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A comemoração

14.07.17_Flávio Aguiar_A comemoração[Charge de Ziraldo publicada na revista Visão durante a Copa de 1970]

Por Flávio Aguiar.

Dois municípios se digladiavam no interior do Rio Grande do Sul: Xurumela e Novo Säugling. A rixa era antiga. Novo Säugling, como diz o nome, era predominantemente germânico. Já Xurumela tinha mais de tudo: até alguns dissidentes de Novo Säugling que preferiram se misturar, em priscas eras, aos xurumélios. O contrário também era verdade: muitos xurumenses, sabe-se lá por que, tinham preferido passar para o lado dos säuglinguenses.

A rixa, porém, era antiga. Por exemplo: no tempo da Guerra, alguns säuglingos aderiram ao Terceiro Reich. Não eram a maioria: mas pelo barulho, deram o seu perfil ao município. Marchavam pelas ruas imitando a Wehrmacht, a passo de ganso.

Depois, quando perceberam que isto podia pegar mal, aderiram aos integralistas, camisa verde e tudo o mais. Gritavam Anauê com a mão levantada, no melhor estilo então dominante em Berlim. Isto valeu o apelido a todos os säuglingóis, de “boches” – nome herdado, na verdade, dos filmes americanos sobre a guerra, em que os alemães sempre pareciam gorilas perfilados que falavam um inglês estropiado e gutural.

Já em Novo Säugling os xurumeses tinham fama de vagabundos, que detestavam trabalhar, só pensavam em ir se deitar nas praias do rio Taquari e ficar vadiando. Tudo isto porque muitos xurumelianos adoravam fazer exatamente isto, embora trabalhassem pacas o dia e o mês inteiros. Daí se criou em Novo Säugling a expressão “xurumico” – que servia para designar os vira-latas, os cães vadios, que, aliás, a prefeitura local expulsava sempre para o município vizinho.

Mas havia entre ambas uma sociedade secreta, que se auto-chamava “Os Condestáveis”. Eram grandes empresários de um lado e do outro, que governavam as duas cidades, pois financiavam sempre os candidatos a prefeito e a maioria dos vereadores que eram eleitos. Na verdade, eles, os “Condestáveis”, se julgavam “os eleitos”. Mas preferiam governar na sombra.

Eram sempre muito racionais, embora às vezes surgissem propostas abstrusas entre eles. Por exemplo, um condestável do lado “sing”, preocupado com o excesso de xurumeios que procuravam os bordéis de Säugling”, sugeriu que se construísse um muro na divisa entre as duas cidades, para controlar a passagem. O presidente do Conselho dos Condestáveis se opôs: “logo agora que o muro lá em Berlim caiu?”. Ao que o proponente retrucou: “pois é, a gente podia aproveitar as pedras do de lá pra construir o de cá; sairia barato”.

Mas felizmente a ideia não prosperou. Porque entre as duas cidades havia uma troca intensa, por debaixo da rivalidade. Os condestáveis de Xurumela produziam muito couro e cadarços. Já os de Säugling produziam sapatos. Muitos xurumicos trabalhavam nas fábricas dos boches. E todos – os condestáveis, naturalmente – ganhavam muuuito dinheiro com isto.

Mas aí veio o grande dia do futebol. Alguém teve a ideia de promover um campeonato entre as seleções das duas cidades, em melhor de três. Era para promover a integração, mas logo começaram a surgir as piadas, de que os “boches” jogariam que nem postes e, do outro lado, que os “xurumicos” derreteriam ao sofrer o primeiro gol.

Veio o grande dia. Bandeiras agitadas, feito asas num pombal. Camisetas distendidas em corpos, como num varal. E no campo – cujas arquibancadas estavam lotadas, até com o governador do estado presente – foi um vareio: Xurumela 7 x Singóilingue 1. Uma vergonha. O povo siringóide clamava por vingança. Mas veio a segunda partida, mais sofrida. Mas depois de pênaltis não marcados, expulsões, muito sangue, suor e lágrimas, acabou com a vitória Xuru por 1 x 0.

Daí alguém xurumelo teve a ideia. Vamos fazer uma comemoração.

E fizeram. Era um desfile. Ruas cheias, povo com bandeirinhas xurumélicas na rua. E aí na frente vinha uma linha de jogadores do time xurúquico, de botas, capacete nazi, uniforme, em passo de ganso, cantando: “assim caminham os boches”. A seguir, num passe de mágica, despiam os uniformes, os capacetes, as botas, ficavam de bermuda e chinelo de dedo, entrava uma batucada, e eles a sambar gritavam: “assim caminham os xurumelos!”.

Em Zingoriunga foi um desmanche. “Racismo”, gritavam os mais exaltados. “Desrespeito pelos vencidos”, os menos. “Vergonha”, gritavam todos. “Vingança”, rugiam as ruas.

Alguém teve a ideia: vamos organizar uma dança contrária! A gente começa caminhando de cócoras, cabeça meio baixa, gritando: “assim caminham os xurumicos!”. Depois se alevanta, caminha de pé, e grita: “assim caminha a humanidade!”. Continuava a argumentação: “é o nome de um filme famoso. A gente pode dizer que é um velho costume germânico, de origem medieval – coisa que aliás estes xurumicos não têm – e assim ninguém poderá nos acusar de racismo”. Mas a ideia foi descartada pelo presidente sirigóide dos Condestáveis, temendo que o caso atraísse a atenção das autoridades do estado e até de Brasília. “Ainda mais nestes tempos que lá em Brasília e aqui no estado reinam estes comunas”, ele contou depois à mulher, no jantar.

Mas o caso deflagrou debates candentes de ambos os lados da divisa. Gente contra e a favor, gente que escrevia artigos candentes de um lado exigindo – de ambos os lados – o sangue e a cabeça dos que escreviam pelo outro lado. Grandes confusões de aprontavam no horizonte. Um dos xurumicos, que era amigo de um dos boches, observou para este: “a coisa é feia e vem se debruçando”.

Mas daí alguém – um outro alguém – teve uma ideia – uma outra ideia. Não se sabe muito bem como foi, mas o fato é que num domingo, na praça que marcava a divisa entre as duas cidades, apareceu uma banda. É, uma bandinha, destas do interior. Metade xurumicos, metade boches. Só que os xurumicos vestiam aqueles calçõezinhos de couro da Baviera, com o chapeuzinho verde de peninha em riste. E os boches vestiam de tudo: camiseta listada com sandália de dedo, bombacha de gaúcho, tinha um até vestido de baiana. Por que não?

E desandaram a tocar na manhã ensolarada. Tocavam de tudo. Rancheira, xote, baião, polca, Heimatlandmusik, yodeldideldum suíço, valsa de Viena, rocão, funk, punk, pós-jazz, tudo de tudo. Mas foi na hora do sambão que a coisa começou. Um xurumelo – que tinha uma paixão secreta – não aguentou e tirou-a pra dançar. Só que ela era do lado boche. Mas topou e caiu no samba. Daí subiu a locura. Todo mundo começou a dançar e sambaram até a Kleinenachtmusik do Mozart.

Começou assim a verdadeira comemoração. Diz que durou um mês. Ninguém trabalhou neste tempo. Todo mundo compartilhava tudo: Wurst, picanha, acarajé, cerveja, vinho, refri, água. E caía no samba. Um mês depois, foram dormir, que ninguém é de ferro.

A vida voltou ao normal. Mas nunca mais o normal foi normal. Toda a semana, tem uma festa em algum local, com a bandinha dos aloprados. Tem gente que fala até em fundir os dois municípios. E há uma nova expressão no pedaço, dirigida às novas gerações, capitaneadas por aquele casal que começou a dança: “xuruboche”, e dita com muita honra.

Por seu turno, a Associação Secreta dos Condestáveis registrou aquele mês como perdas e danos. E pediu mais isenção de impostos.

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Berlim, afinal Berlim

14.07.03_Flávio Aguiar_Berlim afinal Berlim[Capa da revista semanal alemã Der Spiegel de 12 de maio de 2014: "Morte e jogos: o Brasil diante da Copa do Mundo"]

Por Flávio Aguiar.

Toda a relação com qualquer cidade envolve amor e ódio. Por que com Berlim seria diferente?

Mas eu pensei que poderia ser. Mas não. Felizmente não. Porque a descoberta do ódio realça o amor existente.

Amo – assim com A maiúsculo – poucas cidades. A Porto Alegre onde nasci e cresci. A Porto Alegre da inesquecível Campanha da Legalidade de 1961. A Guaíba – Praia da Alegria (que nome, em frente à Praia da Tristeza, do outro lado do rio) onde passava férias, portal do pampa desabrido, onde gauchões enormes, caboclos curtidos pelo sol vinham entregar as boiadas ao matadouro, e depois iam passear com seus cavalos altaneiros na praia onde eu me banhava, minúsculo e maravilhado. Montreal – onde descobri a longevidade do inverno e a realidade dos confrontos culturais. A pequena Burlington, em Vermont, nos EUA, minúscula cidade que de totalmente provinciana passou a condição de vanguarda alternativa.

São Paulo, onde passei a maior parte da minha vida profissional, foi diferente. Aquilo foi um casamento. Como em quase todo casamento, amei algumas coisas e detestei outras. Amo o Butantã, a vizinha Itapecerica da Serra, o Centro Velho, entre outras coisas, e aquele ar de estar sempre pronta para tudo, a qualquer hora do dia e da noite. Detesto grande parte da burguesia da cidade, a mais reacionária e petrificada do país, e o consumismo que agora, como quase qualquer um pode consumir no país, se dirige a Miami.

Berlim: a cidade-história, com suas conquistas, dores e cicatrizes permanentes. A cidade de uma vida cultural intensa e ao alcance da mão e dos bolsos, pois há muita coisa de grande valor e muito barata. Berlim internacional sem ser falsamente cosmopolita. Berlim do transporte público bom e fácil. Berlim, nesta passagem entre ser o burgo dividido e meio provinciano que era e a nova metrópole-capital da principal economia da Europa. Até a Berlim do aeroporto que não consegue sair do chão eu amo, prova de que a “deutsche Effizienz”, afinal de contas, também é humana e tem seus Waterloos como a de qualquer outro país.

Mas nos últimos tempos Berlim me revelou aspectos odiosos de se viver aqui. Bom, isto também é humano, afinal de contas. Não me refiro ao tônus conservador que predomina em toda a política alemã, de que ela é a capital. Me refiro ao fato do Brasil ter entrado na mira do que de pior há na mídia local (e alemã, e europeia). Isto de levantar de manhã e ouvir pelo rádio o martelar de negatividades sobre o Brasil, onde, no fim de contas, nada há nem houve nem nunca haverá de bom. Onde os pobres serão para sempre pobres, os favelados para sempre favelados, os políticos para sempre corruptos, o país cheio, aliás, entupido de pedófilos, cafetões e prostitutas, o país da motosserra, da homofobia, do machismo grosseiro, enfim, tudo me lembrando a expressão  com que muitos oficiais nazistas descreviam o ponto final da linha do trem que ia até Auschwitz: annus mundi, o cu do mundo. Ou o fim do mundo.

E o martelar continuava pelo dia, na mídia escrita, nos noticiários de tevê à noite, sem parar, sem parar, sem parar. Aí veio o episódio da Embaixada do Brasil, que já comentei aqui. Um pequeno bando de juvenília foi lá na calada da noite apedrejar as suas vidraças. Oitenta pedradas, trinta e duas janelas partidas. Acho que o bando de coiós imaginava estar vivendo a sua grande praça Tahir, no Cairo, ou Tiananmen, em Pequim, ou ainda suas tardias jornadas de 68. Mas na verdade estavam vivendo a sua pequena, ridícula e anacrônica Krystallnacht, aquela em que os nazistas destruíram sinagogas e lojas de judeus em 1938. As pedras se dirigiam, agora em 2014, contra o símbolo de um povo considerado de segunda categoria, apedrejado continuamente pela mídia local. Estou sendo exagerado? Estou respondendo ao exagero da “cor local”. Avalizada pela circular do Ministério de Relações Exteriores dirigido aos eventuais viajantes sobre o perigo-Brasil.

Foi odioso. Ainda é. Nesta semana a revista Focus daqui – cuja capa Época copiou – publicou comentário dizendo que o jogo do Brasil contra a Colômbia se passaria na “capital do crime” – Fortaleza. Esquecem talvez que as grandes capitais do crime são as bolsas de Nova Iorque, da City londrina, Paris e – por que não – Frankfurt.

Mas na verdade agora tudo amainou. Como não houve a catástrofe esperada, ou até desejada, o show de incompetência e a inadimplência da Copa no Brasil não aconteceram, como na verdade os turistas e o bilhão ou mais de pessoas que assistem os jogos estão encantados com os espetáculos, do futebol à hospitalidade das gentes do Brasil, o assunto está morrendo pouco a pouco. E vai morrer. Pena que talvez venha a ser substituído pelos outros chavões de sempre: Brasil = praia, futebol, café e bundas de fora.

Não, muita gente não vai se convencer. Vai continuar repetindo que os estádios, depois da Copa, ficarão às moscas, sem se dar conta que o Mané Garrincha, por exemplo, recebeu pouco mais de 300 mil visitas em 36 anos de existência, mas que desde sua transformação na presente arena, recebeu em seis meses, 640 mil em 27 mega-eventos.

Porém é verdade: a tempestade amainou. Talvez apenas por falta de assunto. Os jornalistas que foram ao Brasil querendo encontrar apenas pobreza, miséria e desacerto, encontraram o que queriam. Afinal, em nosso país continuam existindo pobreza, miséria e desacerto. Mas fecharam os olhos para o resto. Pior: muitos insistem em fechar os olhos dos outros para o resto. Pior ainda: muitos destes outros querem mesmo fechar os olhos para o resto e sentirem-se felizes por suas vidas eurocêntricas. Que as vivam, e nos deixem em paz. Ainda creio na frase de Lincoln, segundo a qual é possível enganar alguns o tempo todo, todos por algum tempo, mas é impossível enganar todos por todo tempo.

Como a tempestade amainou, é possível voltar a desfrutar os amores de Berlim. Passear nas ruas, sentir o verão (apesar de sua entrada ter sido cheia de frio…) acariciando as árvores e as flores, ver os corpos se deliciando nos parques, jogados na grama com mais ou menos roupa – às vezes até com nenhuma – curtindo a vida.

E ver os jogos, na Copa mais eletrizante das últimas décadas. Haja coração!

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

VIP: Vão pros Inferno que os Pariu

14.06.17_Flávio Aguiar_VIPPor Flávio Aguiar.*

VIP é VIP, tão VIP que às vêzes vipa da conta. VIP é VIP até pra vaiar. Não aguenta ficar só na vaia. Tem que vipar, botar uns floreios, mandar tomar e otras cositas más. É que VIP tem que dar o exemplo: pra sociedade, pro mundo inteiro. Não basta gritar Buuu. Isso qualquer pobretão faz. Pior: hoje pobretão aplaude. E tem carteira assinada, compra linha branca, automóvel e viaja de avião. Onde já se viu? Então VIP tem que mandar pra juta que os pariu.

Ainda mais se for no estádio do povão. Bom, há muitos estádios do povão pelo Brasil que, aliás, hoje é mais do povão do que já foi. Mas como VIP não vipa todo o tempo no estádio do povão, e este cada vez mais frequenta os espaços que antes era só dos VIP, o VIP tem que botar para quebrar. E mandar a presidenta tomar onde o machismo VIP acha que pode todo o resto do mundo mandar tomar.

Só que o VIP esqueceu de uma coisa: o resto do mundo, os não VIP, estavam vendo tudo aquilo. E viram que foram os VIP que puxaram e mais vaiaram a vaia do mandar tomar. Então eles tomaram. Porque a coisa virou um bumerangue, e caiu-lhes na cabeça. Foi gol contra. Os seus arautos na velha mídia estão p. da vida com os VIP do Itaquerão. Diz que levantaram a bola pros populistas cortarem na rede.

Ironia das ironias: mandaram tomar e tomaram. Gente que não vota na presidenta que eles mandaram tomar disse até que iria votar, porque aquilo era um crime hediondo. Um crime contra a educação, a civilidade, a civilização, o bom gosto, o respeito, a igualdade de direitos, tudo enfim, que VIP alardeia que tem mas às vezes perde a noção. Sem falar no machismo da coisa.

Houve gente que disse até que os candidatos dos VIP – daqueles VIP, porque tem VIP que não faz estas barbaridades, seja porque não concorda com elas, seja porque sabe a hora de ficar quieto – perderam a eleição de outubro ali, na vaia VIP do Itaquerão. Convenhamos, é exagero. O povo brasileiro vota com a própria consciência e não vai eleger ou deseleger uma presidenta por causa de uma vaia VIP, assim como não vai votar por causa de uma bola entrando neste ou naquele gol. Esta é uma ilusão daqueles VIP.

Mas VIP que é VIP deste tipo de VIP não percebe estas coisas. Porque no fundo, VIP deste tipo de VIP padece do complexo de madrasta da Branca de Neve. Só sabe olhar nos olhos de outros VIP e perguntar, maravilhado: diga-me, VIP, existe alguém mais VIP do que eu? E se o outro VIP responder que sim é capaz de levar uma bolacha nas fuça pior que patada de zagueiro aloprado. VIP que é VIP, modelo Itaquerão, responde que não, e depois espera, educadamente, a sua vez de perguntar: e eu?… E o VIP que é VIP responde então, meu bem, você é tão VIP quanto eu… E daí os dois juntos mandam a presidenta tomar.

Mas VIP que é VIP não perde a linha VIP. Sai dali pronto pra outra. Pega o carrão, o helicóptero, a lancha, o escambau, amaldiçoa o povo e manda ele tomar onde queira. Enquanto isto o povo solta rojão e faz a festa.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Futebol passarinho

14.05.29_Flávio Aguiar_Futebol passarinhoPor Flávio Aguiar.*

A realização da Copa do Mundo no Brasil despertou uma grotesca procissão – cada vez mais enfadonha – de abutres e coveiros do Brasil em todas as frentes e latitudes. Erguendo uma verdadeira cortina de fumaça com seus incensórios e turíbulos para dominar a pauta e a percepção do momento, este variegado cortejo reúne de tudo. 

Conduzindo a custódia, vêm os que querem derrubar ou derrotar o governo. São de dentro e de fora do país, liderados neste pelos arautos da velha mídia, e lá pelos cardeais da City londrina, The Economist e Financial Times, ladeados por bispos e arcebispos como El País, El Mercurio, et alii. Em suas orações às vezes suplicantes, às vezes raivosas, alimentam a crendice de que a Copa pode ajudar a reeleger ou deseleger Dilma Rousseff em outubro. Esta ortodoxia se baseia em outra superstição, a de que nosso povo é despreparado para a democracia porque vota com os pés ou o estômago – não com a cabeça ou o coração. (Os mais ricos, pelo menos, têm o privilégio de votar com os bolsos e as bolsas).

Esta superstição tem uma variante à extrema-esquerda, qual seja, a de que as massas são sempre despreparadas, e que precisam de uma vanguarda lúcida para iluminar-lhes o caminho. O governo é o Anti-Cristo que deve ser eliminado, para que a verdadeira luz possa chegar aos fiéis. Então, dá-lhe foguetório e até louvação dos coquetéis molotovs dos black blocs, além das pedradas, sejam contra vitrines bancárias ou a Embaixada do Brasil em Berlim.

Mas há também o coro dos sacristãos. Dispersos pelo mundo inteiro, no nosso país ou pontificando na mídia europeia, nunca se viram tantos doutos intérpretes do Brasil. Qualquer jeguelhé joga suas jeguelhadas sobre a nossa “cultura da corrupção”, o nosso incurável pendor para a “violência”, para depender de “favores”, a nossa crônica “homofobia”, o nosso empedernido “machismo”, a nossa proverbial incompatibilidade com o “moderno”, o nosso sempiterno “racismo”, a nossa tara da “escravidão”, nossa inamovível “pobreza”, “falta de cultura”, “falta de projeção mundial”, onde se ajuntam nossa incapacidade para ganhar um prêmio Nobel, nossa música que “não têm o mesmo alcance mundial da salsa ou do reggae” (sic), e por aí se vai. Conforme o ângulo de onde fala o distinto se multiplicam os pronomes “nós” (a propósito, nós quem, cara-pálida?) ou o substantivo plural e coletivizado “os brasileiros”. Não se trata de negar que aquelas mazelas existam em nosso país. Mas as marteladas são tais que deixam a conotação de que ele é a cloaca do mundo, e que elas são nosso patrimônio exclusivo.

Assim, um país de 200 milhões de habitantes, oito mil quilômetros de comprido por oito mil de largo, com uma das economias mais complexas e uma cultura das mais ricas do mundo, se vê reduzido a uns poucos lugares-comuns, repetidos ad nauseam como se fossem grandes originalidades, descobertas, quando na verdade simplesmente invertem disforicamente a perspectiva dos outros lugares comuns – os eufóricos – da cordialidade, índole pacífica, democracia racial, etc. etc. etc. Estas ou estes vestais do templo jornalístico acham que estão inventando, em seu laboratório, o “verdadeiro” Brasil, quando de fato fazem parte simplesmente do ciclo que a medicina antiga chamava de “maníaco-depressivo”. Tenho, inclusive a certeza de que aqueles defeitos de nosso “caráter” desaparecerão de muitos dos discursos como por encanto em novembro, caso alguma oposição vença em outubro.

E no passar da procissão sobem aos céus – ou descem aos infernos – as comparações absurdas, como as do momento atual com a ditadura de 1970; ou as inverdades marteladas, como a de que é a Copa que está roubando dinheiro da educação e da saúde (ao invés do superávit primário e da queda da CPMF); levantam-se os estandartes oportunistas anti-Copa, juntando-se a reivindicações legítimas em campos como educação, saúde, etc., ajudando a esvaziá-las, em troca de quinze letras ou quinze segundos de fama nas manchetes ou telas nacionais e internacionais.

Fica difícil discernir o real para além deste fumacê de crendices. Mas num raro momento em que consegui me desligar desta atmosfera asfixiante, por uma nesga da cortina tive uma visão deslumbrante (já que para estes sacerdotes do caos devo ser um destes caiporas, que pensa com os pés, embora eu tenha sido goleiro, ao invés do cérebro e do miocárdio). De repente, num estalo de Vieira, vi que no dia 13 de julho, em pleno Maracanã, alguém vai erguer a taça aos céus, renovando mais uma vez a sua consagração, oficiada por Bellini naquele 29 de junho de 1958, no estádio Rasunda, em Estocolmo, na Suécia.

Como acontecia na época, ouvi tudo pelo rádio e vi em fotos no dia seguinte e somente algum tempo depois pude assistir nos cinemas a missa gloriosa daquela partida e daquele verdadeiro gestus brechtiano, stanilavskiano, da sagração da Jules Rimet. De fato, foi ali que o caneco ficou sendo nosso, realidade apenas confirmada em 1970. Naquele momento houve uma verdadeira transubstanciação (como na missa católica). Foi ali num gesto que começou prosaico (“mostra a taça, Bellini, pra que a gente consiga fazer uma foto melhor”, pediram os jornalistas) e se transformou no gestus teatral que transformou a Taça Jules Rimet ou do Mundo no imortal Caneco do Brasil. Dali pra frente, em qualquer arena, em qualquer parte do mundo, da várzea mais pobre ao estádio mais suntuoso, espraiou-se o gesto de erguer a taça da vitória. Foi ali, naquele gestus, que a taça se transfigurou em cálice, cheio de sangue, suor e lágrimas, o sangue e o suor que se dão dentro das quatro linhas, e as lágrimas da vitória ou da derrota, como as que foram derramadas em 29 de junho de 1958, em Rasunda, ou em 16 de julho de 1950, no Maracanã.

Isto porque o futebol tem algo de muito parecido com a situação de dois amantes. Por mais história anterior que haja, condições de vida e condicionamentos anteriores, labirintos percorridos ou expectativas de caminhos futuros, oposições familiares ou cumplicidade de amigos, egos e superegos a equilibrar e a vencer, etc., etc., etc., sempre há o momento em que os amantes estão frente a frente, fechados no círculo sagrado do imortal gestus amoroso, tenha este círculo o formato que tiver: cama, tapete, sofá, esquina, degrau de escada, chuveiro, não importa.

No futebol há a mesma magia da presença de um espaço do sagrado. Por mais distâncias geográficas, sociais, políticas, culturais e outras que os times oficiantes percorram, por mais cartolas que haja, tudo se fecha naqueles momentos “dentro das quatro linhas” em que os oficiantes – jogadores, técnicos, bancos de reservas, massagistas, etc., torcidas e até gandulas, juízes e bandeirinhas, vão se medir e oficiar o sagrado rito da vitória, derrota ou empate.

A transubstanciação simbólica se confirma pela mudança de gênero e de registro linguísticos, que nada tem a ver com machismo, sexo ou preconceito: a taça aristocrática passou a ser o caneco popular. Aliás, se a gente olhar bem, dá para ver que a forma exterior daquela Jules Rimet tinha menos a ver com uma genérica caneca do que com um caneco – definido como uma “caneca alta e estreita” (Houaiss). Daí pra frente, não importava o formato do troféu: o vencedor “levava o caneco pra casa”. E ainda leva. E vai levar, pelos séculos dos séculos, amém.

14.05.29_Flávio Aguiar_Futebol passarinho_fotos_

Tenho diante de mim duas fotos: Fritz Walter, o capitão de 1954, levado em triunfo pela torcida em Berna, na Suíça. Ele segura a taça como se ela fosse feita para tomar a popular cerveja, ou a aristocrática champanhe: um objeto prosaico; e Bellini, erguendo o troféu sagrado, como se ele fosse um elo de ligação entre o céu e a terra, como as mãos para o alto do suplicante, o cajado do peregrino, o olhar do amante que se perde e se encontra no universo.

No 13 de julho de 2014, em pleno Maracanã, alguém vai erguer a taça aos céus e levar o caneco pra casa.

Por isto, por sobre a malta velhaca e falsária das senectudes tremulinas (Maiakovski + Mário de Andrade), gloso Mário Quintana:

Os abutres, que hoje atravancam o caminho, eles passarão. O futebol, passarinho.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: Tinha umas pedras no meio do caminho

14.05.15_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Está difícil ser brasileiro em Berlim e manter a calma. Até mesmo o bom humor. A minha esposa até já me perguntou se eu estava arrependido de vir para cá. Não. Não estou. Mas está difícil.

A Copa envenenou o clima. Bom, não foi propriamente a Copa. Foi a mídia. As mídias. Não há dia em que não pingue  – no rádio, na TV, nos jornais ou revistas – pelo menos uma notícia contra o Brasil. É: contra o Brasil. Não se trata de apontar críticas, o que é normal. Trata-se de uma campanha, uma verdadeira campanha de descrédito.

A Copa vai bem,  obrigado. Outro dia ganhei de brinde num supermercado uma figurinha – aqui também, ou ainda, existem álbuns de figurinhas – do simpático goleiro alemão Neuer. Bandeiras do Brasil aparecem em lojas – como na do meu amigo turco aqui perto da minha casa – ao lado das alemãs e outras. O povo se prepara para assistir os jogos, e torcer. Etcétera.

Mas a mídia… É assim: nada vai dar certo, o Brasil é um país em constante naufrágio, mergulhando num oceano de corrupção, incompetência, sem esperança de resgate, um país de miseráveis, um país pobretão onde só há violência, enfim, uma espécie de vergonha para a humanidade. Um país sem futuro (pobre Stefan Zweig!), sem presente. Ah sim, e desmemoriado, ou seja, sem passado. Um farrapo humano.

A última edição que vi deste verdadeiro assalto foi um programa de TV da cadeia ARD sobre o estádio de futebol de Manaus. Um desastre, uma catástrofe, era o tom do comentário. Vai abrigar uma meia dúzia de jogos (os da Copa), e depois fechar para balanço. Em Manaus não há futebol que sustente um estádio daquele tamanho e – é bom dizer – daquela qualidade. De quebra apresentaram uma “manifestação” contra os gastos da Copa. Seria cômico, se não fosse uma tragédia jornalística. Uma meia dúzia de gatos pingados com uns poucos cartazes, e uma jovem, faminta por seus quinze segundos de fama, dizendo que não era contra a Copa, mas contra os gastos, etc. Daí puseram no ar alguém do mundo oficial dizendo que o estádio podia servir para outras coisas também, que assim não iria fechar. Mas o narrador fechou dizendo que ia. E ponto final: o destino está traçado, como numa tragédia grega. Convenhamos: Manaus é mais complexa do que esta pobreza enlatada e televisiva.

Dias atrás fui a uma reunião convocada pela mesma cadeia ARD para jornalistas, sobretudo, é claro, alemães, que vão ao Brasil durante a Copa. Na mesa a correspondente da TV Globo e da revista Veja, uma jornalista que escreve na mídia alemã sobre a Copa e a responsável pela formação de jornalistas para o Brasil pela Deutsche Welle, a agência estatal de notícias internacionais (isto existe aqui, e ninguém acha que isto atente contra a liberdade de imprensa).

Claro que houve declarações e críticas até bem intencionadas. Mas se eu fosse reduzir o encontro a palavras-chave, seriam muito poucas: Rio de Janeiro, favela, UPP, Copacabana, no primeiro plano; no segundo, colete à prova de balas (para ir à favela), violência, cuidado com os equipamentos, praça de guerra, perigo, e só. Ah sim, de repente falou-se de uma imagem que sempre aparece por aqui, “Amazônia”. Apenas para lembrar do absoluto “descaso” do governo brasileiro pelo meio-ambiente. Em suma, uma indigência em torno de clichês desgastados. Um país de 200 milhões de habitantes (duas Alemanhas e meia), oito mil quilômetros de comprido e outros oito mil de largura, reduzido a um punhado de lugares-comuns.

E assim o barco vai, dia após dia. Na segunda-feira passada um grupo de dez pessoas apedrejou a embaixada brasileira à uma hora da manhã. Estavam mascarados, e jogaram umas oitenta pedras, quebrando cerca de 30 vidraças. Felizmente não houve vítimas, apenas danos. Os atacantes – provavelmente preservando-se para fazer a revolução daqui a alguns dias – fugiram antes que a polícia chegasse. Fui la no dia seguinte, ver o que acontecia. Deparei com o prédio isolado, cordões de plástico, policiais isolando a área, etc. O grupo – ou alguém, em seu nome, ou usurpando a ação – divulgou um manifesto na internet, solidarizando-se com as manifestações “Não vai ter Copa” no Brasil. Furchtbar (horrível, medonho) e lächerlich (ridículo) ao mesmo tempo.

Aparentemente esta violência nada tem a ver com o clima de apedrejamento simbólico que o Brasil vem sofrendo na mídia alemã (e outras, sobretudo aquela que representa a City financeira londrina, The Economist e The Financial Times). Mas tem. Uma coisa é moldura da outra, ainda que não se queira dizer que haja uma incitação ao apedrejamento. O que a mídia faz, nestes casos, é apontar o alvo. Aí cada grupo parte parte para a loucura que quiser.

O drama é este: há um alvo apontado. Há uma desconstrução sistemática da aura deste alvo e de sua complexidade humanas, fazendo dele o bode expiatório de qualquer sentimento acumulado de frustração e ressentimento.  Conhecemos o processo, não? Talvez ele tenha se manifestado em circunstâncias muito mais dramáticas e trágicas aqui mesmo nesta Alemanha, no passado não tão remoto assim. Os personagens não são os mesmos. Mas a estrutura do processo é análoga.

Por quê tais atitudes na mídia? Na desqualificação do Brasil – sobretudo do governo brasileiro, empreendida por publicações como as citadas em nome da City londrina – compreende-se que haja  um embate ideológico, que elas desejem ajudar as oposições brasileiras a vencer as eleições em outubro. Mais ou menos como faz a mídia tradicional no Brasil, oligárquica e conservadora, que também apedreja diariamente o governo e por tabela o país.

No caso da imprensa alemã, penso que o motivo não é tão claro nem tão unívoco assim. É algo mais complexo. Na constelação das nações o Brasil mudou de lugar na última década. Navegando na contramão dos severos planos de austeridade, todos recessivos, impostos na Europa, o Brasil surpreendeu.

Num período em que o mundo perdeu 60 milhões de postos de trabalho (dados da OIT), o Brasil criou 16 milhões de novos postos (dados do IBGE, do DIEESE). O poder aquisitivo dos trabalhadores aumentou. O acesso à universidade também. As empregadas domésticas brasileiras – sempre apontadas como o resquício dos tempos da escravidão – hoje têm mais seguridade social do que as imigrantes que trabalham clandestinamente na Europa e na Alemanha também. Os brasileiros viajam muito mais de avião do que há dez anos atrás, dentro e fora do país.

O país deixou de ser devedor do FMI. Passou a ser credor. Não só do FMI: da União Europeia também, através do Fundo de Emergência de ajuda aos países endividados e ao sistema financeiro abalado do Velho Continente. O tempora,  o mores. O Brasil tornou-se uma liderança no G-20 e uma referência mundial em matéria de políticas sociais. Antes, foi até o fundador do Fórum Social Mundial, vejam só. É de arrepiar os cabelos. Até os nossos, por que não os dos outros?

Poderia citar mais. Os exemplos dados evidenciam esta mudança de lugar. Porém é difícil reconhecer esta mudança na constelação das ideias. Ela faz assomar um oceano de inseguranças. A reação mais imediata é a de olhar para o presente e para o futuro através do espelho retrovisor: restaurar a constelação do passado. Esta é a reação, que pode ter consequências ideológicas, é claro, que se manifesta em vários momentos na mídia alemã. Na de outros países também. Mas aqui esta manifestação é muito constante e muito forte. É preciso restaurar a imagem do Brasil pobretão e sem saída.

Por que será? Será porque a última Copa jogada na Europa aconteceu na Alemanha, e é visível motivo de orgulho por aqui? (E  justificado, por que não?) Será que este desprezo pela Copa no antigo terceiro mundo (em relação a África do Sul houve o mesmo amontoado de questionamentos, e ah! bons tempos em que havia um “terceiro mundo”) seria uma maneira de inconsciente ou subrepticiamente enaltecer o valor nacional alemão – tema tabu e intocável diretamente por aqui?

Vá se saber. Vamos pensar. Mas sem pedradas, por favor.

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Recomendamos a leitura do livro Brasil, país do passado?, organizado por Antonio Dimas, Berthold Zilly e Ligia Chiappini, e com o qual Flávio Aguiar colabora como autor (além de assinar a orelha do livro).

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A Revolução dos Cravos segundo José Cardoso Pires

14.04.24_Flávio Aguiar_José Cardoso PiresPor Flávio Aguiar.

Esta é a primeira vez em que ponho este relato no papel, quer dizer, na tela do computador. Em 1975 o governo português – formado logo depois do 25 de abril de 1974 – enviou uma missão de escritores do país às universidades e outras instituições afins brasileiras para explicar o movimento.

Então eu era um jovem professor de Literatura Brasileira da Universidade de S. Paulo. Houve um encontro com os escritores nas ditas Colméias do CRUSP, pois os cursos de Letras da Universidade ainda estavam lá sediados, como uma “força de ocupação” para impedir o retorno dos estudantes, condição que só deixaríamos em 1983.

O encontro foi muito interessante, até porque os escritores, todos comprometidos com a democratização do país e com a movimentação decorrente do 25 de abril, tinham perspectivas e relatos muito diferentes entre si sobre o que estava acontecendo em Portugal.

Por apresentação de amigos comuns, marquei um encontro com o escritor José Cardoso Pires num bar do centro da cidade. Passamos uma tarde memorável juntos, tomando conhaque, quando ele me contou a sua participação nos acontecimentos do 25 de abril.

Cardoso Pires, autor, dentro outros, do romance O Delfim (1968) é reconhecidamente um dos maiores escritores do país no século XX, coisa de ombrear com Saramago e Fernando Pessoa, dentre outros. Infelizmente faleceria em 1998, vítima de um derrame cerebral.

Mas naquela tarde de talvez agosto de 1975 ele brindou-me com uma narrativa inteiramente pessoal, temperada por seu bom humor e ironia. Desconheço se ele mesmo a pôs por escrito.

Começou contando que na noite de 24 de abril recebeu um telefonema de uma amiga que estava na clandestinidade fazia tempo. Ela lhe disse simplesmente: “José, chegou a hora”, e desligou. Cardoso Pires contou a conversa à mulher, que lhe perguntou o que aquilo podia significar.

“Certamente que vou ser preso”, disse ele, que já andara às turras com DGS, sucessora da famigerada PIDE, a polícia política do país. Pediu que a esposa lhe preparasse uma maleta com um “kit-prisão” (escova de entes, muda de roupa, etc.) e dispôs-se a esperar pelos acontecimentos. Mais tarde, já bem noite adentro, bateram na porta. Surpreso, ele abriu, e mais surpreso ainda, deparou com dois militares, um oficial e um soldado, ambos armados.

Disse-me ele então: “pensei: chegou a hora!”. Qual não foi o espanto quando o oficial entrou, abraçou-o (!) e disse: “camarada, chegou a hora!”. “Esta é uma revolução democrática”, continuou no oficial, “e viemos convocá-lo para fazer um pronunciamento na televisão”. Ele que estava proibido de aparecer na tevê, voltou-se para a esposa e disse “chegou a hora”, e saiu.

Na rua, deparou com um caminhão onde estavam vários conhecidos, todos escritores e intelectuais anti-salazaristas. Entrou no caminhão, e perguntou o que estava acontecendo. Ninguém soube lhe explicar direito: tinham sido arrepanhados pelos militares, e estavam indo – como foram – à estação de televisão.

Lá chegando, foram levados a uma sala, onde ficaram ao redor de uma mesa, onde havia uma garrafa de uísque que, ao que parece, ninguém tocou. Passaram-se as horas. Já amanhecendo, ele pretextou ir ao banheiro, e conseguiu escapulir do prédio. Telefonou à esposa, que ainda estava acordada, sem nada saber, e disse que ia dar uma volta pela cidade, para descobrir o que estava acontecendo. “Chego por volta das dez”, disse, e desligou.

Daí, disse-me ele, deparou com a torrente humana que saía às ruas para festejar a queda do regime salazarista, confraternizar com os soldados dando-lhes cravos vermelhos que estes colocavam nos fuzis, transformando o golpe militar numa revolução democrática. Contou-me que, entre outras coisas, acompanhou, lado a lado, Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes militares do levante, quando este invadiu a prisão da PIDE, libertando os prisioneiros e aprisionando os esbirros e carcereiros.

“Voltei para casa somente três dias depois. E a minha filha não voltou até hoje”, arrematou ele, naquela tarde de 1975, em São Paulo, no centro da cidade, deixando-me a centelha de esperança que o Brasil também poderia tornar-se uma democracia.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1964, 50 anos depois

14.04.03_Flávio Aguiar_1964 50 anos depois.jpgPor Flávio Aguiar.

A tentação de fazer ficção científica é muito grande: o que teria acontecido nas nossas vidas se houvesse de fato resistência ao golpe?

Já nem digo se o golpe fosse derrotado. Mas simplesmente se houvesse resistência.

Certamente teria havido uma guerra civil.

Seria sustentável? Seria. Ainda no dia 2 de abril houve uma reunião (são estas coisas de Brasil: sei disto através do parente de um vizinho…) reunindo um pessoal da Petrobrás, o general Ladário Pereira Telles (nomeado às pressas comandante do 3º. Exército), Brizola, Jango, Sereno Chaise (que era o prefeito de Porto Alegre) e outros possíveis líderes da resistência.

Nesta reunião, os sindicalistas da Petrobrás apresentaram um plano de tomar todas as refinarias do sul do Brasil. Um eventual avanço de tropas de São Paulo para o Rio Grande do Sul encontraria pela frente um provável deserto de combustível. O que era necessário para isto? Armas.

Jango preferiu se exilar imediatamente no Uruguai. Um dos motivos alegados era o rápido deslocamento de uma força naval dos Estados Unidos do Caribe em direção ao Rio de Janeiro e o porto de Santos. Haveria uma invasão? Talvez.

Com a fuga de Jango, não houve a entrega das armas. Ficou tudo por isto mesmo. O plano teria funcionado? Hoje é impossível dizer que sim. Mas também é impossível dizer que não. São destas caixas pretas da história, mas sem leitura possível.

Outra caixa preta: haveria muitas mortes? Certamente. Mas não como a grande maioria que houve nos anos depois do golpe, com pessoas caçadas como ratos ou na tortura, em calabouços infames. Isto teria sido melhor? Impossível saber. A única coisa possível de se saber é que a falta de resistência naquele momento decisivo da história tornou mais amargo o fruto amargo que tivemos de comer sem vomitar. O resto fica no mistério da caixa preta.

Este é o principal efeito do golpe, ainda hoje, esta semeadura de caixas pretas ao longo das vidas posteriores. É claro que há um sem número de caixas pretas nas nossas vidas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse feito aquela escolha, naquele momento, ou fizessem outra escolha, tivesse outra namorada, aceitasse outro emprego, e por aí afora.

Somos os destino das nossas escolhas e também o seu desatino, ou ainda o destino de nossa falta de escolha por vezes. Mas a caixa preta do golpe é diferente. Porque as outras vão variando, diminuindo ou variando de importância conforme o tempo vai passando. A do golpe não. Ela não passa, ela fica, ela pesa sempre na memória. É a cicatriz do futuro que não houve. E por baixo da cicatriz a ferida ainda está aberta, ainda lateja.

Em alguns casos ela se transformou em câncer, e levou pessoas ao suicídio. Outras vezes ela levou pessoas ao suicídio moral, à adesão deslavada e descarada à direita. Até hoje isto acontece.

Esta caixa preta está irremediavelmente plantada na memória. A memória é um labirinto, onde frquentemente nos encontramos, mas também onde frequentemente nos perdemos. Se falarmos de memória, caixa preta, labirinto, perda, um caso que nos vem à mente – evocado em várias ocasiões – é o de Frei Tito de Alencar. Barbaramente torturado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury durante a caçada a Carlos Marighella, Frei Tito ficou com algo de si preso a esta memória horrenda, como um anzol. A única maneira de se libertar desta verdadeira possessão demoníaca foi através da morte. Tão grave foi seu caso que apesar do suicídio ele recebeu as exéquias cristãs no convento onde residia, em Paris, quando de seu suicídio.

A memória tem destes redemoinhos. Há coisas que queremos lembrar e não podemos; há coisas que queremos esquecer e não conseguimos. A caixa preta de 64 está nesta encruzilhada: queremos por vezes lembrar-nos deste futuro que nos era prometido, que poderíamos construir, e que nos foi arrebatado pelo golpe, e isto se torna uma operação cada vez mais difícil e nebulosa; queremos esquecer do amargor de ter todo este futuro negado, e não conseguimos, pois a dor da perda é sempre presente, cada vez mais espessa e onipresente.

Virar a página? Sim, é necessário virar a página. Até porque os que não querem virar a página, os Bolsonaros da vida, os militares de pijama nostálgicos da ditadura, os amantes de privilégios em todas as classes sociais não querem virar a página. Querem ficar presos e deter-nos todos na prisão da reverência ao canalhismo de 64. Mas virar a página não significa esquecer. Porque se a metáfora é a do livro, o livro pode e deve ser folheado numa e noutra direção.

Haverá um ajuste de contas com este passado? É muito difícil prever. Duas coisas seriam necessárias: a revisão da Lei da Anistia e a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Isto depende do STF e do Congresso Nacional, além da pressão dentro e fora do Brasil. Isto nos leva ao encontro de outra caixa-preta, mas esta cheia de possíveis surpresas, a da política.

A ver.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Ainda as lições do Brasil, 50 anos depois

14.03.27_As lições do Brasil_50Por Flávio Aguiar.

Retorno à Berlim primaveril. Depois de um inverno meio chôcho, encontro advertências de que provavelmente a cidade será tomada por uma infestação de mosquitos no próximo verão. O pior vai ser que a cidade não tem infra-estrutura – sobretudo de espírito – para tanto. Infestação de mosquitos, afinal, é coisa de terceiro mundo. Repelentes, só os encontramos daqueles antigos, gosmentos, mais fedorentos que alho para espantar vampiro. Pois, parece, vai ter mosquito demais na terra de Goethe, Hölderlin e Hegel. Estou me preparando. Trouxe sementes de citronela, outras de arruda. Tomara que funcione, que os mosquitos daqui sejam tão sensíveis quanto os de lá. Ou aí, melhor dizendo.

Mas vim também carregado de lições do Brasil. Êê Brasil, como dizia… quem mesmo? Não importa.

Nada de estatísticas. Deixo isto para o governo e para as oposições, ainda que estas não as tenham, ou, se as têm, não as mostram, pois lhes serão provavelmente desfavoráveis.

Trouxe impressões. Das mais impressionistas, diga-se de passagem. Mas que me impressionaram.

Primeiro, qualifico a viagem: passei uns dias em São Paulo, outros no Rio Grande do Sul, onde fiz uma viagem longa até o Uruguai, atravessando a restinga entre a Lagoa dos Patos e o mar. Ainda mais alguns no Rio de Janeiro.

Ouvi ecos sobre o Nordeste.

Fiquei muito impressionado por uma coisa aparentemente banal. Na grande maioria dos estabelecimentos comerciais onde entrei – farmácias, restaurantes a quilo ou não, hotéis, mercados, etc., encontrei a) anúncios de emprego; ou b) trabalhadores novos sendo treinados. Sinal de que o setor está crescendo. Às vezes havia o incômodo de ser atendido por alguém não inteiramente familiarizado com o serviço, tendo que esperar o socorro de um gerente ou de alguém veterano. Dane-se, eu pensava. Salve o pleno emprego que estamos atingindo. Apesar de eu ter lido num artigo do Instituto Millenium que pleno emprego é algo que faz mal, porque “aumenta os salários” e portanto o “custo Brasil”, perdendo nós (que “nós” será este?) em competitividade, iniciativa, etc. O tempora o mores.

Constatei que se o conceito de “nova classe média” for problemático, o da existência de uma “velha classe média” não o é. Trata-se daquela parcela da classe média que, vivendo neste padrão de consumo há mais tempo do que os recém-chegados, procura agora diferenciar-se das mais diferentes maneiras. E dá-lhe falar mal do Brasil. E dá-lhe exigir que eu, que vivo na Europa, fale bem desta, apesar das crises labirínticas em que anda metida, e desqualifique tudo o que se encontra no Brasil.

Falar mal do Brasil, portanto, é uma síndrome muito ampla. Se não se fala mal de algo, “não estamos na conversa”. As opções são muitas, indo do sistema de saúde ao consumo de cerveja. No caso do sistema de saúde, a coisa é grave. Encontrei um padrão, por onde ouvi. Em 99% dos casos, as pessoas que falam mal do sistema público de saúde não o usam, e falam generalidades, do tipo “as filas são enormes”, “não há bom atendimento”, “falta tudo”, e valem-se seguidamente de expressões do tipo “ouvi dizer”, “me disseram”, etc. Já 90% que usam o sistema público de saúde falam de coisas concretas, indo do atendimento a casos de câncer até o de HIV, além de outros. Dizem: “precisei de tal atendimento”, ou remédio, e consegui logo, ou “o atendimento do posto de saúde era tão bom quanto no hospital particular em frente’, etc.

No caso da cerveja, a coisa é mais sutil, embora nem tanto. Ouvi comentários de que o consumo enorme do líquido no Brasil força a baixa qualidade da cerveja nacional. Que, portanto, era imperioso consumir apenas cerveja importada. E tomavam a Buduáiser norte-americana, que é mais ou menos um guaraná sem graça alcoolizado, muito diversa da Budweiser tcheca, uma das melhores cervejas do mundo. Enquanto encontramos hoje no Brasil uma produção poderosa de cervejas artesanais da melhor qualidade… sem falar na gelada qualidade das comuns.

E há outras pérolas do consumo, como a de que ouvi que é melhor e mais barato pegar um avião e comprar um enxoval de bebê em Miami do que fazê-lo no Brasil. Pobres bebês, pensei, adornados com aquelas feíces made in Hong Kong.

Tornei-me um usuário entusiasta dos trens em São Paulo. Modernos, arejados ou com ar condicionado, eficientes, estão conseguindo definir um traçado de transporte público eficaz com o metrô. Claro, na hora do rush a coisa complica, porque, como eu já disse anteriormente, em outra crônica, o Brasil não fora feito para que tanta gente tivesse emprego ao mesmo tempo, de acordo com a judiciosa expressão do prestigiado instituto acima citado. Mas ainda assim dá para enfrentar. Comentei com amigos. Alguns reconheceram que também usavam os trens. Já outros alegaram: “ah, mas não é como na Europa. A distância entre as estações é muito grande”, numa demonstração de que não só não desprezam os trens paulistas como não conhecem direito nem mesmo os trens europeus. E a tais comentários escapa um ponto relevante. Os vagões modernos do sistema em S. Paulo, comprados relativamente há pouco tempo, têm uma largura menor do que os antigos, coisa que faz com que a distância por vezes do estribo para a plataforma seja de fato enorme e perigosa. Isto sim deveria ser tema de manifestos, passeatas, etc., e sua permanência por muito tempo seria impensável na Europa, mesmo com a crise. Mas… quem pensa apenas nas grandes distâncias, e à distância, nem sempre consegue se aperceber das pequenas e próximas…

Bom, aí chegamos ao doloroso assunto “Copa do Mundo”.

Já suspeitava, mas fiquei convencido de que a má vontade da mídia tradicional com o evento, ou melhor, sua organização, e o já propalado fracasso que daí advirá, se deve mesmo unicamente ao fato de que ela “foi trazida” para o Brasil por um governo e petista e está sendo implementado por outro. Fosse um governo do velho bando PSDB/PFL, hoje DEM, o cantar do sabiá seria outro, apesar das eventuais críticas que seriam feitas, para salvaguardar a fachada. Também notei que as críticas que os cidadãos comuns fazem são repetições, variantes, muito iguais entre si, do que a mídia apregoa. Há a ilusão subjacente de que um eventual sucesso da Copa – dentro e/ou fora do campo – “vai reeleger o governo”, aliada à outra ilusão igualmente poderosa, a de que um fracasso da Copa, também dentro e/ou fora do campo, vai ajudar a “derrubá-lo”.

Neste clima de “vamos acabar com tudo”, vi e ouvi coisas chocantes, verdadeiras diatribes contra o bom senso, inclusive o do bom jornalismo, como o comentário de um cronista esportivo chamando a presidenta de “senvergonha” enquanto dizia que se tivesse dois rabos daria um para o âncora do programa em que era entrevistado, uma coisa de legítima pornografia estética, senão outras.

Mas apesar das retóricas incendiárias, voltei com a impressão geral de que o país vai bem, e que a afluência a este padrão de consumo mais generalizado do que os anteriores é irreversível.

É bom pensar nisto justo no momento em que “comemoramos” os 50 anos do golpe anti-povo que se queria “irreversível”. 

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A classe média fora do lugar

14.03.13_A classe média fora do lugarPor Flávio Aguiar.

Visitar o Brasil – desde que moro na Alemanha, e já lá se vão sete anos – é sempre muito instrutivo e original.

Atualmente o Brasil é o único país no mundo que, indo bem melhor do que antes, incomoda muita gente – assim como aquele elefante da conçoneta infantil.

Muita gente – um certo Brasil – está exasperada com a melhora. Com o que se chama seja lá como for: ‘nova classe média’, ‘inchaço da classe média’, além dos correlatos mais sofisticados, como ‘economia superaquecida’, ‘bolha de consumo’, indo até ‘o mal que o pleno emprego faz ao país’, aumentando salários e portanto o famigerado ‘custo Brasil’. Que bem faria ao país os pobres voltarem a ser simplesmente pobres sem outro futuro que não o de serem eternamente pobres!

É sabido que o Estado – em qualquer lugar do mundo (até nos finados regimes comunistas) – tem uma dupla função acoplada: assegurar direitos e administrar privilégios. Acontece que historicamente no Brasil o primeiro pólo desta bipolaridade de humor foi muito dismilinguido, enquanto o segundo foi a chave de ouro do soneto social brasileiro. Algumas exceções pontificaram, é verdade: as leis trabalhistas de Vargas, o desenvolvimentismo dos anos 50/começo de 60, entre uns poucos outros. E, é claro, os últimos dez anos, os tais que agora exasperam muita gente.

Em resumo, o Brasil não foi feito para muita gente. Pelo menos um certo Brasil. Vejam só: quanto mais empregos há, mais gente precisa se deslocar de casa para o trabalho, e vice-versa. Quanto mais estudantes há, mais gente ainda precisa se deslocar entre a casa e a escola ou universidade. O resultado é que os ônibus lotam; como o transporte público (ao contrário, por exemplo, de grande parte das cidades europeias) é densamente privatizado, os preços das pessagens tendem a subir, enquanto as frotas de delapidam a olhos vistos, o metrô de S. Paulo ameaça parar e a dar ‘pitis’, etc.

Mais: como há mais dinheiro disponível, mais gente compra carros. Mas as cidades brasileiras não foram feitas para a circulação de tantos carros! Não defendo o carro, defendo o transporte coletivo. Mas durante décadas ter um carro era um privilégio de consumo. Não me esqueço do bate-boca que presenciei, vinte ou trinta anos atrás, entre uma jovem bem jovem e um porteiro de galeria, na rua Augusta, que fechara prematuramente (para ela) um dos portões de entrada/saída. A dita jovem enchia a boca: ‘Eu’ – assim com maiúscula – ‘sou uma consumidora!’. Ser consumidor(a) era um privilégio: agora não é mais (e vem mais gente por aí). Isto exaspera os antigos consumidores, que vêem seus ‘direitos’ – “privilégios” – ameaçados, desde a vaga na faculdade para os pimpolhos até as filas de aeroportos – outro capítulo da exasperação geral.

O exemplo mais estapafúrdio desta exasperação encontrei num artigo do Zero Hora de minha cidade natal. O articulista reclamava que as ‘novas classes médias’ (uso o termo livremente, deixo o debate sobre ele pro Marcio Pochmann, a Marilena Chauí, o Guido Mantega e outros mais entendidos do que eu nestes assuntos) não sabiam aplaudir nos espetáculos a que iam. Aplaudiam de pé qualquer coisa, quando na verdade a boa formação manda que se aplauda de pé apenas o excepcional (quem sabe o que é excepcional é apenas, claro, o autor do artigo). Era o aplauso fora do lugar. Pior: este aplauso destrambelhado contagiava os artistas, que apluadiam juntos com o público quando, segundo ainda o autor do artigo, deveriam fazer uma comedida reverência. A futilidade besta do tema lembrou-me de outro artigo, lido há cinquenta anos ou mais, no Correio do Povo da mesma minha cidade, em que o autor (outro), visitando a então União Soviética, lamentava ver pessoas em mangas de camisa – operários, talvez, aaargh! – nos teatros de Moscou, na platéia, nas frisas, nos camarotes. O autor lembrava com lágrimas nostálgicas nas entrelinhas dos tempos faustosos em que aqueles assentos eram ocupados apenas pelas figuras excelsas da aristocracia moscovita e de alhures.

Mutatis mutandis, o tema do recente aplauso é da mesma jaça. Ou laia.

Mas há mais. Em pri meiro lugar, não esqueçamos que este clima de exasperação é centuplicado pela velha mídia, exasperada ela mesma por contar, para contrabalanço do atual panorama político, com um candidato bola murcha que tem de encher continuamente, um outro que faz alianças com desde o verde musgo da pré-candidata sem candidatura até o roxo cardinalício (vermelho jamais) dos ex-PFL e o vago ‘homem da toga preta’, mistura de Cacareco (para quem lembrar) com Jânio Quadros (tembém para quem lembrar) e Collor de Mello (para quem não esquece).

Em segundo lugar porque a exasperação contamina também a esquerda, pelo menos uma certa esquerda, já que a melhora que se verifica não é exatamente a de seus sonhos – ou devaneios. Para uma parte desta, o Brasil e o mundo estào à beira de um cataclisma revolucionário, e quem atrapalha a erupção pronta para eclodir é a dupla formada pelo nordestino e a mineira-gaúcha de plantão. E chovem artigos – no Brasil e no exterior – falando, por exemplo, dos ‘limites’ da política de transferência de renda, e tanto quanto a direita, da ‘prisão’, da ‘dependência do Estado’, da ‘falta de uma porta de saída’ dos programas de assistência social, etc. São até incapazes de ver – tanto quanto a direita – que a porta de saída será, muito provavelmente, cruzada pela próxima geração porque, como apontam estudos já conspícuos da ONU, a miséria é algo que tende a se reproduzir.

Lamentavelmente, a indigência mental também. Pelo menos quem entre nela tende a não ver porta de saída. Porque se há coisa difícil neste mundo é reconhecer o próprio equívoco.

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Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: Cinema, homossexualidade e solidão

14.02.13_Flávio Aguiar_Crônicas de Berlim_Cinema homossexualidade e solidãoPor Flávio Aguiar.

Anualmente, em fevereiro, Berlim vira a capital internacional do cinema durante dez dias.

A cidade vive e transpira cinema.

A Berlinale – como é chamado o Festival Internacional de Cinema de Berlim, hoje em sua 64ª. Edição – tem um dos modelos deste tipo de evento mais atraente dentre os que conheço.

Há a questão do porte:  juntando filmes, seminários, workshops, entrevistas coletivas, etc., o número de atividades vai à casa do quase milhar, se não ultrapassá-la. Neste ano 69 países estão representados, com mais de 250 filmes.

É claro que há o tapete vermelho e o desfile de estrelas entre flashes e spots de iluminação, transmissão das entrevistas em telões na praça Marlene Dietrich, que é o centro nervoso do festival, perto da Potsdammer Platz.

Mas isto é apenas a ponta do iceberg – o teaser, para usar uma linguagem adequada – da Berlinale.

Porque o segredo do Festival é que ele toma a cidade inteira. O Festival ocupa quase todos os cinemas de Berlim, vai para os bairros, chama as escolas, além de gente que vem da Europa inteira e também de outros continentes apenas para conhecer/viver a Berlinale.

Há sessões e mostras especiais para adolescentes e crianças, com júris e prêmios próprios. Além dos filmes que concorrem ao cobiçado Urso de Ouro (melhor filme) e aos Ursos de Prata (melhor ator, fotografia, música, curta, documentário, etc.), há as mostras chamadas de Fórum e de Panorama. A primeira põe em evidência diferentes tendências do cinema contemporâneo, como se fizessem um debate entre si. A segunda faz uma mostra do ‘estado da sétima arte’, digamos. Além disto há retrospectivas, mostras especiais, homenagens, seminários com grandes diretores, cinegrafistas, roteiristas, etc., dirigido a jovens cineastas. Para se inscrever o jovem deve apresentar algum projeto que queira desenvolver para ser aprovado. O Festival financia a vinda dos jovens. Em geral mais de 200, dos cinco continentes, acompanham estes seminários e workshops práticos. Uma curiosidade: pode-se dizer que o inglês é a ‘língua oficial’ da Berlinale. Todos os filmes apresentados – inclusive os alemães – têm legendas em inglês.

O Brasil costuma sair bem no filme. Desta vez tem um filme na competição: Praia do Futuro, dirigido por Karim Aïnouz, com Wagner Moura – que é ‘velho conhecido’ de Berlim desde que foi o protagonista do ‘Urso de Ouro’ Tropa de Elite I, de José Padilha. Tropa de Elite II, também com ele e do mesmo diretor, não concorreu mas foi homenageado em sessão especial. Desta vez Wagner Moura interpreta mais um militar: um salva-vidas do Corpo de Bombeiros de Fortaleza, onde fica a mencionada praia. Ele e um turista alemão (ex-soldado no Afeganistão) cujo amigo morre afogado se apaixonam um pelo outro. Donato (Wagner) vem para Berlim por causa desta paixão, rompendo com a família: duas irmãs, um irmão menor e a mãe. Anos depois, o irmão – já um rapaz crescido – vem para Berlim em busca dele. Os encontros, desencontros e conflitos são inevitáveis.

Não acredito que o filme venha a receber o Urso de Ouro. A fotografia é belíssima, o desempenho dos atores é excelente, mas o roteiro é falho (solto demais). O filme não despertou entusiasmo, embora tenha chamado a atenção pelas ousadas cenas de sexo entre os dois apaixonados. Talvez receba alguma menção por aqueles atributos positivos. A impressão que fica é que Karim (que já fez o excelente Madame Satã, lançado em 2002) quis fazer um filme mais poético do que narrativo, mas afrouxou demasiadamente a corda.

Mais entusiasmo despertou – pelo menos para mim – o filme/documentário de Davi Pretto, da Casa de Cinema de Porto Alegre, chamado Castanha, que não está na competição, mas no Forum. É um documentário com partes de ficção rememorativa sobre a vida do personagem-título, um conhecido travesti das casas noturnas gays da capital gaúcha. Castanha interpreta o próprio papel, e sua mãe, Da. Celina, o seu. O desempenho de ambos é sensacional, sendo que para mim o desta rouba a cena, sendo a primeira vez que faz um trabalho de representação.

A Berlinale é um reconhecido reduto cinematográfico da homossexualidade. Tem até um prêmio especial para filmes que tratem deste tema, o ‘Teddy’. Uma explicação: ‘Teddy’ é o nome que se dá, em inglês e alemão, aos ursinhos de pelúcia das crianças. Mas neste ano o tema ganhou muita relevância e espaço no Festival. São inúmeros os filmes que o abordam, de uma ou de outra maneira. Mas ele veio associado a um outro tema que também está onipresente nos filmes: a solidão, seja no meio urbano ou no rural, uma contra-facção crítica em relação ao individualismo que o estilo de vida promovido em sociedades dominadas pelas crenças supersticiosas nas virtudes universais do culto aos mercados – financeiros ou outros que não aquele Mercado Público que em geral é um centro prazeroso.

Além da abordagem de temas da contemporaneidade a Berlinale é uma ótima oportunidade para se ver filmes que estarão certamente fora deste ‘mercado’. Filmes da Índia (para além dos de Bollywood), Equador (primeira vez em que assisti um filme deste país, Feriado, que também toca no tema da homossexualidade), Uzbequistão, Palestina e etc., e ponha etc. nisto.

Uma oportunidade de ouro para se conhecer cinema – e Berlim. Se não conhece ainda a Berlinale e a capital do cinema em fevereiro, não perca a próxima oportunidade, em fevereiro de 2015.

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.