O belo da cidade | Mike Davis sobre megaeventos

14.05.27_Mike Davis_O belo da cidade_2Por Mike Davis.*

No Terceiro Mundo urbano, os pobres temem os eventos internacionais de alto nível – conferências, visitas de dignitários, eventos esportivos, concursos de beleza e festivais internacionais –, que levam as autoridades a iniciar cruzadas de limpeza da cidade: os favelados sabem que são a “sujeira” ou a “praga” que seus governos preferem que o mundo não veja. Durante a comemoração da Independência nigeriana em 1960, por exemplo, um dos primeiros atos do novo governo foi murar a estrada até o aeroporto para que a princesa Alexandra, representante da rainha Elizabeth, não visse as favelas de Lagos1. Hoje, é mais provável que os governos melhorem a paisagem demolindo as favelas e despejando da cidade os seus moradores.

Os manilenhos têm horror especial a tais “campanhas de embelezamento”. Durante o domínio de Imelda Marcos no governo da cidade, os favelados foram sucessivamente expulsos da rota dos desfiles do Concurso de Miss Universo, em 1974, da visita do presidente Gerald Ford, em 1975, e da reunião do FMI-Banco Mundial, em 1976.2 No total, 160 mil invasores foram removidos para fora do campo de visão da mídia, muitos deles abandonados nos arredores de Manila, a 30 quilômetros ou mais dos seus antigos lares.3 O subsequente “Poder Popular” de Corazón Aquino foi ainda mais impiedoso: cerca de 600 mil invasores foram despejados durante o mandato de Aquino, em geral sem locais de reassentamento.4

Apesar das promessas de campanha de preservar a moradia dos pobres urbanos, o sucessor de Aquino, Joseph Estrada, continuou os despejos em massa: 22 mil barracos foram destruídos, somente na primeira metade de 1999.5 Então, durante os preparativos para a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), as equipes de demolição atacaram, em novembro de 1999, a favela de Dabu-Dabu, em Pasay. Quando 2 mil moradores formaram uma parede humana, veio uma força de elite armada com fuzis M16 que matou quatro pessoas e feriu vinte. As casas e seu conteúdo foram completamente incendiados, e os habitantes miseráveis de Dabu-Dabu reassentados num lugar às margens de um esgoto, onde seus filhos logo foram vítimas de doenças gastrintestinais fatais.6

Como presidente em um trono construído por fuzileiros navais norte-americanos em 1965, Juan Balaguer, da República Dominicana, ficou famoso como “o Grande Expulsor”. Quando voltou ao poder em 1986, o idoso autocrata decidiu reconstruir Santo Domingo como preparação para o quinto centenário da descoberta do Novo Mundo por Colombo e para a visita do papa. Com o apoio de governos e fundações da Europa, iniciou uma série de projetos monumentais sem precedentes na história dominicana: o Farol Colombo, a Plaza de Armas e um arquipélago de novos loteamentos de classe média. Além de se monumentalizar, Balaguer também pretendia haussmannizar os núcleos tradicionais de resistência urbana. Seu principal alvo foi a imensa área de baixa renda de Sabana Perdida, na cidade alta a nordeste do centro da cidade. “O plano”, escrevem pesquisadores que trabalhavam em Sabana Perdida, “era livrar-se de elementos incômodos dos barrios operários da cidade alta, empurrando-os para os arredores. A lembrança das revoltas de 1965 e dos distúrbios de 1984 indicou que seria mais sábio eliminar esse centro de oposição e protesto político”.7

Depois de enormes protestos da coordenadora de direitos do barrio, com o apoio da Comissão de Direitos Humanos da ONU, a cidade alta foi salva, mas realizaram-se demolições extensas, que várias vezes envolveram o Exército, no centro, sudoeste e sudeste de Santo Domingo. Entre 1986 e 1992, quarenta barrios foram arrasados, e 180 mil moradores removidos. Num importante relatório sobre a demolição dos bairros, Edmundo Morel e Manuel Mejía descreveram a campanha de terror do governo contra os pobres.

“As casas eram demolidas enquanto os habitantes ainda estavam dentro delas, ou quando os donos estavam fora; tropas de choque paramilitares costumavam intimidar e aterrorizar as pessoas e obrigá-las a abandonar seus lares; bens domésticos eram vandalizados ou roubados; as ordens de despejo só eram entregues no mesmo dia em que a família seria removida; pessoas eram sequestradas; grávidas e crianças eram submetidas a violência física; os serviços públicos dos barrios eram cortados, numa tática de pressão; as famílias eram insultadas e ameaçadas; e a polícia agia como juiz.”8

Os modernos Jogos Olímpicos têm uma história especialmente sinistra, mas pouco conhecida. Durante os preparativos para os Jogos de 1936, os nazistas expurgaram impiedosamente os sem-teto e favelados de áreas de Berlim que talvez pudessem ser avistadas pelos visitantes internacionais. Embora os Jogos subsequentes, inclusive os da Cidade do México, de Atenas e Barcelona, tenham sido acompanhados por renovação urbana e despejos, os jogos de Seul, em 1988, foram realmente sem precedentes na escala da perseguição oficial aos pobres, quer fossem donos de sua própria casa, invasores ou locatários: cerca de 720 mil pessoas foram removidas em Seul e Incheon, levando uma ONG católica a afirmar que a Coréia do Sul rivalizava com a África do Sul como “o país no qual o despejo à força é mais violento e desumano”.9

Beijing seguiu o precedente de Seul em seus preparativos para os Jogos de 2008: “350 mil pessoas serão reassentadas para abrir espaço apenas para a construção de estádios”.10 A Human Rights Watch chamou a atenção para a ampla concordância oculta entre incorporadores e planejadores oficiais, que manipulam a excitação patriótica inerente aos Jogos Olímpicos para justificar os despejos em massa e a ocupação egoísta de terrenos no coração de Beijing11. Anne-Marie Broudehoux, em seu célebre livro The Making and Selling of Post-Mao Beijing [A criação e venda da Beijing pós-Mao] (2004), afirma que, no capitalismo de Estado da China, a preferência atual é esconder a pobreza por detrás de fachadas do “tipo Potemkin” e não reduzi-la substancialmente.

Ela previa que o planejamento dos Jogos Olímpicos repetiria a experiência traumática (e, para o operariado, sombriamente irônica) da comemoração do quinquagésimo aniversário da Revolução Chinesa.

Durante mais de dois anos, os pequineses sofreram a desorganização causada pelas diversas campanhas de embelezamento iniciadas para camuflar as feridas sociais e físicas da cidade. Centenas de casas foram demolidas, milhares de pessoas despejadas, e bilhões de iuanes dos contribuintes foram gastos para construir uma fachada de ordem e progresso. Para garantir que as cerimônias cuidadosamente planejadas se realizassem com perfeição, a capital foi levada a uma paralisação enquanto durou a semana de festividades. Os moradores de Pequim receberam ordens de ficar em casa e acompanhar a festa pela televisão, como fizeram na cerimônia de abertura dos Jogos Asiáticos.12

No entanto, o programa mais orwelliano de “embelezamento urbano” da Ásia em tempos recentes foi, sem dúvida, a preparação de “1996, Ano de visita a Mianmá”, realizada em Yangon e Mandalay pela ditadura militar da Birmânia [Mianmá], sustentada pela heroína. Um milhão e meio de moradores –inacreditáveis 16% do total da população urbana – foram removidos dos seus lares (frequentemente, por incêndios provocados pelo Estado) entre 1989 e 1994 e enviados para cabanas de bambu e palha construídas a toda a pressa na periferia urbana, agora rebatizada com o horripilante nome de “Novos Campos”. Ninguém tinha idéia de quando chegaria a sua vez, e até mesmos os mortos foram removidos dos cemitérios. Em seu livro Karaoke Fascism [Fascismo de karaokê], Monique Skidmore descreve cenas violentas ocorridas em Yangon e Mandalay, que fazem lembrar o famoso despovoamento de Phnom Penh, por Pol Pot. “Quarteirões inteiros da cidade desaparecem em questão de dias, a população é carregada em caminhões e realojada à força nos novos povoados que o governo criou em campos de arroz fora das principais cidades.”

Os bairros urbanos foram substituídos por projetos como o novo Campo de Golfe de Yangon, destinado a turistas ocidentais e empresários japoneses. “Os generais removeram uma comunidade que estava no local havia quarenta anos. Aqueles que resistiram foram presos ou levados à força para um povoado a 24 quilômetros de distância.”13

Skidmore argumenta que esse deslocamento espacial constante tornou-se a base da “política de medo” do regime. Com a troca de nome, a reconstrução e a remoção de marcos conhecidos e a forte presença do Exército com seu arsenal, o conselho militar impõe uma nova configuração espacial a Yangon […], suprimindo bairros potencialmente democráticos, demolindo as partes pobres da cidade e criando novos centros urbanos que imortalizam o princípio do autoritarismo.

Em vez dos bairros tradicionais e dos prédios históricos, a lavagem do dinheiro das drogas financia arranha-céus de vidro e concreto (“narcoarquitetura”), hotéis para turistas com moeda forte e extravagantes condomínios-pagodes. Yangon tornou-se um pesadelo que combina uma “terra mágica budista para turistas”, um quartel gigantesco e um cemitério: é uma “paisagem que glorifica o controle e a visão autoritária dos seus líderes”.14

* Do livro Planeta favela (Boitempo, 2006), de Mike Davis.

Notas

[1] Ben Omiyi, The City of Lagos: Ten Short Essays (Nova York, Vantage Press, 1995), p. 48.
[2] Erhard Berner, “Poverty Alleviation and the Eviction of the Poorest”, International Journal of Urban and Regional Research, v. 24, n. 3, set. 2000, p. 559.

[3] Drakakis-Smith, Third World Cities, p. 28.
[4] Berner, Defending a Place, p. 188.
[5] Task Force Detainees of the Philippines (TFDP-AMRSP), “Urban Poor, Demolition and the Right to Adequate Housing”, artigo para discussão, Manila, 2000.
[6] Helen Basili, “Demolition – the Scourge of the Urban Poor”, Transitions (boletim do Service for the Treatment and Rehabilitation of Torture and Trauma Survivors), n. 6, maio 2000.
[7] Morel e Mejía, “The Dominican Republic”, p. 85.
[8] Ibidem, p. 95-7.
[9] Catholic Institute for International Relations, Disposable People: Forced Evictions in South Korea (Londres, Catholic Institute for International Relations,1988), p. 56.
[10] Asian Coalition for Housing Rights, Housing by People in Asia (boletim), 15/10/2003, p. 12.
[11] Ver Human Rights Watch, relatório atual, e “Demolished: Forced Evictions and the Tenants’ Rights Movement in China”, disponível em hrw.org/reports/2004/china.
[12] Anne-Marie Broudehoux, The Making and Selling of Post-Mao Beijing (Nova York, Columbia University Press, 2004), p. 162.
[13] Skidmore, Karaoke Fascism, p. 88. Ver também o arquivo sobre a Birmânia (Burma), disponível em <www.idpproject.org>.
[14] Skidmore, Karaoke Fascism, p. 84-5, 89, 159-60.

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Convite

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Dos livros de Mike Davis publicados pela Boitempo, Planeta favela (R$ 22,00 aqui), Cidade de quartzo (R$ 32,00 aqui), Occupy (R$ 5,00 aqui) e Cidades rebeldes (R$ 5,00 aqui) já estão à venda em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do impresso.

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Mike Davis nasceu na cidade de Fontana, Califórnia, em 1946. Abandonou os estudos precocemente, aos dezesseis anos, por conta de uma grave doença do pai. Trabalhou como açougueiro, motorista de caminhão e militou no Partido Comunista da Califórnia meridional antes de retornar à sala de aula. Aos 28 anos, ingressou na Universidade da Califórnia de Los Angeles (Ucla) para estudar economia e história. Atualmente, mora em San Diego, é um distinguished professor no departamento de Creative Writing na Universidade da Califórnia, em Riverside, e integra o conselho editorial da New Left Review. Autor de vários livros, entre eles Ecologia do medo, Holocaustos coloniaisO monstro bate à nossa porta (Record), Planeta favela, Apologia dos bárbaros e Cidade de quartzo, os três últimos pela Boitempo Editorial

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