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26 de outubro: É a hora…

14.10.22_Fl[avio Aguiar_Agora [e horaPor Flávio Aguiar.

Tem vários “É a hora” na minha vida.

Minha avó tinha um ditado, para quando as coisas ficavam feias para a gente pobre: “esta é a hora em que o patrão ri e o peão chora”.

Depois tem a do Fernando Pessoa: “Portugal, hoje és nevoeiro. É a hora”, ao final da Mensagem. (Estou citando de memória, não garanto o 100% de fidelidade).

Meu amigo Cardoso Pires, infelizmente já partido para os eternos campos de caça, contando do sargento que lhe entrou casa a dentro no 25 de abril de 1974, em Lisboa: “Camarada, chegou a hora!”.

E assim por diante.

E o diante tem o 26 de outubro por diante.

Não adianta fechar os olhos com a venda (aliás o termo é bom) do voto nulo, do voto em branco, da abstenção. As escolhas são cristalinas. Vou dar alguns exemplos.

Trata-se de escolher entre mais médicos ou menos médicos para a população.

Melhores salários ou menores.

Mais empregos ou menos.

Mais especulação ou menos. (Não adianta dizer que a especulação vai continuar. Que me atire a primeira pedra quem me aponte um lugar no mundo onde não haja especulação em algum grau, incluindo a ínclita Cuba e a opaca Coreia do Norte). China, Rússia e Moldávia não valem. Talvez o único lugar sem especulação hoje seja a valorosa Kobani, resistindo aos proto-fascistas do ISIS, contra tudo e contra todos.

Mais abastecimento ou mais carestia.

Mais soberania ou mais subserviência.

Mais Sul ou mais Norte.

Mais América Latina ou a Alca de volta.

Mais Mercosul ou mais Aliança do Pacífico.

Mais aeroporto = rodoviária ou mais aeroporto = spa só para rico e abonado.

Mais futuro ou mais passado (do ruim).

Mais direitos ou mais privilégios.

Mais República ou mais oligarquia.

Mais luta contra a homofobia ou menos.

E por aí se vai.

Agora, se a companheira ou o companheiro preferir o silêncio obsequioso consentido… Vá lá e vote nulo. Ou branco. Ou não compareça. Ou melhor ainda, vote logo no Aécio e peça pra entrar no camarote do Itaú no Itaquerão.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O Brasil visto de Berlim

14.10.16_Flávio Aguiar_O Brasil visto de BerlimPor Flávio Aguiar.

É difícil, é difícil, é difícil.

Há uma esquerda no Brasil – uma, porque há várias, e um dos problemas das esquerdas no Brasil e no mundo é o de que cada facção acha que só ela é a “autêntica” – que teima em dizer que o PT e seu governo não são “esquerda”, são “direita disfarçada”.

Há quem diga até que o PT e seu governo (Dilma) cooptam os mais pobres para neutralizar os “verdadeiros interesses” da classe trabalhadora. Quem fala por estes “verdadeiros interesses”? A vanguarda, claro. Jamais “a classe trabalhadora”, para aquela uma abstração subsumida ao seu discurso.

No momento, há uma disputa real sim no Brasil. Não é só entre um projeto e outro, embora seja claro que isto exista. É entre voltar a achincalhar os miseráveis e os ex-miseráveis que conseguiram melhorar um pouco seu nível de vida, ou melhorá-lo ainda mais.

É entre melhorar o salário das pessoas ou piorá-lo. Entre possibilitar o acesso à educação a mais ou a menos pessoas.

Entre manter os vínculos do Brasil com a política de aproximação Sul – Sul ou retocá-lo para o aprisco Ocidental da reedição da Guerra Fria que está em curso.

É disto que se trata, não de provar esta ou aquela teoria. Ou de aquele grupinho tem razão sobre o outro.

Leio muita coisa sobre o Brasil escrita no Brasil, e fora dele. Às vêzes me espanta como ambos os lados da escrita ignoram o que se passa no mundo.

A direita faz um carnaval na Europa. Deita e rola, seja na extrema, na médio ou na centro-direita. As esquerdas estão prostradas. Os partidos social-democratas e socialistas rendidos. As escolas de economia só ensinam a ortodoxia. Aqui na Europa só impera o pensamento único, que é o do PSDB no Brasil. A débâcle das esquerdas é mundial. As esquerdas ainda não se recuperaram das pedras do Muro de Berlim que lhes caíram pelas cabeças. Com exceção, vagarosa, mas exceção, da América Latina. E do Brasil.

Mas tem gente que quer que o Brasil seja uma ilha neste oceano de desventuras. Ou seja, que sobrenade por si só, realizando o socialismo de imediato – amanhã já seria depois demais. É o mesmo pensamento, com outros signos, de quem quer que o Brasil se transforme numa ilha verde – na verdade um parque de diversões para ongues ecológicas – em meio à turbulência das emissões de carbono em escala global. O verde é desimportante? Claro que não. O Brasil precisa de um Partido Verde de Verdade. Não estes puxadinhos biocapitalistas em que o PV e a candidatura malograda de Marina se transformaram.

Mal comparando, penso em mim se eu estivesse na Batalha de Stalingrado. Eu poderia me levantar na trincheira e gritar: sou um pacifista, proponho que deponhamos todos as armas e instalemos um soviete internacional entre russos e alemães. Ou ainda eu poderia propor: não, façamos um seminário acadêmico na trincheira 17 sobre a traição mútua à luta de classes representada pela falácia nazista e a cooptação stalinista. Sou um pacifista? Sim, e entusiasmado. Mas…

Tudo bem: eu não estava na batalha de Stalingrado.

Mas estou na do Brasil, de 2014.

E lá como aqui, há o momento de deixar as dúvidas de lado e partir para – agora – o voto.

Não se trata de esquecer as dúvidas, nem as críticas. Pelo contrário. Elas voltarão ao proscênio.

A seu tempo.

O momento agora é de votar.

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Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O Brasil não é mais aquele

14.10.02_Flávio Aguiar_O Brasil não é mais aquelePor Flávio Aguiar.

Nesta quarta-feira, 1º. de outubro, vou participar de um debate na livraria Livraria (este é o nome), em Berlim, sobre “Do Real à Real: O Brasil hoje”, ao lado do professor Sérgio Costa, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, e do escritor Rafael Cardoso. Apresento aos leitores do blog da Boitempo a linha geral de minha intervenção:

1.
A equação Brasil no nosso imaginário mudou.

2.
O Brasil mudou de de dimensão, de equação e de lugar.

3. Dimensão
Estamos acostumados com a projeção de Mercator, da geografia escolar, no mapa-múndi, com foco na altura do Trópico de Câncer, no Hemisfério Norte. O Brasil ali é diminuto, menor do que o Alasca e a Groenlândia. A projeção agora terá de ser outra. De repente o Brasil aparece com seu tamanho “verdadeiro”: oito mil quilômetros de comprido por outros oito mil de largura. De fato, um gigante.

3. Equação
O Brasil não é mais a equação onde predominam os pobretões, os miseráveis, os absolutamente despossuídos, as favelas abandonadas, as crianças esquálidas, etc. Ao contrário: a infância no Brasil hoje enfrenta o problema da obesidade precoce. A “classe média”, do ponto de vista do consumo, é maioria no país.

4. Ainda a Equação
O Brasil foi e ainda é um dos campeões da desigualdade. Mas a desigualdade diminuiu. Isto é um fato, atestado por inúmeros índices. Os resultados são interessantes, mas problemáticos. Desde a década de 70 as cidades brasileiras foram planejadas para o automóvel. Mas não para que tantas pessoas pudessem comprar automóveis ao mesmo tempo. A economia foi planejada, mas não para que tantas pessoas tivessem emprego ao mesmo tempo: era necessário manter um exército industrial de reserva, leia-se, de desempregados, grande, para “baixar o custo Brasil”, leia-se, comprimir os salários. Isto acabou. Resultado: muito mais pessoas se deslocam nas cidades brasileiras. Idem graças à inclusão educacional, e a de saúde. Resultado: as cidades estão congestionadas.

5. Ainda a Equação (ii)
O Brasil foi planejado para co-existirem, nos condomínios, duas entradas, a “social” e a de “serviço”. Isto não acabou, mas a expressão “de serviço” deixou de ser discriminatória, e passou a ser de fato, “de serviço”, isto é, reservada para mudanças, deslocamento de malas, grandes volumes, etc. Também: o Brasil não fora planejado para as empregadas domésticas terem carteira assinada obrigatoriamente, nem receberem pelo menos o salário mínimo – e um salário mínimo em ascensão.

6. Ainda a Equação (iii)
O Estado moderno, desde os espasmos das Grandes Guerras, foi planejado para garantir direitos e administrar privilégios. Administrar = garantir, mas reduzir, embora nunca eliminar. Isto valia para os dois lados do muro de Berlim. Em países como o Brasil, a Equação era a de o Estado garantir privilégios e administrar (a redução de) direitos. Este termo da equação de desequilibrou, ou melhor se equilibrou, talvez tenha até se invertido. Um pouco, mas invertido.

7. Lugar
O Brasil era o grande – importância do termo “grande” – devedor do FMI e do G-7 (não 8, Rússia excluída) na América Latina. Hoje o Brasil é credor do FMI e da União Europeia quebrada, mantendo ações humanitárias na África, na Ásia, na América Central, e com uma relação de igual para igual na América do Sul e na América do Norte. Participa da criação de um Banco de Desenvolvimento Internacional Alternativo ao FMI, ao Banco Mundial, ao BID.

8. Tudo isto desestabiliza o nosso imaginário
Há quem veja nisto o caos, a confusão, a desorganização do mundo. Há quem veja nisto a ascensão, o acesso ao que nunca teve. Há quem veja nisto a concorrência em espaços antes “reservados” ou “garantidos”, como nas universidades ou na busca de emprego. Tudo isto gera ansiedade. Inclusive na Europa, onde os Estados hoje administram a redução de direitos e garantem privilégios. Diante da ansiedade, a primeira resultante é a tentativa, ainda que fantasiosa, de restabelecer a equação anterior.

9. A tentativa de restabelecer a Equação Brasil anterior não é privilégio apenas das oposições nesta eleição que se avizinha dramaticamente. Assisti ontem um documentário do canal internacional Arte sobre o tema “Brasil, rumo a uma grande potência?”. O documentário foi feito no ano passado, ainda no embalo das manifestações de junho e na campanha para declarar que o Brasil não tinha a menor condição de organizar uma Copa do Mundo. Visivelmente, ele foi feito para a rede francesa do Arte, e adaptado para a rede alemã, que fez-lhe uma cabeça e um encerramento atualizado. Mas o clima ainda era o anti-copa. O resultado foi surpreendente. A apresentadora, dirigindo-se diretamente à presidenta Dilma, dizia que esta era otimista quando à imagem do Brasil, mas que agora chegara a “hora da verdade”, e de verificar a “catástrofe” que era o Brasil. Assisti uma hora de programa, até o fim, esperando a tal da catástrofe, e ela não veio. O que veio foi a exposição de um “work in progress” chamado Brasil, com problemas e conquistas. Havia depoimentos tocantes de pessoas moradoras na favela sobre como sua vida tinha mudado. De catastrófico, havia o depoimento do líder do Greenpeace, dizendo que as plataformas do pré-sal vão inundar o oceano com manchas de óleo (parece a BP britânica) e o depoimento de uma manifestante de julho, que não provinha de favelas ou pobreza, entoando aquela ladainha de que no Brasil nada funciona. Ficou a impressão forte de que os editores da versão alemã do programa sequer se deram ao trabalho de assistir o vídeo previamente. Azar o deles.

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Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Preocupação com o uísque

14.09.18_Flávio Aguiar_EscóssiaPor Flávio Aguiar.

Alguns anos atrás eu fazia a cobertura do Fórum Social Europeu em Paris, para a Carta Maior. Numa das voltas, acompanhava um debate absolutamente morno sobre “minorias sem estado próprio na Europa”. Desfilavam pela mesa sonolentos e lamuriosos (desculpem se estou ofendendo alguém, mas é que os advogados destas causas, lá no debate, eram modorrentos mesmo) catalães, bascos, vênetos, bretões, langues d’oc, frísios, valões, galeses, até bávaros havia.

Eis que se não quando, de repente, não mais que derepente, adentrou o recinto o representante da Escócia. Era um homem gigantesco, caminhando a passos largos com uns meiões de escoteiro, borzeguins enormes, sacudindo o seu kilt, aquele saiote axadrezado que eles usam. Sentou-se à mesa e, para o despertar delirante da platéia, disse aos berros: “Eu vim repartir com vocês o verdadeiro espírito escocês”! E tirou do seu alforje uma, duas garrafas de uísque, dando uma para a atônita mesa depois de sorver ele mesmo um golacho, e a outra deu-a ao público que, como eu disse, já delirava embriagadamente. E daí lascou uma fala vibrante sobre a independência escocesa, que deve ter feito todos os reis passados e futuros da Inglaterra tremerem em seus túmulos.

Lembrei-me deste episódio porque na quinta-feira, dia 18, enquanto esta crônica estiver sendo publicada no blogue da Boitempo, a Escócia estará votando sim ou não à sua independência. As pesquisas apontam resultados apertados para um ou outro lado, diferenças de não mais do que 1 ou 2% em meio a proporções muito grandes de indecisos (pelo  menos 10%).

Confesso minha perplexidade diante do assunto. Movimentos separatistas europeus têm o mau hábito de pender à direita. No caso escocês, no entanto, há forças à direita e à esquerda que apoiam a independência. Sean Connery é pela independência, Mick Jagger contra, o que me faz pender para ela. Além disto, o establishment financeiro europeu e mundial – o mesmo que quer derrubar Dilma Rousseff a qualquer custo (ou lucro, melhor dizendo) – é radicalmente contra a independência.

O FMI ameaça com insolvências. Os bancos escoceses disseram que se mudam para Londres, caso a Escócia fique independente. Empresários anunciam deserções (como na primeira eleição do Lula em 2002, lembram?). A Rainha recomenda cautela. David Cameron afaga com promessas de maior autonomia, e bate na mesa anunciando que a Escócia independente ficará sem a libra esterlina, tendo que inventar outra moeda. Os Estados Unidos são contra. Bill Clinton disse que prefere o Reino Unido unido do  jeito que está.

É claro que nestas preocupações do establishment europeu vai o temor de que se a independência da Escócia sair das urnas, os movimentos separatistas no continente e fora dele vão ganhar impulso: além daqueles acima citados na modorrenta mesa, há os lombardos (estes sim, hoje, à direita), os russos, há a Ucrânia do Leste em efervescência, mais os roma (ciganos), a miríade dos balcânicos, e ainda outros espalhados pelo mundo velho sem porteira, como o Québec, os curdos, províncias na China, e até mesmo me ocorre a pergunta: seriam os palestinos um movimento separatista em Israel?

Há outros fatores que me levam a pender pela causa escocesa. Por exemplo, meu coração farroupilha. Calma, leitores: considero as bolhas separatistas que assomaram no Rio Grande depois da eleição do Collor uma bobagem, algo mais ligado ao fechamento das agências do Banco do Brasil promovido pelo afã privatista do que a algum sentimento histórico. Sou um gaúcho brasileiro, ou um brasileiro gaúcho. Mas não nego que em 1835 eu estaria lutando ao lado das tropas de Bento Gonçalves e do General Netto, de preferência junto às Brigadas de Cavalaria dos Lanceiros Negros liderados pelo bravo Coronel Teixeira Nunes, assassinado pelos imperiais quando a guerra já ia ao fim, contra os imperiais dos insolventes  governos da Regência. Já imaginaram, lutar ao lado de Giuseppe e Anita Garibaldi? Melhor do que lutar ao lado do futuro Duque de Caxias, não é mesmo? Bom, pelo menos me restou o consolo de fazer isto no meu romance Anita, aliás, premiado no Brasil.

Também não nego que em décadas passadas, quando houve dois jogos no Beira-Rio entre as seleções do Brasil e do Rio Grande (que felizmente terminaram empatados) torci desbragadamente por esta. De quebra, foi um prazer ouvir as sonoras vaias num dos jogos – em plena ditadura – quando foi anunciada a presença do general presidente de plantão que, por sinal, para variar, era gaúcho!

E quando mais não seja, sacudir a City Londrina, Downing Street no. 10 e o Palácio de Buckingham, e sacudir ainda Frankfurt-am-Main, sede do Banco Central Alemão, e também o Banco Central Europeu,  me são coisas simpáticas.

Vamos ver o que acontece.

De todo modo, confesso aqui à socapa que naquele dia no modorrento debate sacudido pelo terremoto escocês, consegui passar a mão na garrafa e brindar à independência da Escócia ou do uísque, ou de ambos, já não lembro bem.

14.09.18_Flávio Aguiar_Escóssia_2

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Conforme for, vou de Bergoglio

14.09.02_Marina Silva3Por Flávio Aguiar.

“Diga aos rapazes que não volto mais hoje.”

Bill Godkin, jornalista, ao se aposentar, na abertura do
romance O senhor embaixador, de Erico Verissimo.

A “direita móvel” brasileira vive uma situação privilegiada hoje em relação a seus sonhos de recuperar o controle do Banco Central, dos ministérios da área econômica e até mesmo da questão energética.

Por “direita móvel” entendo a de vocação privilegiadamente rentista, que já desfrutou da era FHC, apoiou entusiasticamente Serra por duas vezes e Alckmin por uma, já se entusiasmou com Aécio e agora não esconde sua animação com Marina.

Ela se opõe – mas de maneira complementar – à “direita imóvel”, cristalizada nos saudosos da ditadura militar, na bancada ruralista, nos setores mais retrógrados da Igreja Católica e nas vozes mais duras dos pastores evangélicos. Para esta, qualquer coisa que não seja Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado, que não cheire a mofo e água benta ou ao enxofre do Inferno é intragável.

Houve tempo – na eleição de Collor de Mello – em que as duas direitas, a “móvel” e a “imóvel”, navegaram juntas na mesma canoa. Mas não nos iludamos: hoje, se navegam em canoas diferentes, acompanham o mesmo fluxo torrencial da negação da soberania popular como base da nacional. E negam esta em nome da integração subalterna nos mercados internacionais.

Mas para a “direita móvel” nada é intragável, tudo é deglutível – exceto o que chama de “intervencionismo do Estado”, o que, traduzindo para o vernáculo, significa intervenção de governos em detrimento das políticas rentistas e em aumento da função social do Estado. Todo mundo sabe que a função primordial do Estado na ordem que emergiu da Segunda Revolução Industrial e das crises de 29 e da Segunda Guerra era a de garantir direitos e administrar privilégios.

O triunfo do neoliberalismo, a débâcle dos regimes comunistas e a rendição da socialdemocracia europeia inverteram a equação: a função do Estado (impropriamente chamado de “mínimo”) passou a ser garantir privilégios e administrar (contendo) direitos. Qualquer ameaça de retorno à ordem anterior – coisa que aconteceu quando da inclinação de vários governos na América Latina à esquerda – é vista como intolerável, necessitando imediata desqualificação na mídia de cabresto, além de sabotada nos planos econômico e político, sempre que possível.

Pois agora esta “direita móvel” tem um cenário muito positivo, podendo acariciar ao mesmo tempo o bezerro de ouro das Alterosas e a menina dos olhos d’água florestais, ambos ungidos (um de largo tempo, a outra de bênção mais recente) missionários da intransigência, opacidade e cruzada dos mercados financeiros. O menino das Alterosas acusa, e com grande dose de razão, a nossa Ártemis da floresta de ter plagiado o programa histórico do seu partido. Bem, não foi propriamente ela que plagiou, mas seus mentores, que eram os mesmos do candidato antecessor, desaparecido em trágico acidente. Ela, que vez ou outra deixa escapar um ar de quem se acha ungida pela mão do Senhor, também foi ungida pelo dedo do mercado financeiro.

Para completar também foi ungida pela voz da intolerância, ao recuar na questão do “casamento gay”, expressão que passou a ter, mutatis mutandis, o mesmo peso do que a de “matar criancinhas através do aborto”, usada na eleição presidencial anterior.

A eleição de uma candidatura ou da outra que aqui estão em tela significará uma degradação do Brasil na escala biológica das nações. Voltaremos a ser o país em que a desigualdade cresce, com loas de que isto é desejável para diminuir o “custo Brasil”, ao invés de decrescer. Voltaremos a ser aliados de segunda mão do que existe de mais recessivo e depressivo no mundo de hoje: a incerteza norte-americana, o patinar japonês e a “austeridade” europeia. Em troca, ganharemos medalhas de plástico de Wall Street, da City londrina e do Consenso de Bruxelas/Frankfurt/Berlim, que substituiu o de Washington, distribuídos à farta pela mídia arauta dos seus valores.

Como atualmente os ventos pesquisados sopram mais na direção da missionária do que do político mineiro, em quem as carícias de afago passaram a ser de consolo, já tomei minha decisão. Caso o roteiro confirme o cenário aqui esboçado, vou pedir asilo ao Vaticano. Prefiro acompanhar o esforço de Bergoglio para limpar as cavalariças fétidas do Banco do Vaticano, e sua luta contra a pedofilia eclesiástica, do que fazer meu sombrero dar barretadas à orgia dos rentistas no tal de “Banco Central Independente”, num governo que terá de quebra o pastor Silas Malafaia como Condestável da República, dizendo o que a Presidenta poderá ou não dizer, e talvez o pastor Marco Feliciano como Presidente de Honra da Comissão de Direitos Humanos. Jair Bolsonaro na Comissão da Verdade?

Tudo é possível neste mundo de Deus.

Vade retro.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A comemoração

14.07.17_Flávio Aguiar_A comemoração[Charge de Ziraldo publicada na revista Visão durante a Copa de 1970]

Por Flávio Aguiar.

Dois municípios se digladiavam no interior do Rio Grande do Sul: Xurumela e Novo Säugling. A rixa era antiga. Novo Säugling, como diz o nome, era predominantemente germânico. Já Xurumela tinha mais de tudo: até alguns dissidentes de Novo Säugling que preferiram se misturar, em priscas eras, aos xurumélios. O contrário também era verdade: muitos xurumenses, sabe-se lá por que, tinham preferido passar para o lado dos säuglinguenses.

A rixa, porém, era antiga. Por exemplo: no tempo da Guerra, alguns säuglingos aderiram ao Terceiro Reich. Não eram a maioria: mas pelo barulho, deram o seu perfil ao município. Marchavam pelas ruas imitando a Wehrmacht, a passo de ganso.

Depois, quando perceberam que isto podia pegar mal, aderiram aos integralistas, camisa verde e tudo o mais. Gritavam Anauê com a mão levantada, no melhor estilo então dominante em Berlim. Isto valeu o apelido a todos os säuglingóis, de “boches” – nome herdado, na verdade, dos filmes americanos sobre a guerra, em que os alemães sempre pareciam gorilas perfilados que falavam um inglês estropiado e gutural.

Já em Novo Säugling os xurumeses tinham fama de vagabundos, que detestavam trabalhar, só pensavam em ir se deitar nas praias do rio Taquari e ficar vadiando. Tudo isto porque muitos xurumelianos adoravam fazer exatamente isto, embora trabalhassem pacas o dia e o mês inteiros. Daí se criou em Novo Säugling a expressão “xurumico” – que servia para designar os vira-latas, os cães vadios, que, aliás, a prefeitura local expulsava sempre para o município vizinho.

Mas havia entre ambas uma sociedade secreta, que se auto-chamava “Os Condestáveis”. Eram grandes empresários de um lado e do outro, que governavam as duas cidades, pois financiavam sempre os candidatos a prefeito e a maioria dos vereadores que eram eleitos. Na verdade, eles, os “Condestáveis”, se julgavam “os eleitos”. Mas preferiam governar na sombra.

Eram sempre muito racionais, embora às vezes surgissem propostas abstrusas entre eles. Por exemplo, um condestável do lado “sing”, preocupado com o excesso de xurumeios que procuravam os bordéis de Säugling”, sugeriu que se construísse um muro na divisa entre as duas cidades, para controlar a passagem. O presidente do Conselho dos Condestáveis se opôs: “logo agora que o muro lá em Berlim caiu?”. Ao que o proponente retrucou: “pois é, a gente podia aproveitar as pedras do de lá pra construir o de cá; sairia barato”.

Mas felizmente a ideia não prosperou. Porque entre as duas cidades havia uma troca intensa, por debaixo da rivalidade. Os condestáveis de Xurumela produziam muito couro e cadarços. Já os de Säugling produziam sapatos. Muitos xurumicos trabalhavam nas fábricas dos boches. E todos – os condestáveis, naturalmente – ganhavam muuuito dinheiro com isto.

Mas aí veio o grande dia do futebol. Alguém teve a ideia de promover um campeonato entre as seleções das duas cidades, em melhor de três. Era para promover a integração, mas logo começaram a surgir as piadas, de que os “boches” jogariam que nem postes e, do outro lado, que os “xurumicos” derreteriam ao sofrer o primeiro gol.

Veio o grande dia. Bandeiras agitadas, feito asas num pombal. Camisetas distendidas em corpos, como num varal. E no campo – cujas arquibancadas estavam lotadas, até com o governador do estado presente – foi um vareio: Xurumela 7 x Singóilingue 1. Uma vergonha. O povo siringóide clamava por vingança. Mas veio a segunda partida, mais sofrida. Mas depois de pênaltis não marcados, expulsões, muito sangue, suor e lágrimas, acabou com a vitória Xuru por 1 x 0.

Daí alguém xurumelo teve a ideia. Vamos fazer uma comemoração.

E fizeram. Era um desfile. Ruas cheias, povo com bandeirinhas xurumélicas na rua. E aí na frente vinha uma linha de jogadores do time xurúquico, de botas, capacete nazi, uniforme, em passo de ganso, cantando: “assim caminham os boches”. A seguir, num passe de mágica, despiam os uniformes, os capacetes, as botas, ficavam de bermuda e chinelo de dedo, entrava uma batucada, e eles a sambar gritavam: “assim caminham os xurumelos!”.

Em Zingoriunga foi um desmanche. “Racismo”, gritavam os mais exaltados. “Desrespeito pelos vencidos”, os menos. “Vergonha”, gritavam todos. “Vingança”, rugiam as ruas.

Alguém teve a ideia: vamos organizar uma dança contrária! A gente começa caminhando de cócoras, cabeça meio baixa, gritando: “assim caminham os xurumicos!”. Depois se alevanta, caminha de pé, e grita: “assim caminha a humanidade!”. Continuava a argumentação: “é o nome de um filme famoso. A gente pode dizer que é um velho costume germânico, de origem medieval – coisa que aliás estes xurumicos não têm – e assim ninguém poderá nos acusar de racismo”. Mas a ideia foi descartada pelo presidente sirigóide dos Condestáveis, temendo que o caso atraísse a atenção das autoridades do estado e até de Brasília. “Ainda mais nestes tempos que lá em Brasília e aqui no estado reinam estes comunas”, ele contou depois à mulher, no jantar.

Mas o caso deflagrou debates candentes de ambos os lados da divisa. Gente contra e a favor, gente que escrevia artigos candentes de um lado exigindo – de ambos os lados – o sangue e a cabeça dos que escreviam pelo outro lado. Grandes confusões de aprontavam no horizonte. Um dos xurumicos, que era amigo de um dos boches, observou para este: “a coisa é feia e vem se debruçando”.

Mas daí alguém – um outro alguém – teve uma ideia – uma outra ideia. Não se sabe muito bem como foi, mas o fato é que num domingo, na praça que marcava a divisa entre as duas cidades, apareceu uma banda. É, uma bandinha, destas do interior. Metade xurumicos, metade boches. Só que os xurumicos vestiam aqueles calçõezinhos de couro da Baviera, com o chapeuzinho verde de peninha em riste. E os boches vestiam de tudo: camiseta listada com sandália de dedo, bombacha de gaúcho, tinha um até vestido de baiana. Por que não?

E desandaram a tocar na manhã ensolarada. Tocavam de tudo. Rancheira, xote, baião, polca, Heimatlandmusik, yodeldideldum suíço, valsa de Viena, rocão, funk, punk, pós-jazz, tudo de tudo. Mas foi na hora do sambão que a coisa começou. Um xurumelo – que tinha uma paixão secreta – não aguentou e tirou-a pra dançar. Só que ela era do lado boche. Mas topou e caiu no samba. Daí subiu a locura. Todo mundo começou a dançar e sambaram até a Kleinenachtmusik do Mozart.

Começou assim a verdadeira comemoração. Diz que durou um mês. Ninguém trabalhou neste tempo. Todo mundo compartilhava tudo: Wurst, picanha, acarajé, cerveja, vinho, refri, água. E caía no samba. Um mês depois, foram dormir, que ninguém é de ferro.

A vida voltou ao normal. Mas nunca mais o normal foi normal. Toda a semana, tem uma festa em algum local, com a bandinha dos aloprados. Tem gente que fala até em fundir os dois municípios. E há uma nova expressão no pedaço, dirigida às novas gerações, capitaneadas por aquele casal que começou a dança: “xuruboche”, e dita com muita honra.

Por seu turno, a Associação Secreta dos Condestáveis registrou aquele mês como perdas e danos. E pediu mais isenção de impostos.

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Berlim, afinal Berlim

14.07.03_Flávio Aguiar_Berlim afinal Berlim[Capa da revista semanal alemã Der Spiegel de 12 de maio de 2014: "Morte e jogos: o Brasil diante da Copa do Mundo"]

Por Flávio Aguiar.

Toda a relação com qualquer cidade envolve amor e ódio. Por que com Berlim seria diferente?

Mas eu pensei que poderia ser. Mas não. Felizmente não. Porque a descoberta do ódio realça o amor existente.

Amo – assim com A maiúsculo – poucas cidades. A Porto Alegre onde nasci e cresci. A Porto Alegre da inesquecível Campanha da Legalidade de 1961. A Guaíba – Praia da Alegria (que nome, em frente à Praia da Tristeza, do outro lado do rio) onde passava férias, portal do pampa desabrido, onde gauchões enormes, caboclos curtidos pelo sol vinham entregar as boiadas ao matadouro, e depois iam passear com seus cavalos altaneiros na praia onde eu me banhava, minúsculo e maravilhado. Montreal – onde descobri a longevidade do inverno e a realidade dos confrontos culturais. A pequena Burlington, em Vermont, nos EUA, minúscula cidade que de totalmente provinciana passou a condição de vanguarda alternativa.

São Paulo, onde passei a maior parte da minha vida profissional, foi diferente. Aquilo foi um casamento. Como em quase todo casamento, amei algumas coisas e detestei outras. Amo o Butantã, a vizinha Itapecerica da Serra, o Centro Velho, entre outras coisas, e aquele ar de estar sempre pronta para tudo, a qualquer hora do dia e da noite. Detesto grande parte da burguesia da cidade, a mais reacionária e petrificada do país, e o consumismo que agora, como quase qualquer um pode consumir no país, se dirige a Miami.

Berlim: a cidade-história, com suas conquistas, dores e cicatrizes permanentes. A cidade de uma vida cultural intensa e ao alcance da mão e dos bolsos, pois há muita coisa de grande valor e muito barata. Berlim internacional sem ser falsamente cosmopolita. Berlim do transporte público bom e fácil. Berlim, nesta passagem entre ser o burgo dividido e meio provinciano que era e a nova metrópole-capital da principal economia da Europa. Até a Berlim do aeroporto que não consegue sair do chão eu amo, prova de que a “deutsche Effizienz”, afinal de contas, também é humana e tem seus Waterloos como a de qualquer outro país.

Mas nos últimos tempos Berlim me revelou aspectos odiosos de se viver aqui. Bom, isto também é humano, afinal de contas. Não me refiro ao tônus conservador que predomina em toda a política alemã, de que ela é a capital. Me refiro ao fato do Brasil ter entrado na mira do que de pior há na mídia local (e alemã, e europeia). Isto de levantar de manhã e ouvir pelo rádio o martelar de negatividades sobre o Brasil, onde, no fim de contas, nada há nem houve nem nunca haverá de bom. Onde os pobres serão para sempre pobres, os favelados para sempre favelados, os políticos para sempre corruptos, o país cheio, aliás, entupido de pedófilos, cafetões e prostitutas, o país da motosserra, da homofobia, do machismo grosseiro, enfim, tudo me lembrando a expressão  com que muitos oficiais nazistas descreviam o ponto final da linha do trem que ia até Auschwitz: annus mundi, o cu do mundo. Ou o fim do mundo.

E o martelar continuava pelo dia, na mídia escrita, nos noticiários de tevê à noite, sem parar, sem parar, sem parar. Aí veio o episódio da Embaixada do Brasil, que já comentei aqui. Um pequeno bando de juvenília foi lá na calada da noite apedrejar as suas vidraças. Oitenta pedradas, trinta e duas janelas partidas. Acho que o bando de coiós imaginava estar vivendo a sua grande praça Tahir, no Cairo, ou Tiananmen, em Pequim, ou ainda suas tardias jornadas de 68. Mas na verdade estavam vivendo a sua pequena, ridícula e anacrônica Krystallnacht, aquela em que os nazistas destruíram sinagogas e lojas de judeus em 1938. As pedras se dirigiam, agora em 2014, contra o símbolo de um povo considerado de segunda categoria, apedrejado continuamente pela mídia local. Estou sendo exagerado? Estou respondendo ao exagero da “cor local”. Avalizada pela circular do Ministério de Relações Exteriores dirigido aos eventuais viajantes sobre o perigo-Brasil.

Foi odioso. Ainda é. Nesta semana a revista Focus daqui – cuja capa Época copiou – publicou comentário dizendo que o jogo do Brasil contra a Colômbia se passaria na “capital do crime” – Fortaleza. Esquecem talvez que as grandes capitais do crime são as bolsas de Nova Iorque, da City londrina, Paris e – por que não – Frankfurt.

Mas na verdade agora tudo amainou. Como não houve a catástrofe esperada, ou até desejada, o show de incompetência e a inadimplência da Copa no Brasil não aconteceram, como na verdade os turistas e o bilhão ou mais de pessoas que assistem os jogos estão encantados com os espetáculos, do futebol à hospitalidade das gentes do Brasil, o assunto está morrendo pouco a pouco. E vai morrer. Pena que talvez venha a ser substituído pelos outros chavões de sempre: Brasil = praia, futebol, café e bundas de fora.

Não, muita gente não vai se convencer. Vai continuar repetindo que os estádios, depois da Copa, ficarão às moscas, sem se dar conta que o Mané Garrincha, por exemplo, recebeu pouco mais de 300 mil visitas em 36 anos de existência, mas que desde sua transformação na presente arena, recebeu em seis meses, 640 mil em 27 mega-eventos.

Porém é verdade: a tempestade amainou. Talvez apenas por falta de assunto. Os jornalistas que foram ao Brasil querendo encontrar apenas pobreza, miséria e desacerto, encontraram o que queriam. Afinal, em nosso país continuam existindo pobreza, miséria e desacerto. Mas fecharam os olhos para o resto. Pior: muitos insistem em fechar os olhos dos outros para o resto. Pior ainda: muitos destes outros querem mesmo fechar os olhos para o resto e sentirem-se felizes por suas vidas eurocêntricas. Que as vivam, e nos deixem em paz. Ainda creio na frase de Lincoln, segundo a qual é possível enganar alguns o tempo todo, todos por algum tempo, mas é impossível enganar todos por todo tempo.

Como a tempestade amainou, é possível voltar a desfrutar os amores de Berlim. Passear nas ruas, sentir o verão (apesar de sua entrada ter sido cheia de frio…) acariciando as árvores e as flores, ver os corpos se deliciando nos parques, jogados na grama com mais ou menos roupa – às vezes até com nenhuma – curtindo a vida.

E ver os jogos, na Copa mais eletrizante das últimas décadas. Haja coração!

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

VIP: Vão pros Inferno que os Pariu

14.06.17_Flávio Aguiar_VIPPor Flávio Aguiar.*

VIP é VIP, tão VIP que às vêzes vipa da conta. VIP é VIP até pra vaiar. Não aguenta ficar só na vaia. Tem que vipar, botar uns floreios, mandar tomar e otras cositas más. É que VIP tem que dar o exemplo: pra sociedade, pro mundo inteiro. Não basta gritar Buuu. Isso qualquer pobretão faz. Pior: hoje pobretão aplaude. E tem carteira assinada, compra linha branca, automóvel e viaja de avião. Onde já se viu? Então VIP tem que mandar pra juta que os pariu.

Ainda mais se for no estádio do povão. Bom, há muitos estádios do povão pelo Brasil que, aliás, hoje é mais do povão do que já foi. Mas como VIP não vipa todo o tempo no estádio do povão, e este cada vez mais frequenta os espaços que antes era só dos VIP, o VIP tem que botar para quebrar. E mandar a presidenta tomar onde o machismo VIP acha que pode todo o resto do mundo mandar tomar.

Só que o VIP esqueceu de uma coisa: o resto do mundo, os não VIP, estavam vendo tudo aquilo. E viram que foram os VIP que puxaram e mais vaiaram a vaia do mandar tomar. Então eles tomaram. Porque a coisa virou um bumerangue, e caiu-lhes na cabeça. Foi gol contra. Os seus arautos na velha mídia estão p. da vida com os VIP do Itaquerão. Diz que levantaram a bola pros populistas cortarem na rede.

Ironia das ironias: mandaram tomar e tomaram. Gente que não vota na presidenta que eles mandaram tomar disse até que iria votar, porque aquilo era um crime hediondo. Um crime contra a educação, a civilidade, a civilização, o bom gosto, o respeito, a igualdade de direitos, tudo enfim, que VIP alardeia que tem mas às vezes perde a noção. Sem falar no machismo da coisa.

Houve gente que disse até que os candidatos dos VIP – daqueles VIP, porque tem VIP que não faz estas barbaridades, seja porque não concorda com elas, seja porque sabe a hora de ficar quieto – perderam a eleição de outubro ali, na vaia VIP do Itaquerão. Convenhamos, é exagero. O povo brasileiro vota com a própria consciência e não vai eleger ou deseleger uma presidenta por causa de uma vaia VIP, assim como não vai votar por causa de uma bola entrando neste ou naquele gol. Esta é uma ilusão daqueles VIP.

Mas VIP que é VIP deste tipo de VIP não percebe estas coisas. Porque no fundo, VIP deste tipo de VIP padece do complexo de madrasta da Branca de Neve. Só sabe olhar nos olhos de outros VIP e perguntar, maravilhado: diga-me, VIP, existe alguém mais VIP do que eu? E se o outro VIP responder que sim é capaz de levar uma bolacha nas fuça pior que patada de zagueiro aloprado. VIP que é VIP, modelo Itaquerão, responde que não, e depois espera, educadamente, a sua vez de perguntar: e eu?… E o VIP que é VIP responde então, meu bem, você é tão VIP quanto eu… E daí os dois juntos mandam a presidenta tomar.

Mas VIP que é VIP não perde a linha VIP. Sai dali pronto pra outra. Pega o carrão, o helicóptero, a lancha, o escambau, amaldiçoa o povo e manda ele tomar onde queira. Enquanto isto o povo solta rojão e faz a festa.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Futebol passarinho

14.05.29_Flávio Aguiar_Futebol passarinhoPor Flávio Aguiar.*

A realização da Copa do Mundo no Brasil despertou uma grotesca procissão – cada vez mais enfadonha – de abutres e coveiros do Brasil em todas as frentes e latitudes. Erguendo uma verdadeira cortina de fumaça com seus incensórios e turíbulos para dominar a pauta e a percepção do momento, este variegado cortejo reúne de tudo. 

Conduzindo a custódia, vêm os que querem derrubar ou derrotar o governo. São de dentro e de fora do país, liderados neste pelos arautos da velha mídia, e lá pelos cardeais da City londrina, The Economist e Financial Times, ladeados por bispos e arcebispos como El País, El Mercurio, et alii. Em suas orações às vezes suplicantes, às vezes raivosas, alimentam a crendice de que a Copa pode ajudar a reeleger ou deseleger Dilma Rousseff em outubro. Esta ortodoxia se baseia em outra superstição, a de que nosso povo é despreparado para a democracia porque vota com os pés ou o estômago – não com a cabeça ou o coração. (Os mais ricos, pelo menos, têm o privilégio de votar com os bolsos e as bolsas).

Esta superstição tem uma variante à extrema-esquerda, qual seja, a de que as massas são sempre despreparadas, e que precisam de uma vanguarda lúcida para iluminar-lhes o caminho. O governo é o Anti-Cristo que deve ser eliminado, para que a verdadeira luz possa chegar aos fiéis. Então, dá-lhe foguetório e até louvação dos coquetéis molotovs dos black blocs, além das pedradas, sejam contra vitrines bancárias ou a Embaixada do Brasil em Berlim.

Mas há também o coro dos sacristãos. Dispersos pelo mundo inteiro, no nosso país ou pontificando na mídia europeia, nunca se viram tantos doutos intérpretes do Brasil. Qualquer jeguelhé joga suas jeguelhadas sobre a nossa “cultura da corrupção”, o nosso incurável pendor para a “violência”, para depender de “favores”, a nossa crônica “homofobia”, o nosso empedernido “machismo”, a nossa proverbial incompatibilidade com o “moderno”, o nosso sempiterno “racismo”, a nossa tara da “escravidão”, nossa inamovível “pobreza”, “falta de cultura”, “falta de projeção mundial”, onde se ajuntam nossa incapacidade para ganhar um prêmio Nobel, nossa música que “não têm o mesmo alcance mundial da salsa ou do reggae” (sic), e por aí se vai. Conforme o ângulo de onde fala o distinto se multiplicam os pronomes “nós” (a propósito, nós quem, cara-pálida?) ou o substantivo plural e coletivizado “os brasileiros”. Não se trata de negar que aquelas mazelas existam em nosso país. Mas as marteladas são tais que deixam a conotação de que ele é a cloaca do mundo, e que elas são nosso patrimônio exclusivo.

Assim, um país de 200 milhões de habitantes, oito mil quilômetros de comprido por oito mil de largo, com uma das economias mais complexas e uma cultura das mais ricas do mundo, se vê reduzido a uns poucos lugares-comuns, repetidos ad nauseam como se fossem grandes originalidades, descobertas, quando na verdade simplesmente invertem disforicamente a perspectiva dos outros lugares comuns – os eufóricos – da cordialidade, índole pacífica, democracia racial, etc. etc. etc. Estas ou estes vestais do templo jornalístico acham que estão inventando, em seu laboratório, o “verdadeiro” Brasil, quando de fato fazem parte simplesmente do ciclo que a medicina antiga chamava de “maníaco-depressivo”. Tenho, inclusive a certeza de que aqueles defeitos de nosso “caráter” desaparecerão de muitos dos discursos como por encanto em novembro, caso alguma oposição vença em outubro.

E no passar da procissão sobem aos céus – ou descem aos infernos – as comparações absurdas, como as do momento atual com a ditadura de 1970; ou as inverdades marteladas, como a de que é a Copa que está roubando dinheiro da educação e da saúde (ao invés do superávit primário e da queda da CPMF); levantam-se os estandartes oportunistas anti-Copa, juntando-se a reivindicações legítimas em campos como educação, saúde, etc., ajudando a esvaziá-las, em troca de quinze letras ou quinze segundos de fama nas manchetes ou telas nacionais e internacionais.

Fica difícil discernir o real para além deste fumacê de crendices. Mas num raro momento em que consegui me desligar desta atmosfera asfixiante, por uma nesga da cortina tive uma visão deslumbrante (já que para estes sacerdotes do caos devo ser um destes caiporas, que pensa com os pés, embora eu tenha sido goleiro, ao invés do cérebro e do miocárdio). De repente, num estalo de Vieira, vi que no dia 13 de julho, em pleno Maracanã, alguém vai erguer a taça aos céus, renovando mais uma vez a sua consagração, oficiada por Bellini naquele 29 de junho de 1958, no estádio Rasunda, em Estocolmo, na Suécia.

Como acontecia na época, ouvi tudo pelo rádio e vi em fotos no dia seguinte e somente algum tempo depois pude assistir nos cinemas a missa gloriosa daquela partida e daquele verdadeiro gestus brechtiano, stanilavskiano, da sagração da Jules Rimet. De fato, foi ali que o caneco ficou sendo nosso, realidade apenas confirmada em 1970. Naquele momento houve uma verdadeira transubstanciação (como na missa católica). Foi ali num gesto que começou prosaico (“mostra a taça, Bellini, pra que a gente consiga fazer uma foto melhor”, pediram os jornalistas) e se transformou no gestus teatral que transformou a Taça Jules Rimet ou do Mundo no imortal Caneco do Brasil. Dali pra frente, em qualquer arena, em qualquer parte do mundo, da várzea mais pobre ao estádio mais suntuoso, espraiou-se o gesto de erguer a taça da vitória. Foi ali, naquele gestus, que a taça se transfigurou em cálice, cheio de sangue, suor e lágrimas, o sangue e o suor que se dão dentro das quatro linhas, e as lágrimas da vitória ou da derrota, como as que foram derramadas em 29 de junho de 1958, em Rasunda, ou em 16 de julho de 1950, no Maracanã.

Isto porque o futebol tem algo de muito parecido com a situação de dois amantes. Por mais história anterior que haja, condições de vida e condicionamentos anteriores, labirintos percorridos ou expectativas de caminhos futuros, oposições familiares ou cumplicidade de amigos, egos e superegos a equilibrar e a vencer, etc., etc., etc., sempre há o momento em que os amantes estão frente a frente, fechados no círculo sagrado do imortal gestus amoroso, tenha este círculo o formato que tiver: cama, tapete, sofá, esquina, degrau de escada, chuveiro, não importa.

No futebol há a mesma magia da presença de um espaço do sagrado. Por mais distâncias geográficas, sociais, políticas, culturais e outras que os times oficiantes percorram, por mais cartolas que haja, tudo se fecha naqueles momentos “dentro das quatro linhas” em que os oficiantes – jogadores, técnicos, bancos de reservas, massagistas, etc., torcidas e até gandulas, juízes e bandeirinhas, vão se medir e oficiar o sagrado rito da vitória, derrota ou empate.

A transubstanciação simbólica se confirma pela mudança de gênero e de registro linguísticos, que nada tem a ver com machismo, sexo ou preconceito: a taça aristocrática passou a ser o caneco popular. Aliás, se a gente olhar bem, dá para ver que a forma exterior daquela Jules Rimet tinha menos a ver com uma genérica caneca do que com um caneco – definido como uma “caneca alta e estreita” (Houaiss). Daí pra frente, não importava o formato do troféu: o vencedor “levava o caneco pra casa”. E ainda leva. E vai levar, pelos séculos dos séculos, amém.

14.05.29_Flávio Aguiar_Futebol passarinho_fotos_

Tenho diante de mim duas fotos: Fritz Walter, o capitão de 1954, levado em triunfo pela torcida em Berna, na Suíça. Ele segura a taça como se ela fosse feita para tomar a popular cerveja, ou a aristocrática champanhe: um objeto prosaico; e Bellini, erguendo o troféu sagrado, como se ele fosse um elo de ligação entre o céu e a terra, como as mãos para o alto do suplicante, o cajado do peregrino, o olhar do amante que se perde e se encontra no universo.

No 13 de julho de 2014, em pleno Maracanã, alguém vai erguer a taça aos céus e levar o caneco pra casa.

Por isto, por sobre a malta velhaca e falsária das senectudes tremulinas (Maiakovski + Mário de Andrade), gloso Mário Quintana:

Os abutres, que hoje atravancam o caminho, eles passarão. O futebol, passarinho.

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: Tinha umas pedras no meio do caminho

14.05.15_Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Está difícil ser brasileiro em Berlim e manter a calma. Até mesmo o bom humor. A minha esposa até já me perguntou se eu estava arrependido de vir para cá. Não. Não estou. Mas está difícil.

A Copa envenenou o clima. Bom, não foi propriamente a Copa. Foi a mídia. As mídias. Não há dia em que não pingue  – no rádio, na TV, nos jornais ou revistas – pelo menos uma notícia contra o Brasil. É: contra o Brasil. Não se trata de apontar críticas, o que é normal. Trata-se de uma campanha, uma verdadeira campanha de descrédito.

A Copa vai bem,  obrigado. Outro dia ganhei de brinde num supermercado uma figurinha – aqui também, ou ainda, existem álbuns de figurinhas – do simpático goleiro alemão Neuer. Bandeiras do Brasil aparecem em lojas – como na do meu amigo turco aqui perto da minha casa – ao lado das alemãs e outras. O povo se prepara para assistir os jogos, e torcer. Etcétera.

Mas a mídia… É assim: nada vai dar certo, o Brasil é um país em constante naufrágio, mergulhando num oceano de corrupção, incompetência, sem esperança de resgate, um país de miseráveis, um país pobretão onde só há violência, enfim, uma espécie de vergonha para a humanidade. Um país sem futuro (pobre Stefan Zweig!), sem presente. Ah sim, e desmemoriado, ou seja, sem passado. Um farrapo humano.

A última edição que vi deste verdadeiro assalto foi um programa de TV da cadeia ARD sobre o estádio de futebol de Manaus. Um desastre, uma catástrofe, era o tom do comentário. Vai abrigar uma meia dúzia de jogos (os da Copa), e depois fechar para balanço. Em Manaus não há futebol que sustente um estádio daquele tamanho e – é bom dizer – daquela qualidade. De quebra apresentaram uma “manifestação” contra os gastos da Copa. Seria cômico, se não fosse uma tragédia jornalística. Uma meia dúzia de gatos pingados com uns poucos cartazes, e uma jovem, faminta por seus quinze segundos de fama, dizendo que não era contra a Copa, mas contra os gastos, etc. Daí puseram no ar alguém do mundo oficial dizendo que o estádio podia servir para outras coisas também, que assim não iria fechar. Mas o narrador fechou dizendo que ia. E ponto final: o destino está traçado, como numa tragédia grega. Convenhamos: Manaus é mais complexa do que esta pobreza enlatada e televisiva.

Dias atrás fui a uma reunião convocada pela mesma cadeia ARD para jornalistas, sobretudo, é claro, alemães, que vão ao Brasil durante a Copa. Na mesa a correspondente da TV Globo e da revista Veja, uma jornalista que escreve na mídia alemã sobre a Copa e a responsável pela formação de jornalistas para o Brasil pela Deutsche Welle, a agência estatal de notícias internacionais (isto existe aqui, e ninguém acha que isto atente contra a liberdade de imprensa).

Claro que houve declarações e críticas até bem intencionadas. Mas se eu fosse reduzir o encontro a palavras-chave, seriam muito poucas: Rio de Janeiro, favela, UPP, Copacabana, no primeiro plano; no segundo, colete à prova de balas (para ir à favela), violência, cuidado com os equipamentos, praça de guerra, perigo, e só. Ah sim, de repente falou-se de uma imagem que sempre aparece por aqui, “Amazônia”. Apenas para lembrar do absoluto “descaso” do governo brasileiro pelo meio-ambiente. Em suma, uma indigência em torno de clichês desgastados. Um país de 200 milhões de habitantes (duas Alemanhas e meia), oito mil quilômetros de comprido e outros oito mil de largura, reduzido a um punhado de lugares-comuns.

E assim o barco vai, dia após dia. Na segunda-feira passada um grupo de dez pessoas apedrejou a embaixada brasileira à uma hora da manhã. Estavam mascarados, e jogaram umas oitenta pedras, quebrando cerca de 30 vidraças. Felizmente não houve vítimas, apenas danos. Os atacantes – provavelmente preservando-se para fazer a revolução daqui a alguns dias – fugiram antes que a polícia chegasse. Fui la no dia seguinte, ver o que acontecia. Deparei com o prédio isolado, cordões de plástico, policiais isolando a área, etc. O grupo – ou alguém, em seu nome, ou usurpando a ação – divulgou um manifesto na internet, solidarizando-se com as manifestações “Não vai ter Copa” no Brasil. Furchtbar (horrível, medonho) e lächerlich (ridículo) ao mesmo tempo.

Aparentemente esta violência nada tem a ver com o clima de apedrejamento simbólico que o Brasil vem sofrendo na mídia alemã (e outras, sobretudo aquela que representa a City financeira londrina, The Economist e The Financial Times). Mas tem. Uma coisa é moldura da outra, ainda que não se queira dizer que haja uma incitação ao apedrejamento. O que a mídia faz, nestes casos, é apontar o alvo. Aí cada grupo parte parte para a loucura que quiser.

O drama é este: há um alvo apontado. Há uma desconstrução sistemática da aura deste alvo e de sua complexidade humanas, fazendo dele o bode expiatório de qualquer sentimento acumulado de frustração e ressentimento.  Conhecemos o processo, não? Talvez ele tenha se manifestado em circunstâncias muito mais dramáticas e trágicas aqui mesmo nesta Alemanha, no passado não tão remoto assim. Os personagens não são os mesmos. Mas a estrutura do processo é análoga.

Por quê tais atitudes na mídia? Na desqualificação do Brasil – sobretudo do governo brasileiro, empreendida por publicações como as citadas em nome da City londrina – compreende-se que haja  um embate ideológico, que elas desejem ajudar as oposições brasileiras a vencer as eleições em outubro. Mais ou menos como faz a mídia tradicional no Brasil, oligárquica e conservadora, que também apedreja diariamente o governo e por tabela o país.

No caso da imprensa alemã, penso que o motivo não é tão claro nem tão unívoco assim. É algo mais complexo. Na constelação das nações o Brasil mudou de lugar na última década. Navegando na contramão dos severos planos de austeridade, todos recessivos, impostos na Europa, o Brasil surpreendeu.

Num período em que o mundo perdeu 60 milhões de postos de trabalho (dados da OIT), o Brasil criou 16 milhões de novos postos (dados do IBGE, do DIEESE). O poder aquisitivo dos trabalhadores aumentou. O acesso à universidade também. As empregadas domésticas brasileiras – sempre apontadas como o resquício dos tempos da escravidão – hoje têm mais seguridade social do que as imigrantes que trabalham clandestinamente na Europa e na Alemanha também. Os brasileiros viajam muito mais de avião do que há dez anos atrás, dentro e fora do país.

O país deixou de ser devedor do FMI. Passou a ser credor. Não só do FMI: da União Europeia também, através do Fundo de Emergência de ajuda aos países endividados e ao sistema financeiro abalado do Velho Continente. O tempora,  o mores. O Brasil tornou-se uma liderança no G-20 e uma referência mundial em matéria de políticas sociais. Antes, foi até o fundador do Fórum Social Mundial, vejam só. É de arrepiar os cabelos. Até os nossos, por que não os dos outros?

Poderia citar mais. Os exemplos dados evidenciam esta mudança de lugar. Porém é difícil reconhecer esta mudança na constelação das ideias. Ela faz assomar um oceano de inseguranças. A reação mais imediata é a de olhar para o presente e para o futuro através do espelho retrovisor: restaurar a constelação do passado. Esta é a reação, que pode ter consequências ideológicas, é claro, que se manifesta em vários momentos na mídia alemã. Na de outros países também. Mas aqui esta manifestação é muito constante e muito forte. É preciso restaurar a imagem do Brasil pobretão e sem saída.

Por que será? Será porque a última Copa jogada na Europa aconteceu na Alemanha, e é visível motivo de orgulho por aqui? (E  justificado, por que não?) Será que este desprezo pela Copa no antigo terceiro mundo (em relação a África do Sul houve o mesmo amontoado de questionamentos, e ah! bons tempos em que havia um “terceiro mundo”) seria uma maneira de inconsciente ou subrepticiamente enaltecer o valor nacional alemão – tema tabu e intocável diretamente por aqui?

Vá se saber. Vamos pensar. Mas sem pedradas, por favor.

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Recomendamos a leitura do livro Brasil, país do passado?, organizado por Antonio Dimas, Berthold Zilly e Ligia Chiappini, e com o qual Flávio Aguiar colabora como autor (além de assinar a orelha do livro).

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A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.