A derrelição de Ícaro

14.06.02_Giovanni Alves_Icaro[Jacob Peter Gowi (1615 – 1661), La chute D’Icare]

Por Giovanni Alves.

O novo e precário mundo do trabalho no Brasil é constituído hoje por duas importantes camada sociais da juventude trabalhadora: o precariado e os novos assalariados flexíveis. É claro que existem outras camadas sociais da juventude proletária, tais como os “proletaróides”, ou ainda os “nem-nem” (os que nem estudam, nem trabalham). Entretanto, é a discussão sobre estas duas camadas sociais – o precariado e os novos assalariados flexíveis – que tornará visível a contradição radical que perpassa hoje, mais do que nunca, o capitalismo global. Isto é, a contradição entre a riqueza das possibilidades pressupostas com a ampliação da alta escolaridade e a miséria das perspectivas de realização profissional e desenvolvimento humano no século XXI. Precariado e novos assalariados flexíveis desvelam aquilo que denominaremos “o paradoxo de Ícaro”.

Nos últimos anos produzimos, através do Projeto CineTrabalho, uma série de monografias audiovisuais que expõem os sonhos, anseios e as expectativas frustradas destas camadas sociais da juventude trabalhadora – por exemplo, os video-documentários “Precários inflexíveis”, tratando do precariado em Portugal; e “Jovens bancários”, “Sonhos do ABC” e “Professores do Estado”, tratando dos novos assalariados flexíveis de importantes categorias assalariadas no Brasil (bancários, metalúrgicos e professores de ensino médio). Outros video-documentários – “Galera” ou mesmo “Nutrição” expõem depoimentos de jovens recém-formados diante do dilema entre tornar-se precários ou então, novos assalariados flexíveis.

Como temos salientado, o fenômeno do precariado baseia-se nas mutações orgânicas do fenômeno da juventude trabalhadora como fato geracional nas condições históricas do capitalismo flexível. Por um lado, o sistema educacional alimentou uma serie de expectativas de realização profissional; por outro lado, a crise e derrocada da regulação salarial, que nasceu com o Welfare State, implodiu a implicação emprego-família- consumo, produzindo o fenômeno social da frustração de expectativas para a camada social do jovem proletariado altamente escolarizado – frustração de expectativas que assumiu, política e moralmente, a forma da indignação social. Esta frustração de expectativas do precariado, decorreu da impossibilidade de realização do sonho salarial fordista-keynesiano: emprego estável com estatuto salarial capaz de garantir carreira e perspectivas de consumo (este fenômeno social está mais desenvolvido nos países capitalistas centrais, onde ampliou-se nas ultimas décadas a camada social do precariado).

Portanto, frustração de expectativas e indignação social tornaram-se atributos existenciais da condição de proletariedade do jovem precário altamente escolarizado. A interdição da vida adulta, percebida pelos jovens-adultos precários como perda de futuridade, é um dos sintomas da precarização existencial. O fenômeno do precariado expõe, deste modo, o que podemos denominar frustração salarial, isto é, a juventude altamente escolarizada não consegue se inserir num estatuto salarial estável, capaz de garantir perspectivas de consumo e afirmação social. O que se anseia, nesse caso, é um emprego estável. Não se trata propriamente daquilo que iremos denominar frustração profissional no sentido da realização dos sonhos e anseios profissionais alimentados na etapa de formação. Na verdade, o precariado constituído por jovens altamente escolarizados inseridos em relações precárias de trabalho e vida, anseia, num primeiro momento, pela “cidadania salarial” alienada pelo capitalismo flexível e não propriamente pela realização profissional. A frustração salarial decorre do desemprego ou então, de uma inserção numa ocupação precária – mesmo que seja de acordo com sua formação profissional. A precariedade do estatuto salarial, que não lhe garante carreira ou perspectivas de futuridade, sobrepõe-se, deste modo, ao ideal de realização profissional.

Por outro lado, o fenômeno dos novos assalariados flexíveis possui outro estatuto sociológico, tendo em vista que eles tem emprego estável. Por exemplo, os jovens empregados assalariados altamente escolarizados, inseridos no mundo do trabalho formalizado na década de 2000, não podem ser considerados precários ou pertencentes ao precariado, tendo em vista que têm estatuto salarial estável. Podemos dizer que não manifestam frustração salarial propriamente dita pois possuem emprego formalizado por tempo indeterminado, sendo portadores, deste modo, de direitos trabalhistas e inclusive, em certos casos, tem perspectivas de carreira compatíveis com sua formação profissional. Entretanto, pode-se dizer que, no caso de empregados altamente escolarizados, podem manifestar frustração profissional.

A frustração profissional decorre, por um lado, do descompasso entre ocupação laboral e formação profissional (tem-se emprego estável, mas não se trabalha no que gosta) e, por outro lado, no caso daqueles que exercem atividade laboral pertinente à sua formação profissional, a frustração profissional pode originar-se da perda de sentido da ação laboral por conta da intensificação do tempo de trabalho nas ocupações profissionais mais especializadas decorrente da gestão toyotista acoplada às novas tecnologias informacionais. Nesse caso, temos a corrosão do sonho profissional dos novos assalariados flexíveis, não por conta do estatuto salarial precário, nem por conta da inadequação ocupacional (eles trabalham no que gostam), mas sim, pelo conteúdo da ação laboral corroída pelas novas formas de precarização do trabalho.

Portanto, se tivermos que descrever dimensões da morfologia social da juventude que trabalha, diremos que ela é composta por dois importantes contingentes: o precariado, constituído pelos jovens-adultos altamente escolarizados que se encontram como assalariados inseridos em contratos precários ou desempregados, frustrados com a condição salarial precária que os impede de realizarem sonhos de consumo, família e realização profissional; e os novos assalariados flexíveis, jovens-adultos altamente escolarizados que possuem emprego estável e que exercem (ou não) ocupações laborais adequadas à formação profissional – no caso daqueles que tem emprego compatível com sua formação profissional, encontram-se frustrados com o esvaziamento do trabalho devido avigência da nova precariedade salarial.

Por um lado, a camada social do precariado cultiva a frustração de expectativas no plano salarial, tendo em vista o desemprego ou inserção em ocupações salariais precárias. Por outro lado, o contingente de jovens empregados inseridos em estatutos salariais estáveis, que não podem ser considerados propriamente “precários”, e que nós denominamos novos assalariados flexiveis, manifestam, frustração de expectativas no plano da formação profissional devido, por um lado, o descompasso entre o conteúdo da ação laboral e seus sonhos e anseios de realização profissional. Nesse caso, a natureza da frustração de expectativas dos novos assalariados flexíveis decorre da alienação laboral num patamar historicamente superior de contradições sociais, pois, por um lado temos um contingente de jovens-adultos enriquecidos em suas habilidades técnico-cognitivas e expectativas de realização profissional e por outro lado, a incapacidade do sistema social do capital propiciar a oferta de ocupações profissionais suficientes para absorver a massa de licenciados altamente especializados disponíveis no mercado de trabalho. Por outro lado, no caso daqueles ocupados em empregos estáveis exercendo atividades compatíveis com sua formação profissional, constatamos o esvaziamento do sentido da ação laboral devido as novas condições do trabalho flexível (nova precariedade salarial, precarização existencial e precarização do homem-que-trabalha).

Portanto, existem um conjunto de contradições do capitalismo flexível que permeiam a juventude trabalhadora. Por exemplo, precariado e novos assalariados flexíveis, na medida em que são portadores de alta escolaridade, são individualidades pessoais de classe portadoras de ricas possibilidades de desenvolvimento humano.Entretanto, no caso do precariado empregado em ocupação precárias e novos assalariadosflexíveis, as possibilidades de desenvolvimento humano se frustram tendo em vista que, mesmo empregados, se encontram diante da Inadequação entre ocupação laboral e sonho profissional, devido a insuficiente oferta de ocupações profissionais para licenciados; ou ainda, o esvaziamento do sentido da ação laboral nas atividades profissionais. A frustração salarial e a frustração profissional levam ao empobrecimento dos sujeitos que trabalham. No caso do precariado desempregado, temos a contradição mais candente com o esvaziamento existencial(insegurança social e falta de renda). É a expressão da produção destrutiva do trabalho vivo, força de trabalho altamente enriquecida em suas possibilidades de desenvolvimento humano, mas incapaz de realizar-se profissionalmente e ser absorvida em atividades laborais plenas de sentido.

A precariedade dos novos assalariados flexíveis, caracterizada pela inadequação entre ocupação laboral e sonho profissional e também pelo esvaziamento do sentido da ação laboral nas atividades profissionais, expõe o estranhamento como categoria fulcral da critica do capital. Não se trata apenas da nostalgia de adequação à ordem salarial fordista-keynesiana com a obtenção do emprego estável e a cidadania salarial, como se caracteriza, por exemplo, os anseios contingentes do precariado; mas sim, a frustração de realização pessoal por conta da inadequação entre atividade ocupacional exercida e sonho profissional e a agudização do estranhamento decorrente do esvaziamento de sentido da ação laboral de ocupações profissionais altamente especializadas.

O que significa que, no caso dos novos assalariados flexíveis, mesmo que consigam inserir-se em ocupações laborais compatíveis com sua formação profissional, eles não conseguem fugir da frustração profissional tendo em vista que se frustram em virtude do esvaziamento de sentido da ação laboral por conta das novas condições de organização do trabalho. Na verdade, neste caso, trata-se da própria tendência estrutural do trabalho capitalista salientada por Harry Braverman no seu livro clássico Trabalho e capital monopolista, que demonstrou historicamente a degradação do trabalho capitalista, não apenas na indústria, mas nos serviços e inclusive nas ocupações profissionais mais especializadas, cuja ação torna-se esvaziadas de sentido, não apenas pelo conteúdo da tarefa em si, mas pela intensificação da ação laboral (gestão toyotista acoplada às novas tecnologias informacionais) que leva a perda de sentido da atividade em virtude do aprofundamento do estranhamento social (novo sociometabolismo do capital e barbárie social).

A contradição crucial do capitalismo flexível é que, a tendência estrutural de desenvolvimento do trabalho capitalista caracterizado como trabalho alienado, ocorre numa etapa de desenvolvimento civilizatório em que constatamos, por um lado, o enriquecimento dos sujeitos-que-trabalham, por conta das relações sociais múltiplas constituídas no seio da modernidade complexa e pela alta escolaridade que cultiva sonhos, expectativas de realização profissional vinculada à realização pessoal; e, por outro lado, a insuficiente oferta de ocupações profissionais capazes de absorver a massa de profissionais licenciados (a lógica toyotista da lean production e o aumento da produtividade do trabalho acirram a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social e as relações sociais de produção capitalista). E mesmo que consigam ser absorvidos, deparam-se com trabalho capitalista cada vez mais esvaziado de sentido.

Enquanto os novos assalariados flexíveis se inserem num complexo contraditório caracterizado pela dupla contradição entre enriquecimento das individualidades pessoais de classe e empobrecimento do sujeito humano-que-trabalha, devido o esvaziamento do sentido da atividade laboral; o precariado que esta empregado em ocupações precárias, se insere num complexo contraditório que possui, além dos elementos compositivos salientados acima, possui a insegurança da condição salarial devido a inserção em contratos precários. No caso do precariado que esta desempregado, põe-se um complexo contraditório mais intenso, caracterizado por um lado, pelo enriquecimento pessoal e, por outro lado, pela profunda insegurança social e falta de perspectivas de vida digna devido o desemprego.

Portanto, a juventude trabalhadora altamente escolarizada, precários, empregados ou desempregados; e novos assalariados flexíveis, inseridos ou não inseridos em ocupações laborais pertinentes à sua formação profissional, como trabalhadores assalariados do capital, inserem-se em complexos contraditórios que produzem formas especificas de frustração pessoal – no caso do precariado, frustração pessoal por alienação da condição salarial estável; ou ainda, frustração pessoal devido a perda de perspectiva da futuridade; no caso dos empregados estáveis ou novos assalariados flexíveis, frustração pessoal por estranhamento devido a dissonância entre ocupação laboral e formação profissional; ou ainda, frustração pessoal por estranhamento devido a perda de sentido da profissão por conta das novas dimensões da precarização do trabalho.

Desde meados da década de 1970 e começo da década de 1980, manifestou-se no Brasil, traços residuais do que temos salientado como sendo o precariado. Naquela época, o padrão desenvolvimentista de inserção ocupacional esgotara-se, e a inquietação da juventude precária altamente escolarizada,não se manifestava socialmente, ocultada na década de 1980, pela explosão do sindicalismo e movimentos populares; entretanto, a inquietação do precariado residual se expressava, por exemplo, emmanifestações culturais de caráter existencial-contestatorio (por exemplo, tivemos o surgimento naquela época de bandas de rock com musicas com temáticas ricas em inquietação existencial, expressando assim, a ideologia do precariado residual – Barão Vermelho, Legião Urbana,etc). Como a economia brasileira estava estagnada por conta da crise da divida externa, e o sistema de ensino superior não estava tão desenvolvido como hoje (o acesso à formação superior era bastante limitado), as contradições sociais expostas pelo fenômeno social do precariado não estavam tão desenvolvidas (Reginaldo Prandi os denominou naquela época de “favoritos degradados”).

Por outro lado, a juventude assalariada recém-inserida em empregos estáveis, como, por exemplo, bancários de instituições públicas – não possuíam, em sua maioria, alta escolaridade; e uma parte deles, cultivava expectativa de permanecer no banco por toda a vida, tendo em vista os benefícios sociais usufruídos enquanto empregados públicos (o que não significava que outra parcela mais escolarizada, não cultivasse, naquela época, perspectivas de provisoriedade, como demonstra, por exemplo, o estudo pioneiro de Geraldo Romanelli, de 1978, intitulado “O provisório definitivo – Trabalho e aspirações de bancários em São Paulo”). No caso das montadoras da indústria automobilística, outra importante categoria de assalariados formalizados, o índice de alta escolaridade entre jovens metalúrgicos nas décadas de 1970 e 1980 era insignificante.

Na década de 1990, a longa “década neoliberal” (1990-2002), que manteve a economia com baixas taxas de crescimento, o precariadomantinha-se recolhido. Nesse período, ocorreram mudanças significativas no perfil de escolaridade de bancários e metalúrgicos por conta da reestruturação produtiva: aumentou a quantidade de trabalhadores assalariados estáveis altamente escolarizados, começando a constituir-se o que denominamos de“novos assalariados flexíveis”.Foi na década de 2000, a década do neodesenvolvimentismo (2003-2013), consolidou-se o fenômeno dos “novos assalariados flexíveis”. Ao mesmo tempo, dois processos contribuiriam efetivamente para constituir o precariado como fenômeno social: primeiro, o crescimento da economia brasileira que ampliou as novas vagas de empregos estáveis e precários no mercado de trabalho; e, depois, a ampliação da alta escolaridade na juventude trabalhadora.Apesar da redução do desemprego total na década de 2000, manteve-se elevado o contingente de jovens assalariados recém-formados desempregados. Ampliou-se entre a juventude trabalhadora o novo e precário mundo do trabalho. Na verdade, ampliaram-se as inserções precárias da juventude assalariada altamente escolarizada no bojo da alta rotatividade da forca de trabalho no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, no plano da morfologia do trabalho no Brasil, os locais de trabalho reestruturados incorporaram o modo de gestão flexível acoplado às novas tecnologias informacionais sob o espirito do toyotismo e constituiu-se o modo de vida just-in-time, contribuindo para a precarização existencial. As novas dimensões da precarização do trabalho – precarização existencial e precarização do homem-que-trabalha – se manifestaram nos novos locais de trabalho reestruturado, onde se inseriam um maior contingente dos novos assalariados flexíveis, que constituía o novo perfil laboral da força de trabalho mais escolarizada – caso comparemos, por exemplo, com a nova força de trabalho da década de 1980.

Nas sociedades capitalistas mais desenvolvidas, a frustração das expectativas da juventude trabalhadora originou-se da corrosão do padrão histórico hegemônico de estatuto salarial oriundo do Welfare State. No Brasil, pelo contrário, o estatuto salarial clássico do fordismo-keynesianismo nunca se consolidou hegemonicamente, tornando-se realidade apenas para as camadas medias assalariadas ou operárias mais qualificadas do proletariado inseridos no setor monopolico ou setor estatal. Por isso, a utopia salarial vinculada à formalização no mercado de trabalho tornou-se, mesmo com a crise do fordismo-keynesianismo, uma idéia-força persistente para a maioria do proletariado pobre e subproletariado no Brasil. Ter um emprego formalizado no setor público ou setor privado era um sinal de mobilidade social ascendente. Ao mesmo tempo, a realização da utopia salarial levava ao requisito (ou pré-requisito) da alta escolaridade como reforço do ideal de realização profissional. Diploma de curso superior e emprego formalizado de qualidade compunham os pressupostos ideais, no interior da ordem burguesa, da realização profissional (ou pessoal).

O neodesenvolvimentismo da década de 2000, com o choque de capitalismo, repõe o sonho da utopia salarial nas condições do capitalismo flexível. Entretanto, a inflexão do padrão de inserção ocupacional pelo nível educacional, afirmou-se com vigor na década de 2000. Quebrou-se o vinculo entre alta escolaridade e emprego formal de qualidade. Na verdade, o diploma não garante mais inserir-se à altura das expectativas alimentadas pela ideologia do capital humano. Deste modo, na primeira década do século XXI, o descompasso entre expectativas de realização profissional e a condicao de proletariedade tornou-se flagrante, principalmente na juventude altamente escolarizada.

Na década neoliberal, o Brasil se inseriu no capitalismo global, desenvolvendo-se de modo articulado com as tendências universal-concretas do capitalismo flexível. Com o neodesenvolvimentismo, aprofundou-se e consolidou-se o Estado neoliberal, a gestão flexível sob o espirito do toyotismo nos locais de trabalho reestruturados e o modo de vida just-in-time. Por um lado, percebe-se a manifestação do fenômeno do precariado – a juventide trabalhadora altamente escolarizada inserida em ocupações precárias ou desempregada; por outro lado, a manifestação dos novos assalariados flexíveis, a juventude trabalhadora altamente escolarizada inserida em emprego estável, mas insatisfeita com a ocupação laboral ou com a profissão corroída pela intensificação do trabalho.

Na década de 2000, verificou-se a manifestação mais incisiva de tendências de mudanças sociometabolicos na organização das gerações que caracterizam o capitalismo mais desenvolvido: redução da infância, extensão da adolescência, prolongamento da juventude, compreensão da vida adulta entre juventude e velhice que se prolonga, em virtude do aumento da expectativa de vida. Enfim, percebe-se a vigência de transições precárias que caracterizam as trajetórias pessoais, desestruturando-se de modo desigual, os padrões históricos de percepção valorativa de emprego, família e consumo. Impõe-se no plano do metabolismo social, a precarizacao existencial, que se manifesta por mudanças cruciais no padrão de sociabilidade, alteridade, subjetividade ou ainda, auto-percepção de si e dos outros. Enfim, o fenômeno da frustração salarial (e existencial) do precariado e a frustração profissional dos novos assalariados flexíveis, expõe a profundidade da crise do trabalho vivo na sua dimensão geracional, caracterizando, portanto, aquilo que denominamos“derrilição de Ícaro”.

A utilização da imagem de Ícaro no título deste ensaio – “A derrilição de Ícaro” – diz respeito à frustração e inquietação existencial que caracteriza os jovens empregados do novo e precário mundo trabalho no Brasil da década de 2000 (precariado e novos assalariados flexíveis). O jovem Ícaro, personagem da mitologia grega, filho de Dedalus, sonhava fugir do labirinto, onde ele e o pai estavam reclusos pelo Rei Minos. Para isso, Dedalus e Ícaro acalentavam o sonho de voar e com isso, fugir do labirinto. A mitologia grega representa para nos um precioso acervo de imagens simbólicas da condição humana, pelo menos da condição humana sob o domínio do capital, força estranha que nos sujeita aos desígnios dos deuses.

Na lenda de Dedalus e Ícaro, o labirinto representa a territorialidade da contingência que nos aprisiona. Por exemplo, o salariato e a condição de proletariedade, que discutimos alhures, com sua dimensão estranhada, recorrente e intermitente, pleno de falta de sentido, torna-se efetivamente um labirinto na modernidade do capital. Ele aprisiona hoje, mais do que nunca, homens e mulheres que trabalham, nos interstícios da necessidade infindável de ganhar a vida para perdê-la.

Estar num trabalho com o qual não nos identificamos, labor profissional na qual se cultivou tantas perspectivas de realização pessoal, mas cuja intensificação degrada a pessoa humana, é estar num labirinto. A alta escolaridade semeia o sonho da realização profissional que acalenta a possibilidade de ir além do labirinto. As asas construídas por Dedalus e coladas com cera, asas utilizadas para ele e o filho saírem do labirinto, representam o anseio de emancipação e realização pessoal do homem-que-trabalha Entretanto, ocorre a tragédia: após alçarem vôo, num certa altura, Ícaro fascinado pela capacidade de voar, eleva-se cada vez mais em direção ao sol, que derrete a cera das asas do jovem sonhador que cai ao chão. É a derrelicao de Ícaro.

O termo “derrelição” ou “queda” na acepção existencialista, possui um sentido de destino irremediável. Mas, na verdade, o paradoxo de Ícaro não se trata de destino humano irremediável, como supõe o termo derrelicção, mas exprime o fetichismo salarial vigente no mundo histórico do capital que se impõe a jovens escolarizados ansiosos por realização pessoal no interior da laboralidade intensa do mundo do capital.

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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) já está à venda também em formato eletrônico (ebook) nas lojas da Gato Sabido e Livraria Cultura. O autor conta com um artigo na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas, à venda em ebook por apenas R$5 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, dentre outras. Giovanni Alves conta também com o artigo “Trabalhadores precários: o exemplo emblemático de Portugal”, escrito com Dora Fonseca, publicado no Dossiê “Nova era da precarização do trabalho?” da revista Margem Esquerda 18, já à venda em ebook na Gato Sabido.

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Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

1 comentário em A derrelição de Ícaro

  1. Republicou isso em Projeto Observatório do Precariadoe comentado:
    Juventude, formação e mundo do trabalho: mais um texto de Giovanni Alves.

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