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Se o Brasil for, eu vou.

13.05.16_Flávio Aguiar_Se o Brasil for, eu vouPor Flávio Aguiar.

A eleição de um diplomata brasileiro, Roberto Azevêdo, para a direção da OMC, levantou uma nova onde de poeira lançada pelas vozes da direita à livre circulação dos ventiladores.

Baseia-se esta nova tempestade poeril (ou será pueril?) na rebatida ideia de que “o Brasil está isolado” (?) ou na recauchutada mania de que tudo no país é um “fracasso”.

Não sei muito bem onde se sustenta a tese deste “isolamento” brasileiro, se recentemente candidatos nossos venceram eleições importantes, a da direção da FAO e agora a da OMC. A não ser pelo vezo de que o Brasil anda em “más companhias”, quais sejam, as do pobrerio do mundo. Parodiando e invertendo o dito de Lúcifer no Paraíso Perdido, de Milton, para este tipo de mentalidade é melhor ser servo(a) na Casa Grande do que senhor(a) em sua própria casa.

Quanto à tese do “fracasso”, ela se apóia em duas vertentes. A primeira vem de longa data, e vitupera, ainda que à socapa, que o país não jeito, no fundo, por causa do povo que abriga. A segunda é a de que não adianta “dar dinheiro para pobre”. Eles (os pobres) não sabem gastar, preferindo porcarias a refinagens. Assim, tudo o que se faz nesta direção vira mesmo “assistência eleitoreira”.

O mundo em que vivem os arautos destas teses é de um anacronismo ímpar. Desconhece até as teses de seus colegas conservadores de outras plagas, um pouco mais ilustrados e solertes quanto ao que vai pelo planeta.

Estive pass(e)ando os olhos por um documento muito interessante, elaborado pelo National Intelligence Council dos Estados Unidos inicialmente para leitura do presidente e agora divulgado (desconheço se há diferenças entre a versão entregue à Casa Branca e esta que agora vai em pdf para as telas dos comuns mortais). O documento se chama “Global Trends 2030: Alternative Worlds”.

Grosso modo, trata-se de uma previsão de como poderá ser o nosso mundo em 2030. O documento faz poucas afirmações cabais, preferindo ficar na definição de molduras possíveis. O que vai acontecer se o Irã desistir do seu programa nuclear? O que acontecerá se ele não desistir? E assim por diante.

Mas há nele algumas afirmações bastante, digamos, afirmativas.

Uma delas é a de que diminuirá muito o alcance, o poder e a influência das potências ocidentais. Elas hoje manejam 56% da atividade econômica mundial. Em 2030 deverão manejar 25%. Este declínio aponta para uma reversão de tendência multissecular, que data do Renascimento. Em compensação, o peso asiático vai aumentar.

Mas não só o asiático, seja chinês ou indiano (pois o japonês também estará em declínio). Haverá outros polos que, de regionais, passarão a ter um alcance mundial – entre eles (vejam só!), o nosso “isolado” Brasil. Além, possivelmente, da África do Sul.

Mas há mais. Neste mundo de pesos que se valorizam e se desvalorizam, o da Europa vai decrescer sensivelmente. Talvez até o ponto, alerta o documento, de pôr em perigo a própria coesão da União Europeia, quem sabe a da Zona do Euro em primeiro lugar.

Na contramão do que acontece hoje na Europa, a tendência predominante deste mundo velho sem porteira será a do fortalecimento da classe média, que, apesar da sua perda de poder aquisitivo no Velho Continente, deverá estar em torno de 35% da população mundial. Serão 3 bi em 8,4 bilhões de pessoas. Pela primeira vez na história, pode ser que a maioria da população mundial não viverá na miséria – com uma substantiva contribuição do “fracasso Brasil” para tanto, como mostram sucessivos documentos de múltiplos organismos internacionais, entre eles a OIT e a Unesco, dentre outros.

Esta ascensão social provocaria um aumento da demanda por saúde, educação, alimentação, água e – veja só – energia. Neste itens todos, apesar da persistência de problemas seculares, o “fracasso Brasil” vai bem, embora isto seja difícil de ver através da cortina de fumaça – ou poeira – que os nossos doutores em isolamento ou fracasso continuamente teimam em levantar.

Ah, um outro item interessante é o da internet. Levantamentos recentes indicam que no “isolado” e “fracassado” Brasil, a maioria da informação buscada pela população está nas redes virtuais. Pois bem, o documento do Council afirma que uma das características do mundo em 2030 será a da formação de “comunidades congregadas” virtuais, supra-nacionais, em territórios novos como a “googlelândia”, ou a “twitterlândia”, ou ainda a “facebooklândia”. Não é a minha praia, partidário que ainda sou de uma boa caneta-tinteiro, mas devo reconhecer que há uma tendência mundial naquele sentido, e que nela, o “fracasso Brasil”, ou o “isolado Brasil” navega muito bem.

É claro que um documento desta natureza deve ser lido com várias mãos e pés atrás, não só por vir de onde vem, mas igualmente por ser, no fundo e ao final, um conjunto de previsões para melhorar ou tirar o sono do ocupante da Casa Branca.

Mas ele mostra, de modo muito inequívoco, a bobajada que os adeptos do “fracasso Brasil” ou do “isolado Brasil” são infatigáveis em apregoar.

A estes, o passado. Ao Brasil, de novo, o futuro – mas desta vez carregado de presente. E se o Brasil for, eu vou. Com minha caneta-tinteiro e tudo.

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A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

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Confira o Booktrailer do livro abaixo:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A Igreja e seus achaques

13.05.02_A Igreja e seus achaques_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Li estarrecido a notícia sobre a excomunhão de um padre em Bauru, no interior de São Paulo, por ter ele defendido homossexuais e condenado as atitudes retrógradas da Igreja Católica em relação a sexo. Diz o juiz instrutor do caso que a decisão de excomungá-lo não teve por base o apoio aos gays, mas sim a sua recusa em obedecer às autoridades da Igreja.

Seja como for, o caso entra para o passivo da Igreja, que terá de prestar contas perante o Criador no dia do Juízo Final ou outra circunstância parecida.

Porque não dá para deixar de sublinhar o rigor desta medida cavernosa diante da indulgência com que a hierarquia católica tratou, até agora, os casos de pedofilia e de outras barbaridades cometidas nas barbas, não do Profeta, mas dos Santos Papas, se eles as tivessem, como alguns já tiveram bem antigamente.

Esquece a hierarquia da Igreja a palavra do próprio Cristo, através do evangelista: “Mas ai daquele que produz escândalos! Seria melhor para ele que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar, do que escandalizar um desses pequeninos.” (Lucas, 17, 1-2).

Fico imaginando o que aconteceria se o meu livro A Bíblia segundo Beliel caísse nas mãos de um juiz destes. Certamente eu e o Beliel iríamos para o beleléu.

Decididamente a Igreja está precisando de um choque de gestão. Conseguirá dá-lo o Papa Francisco I? Não sei. Recentemente ele apontou uma espécie de Conselho Episcopal, composto por cardeais dos cinco continentes, como uma espécie de grupo auxiliar para auxiliá-lo na administração (faxina, eu diria) da Igreja.

Haverá remédio para a Santa Madre? Bom, é verdade que, apesar das cruzadas da direita vaticana e opusdêica contra, por exemplo, a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base, estas continuam e, por debaixo dos panos eclesiásticos passam bem, obrigado. Estão, é verdade, numa espécie de clandestinidade obsequiosa. Mas não desapareceram.

É difícil coisas desaparecerem na Igreja. Certa vez meu querido (e infelizmente ido) amigo Eder Sader me contou um episódio, sobre um encontro que ele assistiu na sede do Cebrap, com sociólogos, antropólogos, teólogos, religiosos, etc. sobre os destinos da Santa Madre. Disse-me ele que um dos presentes defendia a tese de que o acontecia com as CEBs no Brasil e na América Latina era o que havia de mais importante para definir os destinos da Igreja no próximo milênio. “Flávio”, me disse ele, arregalando os olhos como fazia nessas ocasiões, “eles pensam em milênios!”…

É verdade, penso até hoje. O tempo eclesiástico é de outra dimensão, assim como o do Criador, de certo modo, é o da eternidade. Esta é uma outra razão para meu pensamento que pode ser herético, mas não é desrespeitoso. Exatamente por ser seu tempo o da eternidade, é que o Criador teve que se dedicar a tirar do tudo (ou do nada, para alguns) a Criação, e dentro dela o ser humano. É porque na eternidade não há prazer. Esta é uma das razões por que, por exemplo, o Zeus grego ficava procurando as humanas gostosas, ao invés de ficar apenas com a insípida Hera. Era para ver se ele conseguia pelo menos vislumbrar o que era o prazer, porque o prazer só é prazer porque acaba. O prazer é umbilicalmente ligado à sensação de finitude.

E esta é uma das dimensões do gigantesco erro em que a Santa Madre incorre ao defender coisas como a castidade, a querer proibir o direito ao aborto (não que eu seja indiscriminadamente a favor do aborto, mas sou sim contra a sua criminalização), ao atacar a opção das pessoas do mesmo sexo que se amam, etc. Porque isto parte de uma ideia de negação do prazer, que é uma das dimensões que, através da Criação, o Criador (ou o Big Bang, para os íntimos da religião científica) ou seja lá quem for ou que nome se lhe atribua, entregou, como dádiva, aos seres que a povoam, desde as amebas até o ser pensante que julgamos ser.  

Durma-se com uma excomunhão dessas! Ou com as duas – a do padre de Bauru e a do prazer.

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A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

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Confira o Booktrailer do livro abaixo:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Túnis, Susa, Tunísia

13.04.04_Flávio Aguiar_Túnis, Susa, TunísiaPor Flávio Aguiar.

Neste final de março aventurei-me pela primeira vez num país árabe: a Tunísia, para cobrir o Fórum Social Mundial.

Cabe e sabe bem a palavra “aventura”, pois trata-se de mergulhar num outro tempo e num outro espaço. Era Páscoa, mas não havia Páscoa. Não há Páscoa no mundo de Maomé, onde Alá é Alá e aquele o seu profeta.

Testemunhei alguns choques culturais. Por exemplo, uma disputa de tempos e cantares. Fomos a Susa, uma cidade fundada pelos fenícios no século XI A. C. Num dos entardeceres, começamos a ouvir, do balcão do hotel, a cantilena da prece chamada pelo muezim. A cena tinha algo de mágico, algo de Malba Tahan (quem lembra?) e até, por que não, de Paulo Coelho. E mais algo das Mil e Uma Noites, de Karl May, de Casablanca, de beduínas fantasias e guerras tuaregues. Pois no balcão ao lado o diligente casal árabe e seus filhos ouviam uma renitente música bate-estaca, que, com sua batida frenética e monótona, fazia o contraponto à musicalidade algo melancólica da prece. Sinal dos tempos? Pode ser, num tempo de sinais controvertidos.

Desde o tempo dos fenícios, a Tunísia foi um carrefour de vários mundos. Ali se cruzaram fenícios e romanos, gregos e troianos, cristãos e muçulmanos, espanhóis e bérberes, franceses e árabes, numa confusão profusa de línguas, entendimentos e desentendimentos. Resultado: a Tunísia – Túnis, a capital, em particular – é um país de poliglotas. Qualquer chofer de táxi ou comerciante de lojinha fala cinco ou seis línguas fluentemente.

Os comerciantes e o comércio são um caso à parte. Como todas as cidades árabes de algum porte, Susa e Túnis (as que eu e Zinka, minha mulher, visitamos) têm suas Medinas, a parte histórica, antiga, onde estão as principais mesquitas, e o gigantesco pequeno comércio que as animam. As Medinas são um micro e um macro universo de vozes, anúncios, regateios, pratas, ourivesarias finíssimas ao lado de comidas em cores pantagruélicas, um labirinto sem fim onde tudo se negocia sem parar o tempo todo. Fascina e cansa. Eles são muitos e a gente um só; ao fim do dia a gente sente vontade de comprar qualquer coisa a qualquer preço. Mas não: comprar algo pelo primeiro preço pedido é uma ofensa ao vendedor.

Curiosamente, nas Medinas abundam os pequenos centros culturais. Todos preciosamente decorados, alguns desde o século XVIII, ou até de antes. Ao contrário do que parece à primeira vista, o mundo árabe (ou bérbere) é intensamente colorido, através de seus panos, portas, comidas, e extremamente variado em matéria de sabores.

Paira no ar uma preocupação quase obsessiva sobre mostrar que o Islã e seu mundo muçulmano são abertos, tolerantes e democráticos. Por outro lado, o movimento das mulheres é muito vigoroso, a ponto de ter dado a nota no Fórum, e elas temem a instalação de um estado religioso que cerceie seus direitos e expectativas.

Aliás, essa nota das mulheres no Fórum não se deu apenas em relação às suas reivindicações específicas. Numa macrorregião dominada por ditaduras e monarquias obsoletas e truculentas, com países divididos entre si e internamente, a solidariedade internacional vem sendo tecida e entretida pelos movimentos de mulheres, em grande parte.

Nesta primeira aproximação da Tunísia, uma nota final para a maravilha de seus mosaicos romanos e do primeiro cristianismo. Uma nota especial para o Museu Arqueológico de Susa. O Museu do Bardo, em Túnis, antigo palácios de Beys, Reis e Paxás, é monumental e interessantíssimo. Mas o relativamente pequeno Museu de Susa detém mosaicos da mais alta qualidade estética. Depois de destruir a concorrente Cartago (cujas ruínas valem também uma visita), Roma, ao que parece, decidiu recobrir a civilização derrotada com a sua. O resultado foi uma urbanidade florescente e orgulhosa durante 500 anos ou mais, espelhada nesta cultura extraordinária do mosaico que terminou, inclusive, por influenciar a Europa inteira através da posterior expansão do cristianismo que se consolidou, primeiro, neste Norte da África (Santo Agostinho que o diga), depois ocupado pelos seguidores de Maomé.

Por fim, os vinhos tintos da Tunísia são de primeira linha.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Europa: entre a adrenalina e a anestesia


Italy Vote In General ElectionPor Flávio Aguiar.

A recente eleição italiana lembrou de modo abrupto como o continente europeu tem vivido nos últimos anos, graças aos seus “planos de austeridade”: em saltos vertiginosos entre doses cavalares de anestesia e de adrenalina.

Às vezes, conforme o país, predomina o mergulho no anestésico, como na Alemanha, ou o pico de adrenalina, como na Grécia.

A retórica da “austeridade” é o anestésico: discurso fácil, repetitivo ad nauseam, de metáforas vulgares e baixo nível de inteligência. Baseia-se na similitude enganosa entre o mundo privado e o público. Um país deve ser administrado como o lar, só se gasta metade do que se ganha, ou até dois terços. O resto poupa-se para o futuro. Só que na esfera pública dominada por este anestésico não se poupa para o futuro, mas para alicerçar o combalido sistema financeiro. Porque sem ele não se rolam as dívidas públicas. Ou seja, na prática poupa-se para se endividar, num círculo vicioso e viciado.

Mas de quando em quando deve-se prestar barretadas à democracia, esta cônjuge indesejada que está virando rapidamente a “outra”, no casamento entre governos e banca financeira. Daí, às vezes, o bolo desanda, porque as doses de anestésico revelam-se insuficientes quando a dor é demais. É verdade que também se recorre a periódicas injeções de medo, convencendo que a dor é necessária, porque senão a dor será maior ainda. Ainda assim, estas injeções também se provam insuficientes, porque a permanência da dor invalida a combinação entre anestésico e temor.

Daí acontecem “catástrofes”, como a eleição italiana.

Então o mundo anestesiado acorda, com doses poderosas de adrenalina: no mundo dos donos da hegemonia anestésica, as bolsas despencam, os rankings do tipo Moody’s e Standard and Poor’s (que nome!) caem, os spreads e o preço da rolagem das dívidas vão para a estratosfera, os ministros das finanças vituperam o povo que acordou como um bando de irresponsáveis, e por aí vai a saraivada das adrenalinas.

É provável e possível que os anestésicos retornem. Até porque uma parte da adrenalina afinal desperta na população se dispersa em pílulas de placebo inútil, do tipo Beppe Grillo, ou em tóxicos alucinatórios, do tipo Sílvio Berlusconi. Em todo caso, tanto o placebo quanto o tóxico são sintomas de que indignação não falta.

O que faltam são alternativas. Faz parte do mundo do anestésico o convencimento de que não há alternativas ao seu remédio que, no fundo, consiste em ir aplicando a morfina viciada e viciante enquanto a equipe médica comprime com os pés o tubo que alimenta o paciente com oxigênio. Mantidos num estado de letargia induzida, os pacientes conseguem apenas sonhar pesadelos e se agitar de vez em quando, em movimentos espasmódicos e pouco concatenados. Ou então, no caso daqueles pacientes que detém uma quota maior de oxigênio, impera a pouca movimentação, na crença de que se não se mexerem muito preservarão essa situação de desigualdade na distribuição de ar em seu favor. Creem estes, inclusive, que sua “felicidade” se deve ao fato de que sabem se comportar bem, poupando oxigênio, enquanto os outros, os que agora se agitam nos pesadelos, estão sendo devidamente castigados por terem desperdiçado suas quotas, e assim passam a aprender as regras do bom comportamento.

Aos poucos, porém, as alternativas vão se deixando vislumbrar. Já não impera a absoluta concordância com as regras anestésicas, como no caso da França. A Islândia é uma preciosa exceção, também. Mas a França ainda está enredada na herança do anestésico, ainda que agitado, do “efeito Sarkozy”. E a Islândia, em comparação com o gigantesco continente europeu, tem a dimensão de um pequeno besouro, fácil de não se ver, e portanto de não se falar a respeito.

O problema está ao sul e do outro lado do Atlântico, onde há um imenso besourão chamado Brasil. Este besourão, que avoa, mas que, de acordo com as leis da Física (pelo menos a dos anestesistas) não deveria voar, é difícil de passar desapercebido.

Por isso, seria melhor para todo esse mundo que um tucano o engolisse dentro de algum tempo.

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Flávio Aguiar está no Brasil e participa de dois eventos de lançamento de seu mais novo livro A Bíblia segundo Beliel: como de fato tudo aconteceu e vai acontecer. Em Porto Alegre o debate ocorre amanhã e contará com a presença do tradutor e escritor Paulo Neves, em São Paulo o debate ocorre no dia 12/3 e conta com a presença de José Roberto Torero, que assina a orelha do livro.
Confira o cartaz completo abaixo:

2013.03_A Bíblia segundo Beliel_finalFlyer Porto Alegre | Flyer São Paulo

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (22): O dia em que o mundo virou de cabeça pra baixo

Tag von Potsdam, Adolf Hitler, Paul v. HindenburgPor Flavio Aguiar.

Hoje, 30 de janeiro de 2013, faz 80 anos que Hitler foi chamado para formar o governo e exercer o cargo de chanceler – como se chama o ou a primeiro(a) ministro(a) aqui.

Até hoje me pergunto o que passava pela cabeça do Marechal Hindenburg, então presidente da Alemanha, ao cometer tal gesto, que viria a ser um dos maiores estrupícios da humanidade. Porque é fácil explicar Hitler com base nele mesmo. O duro é pensar nas pessoas que estavam ao redor. O que pensavam? Não me refiro a facínoras como Goebbels, Göring, Himmler et caterva. Me refiro aos demais, que pensaram demais ou de menos. Demais: Hitler era uma segurança contra o avanço comunista. De menos: ele seria passageiro, terminaria sendo ejetado do posto que ambicionava. Afinal, para aristocracia alemã, que ainda respirava o ar do fanado Império, ou para a classe política ascendente, ele era um mero “parvenu”, um “novo rico” do sistema eleitoral alemão…

Mas neste ano de 2013 comemoram-se vários aniversários em final 0. Ainda quanto ao nazismo, vai fazer também 80 anos que o Reichstag pegou fogo (27/2) e a culpa foi jogada sobre os comunistas. Em 22 de março daquele ano o governo nazista abriu seu primeiro campo de concentração, o de Dachau, perto de Munique. Não era um campo de extermínio de judeus. Era para os adversários políticos do nazismo, que lá eram torturados e assassinados, meio de acordo com a vontade dos carcereiros de plantão. Em 10 de maio do mesmo ano (1933) houve a macabra queima de livros na hoje Bebelplatz.

Avancemos dez anos: em 2 de fevereiro de 1943 terminava a Batalha de Stalingrado, segundo muitos a mais decisiva da Segunda Guerra, com a derrota e a rendição do 6º Exército alemão. Hitler deu – praticamente – ordens ao comandante, Friedrich von Paulus, para que se matasse, no que não foi obedecido, prova de que o 3º Reich de fato já se desfazia.

Avancemos mais ainda, mudando de registro. Dez anos depois, em 1953, em 5 de março, morria Josef Stalin, o ex-camarada Koba, e subia Nikita Kruschev, cujo nome até hoje me complico para escrever, Kruschev, Kruschov, Khruschohv, enfim, Nikita para os íntimos. Em 16 e 17 de junho daquele ano houve uma grande revolta dos trabalhadores de Berlim Oriental, protestando contra más condições e aumento das horas de trabalho, sem reajuste. O governo chamou os tanques soviéticos, e o resultado foi a morte de 153 manifestantes. Foi a primeira grande revolta popular contra a ocupação soviética na Europa do Leste, que seria seguida pelo levante húngaro de 1956. Consta que por causa dessa repressão violenta aos trabalhadores alemães o camarada Nikita defenestrou da direção do Partido Laurentiy Beria, um dos remanescentes da era Stalin, que terminaria fuzilado em dezembro daquele ano. A União Soviética dava a outra volta do parafuso.

Avancemos mais um pouco (depois voltaremos): em 1963 (junho), morria João XXIII. Seu sucessor, mais morno, Paulo VI, abriria o caminho (passando pela misteriosa morte de João Paulo I) para o longo reinado de João Paulo II, o apóstolo do fim do comunismo, e que abriu caminho para o apagado mas rígido Bento XVI. Já em novembro o assassinato de John Kennedy estarrecia o mundo – estupefação que dura até hoje, porque a explicação oficial não convenceu.

Ainda haveria muito o que falar. Allende, 1973, por exemplo. 1983, os Estados Unidos invadem Granada. O rivalíssimo Grêmio de Porto Alegre vence a Copa Toyota no Japão e se acha campeão do mundo… 1993: o primeiro ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque, então recém inaugurado, prenuncia o de 11 de setembro de 2001. 2003: Lula toma posse como presidente em Brasília, para alegria de muitos e choro e ranger de dentes também de muitos.

Mas me fixo, agora, numa nota estritamente pessoal. Em 1953, em dia que não lembro, Getúlio Vargas fez sua última visita – em vida – a Porto Alegre. Desfilou em carro aberto e eu, com estes olhos que a terra um dia há de beijar, encarapitado sobre os ombros de meu pai, na Praça da Matriz, em meio a uma multidão incalculável, o vi passar, acenando para o povaréu…

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Falta só 1 dia para o lançamento de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange! O livro já está em pré-venda, com desconto, nas livrarias SaraivaCultura e Travessa.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (21): Ainda os falsos amigos

CVoyage-MapPor Flávio Aguiar.

Além de viajar entre as línguas, os continentes e os sete mares, as palavras deslizam no interior da própria. Vejam o caso da palavra “revolução”, palavra que migrou da culinária ou da construção (“revolver”, o verbo, não a arma) para astronomia e daí para o campo social, econômico, cultural e político. E sendo originalmente de esquerda, já foi reivindicada pela nossa direita golpista de 1964.

No campo histórico, em nosso meio, a palavra deslizou da sua caracterização marxista como substituição de uma classe por outra no poder para designar simplesmente um levante armado de grande porte: Revolução Farroupilha, Revolução Federalista, Revolução de 30. Até o reacionário e restaurador Movimento de 1932, em São Paulo, ficou entronizado no panteão nacional com o nome paradoxal de Revolução Constitucionalista!

Meu saudoso amigo Werneck, grande militante comunista, me contou certa vez saborosa anedota a respeito. Estava ele em Santos, ministrando um curso de conceitos e princípios marxistas a estivadores arregimentados pelo partido. Pontificou sobre o conceito de revolução, desfiando a tradicional “substituição de uma classe por outra no poder”. Deu como exemplo a Revolução Francesa. E perguntou: “a Proclamação da República, no Brasil, foi uma revolução”? Um dos alunos respondeu prontamente: “não”! “Muito bem”, disse o mestre, “por quê não”? “Porque não correu sangue”, retrucou o mesmo aluno…

Um outro caso interessante é o da palavra “reforma”, em nosso espectro político de base. Era de esquerda, quem não se lembra das “reformas de base”? Nos anos mais recentes foi reivindicada pela direita neo-liberal para designar as regressões anti-New Deal que queria e quer ainda forçar na nossa cultura econômica.

Há muito o que aprender neste terreno. O pior que pode acontecer é imaginarmos que somos os donos das palavras, que somente as definições do nosso “meio”, do nosso “grupo”, do nosso “setor”, do nosso “pensamento”, seja lá o que for, são as vigentes e válidas. De acordo com esse narcisismo (que pode também privilegiar o ponto de vista de um “outro”, como se verá) para uma palavra existirá sempre uma acepção “verdadeira”, e as outras serão falsas. O reconhecimento dessa plural diversidade de conceitos que coabitam numa palavra não se opõe a uma noção de rigor. Se estamos em meio universitário, por exemplo, usemos as palavras dentro de rigorosos conceitos acadêmicos, tanto quanto possível, pois mesmo aí há dissensões. Mas não tenhamos a ilusão de que isso anula a diversidade das apreensões de uma palavra, e a necessidade de seu conhecimento para podermos avaliar o comportamento lingüístico das pessoas.

Vejamos um caso bem complexo. A palavra “nacionalismo”, por exemplo. Aqui na Europa ela designa invariavelmente um comportamento de direita, xenófobo, autoritário, excludente. As lutas libertárias dos nacionalismos do século XIX foram soterradas debaixo dos nacionalismos exacerbados da Primeira Guerra Mundial e da eclosão do fascismo, do nazismo e também do falangismo espanhol. Já na América Latina a situação é muito outra: as lutas anti-imperialistas do século XX deslocaram a palavra para a esquerda. Existiu e existe ainda uma direita nacionalista, como no caso dos integralistas, ou dos liderados pelo general Albuquerque Lima durante a Ditadura de 64; mas tudo isso foi sepultado pelo alinhamento quase sempre automático das nossas direitas com os norte-americanos durante a Guerra Fria e o neo-liberalismo depois. O termo, hoje, navega ainda na reavaliação que as esquerdas brasileiras (por exemplo) vem fazendo do significado histórico de figuras como Vargas, Brizola, mesmo Perón (o antigo), Lázaro Cárdenas, entre outros, além fronteiras.

Mas ainda permanece, por vezes, mesmo entre nós, a noção de que a definição européia “é a verdadeira”. Veja-se outro exemplo: “populismo”. Aqui na Europa é uma palavra usada pela consciência liberal – sobretudo na mídia – contra tanto a direita mais extremada (o governo húngaro, de extrema direita, antirroma – ciganos, mas eles não gostam dessa palavra –, é seguidamente chamado de “populista”) quanto a esquerda, às vezes nem a mais extrema. Líderes social-democratas mais radicais são freqüentemente chamados de “populistas”, como é o caso, em muitos meios, de François Hollande. Já no nosso meio latino-americano a palavra “populista” tem sido constantemente manipulada pela direita contra a esquerda. Houve um tempo em que a nossa esquerda se deixou levar pela terminologia da direita liberal, e também chamava os líderes populares de que não gostava de “populistas”. Em 24 de agosto de 1954 muito militante comunista (obtive depoimentos…) preparava-se para sair à rua comemorando a queda do “populista” Vargas, quando houve a surpresa geral do suicídio, da leitura da Carta Testamento e das avassaladoras manifestações populares que arrasaram as sedes dos partidos de direita e os jornais direitistas…

Enfim, ao se considerar as palavras, preparemo-nos para todo o tipo de viagem. Às vezes há um oceano que separa as suas semelhanças. Outras vezes, elas mesmas têm oceanos dentro de si…

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Faltam 15 dias para o lançamento de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet, o primeiro livro de Julian Assange! O livro já está em pré-venda, com desconto, nas livrarias SaraivaCultura e Travessa.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lúcifer e eu

Ilustração de Ricardo Bezerra para "A Bíblia segundo Beliel", de Flávio Aguiar

Ilustração de Ricardo Bezerra para “A Bíblia segundo Beliel”, de Flávio Aguiar

Por Flávio Aguiar.

A escrita e a publicação de meu recente livro sobre a Bíblia, em tom paródico, me trouxe uma série de recordações bíblicas e colaterais.

Entre elas, meu entrevero com  Lúcifer, quando eu era professor da ativa na USP.

Naquele tempo dava eu seguidamente curso sobre Grande sertão: veredas. E era inevitável que, durante as aulas, eu falasse no nome do Diabo, e suas variantes: desde as pessoais, como Lúcifer e Belzebu, até as genéricas, como Cujo e Cão.

Deu-se no entanto o singular acontecimento de que, num desses cursos havia uma aluna que devia ser especialmente religiosa, quem sabe carola. E cada vez que eu pronunciava o nome do Cujo, em qualquer variante, ela se benzia.

Era uma tortura. Mas que acabou levando a outra.

Porque em verdade, em verdade vos digo, aquela situação aziaga despertou não sei que veia sádica dentro de mim, mas que em meu corpo ou alma devia dormitar desde sempre.

O fato é que comecei a multiplicar as menções ao nome temido. Era uma guerra: eu dizia de cá, e ela benzia-se de lá, com cada vez mais frequência e em maior velocidade. Eu me sentia como parafraseando uma canção que certa vez ouvi pela boca de Tom Zé: “era eu, era ela, era ela, era eu, nós dois numa demanda, nem ela ganhava  nem eu”.

E assim passaram-se semanas, até que notei que o restante da classe se dera conta da demanda, e começara a curtir aquilo. Via-se nos olhares açulados e nos ouvidos quase em pé que a turma aguardava ansiosa o desenrolar da disputa, talvez seu desfecho dramático.

Aí o anjo-da-guarda de minha consciência de professor falou mais alto, e eu decidi pôr fim àquela sandice. Para começar, aproveitei um dia em que aquela aluna faltou.

Expus a questão, com sinceridade para a classe. Disse que a gente devia respeitar as crenças uns dos outros, e declarei que iria conversar com ela a respeito de não serem aquelas referências que eu fazia ao nome do Pé-de-Cabra uma invocação, mas uma necessidade da interpretação crítica da obra em tela.

Ademais, eu disse, entusiasmado pela receptividade que eu notara  às  minhas morigeradas palavras, eu achava  que todo mundo tinha um pouco de medo do Diabo.

Fui falando: “só acredito que alguém não creia no Diabo, se esse alguém, numa sexta-feira 13, à meia-noite, num quarto escuro  e fechado, invocar três vezes o nome dele, assim: Lúcifer! Lúcifer! Lúcifer!”

Pois no terceiro “Lúcifer!” que eu disse entrou pela janela um enorme e barulhento besouro:

“bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz”.

E como entrou, saiu.

Olhei para a classe, a classe olhou para mim. Houve alguns risos amarelos. Felizmente, era hora do intervalo.

Conversei de fato com a aluna. Sem citar o nome Dele. Ela entendeu. Moderei minhas chamadas do seu nome.

E nunca mais voltei ao assunto.

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A Boitempo acaba de lançar o novo livro de Flávio AguiarA Bíblia segundo Beliel. Leia texto de José Roberto Torero sobre o livro clicando aqui.

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Três livros de Flávio Aguiar publicados pela Boitempo Editorial já estão disponíveis para venda em versão eletrônica (ebook): o romance histórico Anita, sobre a vida de Anita Garibaldi, e seu livro mais recente, Crônicas do mundo ao revés (finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012) e o recém-lançado A Bíblia segundo Beliel. Todos estão à venda na Livraria da Travessa e na Gato Sabido pela metade do preço dos livros impressos!

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Seu próximo livro, A Bíblia segundo Beliel será lançado pela Boitempo em dezembro de 2012. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O ‘folha-seca’ da arquitetura

12.12.06_Flávio Aguiar_O folha secaPor Flávio Aguiar.

Morreu Niemeyer, para mim o ‘folha-seca’ da arquitetura brasileira e mundial.

Quem lembra da ‘folha-seca’? Foi uma das invenções brasileiras no futebol, ao lado da bicicleta (Leônidas), do chute de bico (Friedenreich), do goleiro jogar adiantado em relação às traves (não me lembro o nome, mas foi um goleiro do Fluminense) e do 4-3-3 (seleção de 1958), entre outras.

A ‘folha-seca’ foi invenção de Waldyr Pereira (antes dessas horríveis padronizações ortográficas, o nome dele era escrito com y). Consistia em bater com o peito do pé na bola, por baixo, de modo que ela girava por si mesma,  descrevia uma curva e perto do gol subitamente dava uma caída para um lado ou até para baixo, como uma folha seca ao vento.

Não confundir ‘folha-seca’ com ‘bola-em-curva’, de que era rei, por exemplo, o Nelinho, que jogava no Cruzeiro. Nunca vi ninguém bater uma ‘folha-seca’ exatamente como Didi o fazia. Só ele. Deixou duas mais famosas nas minhas retinas nada fatigadas de vê-las continuamente em filmes. A primeira foi no Maracanã, o gol da classificação do Brasil para a Copa de 58, contra o Peru (em Lima o Brasil empatara em 1 a 1, gol de Índio), quando o Brasil venceu por um magérrimo 1 a 0. A segunda foi nessa Copa, na vitória de 5 a 2 sobre a França, quando o goleiro francês, enganado pela curva da bola, foi parar à esquerda do gol (visto por trás), caído no chão voltado para as traves.

Mas Didi era o homem das folhas-secas simbólicas. Ainda na Copa de 58 sua jogada mais importante foi colher a bola no fundo do gol brasileiro, quando a Suécia inaugurou o placar na final, e ir caminhando, a passo lento, animando os companheiros, até o centro do gol, quando teria dito: “vamos acabar com esses gringos”. O Brasil estava acostumado a rememorar frases solenes, como “Independência ou Morte!”, ou “Os que forem brasileiros que me sigam!”. Bom, a do Didi também foi solene, mas de outro jeito.

Pois Niemeyer foi também um homem de ‘folhas-secas’. Já é lugar comum dizer que ele era o arquiteto das linhas curvas, ‘sensuais’. Sim, mas não só referentes (ainda que também) ao corpo feminino, também, penso, aos rios brasileiros, esses cheios de meandros e igarapés, remansos e dúvidas metafísicas, como a relativa ao Guaíba, de Porto Alegre, se é mesmo rio ou lago. Ou estuário. Ou outra coisa que ainda não se descobriu.

Com suas linhas curvas Niemeyer inovou a escola que o criou, a germânica Bauhaus, com suas linhas funcionais e sua tendência profundamente racionalista e didática de um novo modo de vida, mais iluminado e até igualitário. Contribuiu para embelezar a paisagem brasileira de um modo muito interessante, numa época em que predominava a casa “caixão” (lembram?, anos 1940, 50), funcionais, mais uma verdadeira prosa sensaborona, por vezes, entregue às suas linhas retas e a seus ângulos retos também.

Mas Niemeyer foi além, nas suas linhas curvas, estilo ‘folha-seca’.  Comunista, foi autor de algumas mais belas igrejas do Brasil, como a Catedral de Brasília e a de Pampulha, em BH. Na gótica São Paulo ele introduziu o Copan, aquela surpresa de “S”.

Sua última ‘folha-seca’: casar aos 99 anos, cheio de sensualidade.

Vale lembrar, por fim, que embora nascidos com 21 anos de diferença, 1907 (ele)  e 1928 (Didi), eles foram de certo modo contemporâneos em campo: enquanto Didi desfilava suas ‘folhas-secas’ nos gramados, Niemeyer desenhava algumas das principais obras de Brasília.

Gênios, cada um em seu campo.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Seu próximo livro, A Bíblia segundo Beliel será lançado pela Boitempo em dezembro de 2012. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (21): As cores cambiantes do outono

Por Flávio Aguiar.

Para um brasileiro, mesmo do sul do Brasil, onde a diferença da duração dos dias e das noites entre o inverno e o verão já é significativa, é difícil visualizar e sentir o que se passa por aqui. A velocidade da mudança é muito grande. Para se ter uma ideia, o nosso brasileiro teria que ir até Punta Arenas, no Chile, no extremo sul da América continental, depois da Patagônia, e aí poderia sentir algo parecido com o que acontece em Berlim nesta época do ano.

No outono, o dia encolhe e a noite cresce à base de quatro minutos por dia. Isso significa que numa semana, há uma diferença de 28 minutos, mais ou menos, entre noite e dia. E isso não é muita coisa. Como relatei na crônica anterior, estive há já quase um mês na Islândia: a diferença diária era de seis minutos. Fiquei uma semana lá: portanto, quando saí, juntando manhã e noite, o dia era 42 minutos menor, e a noite maior. Um quarto de hora. Para se ter uma ideia do que se passa na Islândia, a gente teria que por os pés no continente Antártico, na fímbria dos gelos eternos de lá.

É verdade que as temperaturas médias das latitudes no hemisfério sul são mais baixas do que no hemisfério norte, talvez porque a quantidade de água marítima naquele sejam maiores. Mas o problema não se refere à temperatura. O problema é a quantidade de luz.

Porque há outra variação importante. Até há duas semanas atrás, o outono aqui em Berlim era decididamente luminoso. Céu azul, árvores coloridas pela decadência das folhas, predomínio nelas do amarelo, vastos tapetes de folhas caídas na relva já queimada pelas geadas, tudo dá a impressão de uma “alegre melancolia”, se me permitem o oximoro.

De repente – não mais mas nem menos – tudo muda. Num meio de semana qualquer (na última) o céu se agrisa, as folhas se precipitam com mais velocidade, as névoas matinais se instalam, os crepúsculos cinzentos começam mais cedo. Os dias parecem não nascer, nos fins dos dias uma garoa acinzalhada se espraia pela cidade, e assim passam o dias e o tempo.

Não há mudança. Dias e dias se passam assim. A gente passa a considerar que o verão foi um intervalo precoce, fugaz e feliz entre dois invernos.

Claro: há climas mais violentos. No Canadá, onde sobrevivi a três invernos, as temperaturas chegam facilmente a menos 30º C. Peguei menos 40º C. O pulmão congela por dentro. Há recomendações de que numa temperatura dessas não se respire fundo nem forte: cristais de gelo podem entrar e congelar alvéolos no pulmão, provocando até gangrena. Cruz credo vôte cobra tutufum treis vêz que a Uiara me proteja!

Mas o inverno no Canadá, que dura mais da metade do ano, é ensolarado. Menos 30, mas com sol e neve às pampas, o que também ilumina.

Aqui, a partir do começo de novembro os berlinenses gemem pelo sol que se foi, deus agonizante. Dá pra entender: apesar de protestantes na maioria, os berlinenses continuam tendo algo de pagãos, adoradores do sol. Do Grande Ausente em boa parte do ano.

O que fazer então? Entregar-se à esfuziante vida cultural da cidade que, nessa época do ano, fica, em compensação, esfuziante à demasia.

Ontem estivemos num hotel – o Bogotá, bem na Kurfürstendamm – onde há décadas um grupo de “meia idade”, digamos, toca jazz: clarinete, bateria e piano. A gente vai lá, ouve a qualidade profissional do grupo, e paga assim, o vinho ou cerveja ou água ou café ou refri que a gente consome. E ponto. Altíssima qualidade, a preço de batata, porque, proporcionalmente, a banana aqui é cara. Depois, é claro, a gente é convidado a deixar uma gorjeta para os músicos, o que se faz com prazer, dada a excelente qualidade do trio. De quebra, dançarinos encantam a vista com seus passos no foxtrot, no two-step, nos blues mais lentos, porque ali também há uma escola de dança, em todos os sentidos.

E depois a gente sai com o sol interior mais iluminado. Esta é uma lição de Berlim: uma cultura para todas as idades.

Apesar do sol morrente. 

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Seu próximo livro, A Bíblia segundo Beliel será lançado pela Boitempo em dezembro de 2012. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim (20): Uma ilha navegando na contramão

Fotografia do monumento a Leif Ericsson, o primeiro viking a comandar uma expedição que chegou ao continente americano

Por Flávio Aguiar.

Antigamente os animais falavam e as ilhas navegavam. A primeira referência que tenho da palavra “Brasil”, por exemplo, é de uma ilha – Hy Brazil – da mitologia celta. A cartografia medieval a situava em diferentes locais: a oeste da Irlanda, ou perto dos Açores, ou ainda em locais mais distantes, sempre a Ocidente. É muito provável que o nome da nossa terra venha daí, e o próprio nome do pau-brasil que, muitos acreditam, a teria batizado.

Hoje os animais não falam mais – a não ser os papagaios e os fascistas. Mas certas ilhas continuam a navegar, algumas, inclusive, na contramão! Visitei, na semana passada, uma dessas ilhas, a Islândia, a meio caminho entre o Velho e o Novo Mundo – em todos os sentidos.

É bom lembrar, nessa altura, que é na Islândia que o dr. Lindenbrock e seu sobrinho Axel, ajudados pelo guia Hans, descobrem o caminho para o centro do planeta, mais precisamente na cratera do vulcão Snaeffels. Isso se passa em meados do século XIX, no extraordinário Viagem ao centro da Terra, de Júlio (ou Jules) Verne. Depois eles retornarão à superfície pela boca de outro vulcão, o Stromboli, na Sicília, lembrando também o personagem do livro e do desenho animado  Pinóquio.

Mas estamos nos afastando demais da Islândia. Voltemos. Lá fui para tentar entender o que acontecera nessa ilha, que andou de um lado para o outro na nossa geografia ideológica.

No final do século XX e começo do XXI a Islândia tornou-se a menina dos olhos do velho mundo neoliberal. Entre 1998 e 2002 privatizou e desregulamentou completamente o seus sistema bancário, até então estatal. Também privatizou e desregulamentou completamente corações e mentes. Não só criou-se nela, da noite para o dia, uma geração de banqueiros privados, como meio mundo quis, de certo modo, tornar-se seu próprio banqueiro.

Muita gente vendeu o que tinha para comprar ações dos “novos” bancos privatizados: o Landsbanki, o Glitnir e o Kaupthing, e assim ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Os bancos e seus novos managers passaram a contrair empréstimos vultosos no mercado internacional, em euro e em dólar. Investiram em negócios tidos como fabulosos, como o mercado – central e colateral – das hipotecas norte-americanas. Pessoas físicas contraíram dívidas em dólar e em euros, sob a forma de empréstimos. Criou-se em pouco tempo uma casta de novos-ricos. Onde antes reinava apenas a coroa (krona), moeda inconversível no mercado internacional, passaram a reinar a nova moeda européia, atraente e brilhante, e o velho dólar das cobiçadas verdinhas.

Em 2008, depois de dar mostras por cinco anos de que algo ia mal em sua digestão, esse castelo de cartas ruiu. As cartas viraram contas a pagar. E impagáveis (não no sentido do riso). É que com a quebradeira nos Estados Unidos, os credores internacionais passaram a não financiar a renovação dos títulos islandeses. Aqueles três grandes bancos faliram. O Estado teve de nacionalizar as suas dívidas.

A dívida pública islandesa era pequena. Mas a capacidade de ação do Estado também era, pois ela fora comprimida por uma política linear de impostos, com alíquota única sobre a renda,  que beneficiava os mais ricos, as corporações e os ganhos de capital. Impulsionada também pela súbita desvalorização da moeda, a dívida pública foi para a estratosfera, as dívidas dos cidadãos também, e os sonhos dourados daquele novo mundo financeiro foram para o espaço, ou para as profundas do inferno, dependendo do ponto de vista.

Sucedeu-se uma pequena revolução. Houve manifestações iradas em frente ao Parlamento. Em 2009 o governo conservador, que liderara aquela conversão neoliberal, caiu. Subiu uma coligação mais para a esquerda. Fatos não convencionais passaram a acontecer. Fez-se uma devassa no mundo financeiro. Executivos caíram. Alguns foram detidos. O antigo primeiro-ministro também, embora por algum tempo, tão somente. Mas foi, e por negligência.

Dona de sua própria moeda, a Islândia conseguiu uma reordenação de suas contas. Aplicou um plano de austeridade nas contas públicas sim, mas preservando a área social. Investiu em cursos de novo treinamento para quem tinha perdido o emprego. Privilegiou garantir depósitos em conta-corrente, ao invés dos empréstimos por investidores privados do estrangeiro. Em suma, navegou na contra-mão de tudo o que o restante da Europa está fazendo.

Resultado: enquanto a Europa mergulha na aflição e no desemprego, este caiu na Islândia. Era 10% em 2010. Hoje está em 6%. A economia voltou a crescer, à base de uns 2,5% ao ano. Como se isso não bastasse, a Islândia começou um processo muito democrático de revisão de sua Constituição. Foi nomeada uma espécie de Assembléia Nacional Constituinte, com 1500 pessoas, que delineou os parâmetros para a nova Carta Magna. Daí indicou-se uma Comissão de 25 cidadãos comuns, sem vínculos partidários, que redigiu o ante-projeto de Constituição, entregue ao Parlamento. Este organizou então um plebiscito, perguntando, entre outras coisas, se esse ante-projeto deveria ser a base da nova Carta, com esmagadora maioria apontando que sim. Também perguntava, por exemplo, se as reservas naturais do país deveriam ser propriedade da nação. Resposta esmagadora: sim.

Isso, enquanto no restante da Europa em crise desossam-se direitos da cidadania, e se enfiam planos de “austeridade” goela abaixo das populações, à força de cassetete e gás lacrimogênio.

Enfim, para concluir, a Islândia vale uma viagem.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, e o recente Crônicas do mundo ao revés (2011). Seu próximo livro, A Bíblia segundo Beliel será lançado pela Boitempo em dezembro de 2012. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.