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O reino da cozinha: Minha estreia na churrasqueira

15 04 02 Flávio Aguiar Reino da cozinha SalchichasPor Flávio Aguiar.

A verdadeira pátria do gaúcho é a churrasqueira. Nômade, ele a leva consigo, sob a forma de uma trempe (grelha, para os demais brasileiros), que arma em qualquer lugar. Um pouco de sal, um naco de carne, um trago de canha, um gole de vinho, um punhado de farinha e a pátria está feita. Nada a ver com isto de rodízios e espetos corridos, mais uma miríade de sushis, massas estapafúrdias, garçons de gravata borboleta e caipirinhas que custam os olhos da cara, além do preço dos vinhos.

No meu tempo de criança, além da trempe, havia a churrasqueira de tijolos. Improvisada em qualquer canto, num recanto de praia ou fundo de quintal, ela já era uma prova de uma cultura sedentária. Os tijolos eram alguma sobre da casa, do galpão, onde o velho gaúcho andejo, ou o imigrante recém chegado se fixavam. E o naco de carne mal passada era o sinal das tropelias de índios perseguidos, partidas perseguidoras, guerras civis sem trincheiras mas cheias de cavalhadas e de remanescentes de rebanhos selvagens, estrepolias nas fronteiras mal demarcadas, não só entre portugas e castelhanos, imperiais e farroupilhas, maragatos e pica-paus, mas também entre a barbárie e a civilização, onde não raro – como hoje – aquela não está alhures, ou no outro, mas no coração desta e do sujeito que se acha melhor e mais completo.

Churrasqueira de alvenaria, com telhado e chaminé, era coisa de rico. Churrascaria era espaço de estrangeiro (brasileiro) visitante, ou então coisa fina que se via no Rio de Janeiro (em São Paulo eram raras, ecos ainda das tropelias e ressentimentos de 32). Comia-se churrasco bebendo cerveja, porque ele era um prato de verão. Inverno e churrasco eram inimigos, pelo frio, pela chuva e pelo vento, que demoravam o assado ou ressecavam a carne. Enfim, o churrasco e a churrasqueira eram os contrafortes de uma pátria – como se vê na foto do meu avô, em anexo, com cicatrizes do tempo.

Mas churrasco e churrasqueira tinham esta peculiaridade: ser um espaço masculino, onde e quando a cozinha era um reino feminino. Neste mundo e neste tempo, churrasquear era uma prova de ingresso na maturidade. A gente podia começar a falar grosso, ou a usar com convicção a voz que engrossava, junto com o buço que começava a coçar com seus pelos intempestivos e ousados.

Como sinal de prosperidade, meu pai construiu uma churrasqueira de alvenaria, nos fundos do quintal de nossa casa, em Porto Alegre. Era imponente, a seu modo: uma mudança de era, como fora a introdução do fogão a gás na cozinha e do chuveiro elétrico no banheiro, desbancando o fogão a lenha e o boiler de água quente que o acompanhava. E eu sonhava com minha estreia naquela churrasqueira, cercada de pompa e circunstância, espetando carnes, salgando-as com o sal grosso, tomando canha e cerveja como gente grande. E ela ainda não fora usada, quando se deu a minha estreia.

Bom, canha e cerveja eu comecei a tomar, com os colegas de colégio. E a minha iniciação na churrasqueira veio, mas não do modo como eu pensara.

Em abril de 1964 aconteceu o golpe. Derrubado o governo de Goulart, começando os desmandos e as perseguições, coisas imperiosas se impuseram. Entre elas, o seguinte: na Faculdade de Medicina, onde meu irmão mais velho estudava, tornou-se necessário destruir – apagar da história – uma edição do jornal do Centro Acadêmico. O presidente do Centro estivera em Cuba um mês antes, e a edição trazia, em letras garrafais, com sua foto enorme, a manchete na capa: “Nosso homem em Havana”. Eram 2 mil exemplares.

Uma noite, meu irmão os trouxe para casa. Em segredo para ninguém ver. E nos dois dias seguintes eu queimei aquela jornalhada toda, exemplar após exemplar, na churrasqueira de meu pai. Foi um trabalho insano, em todos os sentidos, rimando com uma época insana. Uma estreia e tanto. Naquilo que eu queria que fosse a minha pátria.

Hoje, morando em Berlim, visito a Bebelplatz de quando em quando, onde se deu em 10 de maio de 1933 a grande queima dos livros do Terceiro Reich. É claro que os sentidos entre uma coisa e outra eram muito diferentes. Mas fico pensando sempre que queimar livros e jornais, ou outros documentos, é uma sina maldita.

Talvez por isso aquela churrasqueira tão desejada, que meu pai mandou construir, não veio a ser usada como tal. Na verdade, virou uma oficina com trastes de marcenaria, depois um depósito de tralhas e cadeiras velhas.

Até hoje eu penso que isto tem a ver com a maldição da minha e da sua estreia.

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Foto do avo do autor, com adereços de gaucho, assentado ao lado de sua patria.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Günter Grass e Eduardo Galeano vão para os eternos campos de caça

Flávio Aguiar_GunterGaleanoPor Flávio Aguiar.

Novamente o noticiário me leva, nestas crônicas, para longe do reino da cozinha. Saio dele para ir, desta vez, à biblioteca.

Percorro os volumes silenciosos. Eles hoje, 14 de abril de 2015, me parecem mais silenciosos do que de costume.

Livros choram?

Sim, choram. Também há momentos em que riem, outros em que ficam sisudos, pensativos, outros tem coceiras se acariciados, ainda outros fazem sexo conosco quando os apalpamos e cheiramos.

Há livros carrancudos, cheios de ódio: Minha luta, Mein Kampf, por exemplo. Outros há cheios de paixões tumultuadas, como Narciso e Golmund, de Herman Hesse.

Mas nesta minha biblioteca há alguns livros mais silenciosos do que outros.

Recolho um deles. É O tambor, de Günter Grass (em alemão Die Blechtrommel, “O tambor de lata”). Dele me sai esta preciosidade:

“Até mesmo os maus livros são livros e, portanto, são sagrados”.

Pego outro, igualmente cabisbaixo. É uma edição em espanhol, Diario de um Caracol, do mesmo Günter Grass, e leio, traduzindo em voz baixa para não perturbar demasiado o silêncio desta biblioteca:

“A melancolia deixou de ser um fenômeno individual, uma exceção. Transformou-se num privilégio de classe do trabalhador assalariado, um estado mental de massas, que se instala onde quer que a vida seja governada por índices de produtividade”.

E:

“Se o trabalho e o lazer logo se tornarem subordinados ao princípio utópico do absoluto negócio, então a utopia e a melancolia coincidirão: [veremos] a aurora de uma era sem conflitos, sempre tomada por ocupações – e sem consciência”.

Günter Grass era um homem de grande coragem. Demorou, mas confessou de motu próprio ter pertencido, na juventude, à Waffen-SS, o braço militar da odiosa organização nazista. Repudiou-a, depois. Recentemente, em plena Alemanha, publicou um poema criticando o governo de Israel (que muita gente aqui considera “intocável”, “incriticável”, como se isto existisse) pelo tratamento dispensado aos palestinos e pela posse de armas nucleares. Foi acerbamente atacado, acusaram-no de antissemitismo, coisa que ele rejeitou com veemência – e com razão.

Depois de procurar consolar estes livros acariciando-os, observo logo adiante um outro livro cabisbaixo. Perto dele, não muito longe, um outro livro, este muito grande e pesado, chora perdidamente: é a enciclopédia Latinoamericana. Não sei se ela chora por ter perdido um pai ou um filho, quem sabe um irmão. Mas tomo nas mãos o primeiro: é O livro dos abraços, de Eduardo Galeano. Na sua capa, sempre me saudava, cada vez que eu o fazia sair de seu nicho, um menino alegre tocando um tambor (seria o do Günter Grass?). Mas agora o menino me olha tristonho. Seu tambor está silente. Mas como se fora um convite, ele começa a tocar seu instrumento, naquele toque plangente, ritmado, se juntando ao silêncio das gentes, com que o surdo da escola de samba leva à última morada o passista que morreu.

Mas ouço naquele toque que irrompe na biblioteca transformada em câmara de velas ardentes um convite para abri-lo. E o faço. E leio, logo no primeiro texto:

“O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.

Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

– O mundo é isso – revelou –, um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.

Tive a graça de conhecer Galeano pessoalmente. Entrevistei-o várias vezes na TV Carta Maior, durante os Fóruns Sociais Mundiais. Ele tinha um jeito peculiar de falar. No começo amarrava a cara, como se estivesse de mau humor. Quem sabe estava? Galeano detestava estrelismos, e uma câmera de TV pela frente sempre lembra, de algum modo, esta condição estelar e inoportuna. Mas logo em seguida ele cativava quem o ouvisse não só pelo brilho de seu pensamento, como pelo otimismo cauteloso, nunca panfletário, que emanava de suas palavras. Sua voz de tom medianamente grave infundia serenidade de mistura com o caráter apaixonado, ardente mesmo, de sua relação com a beleza literária e com a busca da justiça social na nossa América Latina de tantas injustiças.

Me veio à lembrança também a imagem de seu irmão de sangue (assim eles se tratavam) e de espírito, o jornalista Marcos Faerman, o Marcão da Faculdade de Direito da UFRGS e das peladas de futebol do Veludo, em Porto Alegre. O Marcão foi a Buenos Aires, onde então Galeano se exilava, entrevista-lo para a o jornal Ex-, um dos alternativos de São Paulo. Lá encantou-se com a revista que Galeano dirigia, Crisis. E o Marcão editou algo parecido no Brasil, a Versus, uma das revistas mais criativas do nosso jornalismo.

Bem que eu notara que um pouco mais adiante da Latinoamericana meus exemplares sobreviventes de Versus e Crisis estavam abraçados, compungidos.

Num movimento repentino, sem pensar, abri as janelas da biblioteca, para que a luz violasse aquela penumbra. A manhã berlinense me recebeu com seu gélido hálito habitual. Mas o sol entrou, e logo transformou aqueles silentes livros num enxame de vozes que, como pássaros recém-despertos, homenageassem a vida dos que partiram – há tempos, como o Marcão, ou há pouco, como Grass e Galeano.

A entrada do sol na penumbra que se dissipava me confirmou a assertiva: é impossível se aproximar destas pessoas, destes livros, destas revistas, sem pegar fogo, mesmo que serenamente.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O reino da cozinha: o cordeiro pascal

15 04 02 Flávio Aguiar Reino da cozinha Cordeiro PascalPor Flávio Aguiar.

Meus pais tinham uma casa na praia. Praia de rio, do outro lado do Guaíba, no alto de um morro onde não havia estrada. O morro não era muito íngreme, de  modo que chegar lá a pé era fácil, apesar das bagagens que a gente tinha de levar.

A casa era pequena, o terreno era grande, pelo menos para o meu tamanho na infância. Tinha desníveis atraentes, além de outros atrativos, como os lagartos enormes e cinzentos que vinham cercar a cozinha. Tinham fama de cães de guarda: matavam cobras com o rabo. E havia cobras, além de escorpiões e aranhas. Lembro de uma caranguejeira enorme que vivia na cisterna, sob a casa. Dediquei-lhe um poema:

A UMA CARANGUEJEIRA QUE VI CERTA
VEZ NO INTERIOR DE UMA CISTERNA

Lustroso coração da noite,
Suspensa no facho da lanterna:
No bojo deste ventre aquoso
Arfas o peludo corpo em guarda.
Logo deslizas a severa confusão das patas
Para gozo de nosso maravilhado nojo.

Admiro tal pose de rainha,
O florido gesto, mesmo na liquidez do fim.
Se te flecha a rapidez da vespa
Ou se a vassoura o teu passo corta,
Guardas o recato, ao corpo recolhendo as patas.
Deixas a vida como quem se fecha em copas 

Íamos para lá no verão, depois do Natal. E voltávamos depois do Carnaval, em fevereiro. Era o reino da liberdade: eu tirava meus sapatos na chegada e só os punha no dia da volta, quando eu regressava a Porto Alegre com a pele queimada pelo sol, o que mais tarde me valeu o apelido de “Negrão”.

De resto, os dias eram ocupados pelas idas à praia, de manhã e de tarde. De manhã a maré estava baixa, as águas do rio pareciam um espelho. À tarde a maré enchia, havia vento e ondas mais ou menos grandes. E havia tempo para passear de bicicleta, jogar futebol, dormir à noite ouvindo o farfalho, às vezes violento, do vento nas árvores nos matos ao redor, sobretudo na enorme figueira que havia nos fundos da casa, coisa de 150 anos ou mais.

Também ali comecei a tomar contato com o mundo agreste da campanha gaúcha. Não longe da praia havia um matadouro. As boiadas chegavam do interior, conduzidas a toque de aguilhão, laço e cavalo. E depois os gauchões de chapéu de aba larga, pele mais queimada do que a minha, lenços vermelhos ou brancos no pescoço, vinham passear seus cavalos, dar-lhes de beber, na praia onde tomávamos banho. Eram imponentes para meu tamanho de piá, lembravam mesmo as antigas imagens dos “monarcas dos pampas”.

Raramente íamos para lá depois do verão. As viagens eram demoradas, havia que atravessar o rio com barcas que tinham sido compradas aos americanos depois da Segunda Guerra, tomar ônibus dos dois lados do rio, e além disto a partir de abril o tempo ficava frio demais. Assim mesmo, a Páscoa era uma espécie de última fronteira, se ela fosse cedo: ainda era possível ir para lá se ela acontecesse no fim de março.

Pois foi numa destas Páscoas precoces no ano que tomei conhecimentos de uma das primeiras independências que os homens podiam se dar, naquele mundo ainda beato e cheio de orações. Tínhamos um vizinho, o seu Oscar, um homem forte, grisalho, gritão mas boa gente, que vinha só para a casa ao lado. Era solteiro ou viúvo, hoje não sei mais. Pescava peixes no rio, que trazia num latão de querosene e os assava num braseiro improvisado.

Pois numa daquelas páscoas o seu Oscar veio até a nossa casa, e pediu à minha vó (que era, como já contei em outra crônica, a rainha-imperatriz da cozinha) que lhe fritasse uma linguiça, porque ele estava a fim de comer uma. Era de tardinha. Minha vó se escandalizou:

– Mas seu Oscar, hoje é Sexta-Feira Santa. Não pode comer carne.

O olhar de seu Oscar parou no ar. Acho que ele não tinha pensado no problema. Seria ateu? Agnóstico? Maçom? Comunista? Judeu ele não era…

Não sei. Mas sua resposta foi cristã.

– Dona Henriqueta [este era o nome de minha vó], certa vez perguntei ao padre: o pecado entra ou sai pela boca? O padre me respondeu: o pecado sai pela boca. A linguiça entra, portanto não pode ser pecado.

Minha vó era muito religiosa, mas muito prática e decidida. Convenceu-se do argumento, e pediu à Maria, que era a empregada, que fritasse a tal linguiça, com que o seu Oscar se refestelou, com farinha de mandioca e uns copos de vinho tinto que ele trouxera.

Aprendi a lição. Décadas depois, numa época iconoclasta que atravessei, eu fazia religiosamente um cordeiro pascal. Preparava-o com dias de antecedência, punha em vinha d´alhos e tudo. Mas comia na Sexta-Feira Santa, ao invés do bacalhau. E achava que assim eu estava tirando os meus pecados do mundo, vingando-me das minhas carolices dos tempos de guri.

Hoje não faço mais isto. Reservo meu cordeiro para o domingo e na sexta prefiro o bacalhau de sempre.

Mas guardo minha admiração pelo seu Oscar, que considero, em suas grisalhices e seus rompantes, tão guapo como aqueles gauchões que chegavam com seus cavalos à praia de minha infância, trazendo sopros de uma mítica liberdade inesquecível.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Brasil: sonhos e pesadelos em 2015

15 03 25 Flávio Aguiar[Manchetes da Tribuna da imprensa em 1954, pouco antes do suicídio de Getúlio Vargas]

Por Flávio Aguiar.

Caras leitoras, caros leitores

Após incursão ao Brasil, diante das circunstâncias, faço breve pausa em minhas crônicas sobre o mundo da cozinha e, embora falando ainda de panelas, introduzo esta variação:

* * *

Ora – direis – ouvir panelas!  Certo
Ficaste louco. E eu vos direi, no entanto,
Que muitas vezes paro, boquiaberto,
Para escutá-las pálido de espanto!

Direis agora: – Mas meu louco amigo,
Que poderão dizer umas panelas?
O que é que dizem quando estão contigo
E que sentido têm as frases delas?

E direi mais: – Isso quanto ao sentido,
Só quem tem fome pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender panelaas.

Aparício Torelly, Barão de Itararé, 1926. 

Em visita ao Brasil neste março, pude observar de perto, a partir de São Paulo, as manifestações dos dias 13 e 15, além dos panelaços, buzinaços, palavrões e outras demonstrações similares.

Tenho lido muitas interpretações a respeito, algumas aproximando a situação atual à de março de 1964. Uma das fontes de tal aproximação é a quase coincidência de datas entre a manifestação conservadora de 15 de março deste ano e a Marcha com Deus pela Família e pela Liberdade, em 19 de março de 1964. Também pude ler comentários apocalípticos sobre o fim do governo Dilma (alguns desesperados, outros céticos e ainda outros esperançosos), as possibilidades de um golpe militar, o fim do ciclo petista no Brasil e até sobre o fim do ciclo das esquerdas na América Latina, tanto em observações reservadas quanto abertas na mídia nacional e na internacional.

Entretanto uma coincidência feliz me despertou para a possibilidade de outra comparação histórica relevante, da qual se pode retirar alguma lição para o presente e talvez o futuro. Durante a estada li o terceiro volume da excelente biografia de Vargas escrita por Lira Neto (Getúlio, 1945 – 1954: da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Cia das Letras, 2014). Esta leitura, somada a outras do passado, mais recordações pessoais daquele momento, me convenceu da pertinência de comparar 2014/2015 com 1950/1954.

Uma eleição difícil.

A aparente facilidade com que Getúlio venceu seu principal oponente em 1950, o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, por uma diferença de mais de um milhão e meio de votos (então significativa), não deve ocultar as dificuldades da vitória, que rimam, de certo modo, com a apertada decisão de 2015, com uma diferença de apenas 3,5 milhões de votos num universo total de mais de 120 milhões de eleitores.

O caminho de Getúlio até a candidatura foi tortuoso, cheio de negaças, desconversas e só resolvida no final com o concurso do governador de S. Paulo, Ademar de Barros, e seu PSP, o que levou a uma coligação informal (as eleições de presidente e vice eram separadas), ainda que efetiva, com o obtuso Café Filho, suspeito de esquerdismo, mas na verdade já um político conservador.

Getúlio obteve quase 3,85 milhões de votos, contra 2,34 do Brigadeiro, quase 1,7 de Cristiano Machado, o candidato do PSD e oficial do governo Dutra e 9.500 votos do socialista João Mangabeira. Houve ainda 211,5 mil votos em branco e 145,5 mil nulos. Feitas as contas, isto significava que Vargas não obtivera a maioria absoluta, o que provocou uma reação imediata da oposição, liderada pela UDN, pedindo a anulação do pleito, apesar de não haver exigência constitucional a respeito. O pedido foi negado na justiça, mas sinalizou a força da famosa declaração de Carlos Lacerda a respeito de Getúlio: este não deveria ser candidato, se candidato, não deveria se eleger, se eleito, não deveria ser empossado e se empossado, não deveria governar, sendo, no limite, derrubado por alguma “revolução”, termo que no Brasil de então e ainda no de hoje designa simplesmente um levante armado.

As oposições de hoje, as das ruas, das panelas e buzinas, as midiáticas (também ativas em 1950) e a parlamentar, demonstraram ter belicosidade semelhante em relação à presidenta Dilma Rousseff, consubstanciada logo de saída pelo pedido de recontagem dos votos e auditoria da eleição, baseado na pequena diferença no segundo turno. Do mesmo modo como em 50, o pedido não progrediu na justiça, mas ficou a marca da disposição intolerante e antidemocrática, não aceitando o resultado das urnas.

O Congresso, o governo e outras circunstâncias.

Como em 2015, ao tomar posse em 1951, Getúlio se viu às voltas com um Congresso hostil, em que seu partido, o PTB, ainda relativamente pequeno e desorganizado, era minoritário, dependendo o governo de alianças e conchavos para poder governar. Se Dilma Rousseff chamou para o governo políticos e economistas considerados conservadores, Getúlio se viu na contingência de chamar par seu ministério figuras da oposição, até da UDN. Inicialmente entregou o Ministério do Trabalho a um empresário seguramente hostil às leis trabalhistas que foram promulgadas anteriormente. Só depois é que o entregaria a João Goulart, o que provocou enorme reação por parte da direita.

Tais composições de governo desagradaram a gregos e troianos – em termos da época, petebistas e comunistas (nesta altura os anarquistas já eram história) – no movimento sindical. Depois da nomeação de João Goulart, as bases trabalhistas se acalmaram, mas as comunistas continuaram hostis ao governo, transformando manifestações a seu alcance em protestos hostis a Vargas.

A economia patinava, a inflação subia, em 1953 eclodiu uma das maiores greves da história brasileira, a dos 300 mil em São Paulo. Para completar este quadro assustador, os investimentos escasseavam. No plano interno, a burguesia brasileira olhava com desconfiança o que considerava ser a “esquerdização” pessoal do presidente (em que pese a nomeação de seus ministérios conservadores), retraindo investimentos. No externo, inicialmente Vargas conseguiu contornar a preferência dos EUA pelos investimentos na Europa, no Plano Marshall, em época de Guerra Fria, acertando-se com o presidente Truman. Entretanto a eleição do republicano Eisenhower levou ao não cumprimento dos acordos feitos por seu antecessor, secando as fontes externas de investimento. Por seu lado, a Europa ainda estava prostrada pela ressaca da Segunda Guerra. Em suma, o aperto era semelhante ao enfrentado pelo governo brasileiro hoje: bloqueio interno, recessão e arrocho externos, ainda que as razões possam ser outras, tudo isso aliado a uma economia lenta e a uma relativa alta da inflação, ainda que nem de longe ela se compare a séries históricas anteriores.

Os insultos, as acusações e os agravos

O comportamento da mídia dominante então não diferia em nada daquele da velha mídia de hoje. Na campanha de desestabilização do governo apresentavam-se a corrupção e o mandonismo – em qualquer de suas manifestações – como tendo origem exclusivamente no governo e na família Vargas. O quadro é semelhante ao de hoje, onde a esta mídia martela a impressão de que a corrupção foi fundada pelo PT, ou pelo menos, a de que este partido a levou a níveis nunca dantes navegados na história brasileira.

Os insultos hoje ouvidos nas manifestações conservadoras – atestados mais de machismo e de falta de educação de quem os têm lançado – pelo menos desde o episódio do Itaquerão, tinham na década de 50 seu equivalente no calão político difundido na mídia conservadora, de “ladrão” para baixo. Também houve vaias de corpo presente. A certa altura, depois de prolongada ausência de aparições em público devido a fraturas decorrentes de uma queda no Palácio, Getúlio decidiu fazer sua rentrée no Grande Prêmio Brasil, no Jockey Clube do Rio de Janeiro. A “élite” presente, do alto de seus casacos e estolas de pele, além de casacas em pleno calor carioca, o recebeu com sonora vaia, além de insultos, como hoje, pois já hostilizava seus acenos de aumento no salário mínimo, concretizado este em 1954, com um reajuste de 100%.

Esta política de valorização do salário mínimo foi um dos estopins do famoso ou famigerado Manifesto dos Coronéis. Dizia este, iracundo, entre outras coisas, que com estes aumentos do mínimo logo “um operário estaria ganhando tanto quanto um graduado”. Explique-se algo a este respeito. Diz-se de Vargas que ele “trouxe” a classe operária urbana para o cenário político brasileiro. Mas deve-se creditar a suas políticas a partir de 1930 também a emergência de uma classe média – mais ou menos organizada e desorganizada – no país, coisa que não havia até então, embora houvesse “setores médios” que não eram nem abastados, nem pobres ou miseráveis, como grande parte dos então chamados profissionais liberais, como médicos, advogados, engenheiros e parte do funcionalismo público.

Dentre a classe média emergente, o estamento militar despontava, por sua coesão, seu espírito corporativo e também por sua relevância política num clima polarizado de pós-Segunda Guerra e Guerra Fria. Deste modo não surpreendia que o Manifesto dos Coronéis desse voz ao que hoje também transparece nos reclamos de uma “meritocracia” por parte dos que se julgam prejudicados em poder aquisitivo, acesso a serviços baratos e status, pela política de transferência de renda operada pelos governos petistas.

Entre as semelhanças, algumas diferenças, e entre as diferenças, algumas semelhanças.

Além dos fatores ideológicos, a ojeriza da mídia conservadora por Vargas teve duas poderosas razões. A primeira foi, ainda durante o Estado Novo, a extensão dos direitos trabalhistas aos jornalistas. A segunda foi a ajuda à criação da Última Hora, de Samuel Wayner, um jornal que modernizou a imprensa no Brasil e mostrou cabalmente o provincianismo e anacronismo das práticas dos barões assinalados de nossa mídia de então. Aqui há uma diferença gritante entre a situação de Vargas e a dos governos petistas de hoje. Aquele desde sempre compreendeu o valor da mídia, valendo-se do rádio e depois da criação de um jornal favorável ao governo. Já os governos petistas patinaram e ainda patinam neste aspecto. Mostram-se mais prisioneiros do cerco midiático do que Getúlio.

Há ainda outras diferenças importantes: por exemplo, até o momento, pelo menos, a situação e a disposição das Forças Armadas. Não se veem, seja qual for o horizonte para onde se olhem, disposições golpistas nelas de qualquer espécie. Algum golpe, se vier, virá através dos setores do Parlamento ou do Judiciário. Mas nesta diferença, esconde-se uma semelhança. Nos últimos tempos, o “sangramento” (as oposições gostam deste termo, como verbalizou, numa tirada deselegante, o senador Aloysio Nunes, assim como vários líderes da oposição de 50 o usaram em relação a Vargas) do governo teve origem no conluio da ação do juiz Sérgio Moro, no Paraná, de fragmentos selecionados da Operação Lava Jato, e de seus vazamentos também seletivos para a mídia conservadora. Esta “operação conjunta” lembra, mutatis mutandis, a também famigerada “República do Galeão”, o inquérito promovido de forma “ independente” por oficiais da Aeronáutica em sua base naquele aeroporto, depois do atentado contra Carlos Lacerda e a morte do major Rubens Vaz, num episódio até hoje não de todo esclarecido. Naquele inquérito também houve um amálgama de procedimentos escusos, que envolveram, segundo denúncias dos acusados, até a prática de tortura, além de negociações que lembram as “delações premiadas” de hoje. Houve então até mesmo uma aplicação ainda que tosca mas igualmente imprópria da “teoria do domínio do fato”: não importando provas, conhecendo ou não as conspirações, a culpa pelo atentado era do presidente. Carlos Lacerda chegou a imprimir um exemplar fake de seu jornal, a Tribuna da Imprensa, para ser lido por Gregório Fortunato, então preso incomunicável, “noticiando” que Benjamin Vargas, o irmão caçula de Getúlio, muito ligado àquele, tinha fugido para o Uruguai.

Outra diferença: o clima internacional de Guerra Fria era favorável à deposição de Vargas. Hoje a situação é outra. Pode-se até dizer que ao consenso ortodoxo da União Europeia ou a WallStreet agradasse mais a vitória de Aécio Neves (não a de Marina Silva). Mas daí a dizer que haja preferência por mergulhar o Brasil na incerteza de uma virada golpista, mesmo que através dos devidos mecanismos legais e judiciais, e na conturbação que seguiria, vai uma certa distância.

Outro paralelo interessante está nas intenções governistas, embora os estilos sejam muito diferentes. Apesar dos vaivéns ministeriais, Getúlio criou uma espécie de “Círculo Próximo”, que o alimentava com propostas e ideias sobre a reforma ou criação da infraestrutura brasileira. O efeito mais retumbante desta condição foi a criação da Petrobrás (que, aliás, assim como nos anos 50, está em questão hoje). Porém, além disto, criou-se o BNDES e lançaram-se as bases da Eletrobrás; além disto, “tramou-se” a extensão dos direitos trabalhistas urbanos á zona rural. De forma semelhante, a presidenta Dilma Rousseff, com seu estilo muitas vezes injustamente criticado de “gerentona” (este é o termo desgracioso usado), tem o projeto de atualização da infraestrutura brasileira, dependendo vitalmente de investimentos externos e internos nesta área. Se ela vai conseguir, vejamos. Mas dele depende o relançamento da economia brasileira.

Conclusões provisórias

O intertítulo é paradoxal. Mas corresponde à situação real: é cedo demais para conclusões, mas se não tivermos algumas, poderá ser tarde demais.

A primeira, nem tão provisória, é a de que o governo precisa aprender com a disposição comunicativa de Vargas, em todos os seus aspectos e em suas consequências. Deve ter mais arrojo em favorecer a diversificação da mídia brasileira, seguindo, aliás, recomendação da UNESCO a respeito.

Além disto, pode-se ver, ou ler, na situação, que se a do governo é precária, a das oposições também é. A começar por um fator nada desprezível, que é o de sua composição. Samuel Wayner cunhou o famoso apelido de Lacerda, o Corvo. Mas corvos – pelo menos desde La Fontaine e Poe – têm alguma estatura intelectual. Lacerda era um orador brilhante, um político de formação sólida. As hostes oposicionistas contavam com gente do calibre de Afonso Arinos e Gustavo Corção. O brigadeiro Eduardo Gomes podia não ter brilho, mas era elegante, derrubava corações e provocava suspiros apaixonados. Já hoje… sequer vemos uma geração de corvos na mídia conservadora ou mesmo nas oposições parlamentares e próximas. No máximo lembram micuins, aquela praga de ácaros que prolifera nos arbustos rasteiros e provocam uma coceira infernal. Nos anos 50, a oposição tinha um objetivo unitário: derrubar Getúlio. Hoje a situação é diversa. Há os saudosos do regime ditatorial, os adeptos do impeachment (que também foi tentado, sem sucesso, contra Getúlio), os defensores do já mencionado “sangramento”, os descrentes na política, estamentos de classe média e da burguesia que sonham em vão com a ideia de que “tudo voltará a ser como antes”, isto é, que os aeroportos se esvaziarão como num passe de mágica, que emergentes do povão não terão mais acesso ao ensino superior, que as empregadas domésticas venderão seu trabalho em troca de migalhas e voltarão a usar apenas as entradas de serviço, etc. Em suma, sonham com o pesadelo do impossível retorno. O desenho social do país mudou, e isto sim, ao contrário do regime de 64, é “irreversível”.

Outro fator: nos anos 50, Peron acenava com uma “união aduaneira”, ou “frente comum”, entre Argentina, Brasil e Chile. A proposta, que pode ser considerada um embrião do Mercosul, provocava arrepios nos nossos americanófilos de plantão e também nos militares, convencidos da inevitabilidade da futura guerra entre Brasil e Argentina pela supremacia regional. Hoje a música é outra, embora haja saudosistas que detestem as vinculações sul-sul desenvolvidas pelos últimos governos e que sonhem com nossa reintegração subalterna á ordem da falimentar Europa e ás incertezas da política norte-americana. Apesar de seus problemas, o Mercosul é uma realidade, bem como o protagonismo internacional do Brasil, e não há como voltar atrás nisto.

Por fim, uma última observação. Certo dia, no metrô de S. Paulo, ouvi a seguinte observação, de um executivo para outro:

“ – O problema, meu caro, é que não há provas contra ela. E ela também não vai renunciar”.

“É verdade”, pensei. Também pensei: “mas não havia provas contra Getúlio em 54, e ele se recusou a renunciar”. Mas a seguir considerei que, talvez para desespero daqueles executivos, a presidenta Dilma não parece nem um pouco disposta a qualquer tipo de suicídio, nem mesmo algum simbólico, do ponto de vista político.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O reino da cozinha: Com a mão na massa

15 02 05 O reino da cozinha_Com a mão na massaPor Flávio Aguiar.

Na última – e primeira – crônica desta série, “O reino da cozinha”, contei como minha avó exercia a monarquia absoluta naquele reino. Mas havia momentos de exceção. Um deles ocorria de quando em quando, num fim de semana. Preparava-se e comia-se uma macarronada domingueira.

A festa começava no sábado a tarde. Porque naqueles idos não havia tanta massa pronta no supermercado. Aliás, a rigor, nem havia supermercado. O primeiro em Porto Alegre abriu quando eu já era grandote. Me lembro que foi na prefeitura do Brizola, e ele era público, como eram os recentes sacolões em São Paulo antes da privatização de tudo. Chamava-se Cobal, o super – gaúcho gostava de abreviar tudo, até de vez em quando a vida, naquelas revoluções apopléticas de antanho.

As massas eram feitas em casa. Reunia-se uma companhia: amigas, tias, primas, todas mulheres, é claro. E tocava-se a fazer a massa.

Primeiro tinha aquilo maravilhoso de misturar a farinha e os ovos. Eu, que gostava de amassar barro no quintal, adorava meter a mão na maçaroca feita da farinha branca, dos ovos divididos ente a transparente clara e a dourada gema, e ficar amassando aquela mistura entre os dedos. Depois vinha o momento em que as massas informes se reduziam a verdadeiras línguas longas e amarelas de massa pronta ao serem passadas na máquina cheia de bobinas e com uma manivela que – maravilha das maravilhas – era eu quem tocava. E ainda havia um segundo momento – em que as línguas de massas passavam novamente pela máquina, com bobinas trocadas, que as reduziam a fios, que eram os que seriam comidos no almoço do domingo, com o molho de carnes e tomates que, exclamo, minha avó preparava: o cetro voltava as suas mãos. Também aqui eu exercia meus dotes manuais, tocando as manivelas. Terá isto alguma relação com minha preferência no futuro por ser goleiro?

Este foi meu primeiro passo adentro daquele reino da cozinha, aprendendo com minha avó que tão importante quanto exercer o cetro era por vezes saber delegar o poder que ele representava. Uma lição que desenvolvi na minha futura vida de sindicalista.

Mas havia mais.

Naqueles sábados de convívio com as mulheres aprendi a curtir a sua conversa. Porque entre uma massa e outra, uma bobina e mais uma, passavam-se em revista as fofocas e futricas da semana. Era um desfiar – como as massas nas bobinas – de suspeitas, comentários maldosos, confidências traídas, medos, traições aventadas ou realizadas, enfim, um universo muito mais interessante do que as insípidas conversas dos homens sobre futebol, cavalos, carros, ou até política.

Desconfio que as mulheres então achavam que crianças que nem eu eram bobas demais para perceber o significado daquelas frases, como uma que guardei em minhas orelhas hoje tão fatigadas, mas então sempre alertas: “é, ele frequenta uma aqui na rua de cima, mas eu finjo que não sei”. Desconfio que foi aí que começou a se tecer minha veia de escritor. Afinal, seja como for, o que a gente desfia são fofocas sobre a vida alheia ou a própria.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o mais novo A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O reino da cozinha: A colher de pau

15.01.22_O reino da cozinha_A colher de pauPor Flávio Aguiar.

Prezada leitora, prezado leitor.

Como anunciara ao apagar de 2014, começo aqui uma nova série sobre a conquista de um reino, o da cozinha. Já disse que esta série será uma obra épica, sobre adentrar e dominar um mundo que me era vedado por predestinação, as alquimias da cozinha. Não será um livro de receitas, embora possa conter algumas; não será um livro de auto-ajuda, do tipo “melhore sua vida cozinhando”. Ao contrário, algumas das observações poderão piorar a vida das pessoas, pelo menos momentaneamente, pois lidarão com preconceitos, violências do dia a dia, e outras coisas que podem ser desagradáveis para os espíritos mais delicados.

Está feita a advertência. Se quiseres, acompanhe-me na história da conquista deste reino.

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 “Meu reino por…”

Heróis ou anti-heróis trágicos, como o Ricardo III, de Shakespeare, poderão emendar:

“…por um cavalo!”.

Otelo diria (porque na peça não disse):

“…por um lenço de Desdêmona!”

Neste conjunto de crônicas que ora começo, me limito a dizer, mais prosaico:

“…por uma colher de pau!”

Porque a colher de pau foi o primeiro cetro que conheci. Era o símbolo do poder sobre um reino: o da cozinha. A cozinha de todas as alquimias, onde as coisas cruas se transformavam no esperado ou maldito alimento. Porque nem tudo o que vem da cozinha é desejado; algumas coisas são piores do que veneno, pela obrigação de comê-las quando não se quer, ou quando são detestadas.

Na casa de meus pais, quem empunhava o cetro, e com ademanes de absolutismo, era minha avó, mãe de meu pai. A empregada – agregada, como soía ser naquele tempo – o usava, mas por delegação da monarca. Esta palavra vem bem. Para quem conhece a estratificação social do pampa, de onde minha vó provinha, “monarca” designava o campeiro independente, sem documento mas com lenço no pescoço, dono de seu cavalo e do seu nariz, que oferecia trabalho, música e diversão a troco de alimentação e sustento por algum tempo. “Moço monarca não se assina, risca a marca”, diz o ditado campeiro, recolhido por Antonio Pereira Coruja e publicado em sua coletânea de termos gaúchos em 1861, referindo-se ao fato de que a maioria destes homens de cida alçada não sabia ler nem escrever.

Minha avó – de nome Henriqueta – mal sabia ler e escrever; pertencia ao lado feminino do campo; mas tinha algo do desempeno sobranceiro daquela vida pampiana de antanho. Pelo menos assim se comportava em relação a seu reino, a cozinha.

Este reino era motivo de disputa renhida entre ela e minha mãe. Ela, minha avó, estava em vantagem. Minha mãe, mulher moderna, trabalhava, era professora no Instituto de Educação General Flores da Cunha que, apesar do nome, era exclusivamente para moças. Passava os dias fora. Minha avó ficava em casa; trabalhava também, pelo menos durante algum tempo de minha primeira ou segunda infância, em todo caso primeiros tempos de minha memória. Mas trabalhava em casa. Costurava para fora, remendava, pregava botões, fazia e refazia bainhas de calças, virava colarinhos, sobretudo de fardas da Brigada Militar, a PM gaúcha. Muitas vezes a acompanhei, levando trouxas com as fardas remendadas, ao Quartel-General da Brigada no centro da cidade. Talvez houvesse fardas do Exército também, não me lembro.

Por isto, por ficar em casa, minha avó estabelecera na cozinha o seu reinado. E a disputa política em questão era o que comeria o meu pai. Este trabalhava como contador no centro; ia e voltava do trabalho a pé. Podia vir – e vinha – almoçar em casa. Depois fazia uma sesta de meia hora, e voltava ao trabalho, onde ficava até as seis da tarde ou da noite, conforme a estação do ano.

Aquela disputa, que minha avó ganhava todos os dias, tinha um símbolo, um ritual sagrado. Meu pai chegava do trabalho, tirava o paletó, afrouxava a gravata, às vezes abria o colete, arregaçava as mangas da camisa e sentava-se à mesa. Pegava um pedaço de pão que partia com as mãos; enquanto isto, minha avó punha-lhe à frente um prato fumegante de sopa, com carnes, legumes e alguma folha verde. Assim era todo o santo dia, todos os dias da semana, todo o ano, fizesse calor ou frio.

Tão forte era esta lembrança que anos mais tarde, quando eu já morva em S. Paulo, repeti a cena ao receber em casa meus pais. Era a primeira visita deles à minha casa de casado. Minha mãe e minha mulher saíram “para compras”. Fiquei em casa com meu pai, que queria descansar da viagem, feita de ônibus, pois avião era para gente rica e eles tinham chegado na noite anterior. Naquele tempo havia uma faxineira que vinha uma vez por semana à nossa casa. Pressuroso, eu, que ainda não lidava bem com estas coisas, pedira-lhe na véspera que fizesse um prato de sopa para meu pai. Esquentei-a, e servi-lhe o prato.

Frente a frente, ele me olhou com seus olhos esverdeados e límpidos. E me disse, com humildade, como se estivesse pedindo desculpas:

– Eu detesto sopa.

Foi como se um raio me caísse na cabeça. Pela primeira vez tive a medida – ou a desmedida – da extensão do reinado de minha avó, e da importância daquele cetro, a colher de pau.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Berlim: até mais ver

14.12.17_Berlim até mais ver_Flávio Aguiar2Por Flávio Aguiar.

Não, não estou me mudando. Continuarei morando em Berlim, pelo menos pelos próximos anos.

Mas pretendo mudar de assunto.

Não que falte assunto em Berlim, na Alemanha, ou na Europa.

Agora mesmo, por exemplo, dois temas marcantes emergem neste fim de ano.

Um deles é que pela primeira vez há um chefe de governo da Linke (“A Esquerda”) numa província alemã, a Turíngia. Desde a queda do muro (1989) esta província do antigo Leste era governada pela conservadora CDU (União Democrata-Cristã), partido da chanceler Angela Merkel. Na eleição deste ano (na Alemanha as eleições não coincidem, cada província tem seu próprio “timing”) a Linka foi a mais votada, e formou uma coalização com o SPD e com os Verdes.

Nossa! Foi uma comoção, um terremoto! No dia da votação que elegeu Bodo Ramelow, um ex-sindicalista e militante da Alemanha Oriental, houve protestos em frente ao Parlamento local, pedindo sua destituição por ser um remanescente do “comunismo”. (Convenhamos: parece a turma que pede a volta da ditadura no Brasil ou o impeachment da presidenta Dilma.) A chanceler Angela Merkel fez um pronunciamento no Bundestag advertindo o SPD (em coligação com a CDU no plano federal) sobre isso de fazer aliança com a Linke. Um juiz prrovincial está ameaçando retirar a imunidade de Ramelow para que ele possa ser processado por um confuso caso de manifestações pró e anti-nazis em 2010… Enfim, uma melée, para não dizer meleca.

Por falar em nazis, este é o outro assunto em ascensão por aqui neste final de ano. Há uma instituição aqui na Alemanha, que se chama “Casa para Refugiados”. (Como há agora no Uruguai para receber os refugiados de Guantánamo.) Normalmente elas (são várias) recebem refugiados do terceiro mundo. Já receberam, no passado, refugiados do Vietnã. Houve um grave incidente depois da queda do muro: um grupo de neonazis tacou fogo na casa dos vietnamitas e houve vítimas fatais.

Diante da resolução de criar mais uma em Berlim os neonazis se agitaram de novo, e estão fazendo manifestações semanais contra, no bairro, com apoio de parte da população local. Agora o caso se agravou mais ainda, porque na Baviera queimaram uma destas casas (desta vez sem vítimas) e deixaram suásticas nas paredes em volta, de lembrança. Uma confusão, mostrando que a Alemanha também está acertando o passo com outros países da Europa onde o movimento anti-estrangeiros, da extrema-direita, está ganhando impulso – e votos.

Como eu disse, assunto não falta. Mas… assim caminha a humanidade: volúvel, desde os tempos de Adão e Eva. E eu quero mudar de assunto.

Então de momento aproveito a despedida do ano para me despedir também das “Crônicas de Berlim”. Vou para outro rincão.

Rincão? Para a cozinha, melhor falando.

Faz tempo estou planejando escrever um livro de crônicas encadeadas, chamado de “A conquista da cozinha”. Não é um livro de receitas, embora algumas venham eventualmente a comparecer. Trata-se de um livro épico, sobre a conquista de um território, algo assim como  a Ilíada, ou dos sete mares – como no caso dos Lusíadas.

Minha cidade murada, meu mar proibido era a cozinha, território exclusivo das mulheres, fossem donas de casa ou empregadas domésticas. Havia a churrasqueira, é claro, pois estávamos no Rio Grande do Sul. Até mesmo a churrasqueira invisível, aquela feita apenas de uma trempe (grelha no resto do Brasil) com pés ou simplesmente disposta sobre uma armação de tijolos, ou ainda os espetos cravados na terra, no caso do método ser o do fogo de chão, uma vala cavada e cheia de carvão. Este era um território exclusivamente masculino (agora não é mais, o tempora, o mores, as mulheres estão até usando bombachas!).

Mas a cozinha não: aquilo do arroz-feijão de todos os dias, as massas, os bifes, as saladas, as sopas, as polentas, as sobremesas, os tachos de goiabada, as galinhas na panela ou no forno (galeto era do mundo da churrasqueira), o fogão, primeiro a lenha, depois a gás, o fogareiro a querosene, todo este mundo pertencia somente às mulheres.

Mas o fato é que pouco a pouco, por vezes em batalhas fragorosas e renhidas, por vezes através da infiltração sibilina ou da espionagem solerte e suspicaz, terminei por adentrar, invadir e conquistar esta Tróia que parecia inexpugnável, cruzando este oceano da alquimia doméstica. Esta é a história que pretendo contar em 2015.

Feliz Natal, Passagem de Ano, e até lá!    

14.12.17_Berlim até mais ver_Flávio Aguiar1

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Ao vencedor, as batatas

14.12.08_Flávio Aguiar_Ao vencedor as batatasPor Flávio Aguiar.

A frase famosa do filósofo aloprado (melhor que “maluco”) Quincas Borba, amigo de Brás Cubas e de Rubião, serve até hoje para ironizar alguma disputa meio inútil. Ao invés de medalhas, batatas: é nisto que a vida dos simples se resume.

Mas a frase pode ter outros sentidos.

Quem visita Berlim, tem que visitar Potsdam, ao lado. Por várias razões, e uma delas é Sans-Souci, o mini-palácio erguido pelo rei da Prússia, Frederico II, o Grande (Friedrich II, der Grosse) para disfrutar do verão.

Mini-palácio em termos: os jardins são vastos, e peculiares. Disposto em plataformas ascendentes para quem chega por eles, espelham a alma do rei. Fascinado pela Itália (ainda futura Itália, à espera de Garibaldi), Frederico II quis criar em seu palácio de verão uma réplica da terra de Dante, Maquiavel, Petrarca e tantos outros.

Nas paredes das plataformas (umas vinte) plantou figueiras. Como estas não sobreviveriam ao rigoroso inverno prussiano, construiu galerias vidradas, com portas que se fecham, para protegê-las das intempéries. O resultado foi que as figueiras, alhures árvores robustas, de troncos amplos que necessitam de vários homens de braços dados para serem cingidas, se desenvolveram ali como trepadeiras de troncos finos e galhos frágeis – mas que resistem até hoje.

Porém é verdade que é um mini-palácio. Em comparação com os palácios de verão de outros reis europeus e mesmo príncipes e duques governantes de principados e ducados da futura Alemanha (ah, estes jovens países europeus, em comparação com o nosso Brasil, tão antigo…), Sans-Souci é minúsculo. O palácio de Queluz, residência de verão dos já falidos reis portugueses, de onde partiu para o Brasil D. João VI, levando sua mãe, D. Maria I, uma esposa aloprada (D. Carlota Joaquina), dois príncipes estróinas (D. Pedro, depois Primeiro do Brasil e Quarto de Portugal, e D. Miguel, o safado reacionário), e uma Corte desesperada e, convenhamos, algo corrupta, é dez vezes o de Sans-Souci, e muito mais requintado.

Em Sans-Souci impera a simplicidade algo austera: uma biblioteca pequena, mas riquíssima, uma dezena de quartos destinados aos convidados do rei: filósofos, músicos, artistas, letrados, mais do que cortesãos, os aposentos da rainha, com quem ele, misógino que era, se casou por conveniência, com entrada em separado, cozinha, adega, dependência de criados.

Claro: do lado de fora havia cavalariças, estrebarias, pavilhões para carruagens, um moinho para fornecer  pão, etc. Ah sim, e ruínas. Frederico II achava a Prússia um país bárbaro, porque não ostentava ruínas, como a Itália. Então mandou construir um conjunto delas, para poder descortiná-las da janela de seu quarto e da porta do palácio. Dizem também que era para lembrar a seus hóspedes de que tudo, nesta vida, é passageiro – exceto o cobrador e o motorneiro (êpa, aqui misturei tudo, esta segunda parte é deum ditado relativo aos bondes da minha Porto Alegre dos anos cinqüenta).

Entre os hóspedes frequentes do palácio figurou Voltaire, filósofo contemporâneo de Rousseau mas que, ao contrário deste, gostava de frequentar cortes ao invés de mulheres maduronas. Consta que, perguntado pelo rei se este deveria reduzir os custos da estrebaria para equilibrar as despesas, o filófosofo teria respondido, nada diplomaticamente, que o problema das despesas não eram os cavalos, mas sim os burros que frequentavam o palácio às custas da Coroa.

Pois bem, deixemos de delongas. Quem visita Sans-Souci depara, à direita do palácio para quem olha desde os jardins, com o túmulo do rei. Depor seus despojos ali foi uma saga que durou dois séculos: somente duzentos anos depois de sua morte, após a queda do muro de Berlim, eles ali foram depostos, na companhia próxima de seus cães de estimação, como era sua vontade.

Sobre o túmulo, o visitante vai deparar com uma fileira (ou mais) de batatas, sempre frescas e, portanto, renovadas. É uma singela homenagem da hoje Alemanha a seu rei, conhecido, além de como “o Grande”, “Der Grosse”, como o “Kartoffelkönig”, o “Rei das Batatas”.

Foi em meados do século XVIII que o previdente Frederico II estimulou enormemente a plantação de batatas – originárias da América e chegadas à Prússia através da Espanha – no território sob seu comando. Seu objetivo era fornecer a suas tropas um alimento barato, de fácil cultivo e resistente ao inverno, por serem os tubérculos subterrâneos. Frederico II, herdeiro do trono de seu pai, Guilherme I, conhecido este como “o Rei Soldado”, consolidou militarmente o poderio da Prússia, até então vista como um mero “país emergente”, se tanto.

O plantio das batatas se tornou uma febre nacional, porque Frederico, esperto, não se limitou a estimular e mesmo ordenar a plantação: fez propaganda. Batatas eram boas para tudo: cancro, sangue grosso, sangue fino, doenças da pele, queda de cabelo, falta de ar, taquicardia, azia, nó nas tripas, um universo corporal. Claro: numa população que se alimentava mal, inclusive na classe rica, que dispunha de pouca energia no inverno, a plebéia mas eficiente – e além do mais, sedutoramente exótica – batata fornecia o que o povo e a aristocracia precisavam: uma base de amido para o fortalecimento muscular e de fibras para aviar a digestão. Ainda mais, era de fácil armazenação e ótima para fazer sopas, caldos, acompanhar cozidos, etc.

Além disto, como nos séculos seguintes não houve guerra na Europa que não passasse de algum modo pela Prússia e depois pela Alemanha, no século XX, a batata é considerada como a heroína que evitou milhões de mortes, impedindo que a fome mortífera ceifasse mais vidas, além das milhões ceifadas pela estupidez humana à solta.

E mais: como se não bastassem as batatas, Frederico foi um rei sábio em outros campos: estimulou a escolaridade, a saúde pública, combateu o nepotismo e a corrupção, fez a Prússia progredir economicamente. Avançou em garantir direitos para seus súditos. Era meio autoritário, vá lá; mas quem não era? E até hoje…

Portanto, cara leitora, caro leitor, se fores a Potsdam, vai a Sans-Souci (o palácio Sem Preocupações, na expressão francesa). E se fores lá, leva tua batata e a depõe, como homenagem singela, sobre o túmulo de Frederico. Ele a merece: afinal, em seus termos, foi e é um vencedor.

14.12.08_Flávio Aguiar_Ao vencedor as batatas_final

Ilustração dos jardins do Palácio Sans-Souci em Potsdam (1750)

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

26 de outubro: É a hora…

14.10.22_Fl[avio Aguiar_Agora [e horaPor Flávio Aguiar.

Tem vários “É a hora” na minha vida.

Minha avó tinha um ditado, para quando as coisas ficavam feias para a gente pobre: “esta é a hora em que o patrão ri e o peão chora”.

Depois tem a do Fernando Pessoa: “Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora”, ao final da Mensagem. (Estou citando de memória, não garanto o 100% de fidelidade).

Meu amigo Cardoso Pires, infelizmente já partido para os eternos campos de caça, contando do sargento que lhe entrou casa a dentro no 25 de abril de 1974, em Lisboa: “Camarada, chegou a hora!”.

E assim por diante.

E o diante tem o 26 de outubro por diante.

Não adianta fechar os olhos com a venda (aliás o termo é bom) do voto nulo, do voto em branco, da abstenção. As escolhas são cristalinas. Vou dar alguns exemplos.

Trata-se de escolher entre mais médicos ou menos médicos para a população.

Melhores salários ou menores.

Mais empregos ou menos.

Mais especulação ou menos. (Não adianta dizer que a especulação vai continuar. Que me atire a primeira pedra quem me aponte um lugar no mundo onde não haja especulação em algum grau, incluindo a ínclita Cuba e a opaca Coreia do Norte). China, Rússia e Moldávia não valem. Talvez o único lugar sem especulação hoje seja a valorosa Kobani, resistindo aos proto-fascistas do ISIS, contra tudo e contra todos.

Mais abastecimento ou mais carestia.

Mais soberania ou mais subserviência.

Mais Sul ou mais Norte.

Mais América Latina ou a Alca de volta.

Mais Mercosul ou mais Aliança do Pacífico.

Mais aeroporto = rodoviária ou mais aeroporto = spa só para rico e abonado.

Mais futuro ou mais passado (do ruim).

Mais direitos ou mais privilégios.

Mais República ou mais oligarquia.

Mais luta contra a homofobia ou menos.

E por aí se vai.

Agora, se a companheira ou o companheiro preferir o silêncio obsequioso consentido… Vá lá e vote nulo. Ou branco. Ou não compareça. Ou melhor ainda, vote logo no Aécio e peça pra entrar no camarote do Itaú no Itaquerão.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O Brasil visto de Berlim

14.10.16_Flávio Aguiar_O Brasil visto de BerlimPor Flávio Aguiar.

É difícil, é difícil, é difícil.

Há uma esquerda no Brasil – uma, porque há várias, e um dos problemas das esquerdas no Brasil e no mundo é o de que cada facção acha que só ela é a “autêntica” – que teima em dizer que o PT e seu governo não são “esquerda”, são “direita disfarçada”.

Há quem diga até que o PT e seu governo (Dilma) cooptam os mais pobres para neutralizar os “verdadeiros interesses” da classe trabalhadora. Quem fala por estes “verdadeiros interesses”? A vanguarda, claro. Jamais “a classe trabalhadora”, para aquela uma abstração subsumida ao seu discurso.

No momento, há uma disputa real sim no Brasil. Não é só entre um projeto e outro, embora seja claro que isto exista. É entre voltar a achincalhar os miseráveis e os ex-miseráveis que conseguiram melhorar um pouco seu nível de vida, ou melhorá-lo ainda mais.

É entre melhorar o salário das pessoas ou piorá-lo. Entre possibilitar o acesso à educação a mais ou a menos pessoas.

Entre manter os vínculos do Brasil com a política de aproximação Sul – Sul ou retocá-lo para o aprisco Ocidental da reedição da Guerra Fria que está em curso.

É disto que se trata, não de provar esta ou aquela teoria. Ou de aquele grupinho tem razão sobre o outro.

Leio muita coisa sobre o Brasil escrita no Brasil, e fora dele. Às vêzes me espanta como ambos os lados da escrita ignoram o que se passa no mundo.

A direita faz um carnaval na Europa. Deita e rola, seja na extrema, na médio ou na centro-direita. As esquerdas estão prostradas. Os partidos social-democratas e socialistas rendidos. As escolas de economia só ensinam a ortodoxia. Aqui na Europa só impera o pensamento único, que é o do PSDB no Brasil. A débâcle das esquerdas é mundial. As esquerdas ainda não se recuperaram das pedras do Muro de Berlim que lhes caíram pelas cabeças. Com exceção, vagarosa, mas exceção, da América Latina. E do Brasil.

Mas tem gente que quer que o Brasil seja uma ilha neste oceano de desventuras. Ou seja, que sobrenade por si só, realizando o socialismo de imediato – amanhã já seria depois demais. É o mesmo pensamento, com outros signos, de quem quer que o Brasil se transforme numa ilha verde – na verdade um parque de diversões para ongues ecológicas – em meio à turbulência das emissões de carbono em escala global. O verde é desimportante? Claro que não. O Brasil precisa de um Partido Verde de Verdade. Não estes puxadinhos biocapitalistas em que o PV e a candidatura malograda de Marina se transformaram.

Mal comparando, penso em mim se eu estivesse na Batalha de Stalingrado. Eu poderia me levantar na trincheira e gritar: sou um pacifista, proponho que deponhamos todos as armas e instalemos um soviete internacional entre russos e alemães. Ou ainda eu poderia propor: não, façamos um seminário acadêmico na trincheira 17 sobre a traição mútua à luta de classes representada pela falácia nazista e a cooptação stalinista. Sou um pacifista? Sim, e entusiasmado. Mas…

Tudo bem: eu não estava na batalha de Stalingrado.

Mas estou na do Brasil, de 2014.

E lá como aqui, há o momento de deixar as dúvidas de lado e partir para – agora – o voto.

Não se trata de esquecer as dúvidas, nem as críticas. Pelo contrário. Elas voltarão ao proscênio.

A seu tempo.

O momento agora é de votar.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.