“Bergogliomania” e crise

13.11.14_Osvaldo Coggiola_Bergogliomania e crisePor Osvaldo Coggiola.

Em março de 1976, quando da instauração na Argentina de uma das mais sangrentas ditaduras militares da América Latina, Jorge Mario Bergoglio ainda não havia cumprido 40 anos, mas já era “Provincial” (chefe) da Ordem dos Jesuítas no país. Nenhuma fotografia dos anos sucessivos testemunha diretamente qualquer proximidade entre ele e a Junta Militar, diversamente das que evidenciam a enorme proximidade entre a alta hierarquia católica (à qual Bergoglio ainda não pertencia) e o time de assassinos profissionais governante. Bergoglio, porém, longe esteve de se opor à linha seguida pela Igreja de Roma (não só na Argentina, mas em toda a América do Sul atingida por regimes contrarrevolucionários ferozes). O “processo” militar argentino se autojustificou na necessidade da eliminação da “corrupção” (peronista) e da “subversão” (armada), ou seja, da guerrilha. O conceito desta última foi ampliado até atingir toda atividade político-social: expor opiniões, reivindicar, escrever, falar, ler, até pensar (sic). Semelhante noção não poderia se apoiar em nenhum “direito”: inventou-se então uma “guerra (nacional) anti-subversiva”. Os ideólogos da ditadura chegaram a afirmar que a Terceira Guerra Mundial (contra o comunismo) já começara na Argentina, na forma de uma “guerra suja” (conceito inventado pelos torturadores franceses na guerra da Argélia). A consequência dessa mistificação (não havia nenhuma guerra civil na Argentina, a guerrilha de esquerda era localizada, e já estava militarmente derrotada em 1976) foi a forma ilegal e horrorosa que tomou a repressão: as “desaparições forçadas de pessoas”, que atingiram mais de 30 mil vítimas.

As “desaparições”, que eram parte de um plano de total extermínio físico, atingiram guerrilheiros, políticos, estudantes, escritores, dirigentes e ativistas sindicais, e até membros do próprio governo militar, como o seu embaixador na Venezuela (o político da UCR, Hidalgo Solá) ou empresários como Fernando Branca, assassinado pelo seu sócio Emílio Eduardo Massera (membro da Junta), pois o “método” engoliu seus executantes, que passaram a usá-lo entre eles. Massera comandou o centro de detenção clandestino da Marinha em Buenos Aires, situado na ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada). Por esse local passaram mais de cinco mil detidos – desaparecidos, dos quais menos de uma centena sobreviveu. Massera foi julgado e condenado à prisão perpétua em 1985, sendo depois indultado pelo governo de Carlos Menem, na década de 1990.

Em depoimento feito a um jornalista em 2011, o ditador Jorge Rafael Videla foi explícito quanto ao método e objetivo das “desaparições”. Estas visavam:

  1. A detenção ou o sequestro de milhares de “líderes sociais” e “subversivos” seguindo listas elaboradas entre janeiro e fevereiro de 1976, antes do golpe, com a colaboração de empresários, sindicalistas, professores e dirigentes políticos e estudantis;
  2. Os “interrogatórios” (eufemismo que encobre torturas indescritíveis) em lugares secretos ou centros clandestinos;
  3. A morte dos detidos considerados “irrecuperáveis”, geralmente decidida em reuniões específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas nas quais foi dividido o país;
  4. A desaparição dos corpos, que eram jogados no mar, em rios, arroios ou canais; ou ainda enterrados em lugares secretos, ou queimados em um forno ou em uma pilha de pneus de automóveis.

Disse Videla: “Eram sete ou oito mil as pessoas que deviam morrer para ganhar a guerra contra a subversão; não podíamos fuzilá-las. Também não podíamos levá-las à Justiça”, admitindo sua condição de carrasco de uma geração de lutadores. Como admitir, justificar, abertamente esse papel, perante si próprio e o mundo? É exatamente aí que entrava um componente essencial da ideologia da ditadura: a suposta “missão de Deus” que estavam cumprindo (“Os assassinos de Deus”, chamou-os a pesquisadora canadense Patricia Marchak), com aprovação de seu representante oficial na Argentina: a Igreja Católica.

Diante da pergunta de por que os chefes militares haviam chegado à conclusão de que não podiam levar os detidos diante da Justiça, Videla respondeu: “Também não podíamos fuzilá-los [legalmente]. Como íamos fuzilar toda essa gente? A justiça espanhola condenou à morte três integrantes do ETA [Euskadi Ta Askatasuna, Pátria Basca e Liberdade], uma decisão que Franco avalizou apesar dos protestos de boa parte do mundo: só pôde executar o primeiro, a pesar de ser Franco. Também existia o temor pela reação mundial que a repressão de Pinochet no Chile havia provocado” (em 1973).

Para Videla, “não havia outra solução. Estávamos de acordo que era o preço a pagar para ganhar a guerra e necessitávamos que não fosse evidente para que a sociedade não percebesse. Por isso, para não provocar protestos dentro e fora do país, durante o transcurso dos fatos se chegou à decisão de que essas pessoas desapareceriam; cada desaparição pode ser entendida, certamente, como a maquiagem ou a dissimulação de uma morte”. Boa parte de juventude e da classe trabalhadora militante argentina foi fisicamente eliminada, ou condenada a uma fuga que para muitos nunca teve fim.

Juan Gelman, poeta, pai e avó de desaparecidos, comentou: “Essa entrevista com Videla, na qual ele confessa que matou oito mil, permite-me descobrir nele uma qualidade que desconhecia: a modéstia. Porque, na verdade, foram mais de 30 mil. Videla se expressa como quem encabeçou o golpe militar, mas para analisar os golpes necessitamos levar em conta primeiro que eles sempre tiveram respaldo civil, segundo, que houve partidos políticos que os incitaram e, terceiro, que os golpes foram movidos por interesses muito concretos e importantes. Faltou dizer, por exemplo, quantos campos de concentração existiram, o que ocorreu dentro deles e qual foi o destino dos desaparecidos. Videla tampouco disse onde estão os arquivos. Enfim, há uma quantidade de perguntas que os familiares dos desaparecidos se fazem e sobre as quais ele não falou”.

Em 1984, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) informou ao governo do presidente Raúl Alfonsín que, durante a ditadura militar argentina (1976-1983), haviam desaparecido 8.961 cidadãos, daí a cifra dada por Videla, que justificou religiosamente o uso da tortura (“Deus sabe o que faz, porque o faz e para quê. Aceito a vontade de Deus e acredito que Deus nunca soltou a minha mão”: os ditadores achavam mesmo que estavam cumprindo uma missão divina, no que era visível a mão da Igreja Católica) e destacou o papel da “doutrina francesa na luta contra guerrilhas” em seu governo.

A tortura e a morte tinham alvo certo: os primeiros levantamentos da Anistia Internacional, realizados já em fins de 1976, comprovaram que a porcentagem maior de vítimas achava-se no movimento operário, em especial seus setores de vanguarda (delegados de base, ativistas classistas). Esse foi o modo de eliminar a chamada “guerrilha fabril” (o ativismo operário classista) denunciada pouco antes do golpe militar pelo “democrata” Ricardo Balbín (líder da União Cívica Radical, UCR). Era um movimento de extrema reação política do conjunto da burguesia argentina, por intermédio dos militares, contra a perspectiva da revolução social. O terrorismo anticomunista peronista que o precedeu (a célebre AAA, ou Tríplice A, Aliança Anticomunista Argentina, organizada pessoalmente por Perón e seu ministro-secretário López Rega, atuante desde finais de 1973) foi integrado, incrementado, no terrorismo militar, estabelecendo-se uma continuidade essencial entre os dois regimes. Os militares chamaram de “guerra suja” os seus procedimentos, reconhecendo a natureza do seu comportamento. O termo “terrorismo de Estado”, adotado depois, ocultou o essencial: um massacre metodicamente planejado e executado pelas Forças Armadas (tal como o reconheceu a “Comissão Sábato”, criada pelo governo Alfonsín em 1984).

Seu cúmplice na tarefa mortífera foi a Igreja Católica, que na Argentina sempre foi um bastião da oligarquia dominante a ponto de Perón ter sido excomungado no seu primeiro governo (1946-1955) e os tanques do golpe de 1955 terem sido pintados com cruzes e a frase “Cristo vence!”. Na Argentina o catolicismo ainda é religião oficial e o Estado paga os salários do clero com o dinheiro público. Até recentemente, a principal cerimônia de comemoração da independência nacional era uma missa na catedral. Encarregada em 1976 pelos militares do ministério da educação, com Ricardo Bruera, a Igreja promoveu o pior processo educacional obscurantista já conhecido na Argentina (a teoria dos conjuntos, por exemplo, foi banida do ensino escolar da matemática, por partir de um “princípio comunista”). Monsenhor Plaza (arcebispo de La Plata) distribuía crucifixos nos campos de extermínio (onde os detidos sofriam as piores torturas antes de serem mortos), enquanto Monsenhor Bonamin (capelão do Exército) benzia os “grupos de tarefa” encarregados de sequestrar, torturar e matar; não faltando os que, como o padre e capelão militar Christian Von Wernich, hoje condenado pela justiça, montaram um lucrativo comércio de venda de informações (falsas) aos desesperados parentes dos desaparecidos.

Trinta e cinco anos depois dos fatos, o cardeal argentino Primatesta referiu-se a uma carta de “Emilio Mignone, padre de la detenida-desaparecida Mónica Candelaria Mignone, y una de las más altas personalidades laicas del catolicismo argentino. Mignone había sido ministro de Educación en la provincia de Buenos Aires en la década de 1940 y viceministro de Educación nacional en la de 1960. El fundador del CELS [Mignone] le escribió a Primatesta que el sistema del secuestro, el robo, la tortura y el asesinato, “agravado con la negativa a entregar los cadáveres a los deudos, su eliminación por medio de la cremación o arrojándolos al mar o a los ríos o su sepultura anónima en fosas comunes” se realizaba en nombre de “la salvación de la ‘civilización cristiana’, la salvaguardia de la Iglesia Católica”. Agregó que la desesperación y el odio iban ganando muchos corazones”. A um jornalista espanhol, Videla disse: “Mi relación con la Iglesia Católica fue excelente, muy cordial, sincera y abierta”, porque “fue prudente, no creó problemas ni siguió la “tendencia izquierdista y tercermundista” de otros Episcopados”. Condenava “algunos excesos”, mas “sin romper relaciones”. Con Primatesta, até “llegamos a ser amigos”. A Igreja Católica argentina, portanto, sabia, calou, ocultou e até deu a benção (ao genocídio).

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É claro que houve exceções dentro da Igreja (também as houve nas Forças Armadas), mas a instituição clerical como tal foi parte ativa do massacre, como foi denunciado pelas Mães da Praça de Maio ou pelo grande artista plástico León Ferrari. Não raro as exceções clericais, como o bispo da província de La Rioja, Monsenhor Angelelli, ou os padres da ordem palotina, que foram todos massacrados por protegerem perseguidos políticos, foram vítimas dos assassinos benzidos pelos seus superiores. Enrique Angelelli morreu em um suposto acidente de carro: embora houvesse evidências gritantes de assassinato, a cúpula da Igreja aceitou a versão oficial e acobertou o crime enquanto mantinha o apoio a Videla e à Junta.

A “corrupção” do precedente governo peronista foi eliminada hegelianamente, ou seja, conservada e elevada a níveis estratosféricos. Negociatas, mas também roubo e venda dos bens das pessoas desaparecidas, sem falar no orçamento astronômico militar, responsável por quase metade da dívida externa, que atingiu 45 bilhões de dólares. O Estado capitalista assumiu, na Argentina da ditadura militar, sua forma extrema, essencial, de máfia armada dedicada ao saque das finanças públicas e da população.

Na degringolada da Junta Militar, durante e consecutiva à derrota da Argentina na guerra das Malvinas, o Vaticano assumiu um papel de primeiro plano para evitar uma crise revolucionária (e também para garantir a vitória da coalizão militar anglo-ianque). Em 1º de junho de 1982, na véspera da derrota argentina, o Papa João Paulo II chegou a Buenos Aires para “orar pela paz”. O Papa permaneceu no país por dois dias, durante os quais desenvolveu uma intensa atividade que compreendeu, fundamentalmente, uma prolongada entrevista com a Junta Militar e com o presidente Leopoldo Galtieri, duas missas celebradas junto aos cardeais, que congregaram centenas de milhares de pessoas, uma delas em Palermo (Buenos Aires) e outra em Luján. Durante esses atos e outras aparições ante a multidão, o Papa pronunciou discursos em espanhol, pedindo a toda a nação para orar pela paz, com a guerra ainda em andamento. Antes de voltar para Roma, o Sumo Pontífice manteve uma conversa a sós com o presidente Galtieri, cujos termos nunca foram revelados, mas que foram decisivos para a rendição argentina, em momentos em que o desfecho bélico ainda era incerto.

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O low profile de Bergoglio nesse período merece uma elucidação. Jorge Mario Bergoglio, filho de um casal de imigrantes italianos, nasceu e foi criado no bairro de Flores, Buenos Aires. Fez graduação e mestrado em química na Universidade de Buenos Aires. Durante a sua adolescência, teve uma namorada, Amalia. Ingressou no noviciado da Companhia de Jesus em março de 1958, e o completou em Santiago, capital do Chile. Graduou-se em Filosofia em 1960, na Universidade Católica de Buenos Aires. Entre os anos 1964 e 1966, ensinou Literatura e Psicologia, no Colégio Imaculada Concepção, na Província de Santa Fé, e na Universidade do Salvador, em Buenos Aires (um centro histórico – e privado – da reação política). Graduou-se em teologia em 1969, e recebeu a ordenação presbiteral em dezembro desse ano. “1969” é mais do que significativo, pois foi o ano do início das insurreições populares contra a ditadura militar de Onganía, começadas em Córdoba (“cordobazo”).

Por esses anos, o já destacado jesuíta hoje Papa andou vinculado à Guardia de Hierro, grupo peronista que, no quadro da efervescência social reinante, se opunha à esquerda peronista (Montoneros, Juventude Peronista e outros) que propunha a luta armada, e também às tendências cristãs (Cristianismo y Revolución, ou o Movimento de Sacerdotes pelo Terceiro Mundo, cujo principal representante, o padre Mugica, foi assassinado pela direita peronista, a já mencionada Triple A, financiada por Licio Gelli e a Loja P2) que convergiam com aquela, tendências que percorriam a Igreja na América Latina, seguindo o exemplo do padre-guerrilheiro Camilo Torres (com destaque para a “Teologia da Libertação”, nascida no Peru e desenvolvida no Brasil). As convicções políticas do futuro Papa se alicerçaram nessa experiência de combate laico e religioso contra a esquerda.

Bergoglio emitiu seus votos na Companhia de Jesus em 1973, quando foi nomeado Mestre de Noviços, no Seminário da Villa Barilari. No mesmo ano foi eleito superior provincial dos jesuítas. Em 1980, após o período do provincialato passou a ensinar em uma escola dos jesuítas. No período de 1980 a 1986 foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, concedendo honrarias acadêmicas (doutorado honoris causa) a membros da mais alta cúpula militar da ditadura, incluído o assassino e mafioso Emílio Eduardo Massera. Após seu doutorado na Alemanha, foi confessor e diretor espiritual em Córdoba. Guardia de Hierro, com a qual Bergoglio continuou vinculado, cultivava boas relações com Massera.

Segundo Alejandro Tarruella, “Jorge Bergoglio se vinculó a los miembros de GH a partir de su participación en la Universidad del Salvador. En 1975 Bergoglio nombró en la universidad a dos miembros de GH: Francisco “Cacho” Piñón y a Walter Romero. Piñón fue quién le entregó en el año 1977 la designación de Profesor Honoris Causa al almirante Emilio Eduardo Massera”.

O falecido Massera tinha concebido um plano para transformar-se no herdeiro político de Perón no pós-ditadura, chegando a publicar livros falsamente assinados por ele e um periódico, para o qual usou os serviços compulsórios de detidos-desaparecidos da ESMA, depois massacrados (com seus cadáveres também sumidos), plano afundado pela degringolada militar de 1982-1983. Bergoglio seria necessariamente peça política dessa frustrada movida, esboçada no momento de glória da ditadura dos “assassinos de Deus”.

No longo período civil de acerto de contas com as barbaridades militares, Bergoglio, já cardeal, foi denunciado em 2005 por conexões com o sequestro dos padres jesuítas Orlando Virgilio Yorio e Francisco Jalics, acontecido em 23 de maio de 1976, quando trabalhavam sob o comando de Bergoglio, desempenhando tarefas junto a populações humildes do Bajo Flores. Bergoglio expulsou os dois da Ordem dos Jesuítas. A denúncia contra ele se baseou artigos jornalísticos e o livro Igreja e Ditadura, escrito por Emilio Mignone, uma autoridade indiscutida na matéria. Outro livro, La Isla del Silencio, referido a uma propriedade situada numa ilha que foi cedida pela Igreja às Forças Armadas para servir como campo de extermínio, do conhecido jornalista Horacio Verbitsky, também fez referência às ligações de Bergoglio com a ditadura: “[Bergoglio] vai à Chancelaria, pede um trâmite em favor do sacerdote [Jalics], mas, por baixo do pano, diz para não o concederem porque se trata de um subversivo”. Francisco Jalics desmentiu as acusações, em declaração publicada no site da ordem jesuíta alemã: “O missionário Orlando Yorio e eu mesmo não fomos denunciados pelo padre Bergoglio”, o que não desmente nada do afirmado por Mignone e Verbitsky.

Sergio Rubin, seu biógrafo autorizado, relatou que Bergoglio, após a desaparição dos dois sacerdotes (que Rubin, com a maior cara de pau, chama de “prisão”) trabalhou nos bastidores para a sua libertação e intercedeu, de forma privada e pessoal, junto ao ditador Jorge Rafael Videla. Não era, certamente, qualquer um que podia “interceder privada e pessoalmente” junto a esse psicopata, e menos ainda por desaparecidos. Rubin também relatou que Bergoglio deu abrigo a pessoas perseguidas pela ditadura em propriedades da Igreja, chegando a dar seus próprios documentos de identidade a um homem que se parecia com ele, para que pudesse fugir da Argentina. Bem, militares altamente implicados na repressão também agiram para salvar algumas pessoas que lhes eram próximas, parentes incluídos. O vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, também refutou (ou melhor, tentou refutar) as acusações referentes ao atual Papa Francisco. Esquivel afirmou que “alguns bispos foram cúmplices do regime [alguns?], mas não foi o caso de Bergoglio”, coisa que ele não pode saber, a não ser que o próprio Esquivel contasse com cumplicidades duvidosas. Estela de la Cuadra, irmã de Orlando Yorio, bem mais próxima aos fatos imputados, afirmou em entrevista que “a Igreja Católica escolheu uma pessoa que foi cúmplice de um regime genocida”…

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A operação montada para “limpar a barra” do agora modesto Francisco I impressiona e inclui várias respeitabilidades oficiais, como Pérez Esquivel. Paulo Suess, em artigo publicado no site do “Instituto Humanitas Unisinos” (cristão) resumiu:

“Bergoglio e sua Igreja argentina não mostraram atitudes proféticas durante a ditadura militar (1976-1983) como aconteceu em outras igrejas latino-americanas. Nessa época, Bergoglio ainda não era bispo, mas provincial dos jesuítas da Argentina (1973-1979). Como provincial expulsou dois jovens jesuítas – Orlando Virgílio Yorio e Francisco Jalics – da Companhia de Jesus e dificultou a sua recepção na diocese de Moron dirigida pelo salesiano Miguel Raspanti. Entre expulsão e trâmites de recepção, dia 23 de maio de 1976, Yorio e Jalics foram sequestrados pelas forças militares, torturados e, meio ano mais tarde, expatriados. A sincronização entre expulsão e sequestro dos dois ex-jesuítas indica certo entendimento entre autoridade eclesiástica e militar. Definitivamente provado não foi” (grifo nosso).

Certamente, muitas outras coisas não puderam ser provadas nessa repressão ilegal, secreta e indocumentada. Mas as evidências existem para quem não quiser ser cego.

Cinco testemunhos, oferecidos de forma espontânea, confirmaram o papel de Jorge Mario Bergoglio na repressão do governo militar, inclusive sobre as fileiras progressistas da Igreja Católica que ele hoje preside: uma teóloga que durante décadas deu catequese em colégios do bispado de Morón, o ex-superior de uma fraternidade sacerdotal que foi dizimada pelos desaparecimentos forçados, um integrante da mesma fraternidade que denunciou os casos ao Vaticano, um sacerdote, e um leigo, que foram sequestrados e torturados. Dois meses depois do golpe militar de 1976, o bispo de Morón, Miguel Raspanti, tentou proteger os sacerdotes Orlando Yorio e Francisco Jalics porque temia que fossem sequestrados, mas Bergoglio se opôs, segundo a ex-professora de catequese em colégios da diocese de Morón, Marina Rubino, que nessa época estudava teologia no Colégio Máximo de San Miguel, onde Bergoglio vivia. Ela havia sido aluna de Yorio e Jalics e sabia do risco que eles corriam: eles foram sequestrados, como dito, no dia 23 de maio de 1976 e conduzidos à Escola de Mecânica da Armada, onde um especialista em assuntos eclesiásticos lhes interrogou. Em um dos interrogatórios, perguntou-lhe sobre os seminaristas Carlos Antonio Di Pietro e Raúl Eduardo Rodríguez. Ambos eram colegas de Marina Rubino no curso de teologia de San Miguel e desenvolviam trabalhos sociais num bairro popular, de onde foram sequestrados dez dias depois que os dois jesuítas, a 4 de junho de 1976, e levados para a mesma “casa operativa” que Yorio e Jalics.

Alejandro Dausa, que em 3 de agosto de 1976 foi sequestrado em Córdoba, quando era seminarista da Ordem dos Missionários de Nossa Senhora de La Salette, depois de seis meses nos quais foi torturado pela polícia no Departamento de Inteligência D2, pôde viajar para os Estados Unidos, onde encontrou o responsável do seminário. Este era o sacerdote norte-americano James Weeks. Ao chegar aos EUA, soube que Jalics se encontrava em Cleveland, na casa de uma irmã. Em dois retiros espirituais, realizados em 1977 em Altamont (Nova York) e em Ipswich (Massachusetts), conversaram entre si. Dausa lembrou: “Como é natural, conversamos sobre os sequestros respectivos, detalhes características, antecedentes, sinais prévios, pessoas envolvidas etc. Nessas conversas, ele nos indicou que Bergoglio os havia entregue e denunciado”.

Na década seguinte, Alejandro Dausa trabalhava como padre na Bolívia e participava dos retiros anuais da La Salette na Argentina. Em um deles, os organizadores convidaram Orlando Yorio, que nessa época trabalhava em Quilmes: “O retiro foi em Carlos Paz, Córdoba, e também nesse caso conversamos sobre a experiência do sequestro. Orlando indicou o mesmo que Jalics sobre a responsabilidade de Bergoglio”. Orlando Yorio morreu em agosto de 2000 em Montevidéu, no Uruguai.

O fundador da fraternidade leiga dos “Irmãozinhos do Evangelho Charles de Foucauld”, Roberto Scordato, aceitou narrar que entre o fim de outubro e o começo de novembro de 1976 se reuniu em Roma com o cardeal Eduardo Pironio, que era prefeito da Congregação para os Religiosos do Vaticano, e lhe comunicou o nome de um sacerdote da comunidade jesuíta de San Miguel que participava das sessões de tortura no quartel de Campo de Mayo com o papel de “amolecer espiritualmente” os detidos. Scordato pediu-lhe que transmitisse o fato ao superior geral Pedro Arrupe. O mesmo caminho foi seguido por um dos detidos na batida policial do bairro popular La Manuelita, o médico Lorenzo Riquelme. Quando recuperou sua liberdade, em comunicações com quem era então o superior dos Irmãozinhos do Evangelho, Patrick Rice, Riquelme disse que quem o denunciou foi um jesuíta do Colégio de San Miguel, que era capelão do Exército, convencido de que esse sacerdote presenciou as torturas que lhe foram aplicadas em Campo de Mayo. Rice, que também foi sequestrado e torturado nesse ano, disse que isso não teria sido possível sem a aprovação do padre provincial (Bergoglio). As evidências, portanto, sobram.

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Durante o período da democracia, Bergoglio prosseguiu, sem ser inicialmente incomodado por seu passado comprometedor (como aconteceu com muitos outros), sua carreira político-religiosa. Distinguiu-se como porta-voz das principais campanhas reacionárias encabeçadas pela Igreja Católica argentina, contra a lei do divórcio e contra o aborto legal, entre outras. Foi o principal opositor à legislação argentina que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tendo dito que:

“Se o projeto de lei que prevê às pessoas do mesmo sexo a possibilidade de se unirem civilmente e adotarem também crianças vier a ser aprovado, poderia ter efeitos seriamente danosos sobre a família. O povo argentino deverá afrontar nas próximas semanas uma situação que, caso tenha êxito, pode ferir seriamente a família. Está em jogo a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filhos. Não devemos ser ingénuos: essa não é simplesmente uma luta política, mas é um atentado destrutivo contra o plano de Deus [sic]”.

Em maio de 1992, o Papa João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Buenos Aires. Sua ordenação episcopal deu-se em junho de 1992. Em 3 de junho de 1997, foi nomeado arcebispo coadjutor de Buenos Aires. Tornou-se arcebispo metropolitano de Buenos Aires em fevereiro de 1998. Foi depois nomeado ordinário para os fiéis de rito oriental por João Paulo II, em novembro de 1998.

Uma carreira meteórica, garantida pelo favor de Karol Wojtila, que tinha reduzido o teólogo progressista Leonardo Boff e seus partidários ao silentium obsequiosum, e proclamado claramente que “a Igreja católica não é uma democracia”. Como se sabe, João Paulo II combateu firmemente a Teologia da Libertação e outras vertentes progressistas dentro da Igreja ao mesmo tempo em que canonizava o fundador da reacionária Opus Dei e afagava o criminoso pedófilo Marcial Maciel, fundador da ultra-ortodoxa seita dos “Legionários de Cristo”. Silenciou enquanto foi possível sobre as ditaduras militares da América Latina com apoio norte-americano; acobertou as fraudes financeiras pelo Banco do Vaticano junto à Máfia italiana e à CIA, incluindo o tráfico de armas e financiamento de guerrilhas de direita, como revelou o escândalo do Irã-Contras. Protegeu o presidente do mesmo banco, Arcebispo Marcinkus, condenado por cometer fraudes e crimes financeiros, e também suspeito de ser mandante de três assassinatos. Encobriu os casos de pedofilia na Igreja enquanto cobrava dos fiéis que não usassem meios contraceptivos como a pílula e a camisinha, mesmo na época em que surgiu a epidemia pelo HIV, e lutava ativamente contra o reconhecimento das relações homossexuais.

Quando Bergoglio, nos anos 2000, chegou à condição de chefe do episcopado argentino, as relações sociais do país se encontravam em processo de dissolução. Bergoglio considerou positivamente a operação de resgate político do Estado encabeçada pelos Kirchner. Quando a Argentina capitalista se derrubava, Bergoglio convocou a mesa de “diálogo social” onde participou a central sindical CTA para sustentar o governo de Duhalde, que antecedeu Kirchner e estava procedendo a um gigantesco confisco econômico-social. O vice-governador de Buenos Aires, Gabriel Mariotto, o chefe do Movimiento Evita, Emilio Pérsico, qualificaram Bergoglio de “peronista”.

Em 19 de abril de 2005, quando Ratzinger foi eleito sucessor de João Paulo II, a ascensão internacional de Bergoglio já estava bem consolidada (sobretudo ao calor da luta contra as tendências “progressistas” na Igreja) ao ponto de ocupar o segundo lugar na votação do conclave vaticano. Provavelmente, não foi vencedor na ocasião por causa das denúncias que começavam a pesar sobre ele na Argentina: em O Homem que Não Queria Ser Papa, o jornalista alemão Andreas Englisch, correspondente no Vaticano, disse que o medo de eventual cumplicidade com a ditadura tornou o argentino uma escolha insegura para os cardeais. O escolhido, Joseph Ratzinger, fora o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (como foi em 1908 rebatizada a Santa Inquisição), colocado no posto por Wojtila para modelar a doutrina da Igreja.

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Durante o pontificado de Bento XVI estalou a crise econômica mundial. A crise, não era mais, para o Vaticano, a da Igreja, mas sim a crise do capitalismo e de sua forma institucional como um todo, atingindo a totalidade dos Estados e instituições. Ratzinger pouco poderia fazer em meio a esta tormenta. O que pôde ele fez no sentido de continuar encobrindo, disfarçando, tocando adiante um barco furado cujo destino é naufragar, de modo similar aos Estados Nacionais com suas dívidas e escândalos políticos. Seu legado para a Igreja foi, afinal, semelhante ao que o reinado de Bush deixou para os Estados Unidos: a clareza mais ou menos generalizada de que comandava uma instituição suja, corrompida e podre em seus fundamentos.

Para o IOR (instituto para as Obras da Religião), o banco do Vaticano,[1] Ratzinger havia nomeado um banqueiro ligado a Opus Dei e ao Banco Santander, Gotti Tedeschi, que renunciou em 2012, no mesmo dia em que o mordomo do Papa era preso por revelar documentos secretos. O informe secreto de Tedeschi sobre o IOR revelava que ocorriam todo tipo de negociatas, lavagem de dinheiro, inclusive da máfia siciliana. O novo presidente do IOR, Ernest von Freyberg, foi nomeado após a renúncia do Papa e, até então, presidia um estaleiro alemão que fabricava navios de guerra desde o período nazista.

Bento XVI protegeu setores diretamente nazistas do clero, como o bispo Richard Williamson, negacionista do Holocausto que havia sido excomungado por João Paulo II, e cuja excomunhão foi revogada por Bento XVI em 2009. Apesar disso e de ter atendido aos interesses de setores ultraconservadores da Opus Dei e do Caminho Neocatecumenal, cerrando fileiras com partidos como o PP na Espanha para impor os planos de austeridade e flertando com a extrema-direita europeia, Bento XVI teria desagradado a esses setores ao tentar reconhecer parte dos escândalos de pedofilia para buscar limpar a reputação da Igreja. Um colunista do jornal espanhol El País avaliou que a renúncia foi resultado da pressão desses setores integristas.

Em inícios de 2013, o Papa Bento XVI anunciou que renunciaria ao pontificado em 28 de fevereiro. O impacto da renúncia, embora anunciada como sendo devido a debilidades de saúde, foi um gesto extremo diante de um Vaticano imerso em escândalos hediondos, de depósitos no IOR do dinheiro da Máfia até redes de prostíbulos, de pedofilia e assédio sexual sistemático (um cardeal, o escocês Keith O´Brien deixou de ir ao conclave por esse motivo) até corrupção e assassinatos. Bento XVI comunicou sua renúncia em discurso pronunciado em latim durante um consistório convocado para anunciar três canonizações:

“No mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado. Deverá ser convocado, por quem de direito, o Conclave para eleição do novo Sumo Pontífice”.

Em 2012, o arcebispo italiano aposentado Luigi Betazzi já havia especulado abertamente sobre a possibilidade de sua renúncia: “Aqueles entre nós que têm mais de 75 anos não são autorizados a comandar nem mesmo uma diocese pequena, e os cardeais com mais de 80 anos não podem eleger o papa. Eu entenderia se um dia o Papa dissesse ‘mesmo eu não posso mais realizar meu trabalho’”. O último papa a renunciar fora Gregório XII, que abdicou em 1415, no contexto do “Grande Cisma do Ocidente”: antes dele, houve apenas dois casos: Ponciano em 235 e Celestino V em 1294.

Houve assim uma eleição papal de emergência, em uma situação de crise. A Rede de Sobreviventes dos Abusados por Sacerdotes, no México, apresentou uma lista de doze cardeais do país encobridores de padres pederastas, solicitando sua exclusão da assembleia. Os doze, claro, votaram no conclave, assim como muitos outros em situação semelhante. Só nos EUA a Igreja católica pagou, entre 2007 e 2009, mais de um bilhão de dólares em ressarcimentos judiciais a vítimas de prelados pedófilos. A homofobia (e ao mesmo tempo a prática secreta da homossexualidade) e a misoginia da Igreja Católica são resultados da repressão e do recalque sexual. A reiterada prática de pedofilia por uma parte do clero é produto das neuroses sexuais de recalcados da castidade compulsória.

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A rapidez com que Jorge Bergoglio foi consagrado por um conclave semelhante a uma omertà buscou tirar a sucessão de Bento do impasse dominado pelo colapso da cúpula vaticana. Antes do conclave todos os analistas escreviam que ele não tinha chances por seu currículo ao menos omisso diante do genocídio argentino. Ao que parece, em novas condições (a crise mundial e a crise da Igreja), foi justamente esse currículo que lhe deu as credenciais para a vitória. “A questão central é a governabilidade”, disse John Allen, biógrafo de Joseph Ratzinger, para explicar a urgência dos cardeais “depois de oito anos de não governo” (sic), aludindo, sem nomeá-la, à massa sem precedentes de delitos, crimes e fraudes de todo tipo que levara à renúncia do papa alemão. Os “informes secretos” que provocaram a fuga de Ratzinger nem sequer foram revelados aos 114 cardeais que deviam eleger seu sucessor. A negativa do Secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, em entregar os informes secretos os convenceu de que estavam no fim de uma linha. A continuidade do “partido romano” (um quarto do colégio de bispos) ameaçava com a explosão do bordel vaticano, onde – segundo esses informes – operava, entre outros, um “lobby gay”. O candidato brasileiro, Odilio Scherer, foi liquidado como candidato quando tentou uma defesa do IOR, cujas operações e contas foram objetadas pela comissão europeia dedicada ao resgate do sistema bancário. O IOR está falido, esvaziado por operações com a máfia, lavado de dinheiro e negociatas da cúpula romana.

A decomposição do “partido romano” da Igreja afundou outro papabile, o bispo de Milão Angelo Scola, promovido por bispos ianques e alemães. Bergoglio pareceu ter se beneficiado da fúria e do ressentimento sentidos pelos cardeais em relação às rivalidades e lutas internas da Cúria, que tiraram força do tradicionalmente poderoso bloco italiano, quase um quarto dos cardeais, reduzindo as chances do arcebispo de Milão, Angelo Scola, um dos dois favoritos, com Odilio Sherer.

Foi, portanto, uma escolha de crise. Havia uma consciência clara de que se operava no limiar do abismo: um teólogo afirmou que diante da crise da cúria vaticana, “os monumentais templos religiosos do continente poderiam se transformar em museus”. O “populismo” bergogliano, posto em prática desde os primeiros instantes de seu mandato, antecipa uma das variantes que poderiam preencher o “vazio de poder” europeu: o bonapartismo, que na Europa sempre foi o pedestal que antecipou o fascismo. Depois de fracassar com um representante alemão, acertado com a política do Bundesbank, os cardeais buscaram o novo Papa na finisterrae, numa metáfora da bancarrota da UE, a Europa do capital. Hans Kung, líder intelectual do progressismo católico, depois de dizer que não esperava um Gorbachov no Vaticano, acendeu de cara uma vela para Bergoglio. Não foi o único. Cristina Kirchner esqueceu seus atritos recentes com o inimigo do aborto, dos divorciados e dos gays para correr saudar o homem da reação argentina no trono de Pedro. Os “teólogos da libertação”, por sua vez, nem esperaram a visita de Francisco ao Brasil. O jornal oligárquico argentino La Nación, na outra ponta do espectro político, deixou claro que, no rubro “pedofilia”, Francisco “nunca se pronunciou”.

O cardeal Bergoglio foi assim eleito em 13 de março de 2013, no segundo dia do conclave, escolhendo o nome de Francisco. Sua escolha parece ter sido o resultado de um acordo entre os homens da Cúria, especificamente o decano do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano (que não participou do conclave), os cardeais Giovanni Battista Re e Tarcisio Bertone, e os cardeais americanos. Foi o primeiro jesuíta a ser eleito Papa, o primeiro Papa do continente americano, do hemisfério Sul, e o primeiro não europeu investido como bispo de Roma em mais de 1.200 anos, desde Gregório III, que nasceu na Síria e governou a Igreja Católica entre 731 e 741.

A ordem dos jesuítas esperou quase cinco séculos: ela foi reconhecida pelo Vaticano em 1540, em pleno desenvolvimento das cisões protestante e calvinista (Inácio de Loyola, seu fundador, chegou a coexistir na Universidade de Paris com o próprio Jean Calvin). Tinha sido constituída pouco antes como “ordem guerreira” a serviço do Papa e da expansão da fé no Cristo: a Societas Jesu, ou “Ordem de Jesus” (como a chamava seu fundador) se organizou como um exército, comandado por um general vitalício ao qual se devia obediência absoluta; um exército de alcance e abrangência mundial em defesa da Igreja Romana, no período da Contrarreforma.

A ordem fora fundada em 1534 por Ignácio de Loyola, um militar de origem nobre, em um contexto de profunda crise da Igreja católica, quando a cúpula do clero estava, como agora, coberta por denúncias de corrupção, como a venda descontrolada de indulgências (cuja denúncia por Martin Lutero originou o que se conhece como protestantismo). Neste contexto de crise, a Companhia de Jesus e seus membros alinharam-se completamente à alta hierarquia católica no combate aos protestantes. Os jesuítas passam a realizar, além dos votos comuns de qualquer religioso (obediência, pobreza e castidade) um quarto voto, de obediência total ao Papa. Inácio de Loyola escreveu, em 1554, as constituições jesuítas, dando origem a uma organização rigidamente disciplinada, abnegada, e disposta a realizar qualquer sacrifício para defender o Papa e a Igreja como instituição.[2] Na crise da ordem feudal europeia, ordem da qual a Igreja cristã era a expressão concentrada, a Contrarreforma preservou a Igreja da ruína completa, transformando-a, delimitando-a, engessando sua doutrina, sua moral, seus ritos e sua organização. A Igreja católica se dividiu de sua base social medieval, elevando-se e contrapondo-se a ela: a Igreja se fez Estado.

Entrincheirando-se na Europa ocidental, a Igreja católica conquistou simultaneamente a condição de ponta de lança da colonização ibérica do Oriente e, sobretudo, da América, alicerçando através dela sua pretensão de religião única e universal. Dessa forma e nesse processo, a Ordem jesuíta expandiu-se e cresceu ao compasso de cada vez mais importantes missões que lhe eram encomendadas. Foi desse modo que chegaram ao Reino do Congo (1547), ao Ceilão e ao Marrocos (1548), à China (1552), à Etiópia (1555) e ao Japão (1580). Na América, a conquista, o extermínio e a submissão indígena a trabalhos forçados (na forma da escravidão, ou em outras) foram feitos em nome da cruz cristã. A Igreja Católica (e, depois, as igrejas protestantes na América do Norte) assumiu assim responsabilidade direta na submissão indígena.[3]

A Companhia de Jesus, por isso, se tornou a principal força política na sociedade colonial americana, nos séculos XVI e XVII, diante de uma ainda desorganizada administração colonial e dos próprios colonos, divididos e enfrentados em seus interesses imediatos. As missões jesuíticas no Paraguai permitiram, certamente, poupar a vida de boa parte da população indígena da região – os guaranis – da fúria exploradora dos colonizadores. O choque entre os religiosos e os colonos europeus foi inevitável. Os jesuítas cumpriram um papel decisivo no aniquilamento físico da Revolução dos Comuneros, gestada no Paraguai entre 1721-1725 e 1730-1735. Esta revolução proclamava a soberania do povo sobre o monarca e, entre outras coisas, opunha-se às missões jesuíticas, pois estrangulavam o desenvolvimento de um setor comercial local. Quando o confronto explodiu, os jesuítas, a pedido da monarquia espanhola, organizaram e encabeçaram um poderoso exército de oito mil indígenas e derrotaram os revolucionários em março de 1735. Dessa maneira a Companhia de Jesus participou na colonização e no saque europeu da América. Os jesuítas, porém, foram finalmente expulsos do Paraguai no século XVIII, após a Guerra Guaranítica (1753-1756).

Nas metrópoles ibéricas, os jesuítas também foram expulsos, pois entraram em choque contra o “despotismo ilustrado” de Pombal (Portugal) ou dos Bourbons (Espanha). A influência das ideias jansenistas e anglicanas progredia na península ibérica, ideias trazidas pela influência do absolutismo francês e das tendências anti-romanas manifestadas por alguns setores do clero. A Societas Jesu, no retrocesso que lhe foi imposto, se aferrou a sua função de salvadora do Estado católico.

Em 21 de julho de 1773, com o Breve Dominus ac Redemptor, o papa Clemente XIV suprimiu a Companhia de Jesus, que nessa época contava com cerca de 23 mil membros em 42 províncias (mais do que hoje). Mas a Revolução a trouxe de novo à vida, na sua específica função contrarrevolucionária. Em 1789 estourou a Revolução Francesa, que viu a vitória temporária dos republicanos em Roma e a deportação dos sucessores de Clemente XIV: Pio VI e Pio VII. A resistência à Revolução foi assegurada por uma associação secreta, a “Amizade Cristã”, fundada em Turim pelo ex-jesuíta suíço Nikolaus Albert von Diessbach. Depois de 40 anos, com a Sollicitudo omnium ecclesiarum de agosto de 1814, Pio VII revogou o Breve de 1773 e dispôs a reconstituição da Companhia de Jesus em todo o mundo:

“Nós nos consideraríamos culpáveis diante de Deus de uma falta gravíssima, se, diante dos milhares de presentes agitações que se abatem sobre as coisas públicas, fôssemos negligentes deixando de lado esta segurança de salvação (a Companhia de Jesus) que Deus, por uma providência singular, coloca em nossas mãos. Portanto, enquanto a nave de São Pedro é agitada sem cessar pelas ondas, não podemos rejeitar estes remadores fortes e experientes que se oferecem para nos ajudar a conter a força deste mar agitado, que ameaça a todo instante nos engolir em um naufrágio inevitável”.

Desta vez, hoje, a coisa deve estar pior, pois confiaram a um membro da própria Companhia o papado.

No meio do recuo crescente da Igreja, a infalibilidade papal foi tornada dogma em 1871 pelo Papa Pio IX, derrotado pela guerra de unificação italiana. Do que resultou um Estado (o Vaticano) cuja cidadania é apenas masculina, sem qualquer forma de democracia, que representa uma religião mundial e recebe reconhecimento oficial no que restou de um imenso território pontifical que a independência da Itália terminou de expropriar, exigindo, até a “Concordata”, que o Papa permanecesse confinado no Vaticano.

Já no século XX, os jesuítas continuaram como vanguarda armada do papado nos processos em que se jogou o destino do catolicismo. No período da revolução espanhola (1931-1939), a Ordem dos jesuítas possuía um terço da riqueza nacional do país e era um importante apoio político da monarquia. Devido a suas atividades contrarrevolucionárias, a Segunda República Espanhola a dissolveu e apreendeu, em 1932, todos os bens da Companhia de Jesus por obedecer a um poder estrangeiro (o Papa) e conspirar ao lado dos setores monárquicos.[4] No período final da guerra civil espanhola, durante a qual muitos sacerdotes jesuítas tomaram as armas nas fileiras contrarrevolucionárias de outro Francisco, o Franco Bahamonde da Cúria espanhola, este determinou, em maio de 1938, a revogação do decreto republicano e lhes restabeleceu seus bens.

O poder material milenar da Igreja, que já chegou a possuir a maior parte das terras da Europa e a impor pelo terror inquisitorial o seu domínio nesse continente e alhures, possui, no entanto, uma dupla natureza: material e simbólica. Sua força não reside apenas no Estado do Vaticano,[5] nos ativos financeiros do IOR, estimados em ao menos oito bilhões de dólares, nos mais de 400 mil sacerdotes e 700 mil religiosas espalhados pelo mundo, na influência política junto aos governos, mas também num capital simbólico inestimável, o papel de substituto de Cristo na Terra. Mas esse “capital simbólico” se apoia em um capital bem real e material: o maior detentor de lingotes de ouro no último milênio foi sempre a Igreja Católica, que controla aproximadamente 60.350 toneladas de ouro, duas vezes as reservas oficiais de ouro de todo o mundo, e aproximadamente 30,2% de todo o ouro já produzido na história, com um valor de US$ 1,245 trilhões (o ápice áureo da Igreja foi atingido entre os séculos XIV e XVII, quando ela chegou a controlar 60% de todo o ouro extraído ao longo da história).[6]

Mas nem todo o ouro do mundo é garantia, na sociedade capitalista, contra a crise: o IOR deu balanço negativo em suas contas nos últimos cinco anos, inclusive depois dos saneamentos e da eliminação de Marcinkus and Co. (leia-se cúmplices). A mesma crise produz o choque entre o poder material da Igreja e os Estados nacionais. 26 países possuem representantes no Vaticano, que por sua vez está diretamente representado em 37 Estados nacionais. Na Itália, em especial em Roma, se encontra a direção de 215 ordens religiosas, 89 masculinas e 126 femininas, muitas das quais existem há um milênio, às vezes até um milênio e meio, e possuidoras de conventos e congregações em todos os países do mundo, praticamente.

Na Itália, a Igreja é o verdadeiro “poder paralelo”. Em 2012, o governo Monti tentou taxar as propriedades da Igreja no país (onde a Igreja possui algo entre 33% e 50% das propriedades imobiliárias, um dado também mantido em segredo) ou, mais precisamente, somente aquelas abertamente usadas para fins comerciais (hotéis de luxo, resorts e coisas semelhantes). O projeto de Monti não passou pela Corte Constitucional italiana, a Corte de um Estado laico onde, no entanto, só entram aqueles que contam com a bênção prévia do bispo de Roma (o próprio Papa). E todo o arco político italiano, até a suposta “esquerda”, o PD, calou.

Mas a crise potencial entre o Estado italiano e o Vaticano, supostamente superada pelo Tratado de Latrão (de 1929) celebrado entre o papado e o regime fascista, ficou apenas suspensa, potencial, e será reposta pela crise galopante das contas públicas (140% do PIB de débito público) que a tímida reforma do “professor” Monti queria enfrentar. Uma crise que choca com outra, a crise financeira da Igreja: em 2012 ocorreu o maior déficit fiscal em muitos anos no Vaticano, de cerca de 19 milhões de dólares.

Nessa crise também incide o custo financeiro com os processos por pedofilia. Os escândalos de pedofilia, além do “custo moral”, têm um preço econômico com os processos e indenizações, que só nos EUA, chegou a três bilhões de dólares em mais de três mil processos abertos, com 3.700 clérigos denunciados, 525 já presos, a maioria dos quais condenados e cumprindo penas. A crise que repôs os jesuítas na Igreja, no século XIX, era parte das dores do parto do capitalismo na Europa; a atual crise, que um jesuíta importado do cu do mundo pretende enfrentar, é parte da convulsão provocada pela senilidade histórica do capital; não é a crise do nascimento da Europa do capital, mas a da agonia do mundo capitalista.

A Companhia de Jesus no papado é parte da crise global da Igreja católica. Embora continue administrando numerosos colégios e universidades em vários países (só no Brasil dirige cerca de 200 universidades e 180 colégios) é notória a diminuição em suas fileiras. Quando Bergoglio assumiu o cargo de provincial da Argentina, em 1973, existiam 30 mil jesuítas em todo o mundo (a Ordem chegou a seu auge em 1965, com 36 mil membros). Passados 40 anos, são menos de 18 mil. A idade média dos jesuítas hoje é de 57 anos, e a redução de seus efetivos motivou a unificação de Províncias e o fechamento de várias obras missionárias. Não obstante, continua sendo a maior ordem religiosa da Igreja católica, com presença em 127 países de todos os continentes, e conta com seis cardeais.

Na campanha mundial para levantar a Igreja católica, construindo uma imagem positiva e “renovadora” do novo Papa, convergiram, no entanto, desde os mais reacionários representantes do clero até os antigos membros da Teologia da Libertação. Os brasileiros Leonardo Boff e Frei Betto não economizaram argumentos para criar expectativas no novo Papa, inclusive o fato dele ser membro da congregação jesuíta e sua relação com determinados movimentos “progressistas” dentro da Igreja. Boff celebrou a eleição de Bergoglio porque “um jesuíta tem uma cabeça bem formada” para “renovar” a cúpula católica.

Por enquanto, não houve reformas nem “renovação”, além de gestos simbólicos muito repercutidos pela imprensa. No entanto, a troca da direção do IOR e o anúncio de uma reforma na Cúria já suscitaram uma crise que vai além das fronteiras da Igreja. Um procurador de Reggio Calabria (Nicola Gratteri), membro da comissão estatal italiana contra o “crime organizado”, advertiu que mexer na estrutura financeira da Igreja é mexer com a máfia, e que esta pode apelar aos seus métodos mais usais contra o próprio Papa, caso seus interesses sejam tocados. Uma jornalista do mui conservador Corriere della Sera, especializada em questões religiosas, publicou um livro anunciando o aborto iminente da “revolução do Papa Francisco” devido à pressão interna à Igreja exercida pelos inúmeros e poderosos grupos conservadores (Legionários de Cristo, Focolari, Opus Dei, Comunità di Sant’Egidio, Caminho Neocatecumenal, Comunhão e Liberação, etc.), uma pressão insuperável e muito bem entrincheirada no coração do Estado italiano.[7]

O que sim foi vista foi a função de bombeiro do novo Papa. Francisco I foi ao “maior país católico do mundo”, o Brasil, no qual a proporção de católicos caiu de 92% em 1970 para 65% em 2010%; diminuição que beneficiou as seitas mafiosas evangélicas, que governaram o país na última década ao lado do PT. O papa foi, entre outras coisas, para conter o movimento juvenil que invadiu as ruas brasileiras no mês de junho de 2013, desviando-o, chamando o governo petista a “escutar a voz das ruas” – abrindo mais espaço para a igreja católica e reduzindo o dos evangélicos.

Os “teólogos da libertação” se somaram a essa operação político-religiosa. O Vaticano não trabalhou gratuitamente: pôs os imensos gastos papais no Brasil na conta do Estado, os evangélicos pressionaram o governo brasileiro para que os reduzisse. Toda a “abertura de Bergoglio para os progressistas” se reduziu a um encontro em Roma com o padre peruano Gustavo Gutiérrez, um dos formuladores da Teologia da Libertação, em setembro de 2013, onde nem se sabe do que falaram.

Os traços inusitados do pontificado de Bergoglio, os gestos que deram lugar à atual (e passageira) “bergogliomania”, não são a solução, mas o sintoma da crise que percorre a Igreja, a mais profunda em séculos, que demonstra, para além das declarações em favor dos pobres e contra a cobiça e a insensibilidade dos ricos, que essa instituição milenar uniu para sempre seu porvir ao do capital, e que sofrerá o mesmo destino deste. Um destino que se joga, mais do que nunca, não nas naus dos templos religiosos, mas nas fábricas, escritórios, escolas e ruas do mundo todo.


Notas

[1] O Banco do Vaticano (o “banco mais secreto do mundo” como disse a revista Forbes) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazista, por parte de Pio XII, e de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que assinou com o Vaticano em 1929 o Tratado de Latrão com o Estado italiano. Esse tratado, também conhecido como Concordata, foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália, que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero (só em 1975, houve uma alteração em que o divórcio foi aprovado). Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicada em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam um valor estimado de meio bilhão de libras esterlinas, embora o valor real permaneça secreto.

[2] Sua legislação fundamental, conhecida como a “Fórmula do Instituto”, estabelece os objetivos ainda vigentes da Ordem: “Militar para Deus sob a bandeira da cruz e servir só ao Senhor e à Igreja, sua Esposa, baixo o Pontífice Romano, Vigário de Cristo na terra”. Neste marco, o próprio lema dos jesuítas – Para a maior glória de Deus – sustenta-se no princípio organizativo de ser “disciplinado como um cadáver” (perinde acc adaver). Desde então, os jesuítas são conhecidos como os “soldados do Papa”, pois sua subordinação ao Pontífice católico é incondicional e representa um princípio sagrado para a congregação.

[3] Karl Marx, em O capital, citou uma inquestionável testemunha europeia: “Os atos de barbárie e os perversos ultrajes perpetrados pelas chamadas raças cristãs em todas as regiões do mundo, e contra todos os povos que puderam subjugar, não encontram paralelo em nenhuma época da história universal, e em nenhuma raça, por mais selvagem e inculta, impiedosa e impudica que fosse”.

[4] “O artigo 26 da Constituição da República espanhola declara dissolvidas as Ordens religiosas que estatutariamente imponham, além dos três votos canônicos, outro especial de obediência a outra autoridade, além da legítima do Estado, devendo ser nacionalizados seus bens e afetados a fins benéficos e docentes. (…) a Companhia de Jesus distingue-se de todas as demais Ordens religiosas pela obediência especial à Santa Sé, como o demonstram, entre inumeráveis documentos, a Bula de Paulo III, que serve de fundamento canônico à instituição da Companhia e as próprias Constituições desta, que de modo eminente a consagram ao serviço da Sede Apostólica”.

[5] Além do Vaticano, resistem na Europa soberanias políticas absolutistas e territoriais, como a da Igreja Ortodoxa grega que na península do Monte Athos mantém um controle absoluto, proibindo a entrada de qualquer mulher e até mesmo animais do sexo feminino.

[6] Claudio Rendina, L’Oro del Vaticano, Roma, Newton & Compton, 2013.

[7] Carlotta Zavattiero. Le Lobby del Vaticano. I gruppi integralisti che frenano la rivoluzione di Papa Francesco. Milão, Chiarelettere, 2013.

***

Osvaldo Coggiola é professor titular de história contemporânea da Universidade de São Paulo. Nascido na Argentina, é autor, entre outros livros, de Introdução à teoria econômica marxista. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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