O Vatiquexit e a delação premiada

Por Flávio Aguiar, de Berlim.

Pois o Papa foi à América do Sul, viu, leu, soltou o Verbo e venceu. E ainda saiu ganhando corações e mentes. Inclusive o meu. Se me considero um ateu não praticante, posso muito bem passar a ser um velho cristão novo sem Igreja.

A verdade é que o Papa botou pra quebrar. Confirmou minha certeza de que, tirando o ponta-esquerda do Saint-Pauli (o time do bairro das prostitutas de Hamburgo, o único que se declara anticapitalista nesta área dominada pela fofa FIFA), o Papa Francisco I é o dirigente mais à esquerda nesta Europa à deriva para a direita. Nem o Varoufakis se compara a ele, com todo o respeito pelo companheiro Yanis. Falou mal do capitalismo vigente, falou bem do meio-ambiente, pediu desculpas à indiada pelo malfeito da Igreja em dar uma mãozinha aos Conquistadores, chamou a economia solidária para a pregação, recebeu e aceitou uma cruz de foice e martelo com Cristo em cima (estranho: a direita canônica é burra mesmo, pois ao condenar o ato, se esqueceu de lê-lo ao contrário, como poderia ter feito, vendo o noivo da Santa Madre crucificado no símbolo do comunismo… Não adianta, desde que Gustavo Corção se foi para os pagos do além, a direita emburreceu, e muito). Enfim, como dizem los Hermanos, “un despelote”. Dos maravilhosos.

Mas não pensem que isto vai ficar assim. Não, três vezes não!!! Em primeiro lugar, a Chanceléria (ou seria Chancilária?) Ângela Merkado vai pedir as contas ao Vaticano. E o ministro Wolfegangue Schauer vai certamente sugerir o Vatiquexit: que o Vaticano seja expulso da zona do euro, posto de quarentena no mínimo por quarenta anos, ao invés dos quarenta dias do Dilúvio. Vade retro, Papán! A Papa trosko sempre se deve dar o troco. Senão, o que será da Grécia e de seu primeiro-ministro Aleixo das Tripas-Coração? Vão querer subir em cima da mesa, ao invés, de como o pobretão da Bíblia, se contentar com as migalhas que caem dela, e são capazes até de pensar em nem pagar pelas tais de migalhas! Pobre é assim mesmo: orgulhoso que nem Jó, ou de dar dó. Ainda mais quando se derem conta de que têm um Papa ao seu lado.

Não, mas isto não é tudo!!!

Felizmente, temos sempre-alertas em nossas próprias plagas.

Certamente o Papa será chamado a depor na Operação Leva-Jeito, capitaneada pelo juiz Sério Morro. Terá de falar sobre quanto deu ou recebeu (pouco importa) em propinas de Rafael Corrido, presidente do Equadrado, e de Ovo Pirales, presidente da comuno-sindical-tribal Bolórvia, mesmo que seja em hóstias. Bem, no conservador reinado do Paraqual, ele certamente não deu nem recebeu propina do santo governo, mas terá de explicar como conseguiu ser recebido entusiasticamente pelo povaréu de uma favela. Certamente distribuiu favas e favores, e ofereceu os regalos de uma Bolsa-Maná, com certeza em busca de votos para ser eleito para algum cargo importante no outro mundo, como, por exemplo, auxiliar de porteiro junto a São Petersburgo (aliás, como o nome indica, um comuna de marca).

Mas ser-lhe-á oferecido o benefício da delação premiada! Desde, é claro, que ele se reconheça culpado pela mais recente interpretação da teoria (ou será teorria?) do dominó do fato, amplamente formulada e divulgada por juristas de renome no principado do telefeérico Teèsseéfe, na Baixada Central de Bruzundangas, o país de analfabetos como Lima Barreto. Claro que se aplica a teorria do dominó do fato, aquela que afirma que uma pedra no meio do lago se espraia que nem tsunami de crimes. Ou o Papa vai dizer que não sabia que o governo de Bruzundangas tirou milhões de gentes da pobreza e da miséria apenas para captar-lhes o voto? E nada fez em contrário! Ou vai dizer também que nada sabia que o governo de Bruzundangas, como afirmaram abalizados comentaristas na internet, trouxe milhares de haitianos a seu terrortório apenas para ter o seu voto, porque, aliás, a gente sabe que essa gente vende seu voto a troco de banana, desde que seja Chuquitita e venha de Miami!

Em que consistirá o prêmio desta delação premiada? Bem, Sua Santidade poderia receber uma indulgência plenária no Purgatório, por que não, dada pelo Sumo-Pontífice Sério Morro, cujo lema é “melhor que Deus, só Eus”? Por que no outro mundo? Ah, porque antes de ser enviado desta para a melhor, ou pior, o Papa terá de ser reeducado, e pagar por seus pecados! Como se dizia na antiguidade: “hic peca, hic paga”, ou algo assim. O Papa seria obrigado a ler e decorar as obras completas de Reinasco Azevedo, Tarugo Maunardi, Pastor Malafalha, Olarva de Carvolho, Denínfimo Rosacampo, Rotundo Coinstantã, além de todas as edições da famosa e conspícua revista de doutrinação Vesga e Meia.

Éééé… mas tem mais.

O Papa seria submetido a um processo de impíchement. A última eleição no Colégio dos Cardeias seria anulada, pela acusação de que Sua Eminência distribuiu santinhos e vinho de missa doados pela Petrusbrás (obviamente usando o santo nome do primeiro Papa em vão) para conseguir votos. Isto abriria espaço para que um pobre cardeal brasileiro, sequioso por ganhar alguma eleição no passado, no presente ou no futuro imediato, Aleutércio Neves Fora Nada, pudesse ser eleito Papa. Porque de imediato? Porque o cardeal Aleutércio teme que no futuro desmediato ela seja contestado não só pelo ameaçador Polvo Ingrácio da Silva, como também por seu corre-legionário Genérico Xuxu Arqui-Mim, que não é mineiro, mas come quieto e pelas bordas. Aleutércio está firme na sua campanha, “quem nasceu para ser coroinha do Bispo de Higietrópolis pode muito bem chegar a ser coroado”.

Vamos ver no que dá esta azáfama toda. Mas que a vida do Papa Hermano I daqui por diante não vai ser fácil, ah, não vai.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

2 comentários em O Vatiquexit e a delação premiada

  1. É mais ou menos por aí Seu Flávio. Boa estada na terra da única mulher que está conseguindo dar uma freada na industria do holocausto.

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  2. Gracias!

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