras e incômodas pontes entre passado e presente, entre realidade e invenção.]

1. O que resta da ditadura: a exceção brasileira,

Organizado por Vladimir Safatle e Edson Teles, o livro reúne reflexões de Maria Rita Kehl, Paulo Arantes, Tales Ab’Saber, Jeanne Marie Ganebin, entre outros, que esquadrinham o legado deixado pelo regime militar na estrutura jurídica, nas práticas políticas, na literatura, na violência institucionalizada e em outras esferas da vida social brasileira. Deve ser lido junto com Ditadura: o que resta da transição, volume mais recente organizado por Milton Pinheiro que se distingue da bibliografia existente sobre o assunto por enfatizar, sob perspectivas diversas, a centralidade do caráter de classe da ditadura militar para compreender suas origens, sua história e seu legado.

2. Margem Esquerda

A revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, tem duas edições com dossiês especiais dedicadas a refletir sobre o legado do golpe de 1964: a Margem Esquerda #3, com reflexões de Jacob GorenderLeandro KonderAugusto BoalMarcelo RidentiRuy Mauro Marini, e a Margem Esquerda #22, com reflexões de Angélica Lovatto, Antonio Carlos Mazzeo, Beto Almeida e Milton Temer.

3. Memórias

Memórias , de Gregório Bezerra, é a autobiografia de um dos mais lendários ícone da resistência à ditadura militar no Brasil, livro descrito como “indispensável para a compreensão da história contemporânea do Brasil” por ninguém menos que Jorge Amado. A edição vem acrescida de uma apresentação da historiadora Anita Prestes, que recentemente lançou uma biografia política de seu pai, Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro, que narra momentos-chave da militância e do pensamento desta outra figura chave na luta pela democracia e na resistência à ditadura militar no Brasil.

4. Estado e burguesia no Brasil: origens da autocracia burguesa

Este livro de Antonio Carlos Mazzeo, é um estudo clássico e didático sobre a formação econômico-social brasileira, desde a colonização, passando pelo Estado Novo e o Golpe de 1964, até a contemporaneidade, acentuando a peculiaridade funcional da nossa burguesia e sua relação com o Estado. Para uma análise mais abrangente e abstrata do lugar ocupado pelo Estado na sociedade capitalista, recomendamos também a leitura de Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro, um manual de teoria política marxista que sustenta uma análise do Estado a partir das próprias categorias fundamentais da reprodução capitalista, como a mercadoria.

5. Crítica à razão dualista/O ornitorrinco,

Este livro, de Chico de Oliveira, é um dos ensaios sociais mais significativos de análise do capitalismo brasileiro. Escrito em plena ditadura, o livro representa um momento alto de renovação do marxismo no Brasil ao retomar a dialética contra os dualismo num momento em que as ilusões cepalinas de superação do subdesenvolvimetno se desfaziam diante do projeto de modernização conservadora levado a cabo pelo regime militar. O livro vem acrescido de o ensaio “O ornitorrinco”, de 2003, em que Chico analisa a consolidação e os desdobramentos desse processo no ano de posse de Luiz Inácio Lula da Silva no Governo Federal.

6. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista,

Este livro de Ruy Braga, dá continuidade à tradição de interpretação marxista da sociedade brasileira levada a cabo por Chico de Oliveira para propor uma das mais inventivas análises do Brasil pós-lulista. Como decifrar a relação entre o proletariado precarizado e a hegemonia lulista que o ensejou? Esse é o ponto de partida para esta obra de intensa acumulação crítica que passa a limpo a história da classe trabalhadora Brasileira, da ditadura do Estado Novo, passando pela Ditadura Militar de 1964, até os dias de hoje. Uma pesquisa pioneira que já revelava, em 2012, na contracorrente do consenso dominante, que apesar da relativa “satisfação” acusada pelas eleições presidenciais e da aparente estabilidade do modo de regulação proporcionada pelo “transformismo” petista, a hegemonia lulista encontra-se assentada em um terreno historicamente movediço.

7. Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil

Livro mais recente da coleção Tinta Vermelha de livros de intervenção da Boitempo, a obra reúne textos escritos no calor dos acontecimentos, publicada entre a destituição provisória da presidente Dilma Rousseff (em maio de 2016) e sua saída definitiva (três meses depois), este. Mas apresenta uma multiplicidade de aspectos, a partir de visões de mundo também bastante plurais entre si. Os capítulos tratam da mídia, da classe trabalhadora e dos sindicatos, das mobilizações da direita e de seus financiadores, da política externa, da misoginia e do racismo, dos fundamentalismos religiosos – enfim, dos vários aspectos do golpe e dos retrocessos que ele anunciava.

8. Democracia corintiana: a utopia em jogo

Escrito por Socrates Brasileiro e Ricardo Gozzi, o livro resgata uma experiência histórica que provou definitivamente como futebol e política são definitivamente indissociáveis: a democracia corintiana, que eclodiu, em 1982, após dezoito anos de ditadura e décadas de mandonismo nos esportes. Mais que um resgate histórico, este livro mostra ser possível romper com o atual modelo retrógrado e corrupto do futebol brasileiro para, enfim, moralizá-lo.

9. Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar: a responsabilidade do Estado

Escrito por Carlos Tibúrcio e Nilmário Miranda, a obra conta a história da luta do povo brasileiro por democracia, contra a ditadura militar, a partir de relatos que descrevem a trajetória de militantes que, por participarem de organizações de resistência ao regime, foram presos, torturados e mortos – alguns até hoje desaparecidos – por agentes do Estado. O livro, feito a partir do trabalho da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), reúne dados e informações sobre as reais circunstâncias das mortes e desaparecimentos de aproximadamente 400 pessoas, cujos detalhes foram muitas vezes omitidos e falsificados pelos órgãos da repressão. Através de pesquisas, entrevistas e confronto de dados, a Comissão Especial provou a responsabilidade do Estado na maior parte dos casos de assassinato, demonstrando a crueldade dos meios empregados pelo regime. Dos filhos deste solo é um dos frutos deste processo.

10. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte

Escrita por Karl Marx, esta é uma análise incontornável para o pensamento político de esquerda do processo que levou da Revolução de 1848 ao golpe de Estado de 1851 na França. A edição da Boitempo vem acrescida de um prólogo de Herbert Marcuse inédito em português, em que o frankfurtiano extrai as lições do texto clássico para os dias de hoje. Se Marx narrava no calor da hora a experiência histórica que revelava o “estado de sítio” que espreitava o berço da sociedade burguesa, o trabalho filológico do filósofo italiano Giorgio Agamben, em seu Estado de exceção, faz uma trabalho fundamental de síntese teórica a partir de uma rigorosa arquoelogia do conceito de “estado de exceção” para revelar como ele tende sempre mais a se apresentar como o paradigma de governo dominante na política contemporânea.


Confira também o dossiêO que resta do Golpe“, no Blog da Boitempo, com reflexões de Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, Carlos Eduardo Martins, Vladimir Safatle, Ruy Braga, Osvaldo Coggiola, Flávio Aguiar, Mauro Iasi, Emir Sader, Mouzar Benedito, Ricardo Musse, Urariano Mota, Caio Toledo e Paulo Arantes.


Outros 10 títulos relacionados:

  1. Soledad no Recife, por Urariano Mota
  2. Ousar lutar: memórias da guerrilha que vivi, por Mouzar Benedito e José Roberto Rezende
  3. Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura, por José Caldas da Costa
  4. A montanha que devemos conquistar: reflexões sobre o Estado, por István Mészáros
  5. Caio Prado Jr.: uma biografia política, por Luiz Bernardo Pericás
  6. A política salarial no Brasil: 1964-1985: 21 anos de arrocho salarial e acumulação predatória, por Edmilson Costa
  7. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988, por Beatriz Kushnir
  8. O ódio à democracia, por Jacques Rancière
  9. Democracia contra o capitalismo, de Ellen Wood
  10. A ditadura é assim, por Equipo Plantel e Mikel Casal e A democracia pode ser assim, por Equipo Plantel e Marta Pina

2 comentários em 10 livros para pensar o Golpe

  1. Antonio Elias Sobrinho // 01/04/2016 às 11:55 // Responder

    Por que o golpe, que tinha, segundo diziam, um caráter cirúrgico, que era livrar o Brasil do comunismo e restabelecer a democracia, durou tanto tempo? Em primeiro lugar porque o golpe e o autoritarismo nunca se constituiu em coisa exótica, na política brasileira. Pelo contrário, o povo brasileiro sempre conviveu com essa ameaça; segundo, porque a sociedade nunca conseguiu construir uma democracia com raízes profundas, que incorporasse realmente os seus milhões de miseráveis, numa vida realmente digna e consciente, ao ponto de, nas horas cruciais, serem capazes de defender a democracia porque, afinal, eles nunca se sentiram parte desse algo que sempre foi privilégio dos chamados “cidadãos de bens”.

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  2. Eu sugeriria o livro do René Dreifuss: 1964: A Conquista do Estado.

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