Quase 50 anos do Golpe de 1964: nada a comemorar!

13.3.28_BlogPor Caio Toledo.

Aos que partiram sem poder dizer adeus.

Na data em que o imaginário popular consagra como o “dia da mentira”, 49 anos atrás era rompida a legalidade democrática instituída no Brasil com a Constituição de 1946. Hoje, a quase totalidade das entidades da sociedade civil (de empresários industriais e rurais, de banqueiros, de grupos religiosos e culturais, da grande imprensa etc.) que conspirou, endossou e promoveu a derrubada do governo democrático de João Goulart (1961-1964) não festejará o golpe civil-militar de 1964. Nestes dias, na grande imprensa brasileira que apoiou o golpe de 1964 (e, por alguns anos, atuou como aparelho ideológico da ditadura militar) – entre eles, os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil –, nenhum editorial será publicado para render homenagem à ação dos militares golpistas. (Nem mesmo, a Folha de S. Paulo se atreverá a afirmar, como fez em seu editorial de 17/02/2009, que o regime de 1964 – comparado com as ditaduras da Argentina e do Chile – teria sido uma “ditabranda”…)

Provavelmente, apenas alguns reduzidos setores das Forças Armadas – em especial, os oficiais da reserva –, promoverão, em recintos fechados, encontros para lembrar a “Revolução redentora” de 31 de março de 1964. O fato é que nem mesmo blogueiros porta-vozes da direita civil brasileira – entre eles, alguns jornalistas de Veja, O Globo, Estadão etc. –, evocarão essa data como o dia em que a democracia brasileira teria sido salva da “corrupção”, da “subversão política” e da “ameaça comunista”.

Pode ser afirmado que na “guerra de narrativas” sobre o significado e a natureza deste crucial evento da história política brasileira, os “vitoriosos de abril”, gradativamente, tornaram-se os “perdedores” da luta ideológica. Hoje, as representações políticas e simbólicas dominantes nos meios editoriais, políticos e culturais consagram que 1964 não foi uma Revolução, mas um movimento golpista; ou seja, 1964 foi (a) um golpe que impediu a ampliação da democracia política brasileira nos anos 1960; (b) um golpe contra as reformas sociais e políticas e (c) um golpe contra a politização dos trabalhadores e o promissor debate de ideias que, de norte a sul, intensamente ocorria do país no pré-1964.

Em síntese, hoje, prevalece a compreensão de que nos “tempos de Goulart as classes dominantes (nacionais e internacionais) e seus aparelhos ideológicos e repressivos” – diante das iniciativas e reivindicações dos trabalhadores (das zonas rurais e urbanas) e de setores das camadas médias –, alardeavam a “subversão da lei e da ordem”, a “quebra da disciplina e hierarquia” dentro das Forças Armadas, a “crise de autoridade” do governo Goulart e, de forma ainda mais dramática, a “comunização do país”. Convenhamos que, por vezes expressas através duma retórica “radical” (“reformas na lei ou na marra”, “forca aos gorilas!” etc.), as reivindicações por mudanças socioeconômicas e as demandas políticas da época visavam, fundamentalmente, o alargamento da democracia política e a realização de reformas no capitalismo brasileiro.

Contra algumas formulações “revisionistas” que, hoje, insinuam “tendências golpistas” por parte do governo João Goulart ou das “esquerdas radicais”, devemos enfatizar que quem planejou, articulou e desencadeou o golpe contra a democracia política foi a alta hierarquia das Forças Armadas – incentivada e respaldada pelo empresariado (industrial, rural, financeiro, grande imprensa e empresas multinacionais) – bem como alguns setores das classes médias brasileiras (entidades e associações femininas católicas, de pequenos comerciantes etc.) Está amplamente documentado que, desde 1961 – antes, pois, da chamada “agitação” ou “subversão” das esquerdas –, alguns desses setores começaram a se organizar política e ideologicamente para inviabilizar o governo João Goulart. A ampla mobilização democrática pelas reformas sociais e políticas, apoiada pelo executivo, teve como efeito a ampliação da conspiração civil-militar e o amadurecimento da decisão dos golpistas de decretar o fim do regime político de 1946.

Destruindo as organizações políticas e reprimindo os movimentos sociais de esquerda e progressistas, o golpe foi saudado pelas associações representativas do conjunto das classes dominantes, pela alta cúpula da Igreja católica, pelos grandes meios de comunicação etc. como uma autêntica “Revolução redentora”. Por sua vez, a administração norte-americana de Lyndon Johnson (1963-1969) – que ficou poupada de fornecer o apoio bélico e logístico aos golpistas –, congratulou-se com os militares e civis brasileiros pela rapidez e eficácia da “ação revolucionária”. Para satisfação do Pentágono, da CIA, da Embaixada norte-americana, das empresas multinacionais e do Vaticano, uma “grandiosa Cuba” ao sul do Equador tinha sido evitada!

Embora fosse visto positivamente pelos trabalhadores, pelas baixas classes médias e suas entidades políticas, o governo João Goulart ruiu como um “castelo de areia”. Dois de seus principais pilares de apoio, como apregoavam os setores nacionalistas, mostraram ser autênticas “peças de ficção”. De um lado, o propalado “dispositivo militar” que seria comandado pelos chamados “generais do povo”; de outro, o chamado “quarto poder” que estaria representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A rigor, ambos assistiram, passivamente, a queda inglória de um governo a quem juravam, até 24 horas antes, fidelidade até a morte!

Desorganizadas e fragmentadas, as entidades progressistas e de esquerda – muitas delas subordinadas ou tuteladas pelo governo Goulart – não ofereceram qualquer resistência à quartelada militar. Sabe-se que, às vésperas de abril, algumas lideranças de esquerda afirmavam que os golpistas, caso atrevessem quebrar a ordem constitucional, teriam as “cabeças cortadas”. Mas, como mostraram os “duros fatos da vida”, tudo não passava de uma trágica e cortante metáfora. Com a ação dos “vitoriosos de abril”, a retórica, no entanto, tornou-se, após 1º. de abril, uma cruel realidade para muitos homens e mulheres durante os longos e sombrios 21 anos da ditadura militar.

49 anos depois, nada há, pois, a comemorar. O golpe de 1964 foi um infausto acontecimento, pois implicou efeitos perversos e nefastos ao processo de desenvolvimento econômico, político e cultural do Brasil (que, sabemos, ainda se refletem nos tempos presentes). Decorridos 49 anos do golpe, o conjunto da sociedade brasileira repudia a data; no entanto, os democratas progressistas não podem se contentar com a derrota que os golpistas sofreram no plano ideológico e cultural.

Neste sentido, os progressistas não podem se calar diante da realidade de que o regime democrático vigente no Brasil ainda não fez plena justiça às vítimas da ditadura militar; devem, pois, se empenhar com todas suas forças e inteligência para que a verdade sobre os fatos ocorridos entre 1964 e 1985 seja plenamente conhecida. Tendo em vista que o “direito à justiça” e o “direito à verdade” são condições e pressupostos de um regime democrático, não se pode senão concluir que a democracia política no Brasil contemporâneo não é ainda uma realidade sólida e consistente.

***

Caio Toledo é professor aposentado da Unicamp. Graduado em filosofia pela USP em 1968 e doutor pela UNESP em 1974, atualmente integra o comitê editorial do blog marxismo21. Organizou, entre outros, 1964: visões críticas do golpe – democracia e reformas no populismo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

10 comentários em Quase 50 anos do Golpe de 1964: nada a comemorar!

  1. Amanhã é 1º de Abril.

    Viva a “patriota equivocada”! Viva a guerrilheira entreguista!

    Viva a política desenvolvimentista! Parabéns aos golpistas de 64! A Intentona se concretizará ao final do segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, que tal qual vocês, nacionalistas de merda, hoje aponta os canhões contra o povo.

    Viva a hipocrisia da “esquerda brasileira” que compactua com essa falsa democracia.

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  2. CARLOS JURANDIR MONTEIRO LOPES // 03/04/2013 às 12:11 am // Responder

    Digo respeitosamente ao professor Caio que os militares não foram derrotados, apenas se retiraram depois de cumprida a nefasta missão em que se empenharam, como muito bem atesta o artigo. No entanto, eles impediram de fato que o país crescesse em todos os sentidos, e a mediocridade atual é uma consequência disso. A esquerda, a começar pelo PCB, por exemplo, foi praticamente desmantelada, situação que prevalece ainda hoje, quando não há, a rigor, qualquer partido de esquerda com força no cenário político. Não existe grande imprensa esquerdista e discussão de idéias, a não ser em pequenos espaços, estamos mergulhados na mediocridade da classe média e no consumismo do “aqui e agora”. O Brasil é política e culturalmente um dos países mais pobres do mundo. E tudo isso foi obra de 64.

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  3. Prezado Carlos Jurandir.
    O Brasil é política e culturalmente um dos mais pobres do mundo. E tudo isso foi obra de 1964.
    Não concordo com a sua afirmativa e explico o porquê.
    Quem em sã consciência pode dizer que se um partido de esquerda tivesse conseguido tomar o poder o resultado seria diferente?
    Cuba aderiu ao comunismo, rejeitou integralmente o capitalismo e hoje é o quê? Tirando a parte da ciência (medicina) na qual está relativamente desenvolvida, o resto, é só lamento.A economia um caos, o próprio ser humano que habita a ilha infelizmente é pouco desenvolvido. Adianta culpar os norte-americanos pela infelicidade cubana???Será que Cuba se tivesse se mantido no regime capitalista estaria numa boa condição política e econômica??? Sinceramente não sei. A única coisa que sei é que geralmente os dirigentes desses países, não só os comunistas mas também os países subdesenvolvidos como o nosso, alguns países da África negra e outros por aí estão bem confortáveis em relação as finanças pessoais , o povo se bobear morre a míngua. É a máxima conhecida, infelizmente país rico, mandatários ricos e o povo coitadinho o povo, pobre. Par mim não existe regime certo ou errado, não é o regime que vai ditar o desenvolvimento de um povo. O que faz com que um povo alcance o desenvolvimento é este povo perseguir o certo e nunca o errado, é esse povo priorizar os estudos, a ciência, ter bom senso, cultivar a honestidade, construir um país com leis objetivas, claras onde cada um sabe qual papel exercer.
    Por exemplo o Brasil, saiu do regime militar e voltou para as mãos dos civis. Os políticos , na época que estavam escrevendo a Constituição de 1988 podiam muito bem ter escrito uma Constituição mais fininha, mais clara, mais transparente mais objetiva, no entanto preferiram escrever um calhamaço, complicado onde até juízes costumam ficar em dúvida.
    Eis o nosso país, eis o nosso povo. Compensa colocar a culpa nos norte-americanos??? Nos portugueses???? dos quais ficamos independentes há muitos e muitos anos????Acho que não, não adiantará nada chorarmos o leite derramado adiantará sim, erguermos a cabeça e pressionar para que as coisas mude, para que as leis fiquem mais firmes, mais objetivas, mais claras, que todos, sem exceção possam ficar verdadeiramente sob as leis.

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  4. Moço acho que sua resposta superou o texto, apesar que adorei a narrativa prelecionista sobre o golpe!! Não temos tempo pra apontar dedos mesmo não, apesar de quê cada um faz suas consideração sobre lados e opiniões parlamentaristas e possíveis nichos daquilo que poderia ter sido! Precisamos de uma constituição reformada, de uma política particularizada e revista!

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  5. pires afonso // 23/03/2014 às 3:27 pm // Responder

    Caramba com 50 anos apos a ditadura , e o povo pedindo a liberdade , e os militares de fora e agora esta pior em todos os conceitos da liberdade , hoje tiraram as armas do povo , estão acabando com as forças armadas do Brasil , e a criminalidade esta cada vez maior , o povo tem que ficar trancada dentro de casa , e a malandragem as soltas roubando matando , e ai era para isto que queriam a democracia , temos e que conscientizarmos o povo de terem cuidado na nova escolha agora em Outubro.

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  6. É mesmo assim como o governo nao ta de brincadeira o povo nao tem da bobeira tambem

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  7. O general castelo branco quando idealizou a maldita REVOLIÇÃO DE 64 ,implantando q quartelada dia 31 de março,salvo engano meia noite, segundo meu saudoso pai disse-getulista de coco roxo- e brizolista…teve o dedinho da maçonaria GRANDE ORIENTE LOJA RIO RJ,esqueci quem era o governador na época mais os predeiros sabem, favor me informar via face.Fazendo autocritica temos os pros e contra,eu acho que a revoluçao que castelo idealizou nos campo da idade como combatente contra o nazi-facismo era pra ser so 6 meses e durou quase tres decado.Um absrdo…

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  8. Nada a comemorar?? Se não fosse os militares hoje nós seríamos cuba Venezuela​,então eu agradeço do fundo dá minha alma a todos sem exceção que defendem nosso país a todo custo.

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  9. Doi codi 31/03/2017 // 31/03/2017 às 9:37 am // Responder

    Só aguardando o chamado! E dessa vez não vamos cometer o erro do passado vamos caçar todos vocês não vai sobra nenhum vermelhinho. Traidores

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  10. Quero ver me pegarem em meu aparelho! Estarei 40 anos bem equipado desde então! E que tal levarmos uns 60 conosco, um batalhão! Hah, quero ver me pegarem um dia! E não irei me arrepender em defender só democracia pra tudo, mas idem o meu dileto comunismo de família há cinco gerações! Assim disse o Amado, o preparado desde há muito…me divirto com isso!

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