Cultura inútil: Romanos comiam rabudos

14.12.17_Mouzar Benedito_Romanos comiam rabudosPor Mouzar Benedito.

Muita gente se horroriza com hábitos alimentares de certos povos. E quase todo mundo tem nojo ou medo de rato. Mas há exceções. No Sertão nordestino, nas grandes crises de fome, há muitas histórias de gente caçando rato para comer. Lá, chamam rato de “rabudo”. Na viagem de volta ao mundo, de Fernão de Magalhães, houve uma calmaria no Oceano Pacífico, não havia ventos e as caravelas não andavam, não chegavam a lugar nenhum, e a comida acabou. Não sobrou um rato nas caravelas, comeram todos, depois passaram a comer as botinas deixadas de molho um tempão na água pra amaciar. Em Roma, ratos silvestres eram comido não por necessidade, era uma comida muito apreciada. Um acepipe. Muitos romanos criavam ratos silvestres em casa, colocando-os em gaiola e alimentando com sementes, até chegar o ponto em que eram abatidos e traçados com muito prazer.

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Comer lesma? Que nojo! Ora, a falta do que comer pode mudar esse conceito: numa crise no século XIX, na França, com a falta de comida, o povo apelou para os caracóis, e assim o escargô – nome do dito cujo em francês – passou a ser um prato requintado. Comeram tantos, e gostaram, que quase acabaram com eles. E começaram a criar para comer.

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Quando o Padre Cícero morreu, em julho de 1934, houve luto por todo o Nordeste. Mas uma mulher moradora de Palmeira dos Índios, em Alagoas, disse que ia usar luto sim, mas não pelo padre e sim pela sua cachorra que morreu na mesma época. Daí, diz a lenda, virou cachorra e passou a latir e a assombrar a região, ficando conhecida como “A cachorra de Palmeira”.

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O hábito de mastigar chiclete, quem diria, ajudou muito nas pesquisas sobre o povo maia. O chicle, matéria prima do chiclete, era obtido a partir da seiva do sapotizeiro. Trabalhadores que entravam nas selvas atrás de sapotizeiros para tirar a seiva acabavam encontrando ruínas maias cobertas pelo mato e passavam a informação aos arqueólogos.

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As primeiras escolas de farmácia no Brasil foram criadas em 1832, na Bahia e no Rio de Janeiro. Depois, vieram a de Ouro Preto, em 1837; a de Porto Alegre, em 1896; e a de São Paulo, em 1898.

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Até o fim do século XVII, as porcelanas legítimas só eram fabricadas pelos chineses. Havia imitações feitas na Itália, mas foi um saxão que conseguiu descobrir o “mistério” das porcelanas chinesas e fabricar peças verdadeiras pela primeira vez no Ocidente. É a porcelana de Dresden.

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Se você perguntar a um legítimo caipira o nome dos três reis magos, ele responderá: “Bartazá, Gaspá e Brechó”. Belchior vira Brechó na pronúncia caipira. Mas no Rio de Janeiro também havia um Belchior que ficou conhecido como Brechó, no século XIX. Ele abriu a primeira loja de objetos usados (inclusive roupas) da cidade, e por isso essas lojas passaram a ser chamadas de brechó. Dois sinônimos de brechó são hoje praticamente desconhecidos: adelo (ou adeleiro), de origem árabe, e brique-a-braque (do francês bric-à-brac).

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As tropas que depuseram Dom Pedro II e proclamaram a República levavam uma bandeira que era uma espécie de cópia da estadunidense, só que com as cores do Brasil, porque os republicanos não tinham ideia de uma bandeira republicana. Em seguida, Décio Villares desenhou uma bandeira de acordo com o que queriam os positivistas, incluindo o dístico “Ordem e Progresso”.

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O silenciador de arma de fogo foi inventado em 1909, pelo estadunidense Hiran Percy Maxim. Outro gringo, Jaime Ritty, inventou a caixa registradora em 1879.

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As sandálias havaianas foram lançadas em São Paulo, em 14 de junho de 1962. A empresa que a produzia deu esse nome porque, segundo informou, Havaí lembra sol, praia, calor e charme.

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Muitos cangaceiros tinham como apelidos nomes de aves brasileiras. Aí vão alguns deles: Xexéu, Andorinha, Coruja, Asa Branca, Beija-flor, Azulão, Azulão Segundo, Pássaro Preto, Sabiá, Mergulhão, Paturi, Passarinho, Gavião, Bem-te-vi, Juriti, Bicudo e Marreca. Outros tinham apelidos que dão ideia de terem sido brabos pra chuchu: Cobra Preta, Jararaca, Fato de Cobra, Moita Braba, Tempestade, Trovão, Casca Grossa e Lasca-Bomba. Em compensação havia uns que deviam ser bem bonzinhos: Criança, Cuscuz, Pensamento, Pirulito, Paizinho, Pai Véio e Bom Devéra.

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Basílio II de Constantinopla usava o cognome Bulgaroktonos, que significa “matador de búlgaros”. Em 1014, querendo acabar de vez com uma guerra iniciada havia quarenta anos, ele tinha quinze mil prisioneiros búlgaros e resolveu devolvê-los à Bulgária e avisou Samuel, o líder búlgaro, que seus soldados estavam sendo devolvidos. Mandou então cegar quase todos eles, deixando só 150 cegos de um olho só. Cada um desses tinha, então, que conduzir cem búlgaros cegos de volta à sua pátria. Samuel foi receber seus soldados de volta e teve um choque tão grande ao ver aquela cena que teve um derrame e dois dias depois morreu.

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Assim falou Mark Twain: “Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que não mostra a ninguém”.

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Em 1851, houve um surto de febre amarela na região de Belém, capital do Pará. Segundo alguns moradores, antes do surgimento desse surto, em várias tardes sucessivas baixou um nevoeiro escuro, com ar pesado, e mau cheiro. Esse nevoeiro ia de rua em rua, contavam. Como para os indígenas tudo na natureza tem uma mãe (Cy, em tupi), e a presença da cultura indígena era forte na região, acharam que esse nevoeiro é que trouxe o surto, diziam que ele era a “mãe da peste”. Daí, provavelmente, surgiu a expressão que foi muito utilizada. Quem não ouviu dizer que “Fulano é mais feio do que a mãe da peste”?

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Segundo o censo de 1970, dos Estados Unidos, naquele ano havia 2.983 homens viúvos aos 14 anos de idade. E 289 mulheres com essa idade já eram viúvas ou divorciadas.

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Para construir o Canal do Panamá, os Estados Unidos provocaram a divisão da Colômbia, que não concordava com os termos que os gringos queriam impor. Assim, surgiu o Panamá, uma secessão da Colômbia, que aceitou o acordo desproporcional favorecendo os Estados Unidos. Foi criada uma “Zona do Canal” dominada pelos gringos, e nela o governo panamenho não tinha nenhum poder. Mas pelo acordo, a bandeira dos Estados Unidos na Zona do Canal seria substituída pela do Panamá, no dia 1o de janeiro de 1964, cinquenta anos depois da conclusão das obras. Em janeiro daquele ano, estudantes panamenhos tentaram substituir a tal bandeira, mas os gringos não aceitaram. Reprimiram violentamente, matando um número de panamenhos que varia conforme a fonte, de 15 a 28, e ferindo centenas. Mas o comandante militar dos Estados Unidos minimizou a coisa: “Só foram usadas balas de caçar pombos”.

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Em 30 de abril de 1912, foi assentado o último dormente da ferrovia Madeira-Mamoré, no atual estado de Rondônia. Cerca de 30 mil pessoas morreram na construção. Ela foi oficialmente inaugurada no dia 1o de agosto daquele ano. Em 10 de julho de 1972, locomotivas da estrada de ferro Madeira-Mamoré, em Rondônia, apitaram durante cinco minutos, despedindo da população: a ferrovia encerrava suas atividades.

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A sirene foi inventada pelo francês Charles Caignard de la Tour, em 1822.

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Algumas invenções que usamos no nosso dia a dia sem pensar que foram feitas por brasileiros: o escorredor de arroz, criado pela dentista Therezinha Beatriz Alves de Andrade; o bina (identificador de chamadas telefônicas), pelo mineiro Nélio José Nicolai… e quando fazemos ligações telefônicas a cobrar, nem pensamos que seu inventor é Adenor Martins de Araújo. Ah, o cartão telefônico usado no Brasil (é diferente do usado em outros países) foi criado na Unicamp, por Nelson Guilherme Bardini.

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Um narcótico muito eficaz produzido na Alemanha tinha uma marca inspirada na palavra herói, por seu efeito extraordinário. A marca comercial, em alemão, era Heroin. O termo entrou na linguagem científica no final do século XIX, mas a heroína acabou sendo proibida no mundo todo.

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A primeira vez que a seleção brasileira de futebol jogou com a camisa amarela foi em 1954, na Copa realizada na Suíça.

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O maior goleador de uma Copa só foi o francês Fontaine, que em 1958, na Suécia, marcou 13 gols… Quer dizer, francês entre aspas: ele nasceu no Marrocos. Era filho de um funcionário francês.

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O Olodum, bloco-afro do carnaval de Salvador, na Bahia, foi fundado em 25/04/1979, como opção de lazer aos moradores do Maciel-Pelourinho, garantindo-lhes o direito de brincar o carnaval em um bloco e de forma organizada. Depois da estréia, no carnaval de 1980, a banda conquistou quase dois mil associados e passou a abordar temas históricos relativos às culturas africana e brasileira. O primeiro LP da banda, chamado Egito, Madagascar, foi gravado em 1987 e estourou na Bahia, com a música Faraó.

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Quem introduziu a marcação de gado na América foi Hernán Cortez, o conquistador do México. Vaca ou cavalo marcado com três cruzes, todos sabiam: era dele. O costume se estendeu pelas pradarias de onde viria a ser o oeste dos Estados Unidos, onde o gado era criado solto.

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A América tem seu nome em homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio, que esteve por aqui a serviço da Espanha e de Portugal. Colombo, o “descobridor” da América, também era italiano, a serviço da Espanha. Cabot (cujo nome verdadeiro era Giovanni Caboto), comandou os primeiros navios ingleses que chegaram à América. Mas nenhuma embarcação italiana esteve na América na época.

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Em Roma, quando alguém casava, espalhava-se gotas de mel na soleira da casa dos noivos. Daí, passaram a chamar de lua-de-mel a primeira fase do casamento.

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Cada um dos cinco anéis entrelaçados que simbolizam os jogos olímpicos representa um continente. O azul representa a Europa, o preto a África, o amarelo a Ásia, o verde a Oceania e o vermelho a América.

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De 1959 a 1964, a Guerra do Vietnã era mais ou menos restrita aos Vietnãs do Norte (comunista) e do Sul (capitalista), embora houvesse apoio indireto da União Soviética ao Norte e dos Estados Unidos ao Sul. Em 4 de agosto de 1964, os Estados Unidos alegaram que torpedeiros do Vietnã do Norte haviam atacado navios estadunidenses no Golfo de Tonquim e entrou com tudo na guerra. A informação era falsa, só uma desculpa para sua intromissão direta. A guerra acabou se alastrando para os países vizinhos.

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Sempre que ia presidir reuniões oficiais em sua corte, a bela rainha Cleópatra, do Egito, usava barbas postiças.

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Você conhece um esporte chamado mintonette? Esse é o nome que Willian G. Morgan deu ao esporte que inventou em 1895, quando era diretor de educação física da Associação Cristã de Moços da cidade de Holyoke, Massachusetts, Estados Unidos. Na época, era moda um esporte criado quatro anos antes, o basquete, muito bom para jovens, mas cansativo demais para pessoas um pouco mais velhas. Por sugestão de um pastor, Morgan criou um esporte mais adequado para essas pessoas. No ano seguinte, o mintonette mudou de nome, passou a se chamar volleybol, é o vôlei de hoje. Em 1910, o Peru foi o primeiro país sul-americano a praticar o vôlei. O primeiro campeonato sul-americano de vôlei aconteceu no Brasil, na quadra do Fluminense, Rio de Janeiro, em 1951. O Brasil foi campeão masculino e feminino.

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O recorde de público do Pacaembu foi batido em 23 de maio de 1945, quando Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, estreou no São Paulo, contra o Corinthians, com 74.078 pagantes de ingressos. Leônidas, famoso pelos gols de bicicleta, tinha vindo de três temporadas de sucesso no Flamengo.

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A primeira mulher a tornar-se senadora no Brasil não tinha nada de progressista. Eunice Michiles, da Arena do Amazonas, era suplente e assumiu o lugar do titular, em 11 de maio de 1979.

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O nome do alfabeto cirílico, usado nos idiomas russo, bielorrusso, búlgaro, sérvio, cazaque e outros de países da antiga União Soviética, deve-se a São Cirilo, que viveu de 827 a 869. Ele e seu irmão, São Metódio, eram missionários e criaram esse alfabeto no século IX, usando caracteres de outras línguas, como o hebraico e o grego, para transcrever a Bíblia para línguas eslavas.

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Artéria significa “condutor de ar”. Esse nome foi dado pelo médico grego Praxágoras, que pensou que as artérias transportassem ar. Nos cadáveres, geralmente elas estão vazias.

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Rosário, poeta popular de Nova Resende, chamava seus poemas caboclos de “décimas”. Aí vai o trecho inicial de uma de suas décimas:

Cachaceiro entrô na venda,

Sentiu mágoa e chorô,

Quando o vendeiro disse

Que a cachaça cabô.

 

Ó, que notícia cruel,

Ó, que notícia tirana!

Num sei pra que tanto engenho,

Num sei pra que tanta cana!

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Assim disse Leon Tolstoi, horrorizado ao ver uma execução pública em Paris: “Jamais, sob qualquer circunstância, servirei a nenhuma forma de governo, seja lá qual for”.

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Ou clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

2 comentários em Cultura inútil: Romanos comiam rabudos

  1. Sulista de Merda // 01/05/2015 às 1:27 // Responder

    Vai enganar outra pessoa seus lixos, nós nordestinos não comemos ratos. E se alguem comer rato é problema dessa pessoa, se vc viu alguem comendo rato, problema seu, não generalize seu filho da puta. E não reclame de xingamentos, pois você pediu pra ser xingado.

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    • Clovis Pacheco F. // 25/05/2016 às 15:03 // Responder

      Quem está morrendo de fome dome de tudo, até rato. Isso é fato documentado, não só no Nordeste, mas em muitos outros lugares do mundo. E no Brasil, não só no Nordeste, mas também em muitas favelas do Sul. Quanto a mim, não vou me dar ao trabalho de xingá-lo. Sua ignorância e prepotência já o fazem por si mesmas. Ô, inguinoransça que astravanca o pogréscio!

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