O carnaval das traições

Flavio Aguiar, interinamente da Península de Yucatán, México.

festival pmdb[Romero Jucá anuncia a ruptura do PMDB com o governo em 29.03.2016]

Por Flávio Aguiar.

“Por que você me picou”, perguntou o sapo ao escorpião que ele conduzia atravessando a lagoa a nado, “agora nós dois vamos morrer”.
“Sei lá”, respondeu o escorpião, “é da minha natureza”.
Conto brasileiro.

O processo de impeachment à presidenta Dilma Rousseff é um verdadeiro carnaval das traições.

Parece traduzir aquele ditado que diz que “o mais inocente matou a mãe para ir no baile dos órfãos”.

É difícil puxar o fio da meada, tantos são eles.

Comecemos então pelo mais óbvio.

O vice-presidente Michel Temer é o novo candidato a Café Filho na história brasileira. Café era vice de Getulio, tido como mais à esquerda do este, o que não é o caso daquele lá em relação a Dilma Rousseff. Mas como Getulio se recusou a renunciar, Café Filho traiu seu compromisso e declarou que seu dever (ou propósito) era ocupar a presidência, custe o que custasse. Ele só não imaginava que isto custaria a vida de Getulio, que resistiu à bala, uma única, mas suficiente para retardar o golpe por dez anos.

O ex-presidente Lula disse que Sergio Moro foi picado pela mosca azul. Temer deve ter sido picado por um vampiro, daqueles que morrem num filme para renascer no outro. Como a lagarta botânica, ele imagina que vai entrar no casulo do impeachment e sair dele como a crisálida do salvador da pátria. Vai cair no mata-burro das traições que está consagrando e inaugurando. Vai entrar na e sair da história como o sapo que queria ir à festa no céu mas desabou das alturas.

Se o PMDB dsembarcasse do governo às vésperas da eleição regular de 2018, dava para entender. Desembarcar agora, sem motivo que não seja a avidez de ocupar mais espaço no poder, é uma traição de grande monta, não só à presidenta e seu partido, mas também a seu eleitorado.Ou alguém acha que a maior parte do eleitorado peemedebista é do golpe? Só se quiserem se tornar eleitores do Bolsonaro.

O PSDB também está traindo seu eleitorado. Não acredito que a maioria dos eleitores do PSDB queira o golpe fajuto deste impeachment. O partido vai ficar maculado para sempre. Será levado por um playboy irresponsável (Aécio), um governador merendeiro (Alckmim) e um ex-presidente senil (FHC), todos traindo o programa do partido e suas próprias histórias (bem, no caso de Aécio, não dá pra garantir).

No Congresso vai haver um sem fim de traições. Como já alertou José Roberto de Toledo (no Estadão), que não pode ser acusado de petismo nem de bolivarianismo, quando uma das partes, na votação do impeachment, atingir sua quota (171 pró-governo, 342 pró-golpe), as traições a todos os propósitos vão se multiplicar apara aderir ao lado vencedor, sejam lá quais forem os compromissos antes assumidos. Afinal, este é um dos Congressos mais vergonhosos da nossa história, e dá arrepios à mídia interncional ver Dilma processada por este bando de acusados de tudo o que há de pior na política brasileira.

No Judiciário e na PF, nem se fala. Togas são traídas todo o tempo, pela avidez de aparecer nas manchetes e de ser “aquele que prendeu o Lula” ou “derrubou a Dilma”. Gilmar Mendes organiza um seminário sem pé nem cabeça em Lisboa, em datas coincidentes com aquelas em que os golpistas comemoram 64, mas é abandonado pelos políticos conservadores com quem queria consagrar o golpismo brasileiro. Deu chabu, como se diz em festa junina. O foguetório não explodiu, abatumou. Ao inv´s do aplauso nas galerias, colheu as vaias na rua.

Mas em todo este rosário de traições, há um caso de fidelidade que merece reconhecimento.

Tempos atrás, motivadas talvez por um excesso de confiança em que venceriam as abantesmas petistas através de meios “normais”, as chefes-de-fila da mídia corporativa e golpista deram-se ao luxo de ensaiar tímidas auto-críticas em relação a seu apoio pró-ativo ao golpe de 64. Uma de claro que foi um erro, outra quis transformar a ditadura em “ditabranda”, outro ainda ressalta os acertos de 64 contra os erros e excessos de 68… Globo, Folha de S. Paulo e Estadão (Veja e as revistas semanais são apenas a artilharia leve do fim de semana) foram tomados por um verdadeiro surto psicótico-legalista que os levou àquele descaminho. Agora, porém, retornaram à sua normalidade, o golpismo para que nasceram e cultivaram.

Ainda bem. Ainda se pode confiar em alguém neste mundo.

Como o escorpião do conto, continuam cumprindo seu destino, sacrificando, em nome de sua natureza oligárquica, a democracia de que dependem.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

11 Comments on O carnaval das traições

  1. Martha Santana // 30/03/2016 às 15:25 // Responder

    Excelente texto, apesar do tema ser desolador!

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  2. Antonio Elias Sobrinho // 30/03/2016 às 17:27 // Responder

    Não sei onde o autor está vendo tanta traição. Quem entrou nesse jogo sabia que nele não havia a menor possibilidade de lealdade ou fidelidade porque não havia motivos. Todos entraram em função de 2 coisas: poder e dinheiro. Ou existe alguém aqui que acredite que Sarney, Temer, Cunha, ete., conhecem outra coisa? Afinal, a boa política, baseada em programas, compromisso público, etc., é para homens públicos e não para pessoas que fazem dela um negócio, que entram para defender interesses. Então, quando o poder espatifou-se, porque o dinheiro acabou, pronto, casamento desfeito e, a forma de rompimento é irrelevante.

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    • Caro Antonio. Obrigado por sua atenção. Mas acho que, pelo visto, você não consideraria o Joaquim Silvério dos Reis um traidor. Aliás, ele foi condecorado pela Coroa Portuguesa.

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  3. O PT sabia desde 2002 que estava vendendo a alma ao diabo. Na ciranda louca do toma lá dá cá, locupletaram-se todos: Governo e aliados. Agora parem de mimimi e aceitem que a esquerda ruiu por méritos próprios.

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  4. Obrigado a turma do Trackback e do Pingback, e ao Marcos. Quanto à esquerda na comentário deste, ruir ou rugir, questão de opiniães, como diz o ditado que Rosa cita. Como diz o juiz Global Sérgio Moro, mas invertendo o seu sinal, ouçam a voz das ruas.

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    • O PT ao qual votei em 2002 perdeu completamente sua identidade e ideologia em troca da governabilidade. Lula em 2002 veio dizendo ser o paladino da moralidade, da ética e da transparência.Valores que abandonou e que eu prezo em um governante. A esquerda no Brasil no momento está órfã. Não acredito, eu particularmente, na reinvenção do PT como muitos apregoam.

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  5. Ivando Bornhausen // 31/03/2016 às 11:48 // Responder

    Três erros imperdoáveis cometidos pelo pelo PT no governo. 1) Montar o desenvolvimento e geração de emprego sobre a industria automotiva. 2) Trazer para o Brasil a copa do mundo e a olimpíada. 3) Jogar para o mundo a descoberta e capacidade de exploração do pré-sal.
    Teríamos de distribuir nas escolas o livro OS PROTOCOLOS DOS SÁBIOS DE SIÃO, que a maioria iria entender para onde estão nos levando.

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  6. Solange M. // 31/03/2016 às 15:03 // Responder

    Senti falta de mencionar as duas maiores traições cometidas nos últimos 13 anos de governo PT:
    1. A do próprio partido em relaçãos aos seus princípios éticos e as falcatruas que se meteu para se manter no poder desde a eleição de 2002 e;
    2. a do Governo Dilma em relação às promessas feitas a mais de 54 milhões de eleitores durante a campanha em 2013, quando já era sabido a baita crise econômica que havia se metido.
    Respeitaria mais o autor se escrevesse com menos ideologia e mais isenção acadêmica.

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  7. Respeito opiniões adversas acima, embora pense que estão muito descoladas da realidade. Porém não entendo – e repudio – a presença de um livro sabidamente fraudulento e antissemita como “Os protocolos dos sábios de Sião” entre os argumentos de um dos adversários, ainda mais com a ideia de ser distribuído nas escolas. Só falta pedir
    a adoção do “Mein Kampf”!

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  8. Ah sim, esqueci de comentar: isenção boa, só do Imposto de Renda, desde que justificada, sem sonegação. É que nem ser neutro, coisa boa apenas para sabão de côco.

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  1. O carnaval das traições | Q RIDÃO...

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