Lições de Junho: culpa do PT e hipocrisia de FHC

14.10.22_Yuri_Culpa e hipocrisiaBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Yuri Martins Fontes.*

O cenário trágico eleitoral que se apresentou nas eleições deste ano, com reforço significativo das alas mais conservadoras, racistas, fundamentalistas e intolerantes do espectro político nacional, revela a “culpa do PT” – que a mídia tanto alardeia com argumentos vazios: o PT despolitizou os trabalhadores, despolitizou os sindicatos e despolitizou por fim a própria esquerda, que se perdeu desde a vitória de 2002.

Com a juventude rebelde que cresceu durante os 12 anos de lulismo, não seria diferente: sujeita a ambas as despolitizações, enquanto sujeitos críticos (por parte do PT) e enquanto progressistas (por parte da mídia conservadora). A  juventude de tendência anarquista, subversiva, que falou alto nas ruas do junho passado, agora se cala. Não consegue enxergar nenhum rumo. Diante da neblina, da visão curta, talvez cansada da mesmice, do freio de mão puxado do petismo-paz-e-amor que se equilibra entre reformas sociais e interesses empresariais, os jovens formadores de opinião da nossa tradicionalmente simplória “classe média” se apegam ao pouco conceito que ainda logram compreender: “mudança”. “Mudar” – é a palavra de ordem.

Entretanto, o petismo nada fez para mudar essa pecha trágica herdada do colonialismo: a elite “xucra” de que falava Caio Prado Júnior sobre sua classe, continua tendo por reflexo classes médias de pouca leitura, pouca profundidade de análise, que no afã de mostrar algum valor individual crítico, expõem sua maior ignorância: o desconhecimento completo de seu próprio “interesse de classe”, sua ambição tola por um “consumo” de elite (aliás insustentável – embora, como se vê, os Verdes se aliem a fascistas neste país improvável).

A culpa é do PT. O petismo aumentou a qualidade de vida material, mas se “esqueceu” de melhorar o ensino e de “civilizar” a imprensa. Investiu mais em emprego, consumo e diplomas, do que em consciência do trabalhador, cultura geral e conhecimento crítico.

E Fernando Henrique, a velha raposa, como “marxiano” que é (ou seja, aquele estudioso que percebe a genialidade do marxismo, porém o usa apenas em parte, de modo a não ameaçar o status quo), o professor tucano não pode ter se esquecido do que leu (ainda que o tenha do que escreveu) – sabendo pois o quanto está sendo hipócrita ao dizer que o eleitor de Dilma é ignorante ou desinformado. Pelo contrário, o povo mais humilde, com menos acesso à educação formal, ao ser desprovido de informação técnica, ainda consegue ter a sensibilidade de dar valor à sua intuição humana, única arma que lhes resta. Assim, talvez ao pensar na fome que passou, no futuro dos filhos que já trabalham, preserva a lembrança de que há muito pouco tempo ele e sua família se tornaram gente “humana” (às vistas do Estado) – e intuitivamente vota segundo seu “interesse de classe”. Portanto vota inteligentemente – no sentido de que age para si, pelos seus.

Já o semianalfabeto mediano que em geral compõe a burguesia brasileira tucana, desde a pequeno-burguesia ascendente, ao novo empresário que jamais leu um livro inteiro (nem mesmo um “tipo assim” Harry Potter), e mesmo a classe média mais alta e cultivada, que leu  Dostoiévski, ainda que sem compreender bem suas derivações psicológicas macabras: estes todos, os “bem informados” pela Universidade do Estado-Folha-Veja-Globo e seus manuais amorais em louvor da deusa “competitividade”, sendo educados pela metade, não alcançam a perceber, perdidos em meio a tanta informação inútil que lhe chega da imprensa parcial e sem conteúdo, este conceito tão simples (ainda presente intuitivamente naquele que tem medo da fome): o “interesse de classe”.

Como observa Nietzsche, amparado pela longa tradição da sabedoria oriental (ao criticar a “decadente civilização ocidental burguesa-cristã”): “É melhor não saber nada que saber muita coisa pela metade”. E o pior ocorre quando esta metade é o exato ponto de vista do grupo “opositor”, da gente “diferenciada”, a “metade” cujo grande pedaço de bolo, sendo maior ou menor, não caberá a quem trabalha. É esta metade tresloucada, atucanada por 5 séculos, quem vota contra seus interesses de classe – e não o eleitor de Dilma, como quer sugerir o decrépito marxiano.

Deste modo, o fenômeno surreal que ora se apresenta é este: a galinha vota com o lobo – a classe média recém-ascendente, ao lado de boa parte do povo, puxado pelo inflamado movimento anárquico de Junho de 2014, cansados da lentidão petista, percebendo o PT como mais um partido da ordem que de fato é (e portanto corrompido por interesses empresariais como todos os que se metem na política eleitoreira com chances de se eleger) – os tão ávidos por mudanças, gritando por transformações, querendo tudo mudar e sem demora, ao invés de promover pressão sobre o partido que de leve acena a uma política social, pelo contrário, votam a favor de sua classe antagônica, seus inimigos sociais naturais: votam pela mudança regressiva ao mais arcaico.

E para constatar o grau de estupidez desta atitude – esta sim uma “ignorância” como quer FHC –, não é preciso ir longe: basta observar com quem andam, diz a sabedoria popular. Vejamos: os tais arautos das “mudanças” estão hoje, ao lado dos militares (torturadores do Círculo Militar, oficiais da PM, etc) que os espezinham à porta de casa e assassinam seus filhos, dos felicianos e bolsonaros que pregam seu medieval integralismo ariano-hetero-cristão, dos especuladores das bolsas de valores e demais crápulas da jogatina financeira que jamais produziram um prego. Enfim, os “rebeldes” estão alinhados com os neoliberais que põem a “liberdade” dos lucros bancários, antes das migalhas dos programas sociais; da direita elitista mais mesquinha – e míope (pois que sequer enxerga as vantagens que lhe cabe em se diminuindo a desigualdade).

Os ignóbeis de FHC votam enfim no que lhes propõe a mídia, o “partido” da imprensa golpista, porta-vozes de uma classe que não é a sua – e votam (creem eles) “conscientemente” – pois essa é a pouca informação que lhes coube neste mar de lama da cultura geral. No pouco tempo que têm após o trabalho, o copo com os amigos e os games, tudo que sabem vem do jornal enlatado, da televisão infantil, dos fragmentos de notícias da mídia empresarial, das manchetes de revistas penduradas nas bancas.

E a culpa aqui também é do PT: pois não teve coragem de enfrentar uma mídia que mais do que suja, começa visivelmente a apodrecer (veja-se a Veja, que de discretamente fascista, passou a neonazista declarada; ou a Folha que propaga a “imparcial” publicação de opiniões divergentes, mas demite Xico Sá, permitindo espaço só aos rasos papagaios reinaldos-azevedos).

Que irônica essa contraditória conclusão das Revoltas de Junho: a tão rebelde e livre classe média, sem comando nem partido – anárquicos que queriam o céu, arrebanhados, ajoelham-se a candidatos que vão lhes tolher seus pequeninos direitos humanos (ao invés de “apenas” manter aquele partido lento, culpado é verdade, mas que sem avançar, preservava suas míseras melhorias).

E como todo Estado é a ditadura de uma classe – estamos próximos a entrar na ditadura dos Jardins, daquele grupo mais mesquinho que culpa pelo trânsito o trabalhador que agora tem automóvel, e que não tolera que o metrô chegue a Higienópolis ou que haja museu público na Avenida Europa ao lado das lojas de carros importados: o grupo social mais conservador, mais opressor, mais rígido frente ao apelo social, e mais permissivo com os lucros vergonhosos do 1% sobre o trabalho dos 99%. Não à toa Mariátegui ponderou que “o anarquismo é a extrema esquerda do liberalismo”.

A culpa é do PT, por durante mais de uma década ter valorizado somente o ter, à revelia do ser – por não ter sabido construir uma nova classe média formadora de opinião minimamente culta, que pudesse compreender que o aumento matemático do PIB não traz diretamente qualidade de vida, que o conhecimento não serve apenas para se ler gráficos econômico-estatísticos, mas antes de tudo deveria servir para resolver o problema humano de 99% da população – que em última análise será o dos 100%.

A situação ao que parece, em breve se agravará. Vê-se a Europa e Israel como exemplos da intolerância e ascensão nazifascista. Mas ao menos um ponto pode acalentar aos espíritos mais desapegados (ou menos prejudicados economicamente para sobreviverem e ver): também os 1% hão de sentir em curto prazo a fúria do declínio da civilização ocidental, já programada por tantos pensadores há mais de século, mas que agora se acentua.

O extremismo islâmico não é mais que o reflexo da intransigência ocidental. Como a mediocridade crítica, característica geral das classes médias tucanas, ao contrário da falácia de Fernando Henrique, não passa de reflexo do “baixo nível cultural e político” das elites brasileiras (o que Caio Prado ressalta nos anos 1970 com tanta propriedade, posto que ele nasceu, conheceu e traiu esta classe) –, o que tem por consequência uma “deficiente educação” que impregna a sociedade como um todo:

“A burguesia […] isolada dos centros propulsores da moderna civilização e cultura”, “sem passado nem tradição”, mantém seus “baixos padrões culturais […], reduzidas aspirações e baixo nível ideológico” – e isto persiste por entre a “generalidade dos empresários”
(Caio Prado, A Revolução Brasileira, p.166, ed. 1966; Formação do Brasil Contemporâneo, p.355, ed. 2000).

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Yuri Martins Fontes é tradutor, jornalista (política internacional e cultura), fotógrafo e professor, atualmente é doutorando em História Econômica, com a tese Formação do Pensamento Latino-Americano Contemporâneo: Crítica do Conhecimento, Desenvolvimento e Economia Nacional em Caio Prado Jr. e J. C. Mariátegui, orientada por Lincoln Secco. Traduziu, entre outros, Defesa do marxismo (Boitempo, 2011), de Luiz Carlos Mariátegui e Revoluções (Boitempo, 2009), organizado por Michael Löwy.

O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

1 comentário em Lições de Junho: culpa do PT e hipocrisia de FHC

  1. Carlos Alexandre Herreira // 23/10/2014 às 11:03 // Responder

    Parabéns, boa análise.

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