Política e megaeventos esportivos

Rio de Janeiro - arena MaracanãPor Camilo Onoda Caldas.

1. O ESPORTE NO ESPELHO DA TEORIA

Alysson Leandro Mascaro trouxe-nos a análise contemporânea mais rica a respeito da relação entre Estado, capitalismo e política, em Estado e forma política, publicado pela editora Boitempo em 2013. A Copa do Mundo de Futebol é um evento a ser compreendido a partir das contribuições deste filósofo cujas teorias se destacam no cenário nacional e cuja mais recente obra em breve chegará aos demais países da América Latina. Sua abordagem sobre a estrutura e o funcionamento do Estado remete à minha Tese de Doutorado defendida na USP, em que trato da teoria da derivação do Estado, que tem no filósofo Joachim Hirsch um dos principais expoentes contemporâneos.

O conjunto de tais análises teóricas críticas permitirá avançar sobremaneira na compreensão de questões como a da Copa do Mundo no Brasil e, ao final deste artigo, notaremos que as ponderações críticas a respeito da Copa e de outros grandes eventos esportivos abrangem necessariamente um estudo da totalidade econômico-social, sendo impossível “despolitizar” os grandes eventos esportivos como querem alguns, por ingenuidade ou má-fé.

Para uma teoria crítica do esporte

Há uma vasta literatura que procura mostrar as relações entre o desenvolvimento do capitalismo industrial e as transformações do esporte. Geralmente, trata-se de estabelecer uma linha de raciocínio análoga a de outros pensadores marxistas, seguindo, por exemplo, as contribuições teóricas da Escola de Frankfurt a respeito da Indústria Cultural. A partir das linhas gerais do pensamento de Karl Marx e de outros intelectuais, os estudiosos do tema procuraram mostrar que o esporte é uma espécie de relação social que somente pode ser compreendida a partir de um estudo das demais relações sociais existentes, principalmente as do campo da economia. Concomitantemente, ainda dentro desta perspectiva, a sociologia do esporte tem como objeto entender como a relação entre educação e esporte se transformou historicamente.

Sociologia do esporte

A sociologia do esporte mostra-nos como a atividade esportiva desenvolveu-se integrando os processos pedagógicos existentes. Na Grécia antiga, ícone do ocidente, a atividade esportiva estava voltada à formação do cidadão virtuoso. O esporte relacionava-se ao campo político, religioso e moral. Além disso, a atividade esportiva estava ligada ao preparo físico do cidadão para a atividade militar. O pentatlo da civilização grega envolvia as habilidades de um soldado na antiguidade: corrida, salto, luta, lançamento de dardo e disco (este último ligado diretamente ao ritual fúnebre/religioso). A ligação entre militarismo e olimpismo nunca se dissolveu totalmente e manteve seu vigor até o advento das Olimpíadas modernas. O pentatlo moderno abrangia as atividades de um militar do século XIX: corrida, nado, hipismo, tiro e esgrima. No entanto, as modalidades esportivas que subsistem na atualidade surgem dentro de uma realidade social distinta da antiguidade e estão ligadas ao conceito de Esporte Moderno, que, não por acaso, surge no país ícone do capitalismo do século XIX: a Inglaterra. A partir das iniciativas de Thomas Arnold em 1820 há a institucionalização e padronização dos esportes por meio de codificações. Nesse contexto nascerá o futebol da forma como o conhecemos.

Futebol, disciplina e moralidade

Não existe consenso a respeito da origem do futebol. No entanto, existe um marco contemporâneo para sua fundação: o famoso Código de Cambridge que padronizou as regras do futebol. Os irmãos Thring (Henry de Winton e John Charles) lideraram essa iniciativa e viam no esporte uma função pedagógica ainda ligada a questões morais, religiosas e militares. Aliás, a visão desses professores ingleses é uma boa ilustração das teses de Michel Foucault a respeito das técnicas disciplinares emergentes em meados do século XIX (o esporte nunca perdeu completamente este sentido, sendo ainda utilizado como meio para disciplinar o sujeito e produzir corpos saudáveis e produtivos). Para os irmãos Thring, o esporte deveria ser utilizado para:

  1. reprimir desvios de conduta no campo sexual, evitando assim atividades consideradas pecaminosas: homossexualidade, masturbação e prostituição (função moral);
  2. valorizar a união de grupo e o trabalho em equipe (função militar).

Disciplina, técnica, rendimento e resultado marcarão o padrão de desenvolvimento do Esporte Moderno. Concomitantemente, o Olimpismo, proposto pelo Barão de Coubertin, dentro de um ideal universalista, procuraráromper o padrão aristocrático do esporte em defesa da prática popular, ou seja, do amadorismo. Esse ideal, no entanto, entrará em contradição com dois elementos que se relacionam entre si: o nacionalismo e o capitalismo.

Esporte e nacionalismo

A relação entre esporte e política não é contemporânea. No entanto, no século XX, o esporte se torna uma peça de propaganda política e é utilizado como elemento de agregação por meio da ideia de nação. Na ciência política, há um consenso de que a o nacionalismo é um dos elementos centrais para o desenvolvimento dos Estados modernos. Na perspectiva marxista, o surgimento do Estado de Direito e do nacionalismo contemporâneo deriva do predomínio do modo de produção capitalista (vide Estado e forma política de Mascaro). Quando se trata de exemplificar o uso político do esporte, costuma-se recorrer às iniciativas adotadas pelos nazistas na Alemanha, sobretudo nos Jogos Olímpicos de Berlim (1936). No entanto, a instrumentalização políticado esporte ligada à exaltação do nacionalismo pode ser vista durante a guerra fria (EUA vs URSS), após o fim do Apartheid na África do Sul (o filme Invictus, de 2009, ilustra este episódio), na copa do mundo de 1970 (durante a ditadura militar no Brasil) e em diversas outras ocasiões. O esporte moderno se torna uma política de Estado e o resultado, metrificadopor medalhas e títulos, é a evidência do êxito. No caso dos Jogos Olímpicos, tanto o antigo bloco soviético, quando o norte-americano, criaram vários métodos para burlar o amadorismo que deveria existir neste evento segundo os ideais de Coubertin. O fim institucional deste modelo começou a ocorrer a partir da década 1970, período que coincide – não por acaso – com a crescente mercantilização do esporte.

Lógica do rendimento esportivo

O esporte, segundo uma definição recorrente, é uma atividade que exige esforço físico e tem caráter competitivo. O crucial é entender que escalada pelo rendimento não é simplesmente um fenômeno natural ou intrínseco à competitividade esportiva. Os objetivos político-nacionalistas buscados por meio do esporte demandavam resultados que contrariavam os ideais do amadorismo e a famosa máxima olímpica de que “O importante é competir”. No entanto, o combustível da transformação esportiva não foi apenas político, mas também econômico. A admissão definitiva do profissionalismo olímpico, ocorrida na década de 1980, é resultado da eleição de Juan Antonio Samaranch, presidente do Comitê Olímpico Internacional, em 1966. A ele se atribui a famosa frase: “Não se lucra com atletas convictos de que o importante é apenas competir”. Os outros protagonistas dessa história são o alemão Horst Dassler – herdeiro da Adidas e dono da ISL, a maior empresa de marketing esportivo do mundo – e seu amigo brasileiro, João Havelange, que ingressou no Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1963, foi presidente da Fédération Internationale de Football Association (FIFA), de 1974 a 1998, e trouxe a Coca-Cola como grande corporação não relacionada ao esporte para patrocinar eventos dessa natureza. Juntos, os três foram responsáveis por fazer com que o esporte e seus principais eventos se integrassem definitivamente à lógica da economia capitalista.

Lógica da acumulação de capital

No capitalismo, conforme explica Marx, os produtos do trabalho se tornam mercadoria, ou seja, não são criados simplesmente para satisfazer uma necessidade, mas especialmente para circular no mercado e possibilitar a acumulação de capital. A lógica mercantil do capitalismo tende a se disseminar na totalidade das relações sociais, penetrando nas mais diversas formas de sociabilidade. Isso é valido, inclusive, para o esporte. Quanto mais próximo da lógica mercantil,mais o esporte deixa de se apresentar como atividade voltada para preparação militar ou para o mero entretenimento. Ele passa a ser visto como um negócio, como uma fonte de lucro, vinculando-se diretamente à produção, circulação e consumo de mercadorias.

Nesse contexto, os grandes eventos esportivos são plenamente dominados pela lógica do resultado: vitória significa lucro, derrota significa prejuízo. Não estar no topo do ranking implica em menos patrocinadores, menos negócios, menos contratos com televisão etc. O esporte enquanto negócio impulsiona extraordinariamente a competitividade: a competição comercial é trazida para a arena da competição esportiva. As técnicas e tecnologias esportivas se devolvem numa escala inédita, o uso do doping se difunde e as lesões esportivas, que atingem praticamente todos os esportistas profissionais, resultam na negação da velha máxima: “esporte é saúde”. Os defensores da legalização do doping afirmam que a nocividade das substâncias hoje consideradas ilícitas equivale em muitos casos ao do esporte em si e portanto estaria justificada. O esgotamento corporal em prol do espetáculo se conjuga perfeitamente com a ideologia capitalista, justificando-se a partir de duas idéias que lhe são típicas: a liberdade individual (o sujeito-atleta decide)e o ganho patrimonial (o atleta é remunerado).

No entanto, o que está em jogo neste contexto não é simplesmente o desejo individual ou coletivo pelo “mais alto, mais forte, mais rápido”. O esporte enquanto negócio demanda um conjunto de novas práticas e ideologias, ou seja, muda a própria noção do que é desejável e do que pode e deve ser feito.

Esporte e forma jurídica no capitalismo

Assim como acontece com o direito, numa economia mercantil, o esporte se torna autorreferenciado, distanciando-se de outros domínios (religião, moral etc). Do mesmo modo, passa a ser considerado “adequado” – tanto no direito como no esporte –aquilo que está apto a produzir resultados no processo de acumulação do capital. E finalmente, esporte e direito no contexto capitalista são institucionalizados e codificados, permitindo um conhecimento técnico.

A forma jurídica e a forma do esporte moderno se imiscuem, relacionando-se ambas ao desenvolvimento da forma mercantil. No direito, um conjunto de técnicas e normas garante a certeza e segurança jurídica, racionalizando o uso da violência por meio do Estado. No caso do esporte, a figura do árbitro equivale a do magistrado, o terceiro imparcial que tem o poder de decidir sobre os conflitos (figura impensável no esporte-recreação, mas indispensável no esporte-negócio). Há ainda, a “Justiça Desportiva”, feita por entidades privadas que imitam perfeitamente o modelo da jurisdição estatal. No futebol especificamente, as diversas regras como o cartão amarelo e o vermelho são modos para racionalizar as sanções, mas também para legitimar o uso da violência dentro do campo (a Sociologia do Esporte mostra, inclusive, que o espectador mimetiza isso fora do campo).

Novamente, cabe notar, as formas simbólicas e institucionais de controle desaparecem no esporte-recreação. Uma vez que o esporte encontra uma vinculação inédita às relações sociais existentes no campo da economia, seu significado, o modo como se apresenta na consciência, modifica-se igualmente.

2. O ESPORTE HOJE NA LÓGICA DO CAPITAL

As expectativas sobre o esporte

O significado que o esporte possui contemporaneamente não pode ser explicado apenas a partir das particularidades do modo de produção capitalista. No entanto, ao contrário do que pretendem alguns teóricos, este é um elemento que não pode ser desconsiderado quando se trata de compreender como esta atividade se insere socialmente. O esporte-mercadoria ganha uma autonomia própria, diferentemente do que ocorriana antiguidade, quando se relacionava com a religiosidade e a moralidade (fenômeno, aliás, semelhante ao que acontece com o direito contemporâneo, na economia capitalista, que também se distancia desses âmbitos). Essa autonomia implica em uma alteração do ponto de vista estético e ético.

Do ponto de vista estético, os saudosistas exaltam o tempo em que tínhamos um futebol arte. Ex-atletas repetem sempre que o vigor físico substituiu a habilidade e a criatividade. O desejo por um espetáculo estético sucumbe (mas nunca completamente) diante das necessidades pragmáticas, ou seja, de resultado. Do ponto de vista ético, no âmbito profissional, uma vitória moralmente duvidosa – por meio de expedientes desleais – é considerada aceitável pelas entidades e espectadores, algo inconcebível fora do âmbito profissional. A fidelidade ao lucro ultrapassa a lealdade à pátria, dissolvendo o tradicional modelo de esporte nacionalista, tornando cada vez mais comum que um atleta venha a competir por outro país, considerando as vantagens. A única autonomia que não pode ser alcançada pelo esporte diz respeito à estrutura econômica, pelo contrário, quanto mais mercantilizadaa prática esportiva, mais ela se adapta aos critérios comerciais (o novo formato de pontuação do vôlei, que o torna o tempo da partida mais previsível e adequado à transmissão televisiva, é apenas um exemplo de como a previsibilidade e a certeza, que permitem o cálculo, são conceitos chaves de economia mercantil). O futebol é a perfeita ilustração desse quadro.

Receitas do esporte

As receitas dos grandes clubes esportivos, especialmente daqueles envolvidos com o futebol, não vêm diretamente de seus eventos. No Brasil, por exemplo, a renda da bilheteria corresponde de 5% a 20% do total da receita destas agremiações. Mais da metade vem de patrocínios e cotas para transmissão por rádio e TV. As emissoras, por sua vez, como sabemos, são remuneradas por patrocinadores, leia-se, por grandes empresas, a maioria delas multinacionais. Noutras palavras: a rentabilidade do esporte está diretamente ligada aos produtos que são vendidos por meio dos eventos esportivos e seus atletas (a sociologia do esporte descreve inclusive uma espécie particular de “esportista” que surge nesse contexto: o “esportista-sedentário”, o sujeito que não pratica esporte, mas consome produtos ligados ao esporte, desde jogos de videogame – devidamente licenciados pela FIFA e afins – até produtos com marcas de ligas ou agremiações esportivas). O consumo ligado ao desporto não abrange simplesmente artigos esportivos, pelo contrário, dentre os maiores patrocinadores deste universo estão bancos, seguradoras, empresas de aviação e do setor de energia, fabricantes de automóveis e eletroeletrônicos. O mesmo é válido para os atletas profissionais mais bem pagos em atividade: o patrocínio corresponde de 50% até 90% do total de suas rendas (aliás, a grande massa de esportistas que não está próximado topo do circuito esporte-mercadoria recebe remunerações relativamente modestas, inclusive no futebol). Não é à toa que existe uma administração/patrulhamento da imagem dos jogadores no âmbito pessoal, fora de sua atividade profissional: um erro significa prejuízo comercial. Isso também altera o sentido do controle moral sobre o atleta: a repressão (inclusive sexual) ocorre conforme as ações na esfera íntima interfiram nos resultados em campo, ou seja, na produtividade.

As potências e os emergentes como sedes

Eventos de proporções mundiais como a Copa de Futebol e as Olimpíadas envolvem o circuito mercantil do grande capital ligado a atividades financeiras e produtivas. Juntamente com as empresas descritas anteriormente, somam-se outras: as grandes empreiteiras, responsáveis pela construção e reforma das estruturas esportivas – dentre elas os estádios – e toda infraestrutura ligada ao evento comumente relacionada com mobilidade urbana (vias de acesso, aeroportos, linhas de metrô e trem etc). Trata-se do chamado “legado”. No Brasil, é oportuno lembrar, que as empreiteiras são as principais doadoras de recursos nas campanhas eleitorais e portanto agentes altamente interessados em grandes eventos esportivos. A FIFA e os investidores ligados ao esporte procuram países que ofereçam condições vantajosas e que tenham potencial de gerar novos negócios ou de reproduzir aqueles atualmente existentes. Não é à toa que as maiores potências econômicas e os países emergentes estejam sempre envolvidos com os grandes eventos: Brasil (Copa e Olimpíadas); Rússia (Copa 2018 e Olimpíada de Inverno 2014); Índia (Mundial Sub-17 de Futebol de 2017); África do Sul (Copa 2010); Inglaterra (Olimpíadas de 2012); China (Olimpíada 2008); Alemanha (Copa 2006); Japão e Coréia do Sul (Copa 2002); França (Copa de 1998); Estados Unidos (Copa de 1994).

3. A COPA DO MUNDO NO BRASIL

A Copa do Mundo no Brasil

Postos esses elementos, podemos iniciar uma análise a respeito da situação particular do Brasil ao receber os eventos esportivos mais importantes: a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos de Verão (aqui mencionado como Olimpíadas simplesmente).

Ainda sobre o Estado e forma política

Mascaro explica em Estado e forma política: “a captura do Estado pelas classes burguesas se erige a partir de uma forma necessária que é terceira aos indivíduos, grupos e classes. Materializada em instituições, poderes e aparatos e práticas, a forma política tem o Estado como uma condensação social específica, que não é totalmente coincidente com o capital ou com os seus movimentos. Daí, no plano internacional, dá-se uma duplicidade: há tanto uma política dos capitais quanto uma política dos Estados. Ainda que quase sempre a política internacional dos Estados seja aquela que mais interessa aos seus capitais, tal processo não é imediato nem linear. Nessa dinâmica, permeiam materialidades distintas e antagonismos sociais”. A experiência brasileira ilustra perfeitamente isso: sediar uma copa do mundo envolve interesses políticos/eleitorais de dirigentes de Estados, capital internacional e nacional, mídia (especialmente a televisiva), clubes esportivos e as aspirações dos demais indivíduos por entretenimento, esporte e melhoria na qualidade de vida, por meio de investimentos na infraestrutura ou de ganhos econômicos. Como a força política dos interessados não é equivalente, há um movimento de “captura” do Estado pelo capital,não de forma direta e simples, mas cercada por um conflito de interesses.

Benefícios para a FIFA e o capital

Em sua proposta para sediar a copa, o Brasil incluiu uma série de medidas “atraentes” para a FIFA. Leia-se, condições benéficas para o capital e para a própria entidade. O Professor Jorge Luiz Souto Maior descreveu esse quadro com perfeição neste Blog da Boitempo. Dentre as medidas, destacamos a renúncia fiscal. O Brasil declarou que

“nenhum imposto, taxas ou outras contribuições serão impostas à Fifa, aos subsidiários da Fifa, às delegações da Fifa, às equipes, aos oficiais de jogos, às confederações da Fifa, às associações de membros, às associações de membros participativos, à emissora anfitriã e aos membros não-residentes, à equipe e aos funcionários de todas estas partes. Eles deverão ser tratados como pessoas/entidades isentos de impostos”.

Posteriormente, essa vantagem foi estendida para vários outros setores, dentre os quais as empresas que realizam obras de infraestrutura ligadas ao evento. Por meio de Carta Aberta – “Setting the record straight” – a FIFA anunciou que não exigiu do Estado brasileiro a renúncia fiscal existente. De fato, nem precisaria, afinal, os Estados que disputam a condição de sede sabem que somente terão êxito em suas pretensões se fizerem estas e outras concessões generosas (e não adianta dizer que o Brasil foi candidato único, o que houve foi um arranjo neste sentido). Trata-se de uma situação semelhante à das guerras fiscais entre unidades de federação, mas ainda mais perversa, pois em escala global não há instância minimante democrática e soberana para regular os agentes em disputa (Estados), ademais a disputa é controlada por entidades esportivas privadas e pelo capital que por definição não estão sob o domínio político, ou seja, não são espaços de participação popular. Desse modo, a FIFA e certas frações do capital pautam as políticas de Estado conforme seus interesses.

O Estado no processo de reprodução do capital

Os grandes eventos esportivos ocorrem a partir do envolvimento ativo dos Estados e da “generosidade” deles. Primeiramente, criando as condições mais atraentes, conforme já explicamos. Isso envolve uma reformulação do ponto de vista jurídico, por meio de legislações especialmente voltadas para os eventos. No caso da competição futebolística, temos a Lei Geral da Copa e outras normas jurídicas, que implicaram em tratamento “diferenciado” – leia-se, benéfico – envolvendo os mais diversos ramos do direito: propriedade intelectual, direito administrativo, direito do consumidor, direito do trabalho, sempre no sentido de beneficiar a FIFA e os demais agentes envolvidos, “flexibilizando” regras e afastando garantias tradicionais. Além disso, o Estado arca com custos do evento, seja diretamente – por meio de empréstimos bancários – ou indiretamente – por meio da renúncia fiscal e da utilização de agentes de Estado para dar suporte ao evento. No entanto, este fenômeno, não é exclusivo da Copa, ele é próprio do capitalismo. A despeito da falsa imagem que os pensadores liberais desenham, o capitalismo não funciona apesar do Estado, mas sim, por meio do Estado. A função estatal não é apenas a de criar  leis e fiscalizá-las, mas intervir diretamente em prol do capital em geral e de suas frações. A tomada do Estado pelos agentes privados existe em todos os domínios (educação, saúde etc) e não faltam exemplos: a presença das fundações privadas que se apropriaram da estrutura, dos docentes e do capital simbólico da USP; o modelo “dupla porta” nos hospitais públicos que cede espaço à exploração privada etc. No entanto, o principal exemplo diz respeito à relação entre Estado e capital financeiro, uma interligação que uma vez entendida explica as linhas gerais do cenário econômico e político da atualidade e as ações da grande mídia e seus fiéis cães de guarda (para não me alongar nessa questão, remeto novamente à leitura de Estado e forma política de Alysson Mascaro).

O inevitável caráter político da Copa

Se os eventos esportivos estão organizados a partir do interesse do capital, qual pode ser o ganho do ponto vista social? Para os defensores do capitalismo, a resposta mais simples seria: há um aumento de investimentos, a economia cresce e todos ganham. Só os mais cínicos e ingênuos acreditam no “ganho social” do capitalismo, mas essa não é a questão que nos ocupará aqui. Um dos limites da teoria da derivação do Estado foi justamente o de não se dedicar uma análise do desenvolvimento da relação entre o poder estatal e o poder do capital no nível das concretudes históricas. Portanto, devemos tentar entender o fenômeno particular em curso no Brasil.

Conforme demonstrou Marx, a peculiaridade do capitalismo é engendrar um processo no qual a acumulação capitalista é um fim em si mesmo, não tem limites e, portanto, tem um apetite insaciável. Os agentes do capital não querem apenas um ambiente de trocas mercantis garantido pelo Estado, eles também demandam políticas estatais que lhe sejam mais favoráveis. E isso ocorre com relação à Copa do Mundo de Futebol e com relação às Olimpíadas. Aliás, quanto maior a expressão econômica do evento, maior poder político envolvido. Não é à toa que João Havelange, no final de seu longo reinado na FIFA, considerava-se o homem mais poderoso do mundo e se gabava de que os chefes de Estado se curvavam diante dele. Se o Estado não é algo externo ao processo de reprodução do capital e se os eventos esportivos estão integrados a ele, o Estado inevitavelmente se torna partícipe das iniciativas esporte-mercadoria, inclusive propiciando aquilo que seja de melhor interesse do capital. Uma vez que há a participação estatal por meio de financiamentos, a Copa e as Olimpíadas deixam de ser apenas um evento recreativo e da esfera privada e se tornam questão de ordem pública. Disso decorre o questionamento legítimo a respeito da Copa do Mundo e das Olimpíadas para o Brasil.

Benefícios econômicos advindos da Copa

A decisão de um Estado sediar uma copa do mundo decorre de um conjunto de variáveis. Além das questões de interesse econômico, existem o cálculo político e eleitoral feito pelos chefes de Estado. Do ponto de vista eleitoral, a expectativa é simples e óbvia: eventos de relevância mundial, sobretudo de apelo popular como é o caso do futebol e do esporte em geral, costumam destacar o país no cenário internacional e conferir força política interna – junto aos eleitores – e externamente – junto aos demais Estados. Do ponto de vista do projeto político nacional, há um cálculo de retorno econômico: apesar das despesas, tais eventos geram investimentos e trazem turistas estrangeiros, tendo como consequência o aumento de emprego e renda, especialmente nos setores ligados à construção civil, ao turismo e ao comércio (claro, a maioria não se lembra que no capitalismo o custeio é público, mas o retorno é para agentes privados específicos, apenas indiretamente para uma parte da coletividade, afinal, pensar nisso é rememorar um dos problemas intrínsecos ao capitalismo). Sendo assim, mesmo com renúncias fiscais, financiamentos e gastos estatais, a Copa estaria parcialmente justificada se houvesse um retorno econômico por via de investimento e aumento do turismo. Mas há outros ganhos envolvidos.

Outros benefícios decorrentes da Copa

Se houvesse um empate entre receitas e despesas, ainda restariam três ganhos com os grandes eventos esportivos:

  1. o de entretenimento;
  2. o simbólico do ponto de vista internacional;
  3. o de estímulo à prática esportiva – que lhes seriam um objetivo subjacente, especialmente no caso dos Jogos Olímpicos, conforme preconiza o conceito de Esporte contemporâneo e sua visão de Esporte Para Todos (EPT).

Evidentemente, para os mais pobres, a Copa continua a ser apenas um evento para ser visto pela TV, mas sem dúvida a presença das seleções e da torcida estrangeira gera um clima diferenciado em território nacional. Dentro desse panorama, em que os ganhos nacionais se tornam visíveis, devemos analisar como se desenvolve a movimentação política destinada a minar os benefícios eleitorais que o evento pode propiciar especialmente ao governo federal brasileiro.

Críticas à Copa do Mundo

O “ataque” à Copa pode assumir duas vertentes. De um lado há a enumeração dos prejuízos, especialmente aqueles ligados ao universo do trabalho (novamente remeto ao excelente artigo de Jorge Souto Maior neste Blog). De outro lado, há a crítica aos benefícios, que resumidamente seriam:

  1. os de natureza não econômica (entretenimento popular, simbolismo internacional, estímulo ao esporte – descritos anteriormente);
  2. os de natureza econômica, considerando as despesas com o evento e as receitas geradas.

As questões do entretenimento por meio do futebol e do estímulo à prática esportiva não podem ser atacadas pela grande mídia e pelos grupos capitalistas aliados à FIFA, pois isso significaria prejudicar a si mesmos enquanto agentes envolvidos no processo de reprodução do esporte-mercadoria. Resta então atacar o ganho simbólico e econômico.

Crítica do valor simbólico

Se o Brasil sair com uma imagem internacional vitoriosa pela realização da Copa, isto produzirá ganhos políticos no plano interno e internacional para o governo federal. Os adversários de Dilma/Lula sabem disso. Por essa razão, uma das pautas consiste em afirmar que os estrangeiros vão passar apuros no Brasil e a imagem do país ficará destroçada. Não há dúvida de que os visitantes de países estrangeiros irão se surpreender positivamente com alguns aspectos e desmitificar a imagem do Brasil-selva, assim como provavelmente irão sofrer com  violência e mobilidade urbana em alguma medida.

O que chama a atenção neste quesito são as perguntas fora da pauta: será que o saldo final será negativo? Se não for, mesmo com percalços, a Copa não terá sido um ganho para a imagem internacional do país? Será que o sujeito conservador e principalmente a grande mídia que se compadece do estrangeiro sofrendo com a precariedade do transporte público, também dirá que publica editorais e pauta matérias contra a faixa exclusiva de ônibus e que, ao contrário dos europeus e orientais, só vê a bicicleta como lazer e não como meio de transporte? Assumirá que acredita ser viável uma cidade que prioriza o transporte individual motorizado? Será que a grande mídia, ao mostrar compaixão pelos turistas vítimas de criminosos, vai dizer que no credo conservador brasileiro os “direitos humanos” são criticados como sendo ‘compaixão por bandido’? Vai admitir que é contra políticas de distribuição de renda e que acredita que a criminalidade não tem relação com a condição social da população (é mero fruto do livre arbítrio), sendo a melhor política o encarceramento em condições precárias, afinal, “direito humano” seria para humano direito?

Nada disso irá aparecer, por óbvio. A grande mídia dirá que o estrangeiro sofre no espaço público brasileiro, mas não revelará quais interesses privados retrógrados dominam secularmente este país, pois ela está aliada aos conservadores do estado atual das coisas.

Crítica econômica

A segunda pauta consiste na crítica que incide sobre os aspectos econômicos da Copa e das Olimpíadas. Ela se apoia em três pontos:

  1. as despesas e concessões generosas feitas pelo Estado já ocorreram e são mais evidentes/evidenciadas;
  2. os ganhos são mais difíceis de serem percebidos e alguns somente se revelam no curto e médio prazo (por exemplo, no setor do turismo, a expectativa é de que os benefícios não ocorram apenas durante o evento, mas posteriormente também);
  3. o déficit histórico de infraestrutura e de qualidade nos serviços públicos gera a cobrança do cumprimento integral de metas estabelecidas e a crítica automática aos investimentos feitos fora das áreas prioritárias.

Como o Estado é a peça chave para ocorrência dos grandes eventos esportivos e o único espaço no qual as demandas populares podem penetrar, ainda que parcialmente, concentra-se nele a crítica à Copa do Mundo e às Olimpíadas. O capitalismo e a FIFA estão imunes ao controle popular, afinal, trata-se, por definição, de um espaço privado, não político e que, portanto, deve ficar alheio às ingerências populares, afinal, essa é a democracia que o capitalismo reservou para nós. A lógica mercantil do esporte também não tem como ser vencida apenas pela força dos novos ideais, afinal, uma das grandes contribuições do pensamento marxiano foi a de demonstrar que a ideologia não é apenas uma ideia que habita no imaginário do sujeito, mas a expressão das próprias relações sociais constituídas no campo da economia. É ingênuo, portanto, afirmar que a FIFA deveria ter pensado mais no “futebol” e menos no “negócio” ou acreditar que a lógica mercantil não irá pautar o sentido do esporte e seus eventos.

Ao final, podemos concluir que apenas aqueles que estão de fora dos ganhos do capital com a Copa e Olimpíadas são aptos a questionar legitimamente se a decisão estatal foi correta e se existirão ganhos, para além do entretenimento e do estímulo ao esporte. Poderíamos, inclusive, contestar que a reconfiguração urbanística – leia-se, remoção de favelas e afins – muitas vezes não atendeu o interesse público, mas o interesse privado e a necessidade de se higienizar o cenário para os estrangeiros (novamente, o capital financeiro e as construtoras só têm a agradecer). Mas então porque a grande mídia, eterna aliada do capital, tem tanto a reclamar da Copa?

A eterna vitória do capital

Os grandes capitalistas são os únicos que seguramente sairão vitoriosos da Copa. A pequena burguesia, que arriscou investir neste evento, não tem certeza do retorno que terá, pois não goza dos mesmos benefícios que o Estado concedeu aos organizadores do evento e seus aliados. E vale reiterar que a concessão feita pelos dirigentes do Estado é na verdade fruto de uma imposição da FIFA e seus aliados. Os trabalhadores por sua vez, no máximo conseguirão a fatia que lhes cabe nas relações assalariadas do capitalismo e ficarão na expectativa da conclusão dos “legados” e benefícios indiretos. Os grandes meios de comunicação nacionais e internacionais, por sua vez, que há muito tempo estão lucrando com a Copa no Brasil, são aqueles que curiosamente mais impulsionam as críticas violentas a alguns aspectos particulares da Copa e das Olimpíadas.

Lembremos que a grande mídia não é o vendedor de cachorro-quente que ficará com a migalha dos ganhos com o espetáculo, ela é um dos vértices que compõe o negócio. O esporte é acima de tudo um espetáculo a ser visto, ouvido e lido em nível mundial. Sem sua difusão pelos meios de comunicação não há negócio, não há lucro. A transmissão via rádio, televisão e Internet, com a consequente divulgação de patrocinadores, é elemento fundamental para que haja o consumo e o processo de acumulação de capital. Assim, a grande mídia jamais se presta a criticar o evento em si, somente pode tratar da atuação do Estado em relação a ele. Diante da atuação do Estado,surge a crítica cínica por parte da grande mídia, afinal, foi juntamente como seus aliados – entidades esportivas (FIFA e COI) e grupos capitalistas – que ela lucrou de forma exorbitante com as concessões generosas feitas pelo Estado. Quando mais próximo da parceria FIFA/COI/CAPITAL, menor é a preocupação legítima com a falta de “legado” e maior é o aproveitamento deste fato em prol de interesses eleitorais particulares. Aliás, se ex-atletas famosos que criticaram o evento estivessem tão incomodados com a ausência de “legado” (com a falta de benefícios sociais da Copa) deveriam dirigir a crítica ao modo como a FIFA e o capital constrangem os Estados que se propõem a sediar tais eventos.

Desinformação e eleição

Parte da grande mídia e ex-atletas aliados a ela (supostamente críticos do evento) não estão preocupados propriamente com o social, mas sim com o eleitoral. O cálculo realizado por eles é o do ganho que podem propiciar para si ou para seus aliados, de modo que procuram um ataque seletivo apto a afetar o governo federal e preservar a Copa enquanto evento que lhes garante lucro (preservando ainda as boas relações com a FIFA e CBF). Neste sentido, desenvolve-se uma campanha de desinformação e de meia-informação – impulsionada especialmente pelas redes sociais: divulga-se o preço do milionário vestido usado pela cantora Cláudia Leite na abertura da Copa, critica-se a simplicidade da abertura, mencionam-se as filas para ingressar em estádios e conflitos entre torcedores etc, mas não se explica claramente a responsabilidade da FIFA por tudo isso. Pelo contrário, faz-se crer que o custeio e a organização nestes casos são de responsabilidade do governo federal. O envolvimento do Brasil nos grandes eventos esportivos revela o novo patamar que o Estado alcançou no cenário da economia capitalista e das relações internacionais.

Certas frações do capital nacional e internacional, no entanto, mesmo abocanhando os maiores ganhos de tudo isso, mantém a intenção de retomar um controle mais direto sobre o aparelho estatal para moldá-lo ainda mais aos seus interesses. Esse é o verdadeiro combustível da “crítica” feita pela grande mídia do nosso país e do exterior aos eventos aqui realizados. Em suma, o que está em jogo é a capacidade do Estado reprocessar as contradições intrínsecas ao capitalismo em favor do capital, especialmente o financeiro.

“No seio da autonomia relativa do Estado perante a dinâmica da sociedade capitalista, revela-se tanto a sua capacidade de reprocessar as contradições sociais, buscando manter seus horizontes econômicos de fundo, quanto a própria permeabilidade do aparato estatal às contradições” (Alysson Mascaro, Estado e forma política).

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Camilo Onoda Caldas é diretor do Instituto Luiz Gama, entidade com atuação na área direitos humanos. É doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (USP), bacharel em Direito e mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor da Universidade São Judas Tadeu (São Paulo/SP).

1 comentário em Política e megaeventos esportivos

  1. Excelente texto. Como reclamar de mordidas, vaias, posturas da arbitragem entre outras coisas perniciosas nos jogos da Copa, quando o próprio evento resulta de descabidas e sujas relações entre o Estado, a FIFA, os Patrocinadores e a Mídia?

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