Lançamento Boitempo: História, estratégia e desenvolvimento, de José Luís Fiori

Capa_alta

A Boitempo acaba de lançar seu primeiro título de 2015: História, estratégia e desenvolvimento: para uma geopolítica do capitalismo, de José Luís Fiori. A obra reúne ensaios sobre a conjuntura internacional e sobre as alternativas geopolíticas do desenvolvimento brasileiro. Agrupados em três blocos temáticos – o primeiro, sobre a história e a geopolítica do desenvolvimento capitalista; o segundo, sobre a conjuntura internacional e a crise contemporânea; e o terceiro, sobre a situação geopolítica e as escolhas estratégicas do Brasil na primeira metade do século XXI –, Fiori apresenta um ambicioso panorama da geopolítica do capitalismo desde a Europa do século VIII até a globalização dos dias atuais, passando pelo belicismo e pelo expansionismo das principais potências mundiais. Para chegar à conjuntura contemporânea, o autor parte de uma visão do poder e da acumulação do poder e de sua relação com as guerras de conquista e com os tributos, num arco histórico que tem início no “longo século XIII” (1150-1350), mergulha na formação e no desenvolvimento das grandes potências e emerge com pistas para uma releitura do desenvolvimento econômico do Cone Sul do continente sul-americano, em particular da Argentina e do Brasil.

Leia abaixo a orelha do livro, escrita por José Gabriel Palma

A América Latina é uma região cuja imaginação social crítica ficou paralisada, passando de um período extremamente rico, durante as décadas de 1950 e 1960 – com as “teorias de dependência”, as análises do “capitalismo monopolista” de Baran e Sweezy, o estruturalismo francês, a escola historicista alemã de economia, a macroeconomia keynesiana e pós-keynesiana e as ideias de intelectuais próprios, como Mariátegui –, para outro intelectualmente estéril, depois da crise da dívida de 1982 e da queda do Muro de Berlim. Embora isso tenha acontecido na maior parte do mundo, na América Latina, os processos de reafirmação do capital e de declínio do pensamento crítico foram muito acentuados, enquanto o neoliberalismo – com suas sofisticadas tecnologias de poder e com suas políticas econômicas nada sofisticadas – conquistava a região, inclusive grande parte de sua intelligentsia progressista, tão completamente (e tão ferozmente) quanto a Santa Inquisição conquistou a Espanha – transformando os pensadores críticos numa espécie em extinção.

Nesse contexto, os artigos periódicos de José Luís Fiori sobre geopolítica e desenvolvimento econômico constituem verdadeira exceção. Neles, o autor propõe uma discussão renovada sobre o tema e os desafios do desenvolvimento econômico a partir de uma perspectiva histórica que privilegia o poder como uma dimensão com lógica própria, a lógica determinante da trajetória do “sistema interestatal capitalista”. Aqui, “poder” não é sinônimo de Estado e, por isso, a análise de Fiori vai muito além do velho debate sobre a relação entre “Estado e mercado” no desenvolvimento capitalista. Em sua abordagem, a questão do poder vem antes e é muito mais ampla e complexa que a do Estado. Por conseguinte, a questão da “acumulação de poder” precede logicamente a da “acumulação de capital” e a própria aparição histórica dos Estados. Ao mesmo tempo, Fiori defende a tese de que a formação dos “Estados-economias nacionais” é a marca e o grande motor do “milagre europeu” – onde os Estados nasceram e sempre coexistiram competitivamente, dentro de um sistema interestatal inseparável do capitalismo.

Desse ponto de vista, segue-se que a economia capitalista está ligada de forma inextricável ao processo de acumulação de poder – e ao modo como isso aconteceu na Europa (e apenas na Europa) entre os séculos XII e XVI. Este livro usa a geopolítica (mas não exclusivamente) como chave fundamental para a compreensão do sucesso do desenvolvimento econômico em alguns países, e de sua falência em tantos outros. E considera que a política econômica deve ser considerada como uma variável endógena e dependente da macroestratégia de cada país; e, por isso, seu sucesso varia de caso para caso e de tempo histórico para tempo histórico. Nesse sentido, pode-se afirmar com toda certeza (e felizmente) que este livro é verdadeiramente herético com relação às visões “economicistas” tradicionais do desenvolvimento e da história.

Para fundamentar suas hipóteses, História, estratégia e desenvolvimento compara vários países de sucesso e identifica suas características comuns relacionadas com sua posição internacional e com sua configuração de poder interno. No que tange à América do Sul, a obra enfatiza a importância crítica desses mesmos fatores nos altos e baixos da bacia do Prata e, de modo particular, no desenvolvimento da Argentina e do Brasil. O livro não tem propósito normativo, mas considera que a direção estratégica dos Estados não está predeterminada, mas também não acontece por acaso, dependendo da luta permanente pelo poder dentro e fora de cada país.

José Gabriel Palma
Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge

Trecho do livro

O Brasil terá de descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e de seu poder internacional, dentro e fora de sua zona de influência imediata, um caminho que não siga o mesmo roteiro das grandes potências do passado e que não utilize a mesma arrogância e a mesma violência que utilizaram os europeus e os norte-americanos para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados. Além disso, como todo país que ascende dentro do sistema internacional, o Brasil terá de questionar de forma cada vez mais incisiva a ordem institucional estabelecida e os grandes acordos geopolíticos em que se sustenta, algo a ser feito sem o uso das armas e por meio de sua capacidade de construir alianças com quem quer que seja, desde que o Brasil mantenha seus objetivos e valores e consiga se expandir e conquistar novas posições dentro da hierarquia política e econômica internacional. Esse objetivo já não obedece mais a nenhum tipo de ideologia nacionalista, muito menos a qualquer tipo de cartilha militar; obedece a um imperativo funcional do próprio sistema interestatal capitalista: nesse sistema, “quem não sobe cai”.

José Luís Fiori

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