A cozinha norte-americana

flávio aguiar cozinha norteamericanaPor Flávio Aguiar.

Apesar de minhas aventuras da infância e do meu primeiro churrasco – queimando os jornais subversivos que meu irmão trouxera para casa depois do golpe de 1964 – fiz a primeira investida sistemática no reino da cozinha nos Estados Unidos.

Chique, não?

Nem tanto.

Simplesmente aconteceu que, para minha sorte, logo depois do golpe de 1º. de abril ganhei uma bolsa de estudos do American Field Service para completar o curso colegial na sede do imperialismo que ajudara a derrubar o governo de Goulart.

E lá fui eu, no final de agosto daquele ano, para a cidade de Burlington, Vermont, onde me esperava, além da família que me acolheria, a High School local.

Foi uma viagem cheia de peripécias, muitas delas a serem contadas em outro contexto. Aqui, nesta série, reservei a narrativa de como rompemos, de comum acordo, eu e a cozinha, nossa virgindade mútua.

Não me tornei um cozinheiro, nem nato nem adotado. Isto veio depois. Mas pela primeira vez na vida vi-me num lar sem a instituição tão brasileira das empregadas domésticas. Compartilhando a casa, além de com os pais americanos, com dois de seus quatro filhos, que ainda moravam com eles, compartilhei também a execução dos serviços domésticos.

Estes incluíam coisas absolutamente novas para mim, como a tarefa de limpar a neve da entrada durante o inverno. E Vermont tem um clima canadense, destes em que a neve cai e fica no chão durante meses a fio, sem derreter. Outra novidade: meu pai americano tinha um carro (meu pai brasileiro comprou seu primeiro carro, uma Rural Willys usada, ainda importada, enquanto eu estava em Vermont). E cabia a nós, os petizes, lavá-lo, verão e inverno, outono e primavera. Lavar um carro com uma temperatura de dois graus acima de zero não é moleza. Quando a temperatura descia a vários graus abaixo de zero (meu recorde na ocasião, foi 27 graus negativos, superado dezesseis anos depois pelos menos 40 que suportei no Canadá) era impossível lavar o carro que, então, tinha de ser levado a uma garagem profissional.

Mas havia outras tarefas mais prosaicas, embora igualmente fascinantes pelas novidades. Embora eles já existissem no Brasil, pela primeira vez tive um aspirador de pó nas mãos. Idem, pela primeira vez manipulei uma máquina de lavar roupa, estendendo-a depois. Idem, um cortador de grama. Outros objetos mais prosaicos passaram pela primeira vez por minhas mãos, como espanadores e vassouras. Para mim tudo isto pertencia ao mundo feminino, não ao meu.

E fiz minha estreia, de fato, na cozinha. Pela porta dos fundos. Assim como o marinheiro de primeira viagem entra no navio como grumete, a mim cabia, com meus irmãos americanos, pôr e tirar a mesa, e lavar e secar a louça (não havia máquina de lavar louça).

Estas tarefas – sobretudo, a de lavar a louça – me levaram ao encontro de um “admirável mundo novo”. No lugar de onde eu vinha – Brasil, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1964 – já havia algumas “modernidades”. Já me referi ao fogão a gás, por exemplo. Também já havia detergentes, sapóleos e saponáceos, e o óleo de milho e o azeite (no Rio Grande do Sul ainda se diz, respectivamente, “azeite” e “azeite de oliva” – e óleo de soja, de girassol, etc. viria depois) já estavam começando a substituir a banha de porco ou a gordura de coco nas fritagens e frituras. Mas o protagonista da limpeza na cozinha de uma família de mediana classe média como a minha continuava a ser o sabão de pedra, com a palha de aço concorrendo ao Oscar de artista coadjuvante, pois o Bombril era ainda uma novidade e a esponja algo recém usado apenas no banheiro, para lavar o corpo. Ainda era comum ver as mulheres esfregando as panelas nos fundos de quintal com pó de tijolo ou areia para retirar a gordura ou a tisna das panelas de ferro antigas (ai, que saudades!), pois as de alumínio ou aço inoxidável eram inovações caras – bem como a panela de pressão.

Estas novidades eram ainda manuseadas por vezes com alto risco. Um primo meu, bem mais velho e abonado, foi dos primeiros na família ampliada a ter um fogão a gás. Um belo dia, logo no começo, ele ligou o gás do forno e se deu conta de que esquecera os fósforos na sala. Foi busca-los e, chegando perto do fogão, acendeu um deles. Felizmente a porta do forno estava fechada, porque na explosão que se seguiu a referida porta e ele, que tinha quase dois metros de altura e pesava uns cem quilos, foram jogados pela outra porta, a da cozinha, que estava aberta, no chão da sala. Felizmente a própria explosão extinguiu a chama que se seguiria e ele, ainda tonto, mas com apenas algumas escoriações e queimaduras leves, teve ainda a presença de espírito de correr para fechar o gás e abrir todas as janelas e portas da cozinha e da casa.

Assim, ao adentrar a cozinha norte-americana, minha primeira sensação foi de maravilhamento diante de tanta novidade. Para começar o fogão era elétrico (coisa que hoje abomino). Acima dele havia uma engenhoca chamada de exaustor, que eu nunca vira na vida, nem na casa de meus padrinhos ricos, irmão e cunhada de minha mãe. As panelas tinham um fundo exterior cor de bronze. Era só passar nelas uma pasta que até hoje não sei o que era, e pronto! Já brilhavam de limpeza. No seu fundo nada grudava (ainda não eram de tefal). Eu conhecera uma panela de ferro que fora de meu avô materno, que ele trouxera da Alemanha ou da Bélgica (ou seria de sua mulher, minha avó, que vivera na Argentina, país então bem mais novidadeiro em tecnologias do que o atrasado Brasil? Ou ainda de minha avó paterna, que viera de Rivera, no Uruguai, país – naquela época dito “a Suíça sul-americana” – também muito mais coberto por novidades europeias do que o nosso, onde o processo de substituição de importações já começara?). A referida panela tinha uma cobertura de não sei o quê até hoje que impedia a grudação, mas ela já se gastara toda no fundo, que ficara igual às demais.

No fundo da pia havia um moedor – o “grinder” – onde a gente jogava tudo o que fosse resto em pedaços, colocava o ralo numa certa posição, parcialmente fechado, e abria a água da torneira com toda a força, e zás! Com muito barulho, é verdade, tudo se ia moedor abaixo. Isto era o portal de algumas mudanças importantes: ao contrário de minha casa brasileira, que obedecia ao princípio de Lavoisier, “nada se perde, tudo se transforma”, a regra ali era a de não reutilizar restos. O que sobrava, seguia o rumo do implacável “grinder”. Até porque a cozinhança era uma tarefa de alcance apenas diário: fazia-se o número exato de bifes ou, melhor dizendo, hamburguers. Se a peça era uma carne assada, a medida era a exata para o jantar, etc. Não havia nada daquilo de transformar o churrasco de ontem no croquete de hoje, como em minha casa porto-alegrense, coisa que, naquele tempo, passei a considerar “atrasada” (ainda não se dizia “brega”, isto veio pouco depois, com O Pasquim) diante do “avanço” de meu lar adotivo. Com toda esta parafernália inovadora, limpar a cozinha e lavar a louça era tarefa que durava no máximo meia-hora, ao contrário das horas de esfrega e lavação a que tinham de se submeter as empregadas ou donas de casa de meu país natal.

E havia também as novidades comestíveis. Se nossa mãe (como no Brasil, isto sim, meu pai americano só cozinhava em ocasiões muito especiais) tinha de sair, ela nos deixava ao alcance da mão os “tv dinners”, pratos feitos de alumínio onde os quitutes estavam prontos: era só retirá-los do congelador e aquecê-los no forno (ainda não havia micro-ondas, é verdade). E se o pai também saíra, a gente se dava ao luxo de comê-los exatamente diante da tevê (que ainda era preto-e-branco, a colorida era novidade mesmo lá e a imagem desta não era lá essas coisas), coisa que normalmente era interdita. Que maravilha das maravilhas! Hoje abomino esta comida, que considero em geral pior do que a de hospital, mas para mim então elas valiam o poema de Fernando Pessoa: “E eu era feliz então? Não sei. Fui-o outrora agora!”, ou algo parecido, que estou citando de memória.

Deste mundo maravilhoso que eu descobria, ficou-me uma única peça. Trata-se de um pegador em forma de tesoura, grande, que serve tanto para virar carnes na frigideira, no churrasco ou na churrasquita (aquela coisa oblonga que a gente põe em cima do bico de gás do fogão para grelhar uma carne em apartamento, sobretudo aqui em Berlim, sem fumaça, altíssima tecnologia pampiana que maravilha os aborígenes europeus tanto quanto os nortistas brasileiros, da divisa com Santa Catarina para cima) que eu trouxe de presente para minha casa brasileira, um troféu da modernidade inovadora naquela oca primitiva que nós chamávamos de “o Sobrado”, como n’O Tempo e o Vento, do Érico, e pelo qual, hoje, morro de saudades.

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Na série O reino da cozinha, Flávio Aguiar fala de vida, política e outros conflitos comestíveis. Para mais churrasco, petisque as crônicas “Minha estreia na churrasqueira” e “A carreira acadêmica na churrasqueira“.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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