A volta dos mortos vivos

PssDB - 03[Ilustração do designer André Almada]

Por Izaías Almada.

Escrevo ao som de panelas e gritos de crianças (coitadinhas) de “Fora PT”. O som, desagradável, incomoda mais pela ignorância, pela intolerância e pela tristeza de ver a que ponto pode chegar a manipulação de consciências.

Entorpecido pela campanha sórdida de uma imprensa que não pensa no país, mas tão somente em seus próprios interesses comerciais e corporativos, defendendo seu ultrapassado conceito de neoliberalismo como fruto de um pensamento e uma postura autocrática, para usar uma linguagem civilizada, e tendo ainda a seu favor a ajuda vergonhosa de juízes de direito que estão mais para capitães do mato e chefes de jagunços, o Brasil vem sendo aos poucos empurrado para a vala comum da idiotia, da intolerância, do preconceito e do ódio, se já não bastasse o baixo índice de politização de grande parte de sua  sociedade.

Não é por acaso que o imortal que ninguém leu deita falação pelos jornais “convocando” o país a repudiar o ex-presidente Lula. Logo ele que abriu as comportas da Petrobrás para as grandes jogadas sem licitação e que, por pouco, não vende a empresa a preço de banana no mercado das almas. Ele que comprou a sua reeleição e que chegou com os apaniguados ao limite da irresponsabilidade. Ele e outros liderados de seu partido que outra coisa não fazem, após as eleições do ano passado, senão procurarem chifres em cabeças de cavalo. Hipocrisia em altíssimo grau.

Triste não é só ver tamanha hipocrisia, mas também o destempero ou a falta de competência para o cargo que ocupam ou ocuparam homens como Sérgio Moro, Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, a docilidade e a crença de muitos brasileiros, ingenua até certo ponto, na expectativa de que esses homens e boa parte do poder judiciário brasileiro estejam preocupados em julgar com isenção, imparcialidade e fazer minimamente aquilo que nós pobres mortais aprendemos a considerar como justiça.

Com a ajuda da imprensa, cidadãos são julgados sem culpa formada. Com a ajuda da imprensa, ela mesma envolvida em grandes atos de corrupção ao longo de nossa história, outros cidadãos com graves culpas no cartório são mantidos acima de qualquer suspeita, muito embora não consigam explicar suas contas em paraísos fiscais.

Triste é perceber que o país votou nas últimas eleições (estamos falando do décimo quarto ano do século XXI) para a composição de um poder legislativo conservador e tacanho, cujas principais bancadas no Congresso Nacional estão ali apenas para defender interesses próprios ou de grupos e empresas que contribuem honesta e patrioticamente para a campanha dos eleitos, esses também em sua maioria sem qualquer compromisso com a nação brasileira.

Triste é perceber que a palavra “corrupção” perdeu todo e qualquer significado no Brasil contemporaneo, uma vez que é usada e banalizada por um conjunto de cidadãs ou cidadãos das mais variadas profissões, credos religiosos, partidos políticos, apenas para tentarem desclassificar adversários políticos, já que ela é praticada em maior ou menor escala no país há dezenas de anos desde a compra de falsas certeirinhas de estudante ou do guarda de transito na esquina, até depósitos de milhões de dólares em paraísos fiscais, seja na conta de um diretor de empresa estatal ou em sonegação de impostos.

Um país de dimensões continentais como o nosso e de imensa riqueza seja ela natural ou aquela construída pelas mãos de milhões de trabalhadores com o passar dos séculos, até agora, repito, início do século XXI, ainda não conseguiu se libertar do espírito predador de nossos descobridores e colonizadores e muito menos do selvagem uso da chibata e do vil garrote, eterno garante das leis no Brasil. E garante também de uma cultura de submissão.

E assim, aculturados que somos, vivemos, sobretudo nossas chamadas elites, seja lá o significado que isso tenha,  entre ditaduras explícitas e simulacros de democracia, num jogo de faz de conta vergonhoso, onde a luta de classes é varrida para debaixo do mesmo tapete onde há dezenas de anos apodrecem algumas das maiores maracutaias econômicas, políticas e sociais.

E são exatamente os responsáveis diretos por tais maracutaias que hoje incentivam as ruas desmemoriadas a pedir intervenção militar para “moralizar” o Brasil e acabarem com a corrupção, mas de um único partido, numa demonstração acachapante de ignorância histórica, pobreza cultural, má fé e oportunismo político. O recente exemplo da senadora Marta Suplicy com sua ressentida defecção diz muito sobre a matéria e a tal elite. Shakespeare já tratou do assunto com grande sensibilidade há quase quinhentos anos.

O recente e selvagem espetáculo dado por um governador ignorante, no estado do Paraná, amparado ou mesmo incentivador – talvez – dos desmandos e armadilhas judiciárias e policialescas que ali surpreendem o país no dia a dia, fazem vir à tona o que de mais retrógrado e covarde pode produzir os que nada têm a oferecer à sociedade brasileira senão a cantilena sobre a corrupção alheia, quando a sua escondem nas páginas dos jornais e ficções televisivas, acobertadas que são pelas mentiras, pelas intrigas e, se necessário, por cassetetes, jatos d’água e balas (por enquanto) de borracha.

Em Curitiba surgiu e se consagrou de fato o símbolo da direita brasileira, o pitbull, sucessor do pastor alemão dos anos 30 em Berlim. As fotos e vídeos que o novo e principal partido da direita tentou esconder do país, o silêncio de seus principais dirigentes ou, o que é pior, o apoio implícito de alguns deles às cenas de selvageria contra professores estaduais, coloca em alerta o Brasil, fazendo renascer na América do Sul as sinistras imagens de alguns mortos vivos.

Afinal quando irão botar fogo no Reichstag e colocar a culpa no Partido dos Trabalhadores? Nos negros, nos nordestinos, nos judeus? Estamos quase lá.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

6 comentários em A volta dos mortos vivos

  1. Marcos Sassemburg // 07/05/2015 às 18:19 // Responder

    E não é para deitar falação Sr, Izaìas Almada, advogado de Lula? Votei em Lula em 2002, pois ele veio dizendo ser a esperança, o paladino da transparência e da moralidade. Lula e o PT foram corrompidos. Esta aliança com PMDB há 12 anos em nome da governabilidade foi determinante para a derrocada do partido. Teria que surgir uma nova esquerda no Brasil. No livro A Revolução dos Bichos de George Orwell, pode-se fazer um paralelo com o momento atual da política petista. O PT quer o poder pelo poder. Toda sua ideologia foi corrompida ao longo destes anos de aliança com o PMDB numa política rasteira e nojenta de conluios, o famoso “Toma Lá Dá Cá.” Lula e o PT também compraram sua reeleição. E também as eleições e reeleições de Dilma nesta aliança com o PMDB. E para finalizar em relação ao Projeto de Lei 4330(Tercerização) como disse bem o post do sociólogo Ruy Braga à Carta Capital: “Embora o projeto não seja do governo, Braga não poupa a presidenta e o PT pelo cenário político que propiciou sua aprovação. Ele cita as restrições ao Seguro Desemprego, sancionadas pelo governo no final de 2014, como o combustível usado pelo PMDB para engatar outras propostas desfavoráveis ao trabalhador, e ironiza: “Esse projeto sela o fim do governo do PT e o início do governo do PMDB. Dilma está terceirizando seu mandato”. E você ainda vem falar de FHC?

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  2. Antonio Elias Sobrinho // 07/05/2015 às 18:23 // Responder

    A constatação da situação, tramada pela mídia, pelos conservadores e pelos partidos de oposição é clara e retrata, de fato, o que está acontecendo. Ela, porém, por si só e da forma indignada como é feita pelo artigo acrescenta pouco para o debate e para o entendimento das questões de fundo.
    O certo é que, na raiz dessa questão, encontra-se alguns gargalos que não foram resolvidos, sobretudo a transição do regime autoritário e, sobretudo, a indiferença ou o pequeno esforço feito pelos governos posteriores, inclusive os do PT com relação a suas raízes ideológicas e seus principais instrumentos de transmissão que se manifesta através da mídia.
    Enquanto vivíamos períodos favoráveis, do ponto de vista econômico, que dava para atender a algumas demandas sociais e melhorar os serviços públicos sem mexer na cota dos grandes, o processo ainda funcionou.
    Porém, o relaxamento com relação ao que estava acontecendo e a falta de visão com relação ao que poderia acontecer fez com que tanto o governo como o PT abrissem a guarda e, ao invés de tentar fortalecer seu campo, para possíveis enfrentamentos, preferiu atrair, para seu ninho tanto personagens considerados malditos pela sociedade como oligarquias já ultrapassadas.
    Agora, na hora da necessidade, tanto essa gente virou as costas como os aliados como a CUT, UNE, MST e o próprio PT perderam a representatividade e todas as condições de serem atendidos em suas convocações. Isso porque o povo é esperto o suficiente para entender a manobra e não se deixar manipular.

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  3. geraldopontesjr // 07/05/2015 às 23:31 // Responder

    Izaías Almada, concordo com seus argumentos e acrescento, para lembrar, que o imortal que ninguém leu pediu a todos que se esquecessem do que ele escreveu. De forma que ele é um grandessíssimo hipócrita por, depois do dito, ter aceitado a “honraria”. Logo, desconfie-se de como se armou a mesma. A cultura de “sociabilidade” de uma boa parte dos jovens brasileiros que tem recursos hoje se faz em academias de malhação e lutas marciais, espaços incomparáveis de lavagem cerebral com fundo musical de um roquezinho medíocre e bocoiocó cantado por uns que nem sabem sequer berrar como os roqueiros que se picavam com ácido, em manifestação, ainda que destrutiva e um pouco contraditória, de enfaro em relação ao mundo burguês. Daí saem provavelmente alguns dos moros de hoje. O caminho que segue a política brasileira é precário em termos de inovação cultural e social, para interferir nessa multiplicação de cidadãos acéfalos, afora a política para a cultura que mal sobrevive à manutenção de alguns órgãos e frágeis programas. É um mato sem cachorro: não se tem alternativa de fato à oposição ao que está aí?

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  4. Lei de Godwin: na falta de argumentos, nazismo.

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  5. Luiz Orchestra // 08/05/2015 às 17:44 // Responder

    o reacionario canalha sempre começará seus discursinhos néonazistas-entreguistas com a frase -“eu votei em Lula e me arrependi” eu acreditei no PT e me arrependi”……como se ter sido correto,democratico .liberal e inteligente houvesse sido um grande fardo e agora retorna ao que realmente sempre foi e será”o que não tem juizo nem nunca terá”(chico)…..cuidado aí ao bater panela…pode quebrar a pulseira do rolex,falso,comprado por um bom dinheiro em sau ultima ida à Miami….

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    • Izaías Almada // 09/05/2015 às 12:13 // Responder

      Meu caro Luiz, o que impressiona no atual cenário político brasileiro (e você põe o dedo na ferida) é essa arrogância da “honestidade” e do “politicamente correto” daqueles que consideram os partidos políticos como entidades autônomas, criadas do nada e não como um agrupamento de seres humanos, muitos deles capazes de acertar e errar em suas ações.
      E nesse aspecto e em outros ainda piores, temos os ex-comunistas e esquerdistas arrependidos como Roberto Freire, José Serra, Aloysio Nunes Ferreira, FHC, Alberto Goldman et caterva, agora na companhia da “socialite” Martha Suplcy, protegidos pelo manto diáfano do jornalismo brasileiro, também esse composto na sua integridade e decência por Frias, Marinhos, Civitas, todos direta ou indiretamente até a sugerir a volta dos militares (em flagrante desrespeito aos pracinhas brasileiros que lutaram contra o nazifascismo na Segunda Guerra).
      O Brasil seria uma maravilha sem o PT, aliás como foi até 1980, não? ´Vai ficando claro que o problema não é o PT e a “decepçaõ” de muitos, apenas a luta de classes no Brasil vai tomando aspectos mais perceptíveis para quem ela , a luta de classes, era só um conceito teórico, livresco. Agora é preciso mais coragem para ter lado e o PT está sendo uma boa desculpa para quem sempre esteve em cima do muro.

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