Reeleger Dilma e mudar mais

14.09.23_Reeleger Dilma e mudar maisPor Izaías Almada.

O mundo gira, a Lusitana roda e ficamos todos no mesmo lugar. Calma, amigo leitor, não se deixe emprenhar pelo ouvido ou pelos olhos. É uma frase como outra qualquer, despretensiosa.

Já não houve alguém no passado que disse que tudo que é sólido se desmancha no ar? Há sempre alguma coisa que muda, para pior ou para melhor. Nosso desejo é que seja sempre para melhor, não?

É claro que entre o homem de Neanderthal e o meu vizinho aqui do apartamento ao lado há toda uma história para se contar, repleta de altos e baixos, de avanços e recuos, mas a distancia entre a razão e o coração permanece a mesma, ora privilegiando uma, ora privilegiando outro. Quando se encontra algum equilíbrio nessa química, dirão os sábios, reina a paz e a alegria. Será?

O mundo contemporâneo cada vez menos se compraz com a verdade. Ou dela se beneficia. Mas, afinal, o que é a verdade, perguntarão os filósofos de botequim e os verdadeiros…

Diante dos lugares comuns com que abro o artigo, que de tão comuns não chegarão a sensibilizar as almas bem mais eruditas que a minha, debruço-me com algum cuidado sobre as próximas eleições de outubro na, ingênua talvez, expectativa de encontrar explicações para o que ouço e leio e até preparar o espírito para um possível desastre anunciado. Repito: possível, mas não desejado… E pelas últimas pesquisas de intenção de votos, apenas anunciado.

Pois guerra é guerra, venha ela pela ponta das baionetas, dos drones ou pelas manchetes de jornais, revistas e telejornais irresponsáveis. Em particular nos países que ainda não se despiram de preconceitos seculares dos mais variados matizes e letárgica aculturação.

Na ânsia de ler o noticiário do dia a dia das eleições defronto-me com frases como “Chico Mendes era um homem de elite”, “A formação de cartel não é crime”, “O PSDB é contra toda e qualquer corrupção”, “Quero governar com os melhores”, “Vamos atualizar as leis trabalhistas”, “O governo colocou um diretor na Petrobrás para roubar” e toda uma cantilena de idiotices e frases ocas, o que não é de se estranhar se levarmos em conta, por exemplo, que Barak Obama é premio Nobel da Paz. E o mensalão mineiro, o do PSDB, nunca existiu. Em se tratando de nonsense

Na geléia geral da propaganda política para o grande evento do próximo cinco de outubro o que sobra é a pobreza generalizada das candidaturas de oposição ao atual governo, algumas escancarando o lado grotesco dos candidatos e seus discursos vazios de ideias e carregados de ignorância, preconceito, algum humorismo e, sobretudo, de pessimismo.

Nesse item, uma vergonha! Cidadãos e eleitores merecem mais respeito e consideração. Já que o espetáculo da democracia representativa burguesa nos oferece o “horário eleitoral gratuito” (sic), nada nos impede de ver ali o raio-x desse jogo do vale tudo.

A presença e o discurso de alguns dos candidatos, o Levy, o Eymael, o pastor fulano de tal, enfatiza o deboche da própria democracia que defendem e dizem representar. Dedicar três ou quatro linhas do artigo a essa baboseira já é demais. Haverá sempre a possibilidade de qualquer um de nós recorrermos ao soro antiofídico.

Em seguida, as propostas ingênuas e até fora de contexto dos candidatos da esquerda radical que, excetuada a convicção e alguma coragem com que defendem suas ideias, corretas muitas delas, não dialogam com o eleitor que quer encontrar respostas imediatas às suas necessidades do dia a dia e não ouvir apenas proselitismos políticos e ideológicos.

Por último, o confronto entre os três candidatos que terão a maioria dos votos daqui a dez dias. Para a oposição conservadora e a da ‘nova política’ o leitmotiv é a corrupção, crime que surgiu no Brasil a partir de 2002 e, pelo visto, só existe no atual governo, na Petrobrás e no Partido dos Trabalhadores. Nunca antes nesse país se encontrou tanta corrupção.

“Quem não tiver culpa que atire a primeira pedra”… Não foi esse, entretanto, o ensinamento maior do líder de toda essa gente? Perguntem ao Malafaia e ao padre Marcelo. Aos fundamentalistas da revista Veja ou aos tribunais da Inquisição em que se transformaram os entrevistadores televisivos da presidente Dilma nessa campanha.

A operação plástica de Aécio Neves e o ar angelical de Marina Silva ao se referirem à corrupção alheia são de dar enjoo em antiácidos estomacais. O cinismo com que querem nos colocar no canto da sala de aulas com orelhas de burro na cabeça chega a ser doentio e criminoso. E sempre que possível amparado pela justiça eleitoral ou outras justiças espalhadas pelo país.

E por falar nisso, onde foi parar o látego negro depois de cumprir sua função de juiz imparcial?

Goste-se ou não, concorde-se ou não, a campanha demonstra com propriedade que o único programa que se salva é o do próprio governo tanto em forma como em conteúdo. Mostra o país em transformação dos últimos doze anos e o muito que ainda se pode fazer. Um esforço hercúleo para quebrar a parede de concreto erguida pela mídia impatriótica entre o governo e os cidadãos, em particular os que ajudam a sustentar o país com o seu trabalho de sol a sol.

Os smartfones e ifones com seus selfies e outras surpresas (e bobagens), as redes sociais estão expondo as vísceras da luta de classes no Brasil.

De resto é a falácia, a crítica pela crítica, inúmeras acusações sem provas, a construção de um pessimismo odioso e odiento que só prejudica, à saída, aos menos favorecidos da pirâmide social. E à soberania do país.

Não é difícil, para quem ainda não vendeu a alma ao diabo, fazer tais constatações, até porque a direita e muitos de seus despolitizados adeptos, já não tem o menor pudor em mostrar as entranhas do jogo que propõe jogar.

Tudo cheira a mofo e a passado, a uma hipocrisia nauseabunda, quando varrem para debaixo do tapete de suas consciências o criminoso assalto contra o patrimônio público praticado em governos de seus ‘líderes’.

Ou ainda quando substituem o diálogo e a contra argumentação, em defesa de suas ideias (?), pela violência verbal ou mesmo física fazendo surgir aqui e ali traços inequívocos de intolerância, de um fascismo reprimido que vem à tona e procura fazer ‘justiça’ com as próprias mãos.

Há que reeleger Dilma Roussef sim. Qualquer outro resultado poderá deixar o Brasil e a América Latina às portas de um extemporâneo retrocesso político e social que a minha geração conheceu bem e que as novas gerações não fazem por merecer.

O que tem que ser tem muita força.

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

10 comentários em Reeleger Dilma e mudar mais

  1. Diego Polese // 25/09/2014 às 17:51 // Responder

    Que decadência da esquerda… cada dia me surpreendo mais com o quanto ela continua sendo conformada pelas estruturas históricas alienantes do sistema do capital. Reeleger “um governo” já seria contraditório com as próprias ideias socialistas de ruptura política com o capitalismo. Agora reeleger um governo cada dia mais à direita é mais contraditório ainda..

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  2. De fato, vejo entre meus sobrinhos na faixa de 20-32 anos muito desconhecimento sobre a política. São “cabeças feitas” pela VEJA, FOLHA, etc . Justamente eles, beneficiados com o aumento do número de Universidades Federais, ITF’s, e o Universidade Sem Fronteiras. É de assustar,…

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  3. “O que tem que ser tem muita força”, quero acreditar, Izaias, que reelegeremos Dilma para que haja continuidade no refazimento do nosso país, para que “o bolo”, que só nos últimos anos começa a ser distribuído, assim continue, permitindo um tanto a mais de oportunidade para esse povo corajoso realizar e dar maior sentido a suas vidas. Um abraço.

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  4. José Erb Ubarana // 26/09/2014 às 2:21 // Responder

    Descobri um lugar onde se cultiva o bom-senso, a inteligência e o combate ao anti-progresso. A luta continua!

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  5. Anna Christina de Camargo Biller // 26/09/2014 às 13:15 // Responder

    26.09.2014
    Sr. Izaias,

    Agora entendo o porquê da procuração que o senhor deu para a eleição do síndico de seu prédio.
    Realmente foi muito surpreendente, pois sua atitude foi diametralmente oposta ao seu discurso.
    Que pena.
    De qualquer maneira desejo-lhe toda a sorte do mundo.
    Anna Christina Biller

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  6. arlene laurenti // 27/09/2014 às 15:51 // Responder

    Se vc me apontar alguma mudança estrutural que a presidenta Dilma fez, talvez eu reeleja ela. Quero estar convencida. Como milito ha 32 anos no setor público de saúde, o q consigo enxergar é: o corte de verba para a saúde de 5% para 4% no governo Lula e mantido pela atual Presidenta. Pessoas morrendo nas filas das unidades de saúde e sem medicação de quimioterapia, só para citar alguns, e Lula e Dilma indo para o Sírio Libanes tratar os seus canceres. Os banqueiros cada vez mais ricos, e os trabalhadores tendo que pagar a conta do país com seu trabalho. Os municípios falidos – lugar onde vivem as pessoas – e o governo federal para manter seu poder concentrando 75% da riqueza do país. Os aposentados cada vez mais pobres, e por aí a fora. E aqui meu amigo deixo “una memoria” de Gramsci

    “É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência”

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  7. Rodrigo Freire // 27/09/2014 às 23:25 // Responder

    Será que os FINS justificam os MEIOS?
    Não há dúvida, inclusive por palavras de filósofos e fundadores do PT (como Marilena Chaui) que o PT assumiu a estratégia de usar estratégias e métodos necessários para assumir o poder e reestruturar o Partido, logo após Lula perder sua quarta tentativa de eleição à presidente.
    Hoje fica claro que as tais estratégias e ferramentas são o uso de instrumentos corruptos de coerção política para construir e manter um sistema de base aliada partidária, corrupta e interessada somente em abocanhar pedaços de ministérios e agências públicas.
    Asseitaremos essa lógica de os Fins (de estar no Poder) justificam os meios (de coligações políticas espúrias e usos de sistemas de compra de votos e lavagem de dinheiro)?
    Esse é o melhor sistema que temos?????

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  8. Victor Santos // 29/09/2014 às 18:08 // Responder

    Por curiosidade, pesquisei rapidamente quantas vezes a palavra “impatriótico” aparece nos textos do autor. Choquei.

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  9. Alencar Andrade // 03/10/2014 às 0:47 // Responder

    Alguém que tenha a ignorância de escrever “Qualquer outro resultado poderá deixar o Brasil e a América Latina às portas de um extemporâneo retrocesso político e social.”, não merece ser lido, considerado sério ou politizado. É apenas um panfleto tosco, inútil. Se ele fala de vazio no debate político, este “artigo” é o ápice da mediocridade.

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  10. Acredito no poder do trabalho // 07/10/2014 às 20:45 // Responder

    É engraçado que o os PeTralhas fazem algo pro País, nunca roubaram, só os outros da dó de quem pensa assim

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