Arquivo da categoria: Flávio Aguiar

1964, 50 anos depois

14.04.03_Flávio Aguiar_1964 50 anos depois.jpgPor Flávio Aguiar.

A tentação de fazer ficção científica é muito grande: o que teria acontecido nas nossas vidas se houvesse de fato resistência ao golpe?

Já nem digo se o golpe fosse derrotado. Mas simplesmente se houvesse resistência.

Certamente teria havido uma guerra civil.

Seria sustentável? Seria. Ainda no dia 2 de abril houve uma reunião (são estas coisas de Brasil: sei disto através do parente de um vizinho…) reunindo um pessoal da Petrobrás, o general Ladário Pereira Telles (nomeado às pressas comandante do 3º. Exército), Brizola, Jango, Sereno Chaise (que era o prefeito de Porto Alegre) e outros possíveis líderes da resistência.

Nesta reunião, os sindicalistas da Petrobrás apresentaram um plano de tomar todas as refinarias do sul do Brasil. Um eventual avanço de tropas de São Paulo para o Rio Grande do Sul encontraria pela frente um provável deserto de combustível. O que era necessário para isto? Armas.

Jango preferiu se exilar imediatamente no Uruguai. Um dos motivos alegados era o rápido deslocamento de uma força naval dos Estados Unidos do Caribe em direção ao Rio de Janeiro e o porto de Santos. Haveria uma invasão? Talvez.

Com a fuga de Jango, não houve a entrega das armas. Ficou tudo por isto mesmo. O plano teria funcionado? Hoje é impossível dizer que sim. Mas também é impossível dizer que não. São destas caixas pretas da história, mas sem leitura possível.

Outra caixa preta: haveria muitas mortes? Certamente. Mas não como a grande maioria que houve nos anos depois do golpe, com pessoas caçadas como ratos ou na tortura, em calabouços infames. Isto teria sido melhor? Impossível saber. A única coisa possível de se saber é que a falta de resistência naquele momento decisivo da história tornou mais amargo o fruto amargo que tivemos de comer sem vomitar. O resto fica no mistério da caixa preta.

Este é o principal efeito do golpe, ainda hoje, esta semeadura de caixas pretas ao longo das vidas posteriores. É claro que há um sem número de caixas pretas nas nossas vidas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse feito aquela escolha, naquele momento, ou fizessem outra escolha, tivesse outra namorada, aceitasse outro emprego, e por aí afora.

Somos os destino das nossas escolhas e também o seu desatino, ou ainda o destino de nossa falta de escolha por vezes. Mas a caixa preta do golpe é diferente. Porque as outras vão variando, diminuindo ou variando de importância conforme o tempo vai passando. A do golpe não. Ela não passa, ela fica, ela pesa sempre na memória. É a cicatriz do futuro que não houve. E por baixo da cicatriz a ferida ainda está aberta, ainda lateja.

Em alguns casos ela se transformou em câncer, e levou pessoas ao suicídio. Outras vezes ela levou pessoas ao suicídio moral, à adesão deslavada e descarada à direita. Até hoje isto acontece.

Esta caixa preta está irremediavelmente plantada na memória. A memória é um labirinto, onde frquentemente nos encontramos, mas também onde frequentemente nos perdemos. Se falarmos de memória, caixa preta, labirinto, perda, um caso que nos vem à mente – evocado em várias ocasiões – é o de Frei Tito de Alencar. Barbaramente torturado pelo delegado Sergio Paranhos Fleury durante a caçada a Carlos Marighella, Frei Tito ficou com algo de si preso a esta memória horrenda, como um anzol. A única maneira de se libertar desta verdadeira possessão demoníaca foi através da morte. Tão grave foi seu caso que apesar do suicídio ele recebeu as exéquias cristãs no convento onde residia, em Paris, quando de seu suicídio.

A memória tem destes redemoinhos. Há coisas que queremos lembrar e não podemos; há coisas que queremos esquecer e não conseguimos. A caixa preta de 64 está nesta encruzilhada: queremos por vezes lembrar-nos deste futuro que nos era prometido, que poderíamos construir, e que nos foi arrebatado pelo golpe, e isto se torna uma operação cada vez mais difícil e nebulosa; queremos esquecer do amargor de ter todo este futuro negado, e não conseguimos, pois a dor da perda é sempre presente, cada vez mais espessa e onipresente.

Virar a página? Sim, é necessário virar a página. Até porque os que não querem virar a página, os Bolsonaros da vida, os militares de pijama nostálgicos da ditadura, os amantes de privilégios em todas as classes sociais não querem virar a página. Querem ficar presos e deter-nos todos na prisão da reverência ao canalhismo de 64. Mas virar a página não significa esquecer. Porque se a metáfora é a do livro, o livro pode e deve ser folheado numa e noutra direção.

Haverá um ajuste de contas com este passado? É muito difícil prever. Duas coisas seriam necessárias: a revisão da Lei da Anistia e a abertura dos arquivos das Forças Armadas. Isto depende do STF e do Congresso Nacional, além da pressão dentro e fora do Brasil. Isto nos leva ao encontro de outra caixa-preta, mas esta cheia de possíveis surpresas, a da política.

A ver.

***

Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Ainda as lições do Brasil, 50 anos depois

14.03.27_As lições do Brasil_50Por Flávio Aguiar.

Retorno à Berlim primaveril. Depois de um inverno meio chôcho, encontro advertências de que provavelmente a cidade será tomada por uma infestação de mosquitos no próximo verão. O pior vai ser que a cidade não tem infra-estrutura – sobretudo de espírito – para tanto. Infestação de mosquitos, afinal, é coisa de terceiro mundo. Repelentes, só os encontramos daqueles antigos, gosmentos, mais fedorentos que alho para espantar vampiro. Pois, parece, vai ter mosquito demais na terra de Goethe, Hölderlin e Hegel. Estou me preparando. Trouxe sementes de citronela, outras de arruda. Tomara que funcione, que os mosquitos daqui sejam tão sensíveis quanto os de lá. Ou aí, melhor dizendo.

Mas vim também carregado de lições do Brasil. Êê Brasil, como dizia… quem mesmo? Não importa.

Nada de estatísticas. Deixo isto para o governo e para as oposições, ainda que estas não as tenham, ou, se as têm, não as mostram, pois lhes serão provavelmente desfavoráveis.

Trouxe impressões. Das mais impressionistas, diga-se de passagem. Mas que me impressionaram.

Primeiro, qualifico a viagem: passei uns dias em São Paulo, outros no Rio Grande do Sul, onde fiz uma viagem longa até o Uruguai, atravessando a restinga entre a Lagoa dos Patos e o mar. Ainda mais alguns no Rio de Janeiro.

Ouvi ecos sobre o Nordeste.

Fiquei muito impressionado por uma coisa aparentemente banal. Na grande maioria dos estabelecimentos comerciais onde entrei – farmácias, restaurantes a quilo ou não, hotéis, mercados, etc., encontrei a) anúncios de emprego; ou b) trabalhadores novos sendo treinados. Sinal de que o setor está crescendo. Às vezes havia o incômodo de ser atendido por alguém não inteiramente familiarizado com o serviço, tendo que esperar o socorro de um gerente ou de alguém veterano. Dane-se, eu pensava. Salve o pleno emprego que estamos atingindo. Apesar de eu ter lido num artigo do Instituto Millenium que pleno emprego é algo que faz mal, porque “aumenta os salários” e portanto o “custo Brasil”, perdendo nós (que “nós” será este?) em competitividade, iniciativa, etc. O tempora o mores.

Constatei que se o conceito de “nova classe média” for problemático, o da existência de uma “velha classe média” não o é. Trata-se daquela parcela da classe média que, vivendo neste padrão de consumo há mais tempo do que os recém-chegados, procura agora diferenciar-se das mais diferentes maneiras. E dá-lhe falar mal do Brasil. E dá-lhe exigir que eu, que vivo na Europa, fale bem desta, apesar das crises labirínticas em que anda metida, e desqualifique tudo o que se encontra no Brasil.

Falar mal do Brasil, portanto, é uma síndrome muito ampla. Se não se fala mal de algo, “não estamos na conversa”. As opções são muitas, indo do sistema de saúde ao consumo de cerveja. No caso do sistema de saúde, a coisa é grave. Encontrei um padrão, por onde ouvi. Em 99% dos casos, as pessoas que falam mal do sistema público de saúde não o usam, e falam generalidades, do tipo “as filas são enormes”, “não há bom atendimento”, “falta tudo”, e valem-se seguidamente de expressões do tipo “ouvi dizer”, “me disseram”, etc. Já 90% que usam o sistema público de saúde falam de coisas concretas, indo do atendimento a casos de câncer até o de HIV, além de outros. Dizem: “precisei de tal atendimento”, ou remédio, e consegui logo, ou “o atendimento do posto de saúde era tão bom quanto no hospital particular em frente’, etc.

No caso da cerveja, a coisa é mais sutil, embora nem tanto. Ouvi comentários de que o consumo enorme do líquido no Brasil força a baixa qualidade da cerveja nacional. Que, portanto, era imperioso consumir apenas cerveja importada. E tomavam a Buduáiser norte-americana, que é mais ou menos um guaraná sem graça alcoolizado, muito diversa da Budweiser tcheca, uma das melhores cervejas do mundo. Enquanto encontramos hoje no Brasil uma produção poderosa de cervejas artesanais da melhor qualidade… sem falar na gelada qualidade das comuns.

E há outras pérolas do consumo, como a de que ouvi que é melhor e mais barato pegar um avião e comprar um enxoval de bebê em Miami do que fazê-lo no Brasil. Pobres bebês, pensei, adornados com aquelas feíces made in Hong Kong.

Tornei-me um usuário entusiasta dos trens em São Paulo. Modernos, arejados ou com ar condicionado, eficientes, estão conseguindo definir um traçado de transporte público eficaz com o metrô. Claro, na hora do rush a coisa complica, porque, como eu já disse anteriormente, em outra crônica, o Brasil não fora feito para que tanta gente tivesse emprego ao mesmo tempo, de acordo com a judiciosa expressão do prestigiado instituto acima citado. Mas ainda assim dá para enfrentar. Comentei com amigos. Alguns reconheceram que também usavam os trens. Já outros alegaram: “ah, mas não é como na Europa. A distância entre as estações é muito grande”, numa demonstração de que não só não desprezam os trens paulistas como não conhecem direito nem mesmo os trens europeus. E a tais comentários escapa um ponto relevante. Os vagões modernos do sistema em S. Paulo, comprados relativamente há pouco tempo, têm uma largura menor do que os antigos, coisa que faz com que a distância por vezes do estribo para a plataforma seja de fato enorme e perigosa. Isto sim deveria ser tema de manifestos, passeatas, etc., e sua permanência por muito tempo seria impensável na Europa, mesmo com a crise. Mas… quem pensa apenas nas grandes distâncias, e à distância, nem sempre consegue se aperceber das pequenas e próximas…

Bom, aí chegamos ao doloroso assunto “Copa do Mundo”.

Já suspeitava, mas fiquei convencido de que a má vontade da mídia tradicional com o evento, ou melhor, sua organização, e o já propalado fracasso que daí advirá, se deve mesmo unicamente ao fato de que ela “foi trazida” para o Brasil por um governo e petista e está sendo implementado por outro. Fosse um governo do velho bando PSDB/PFL, hoje DEM, o cantar do sabiá seria outro, apesar das eventuais críticas que seriam feitas, para salvaguardar a fachada. Também notei que as críticas que os cidadãos comuns fazem são repetições, variantes, muito iguais entre si, do que a mídia apregoa. Há a ilusão subjacente de que um eventual sucesso da Copa – dentro e/ou fora do campo – “vai reeleger o governo”, aliada à outra ilusão igualmente poderosa, a de que um fracasso da Copa, também dentro e/ou fora do campo, vai ajudar a “derrubá-lo”.

Neste clima de “vamos acabar com tudo”, vi e ouvi coisas chocantes, verdadeiras diatribes contra o bom senso, inclusive o do bom jornalismo, como o comentário de um cronista esportivo chamando a presidenta de “senvergonha” enquanto dizia que se tivesse dois rabos daria um para o âncora do programa em que era entrevistado, uma coisa de legítima pornografia estética, senão outras.

Mas apesar das retóricas incendiárias, voltei com a impressão geral de que o país vai bem, e que a afluência a este padrão de consumo mais generalizado do que os anteriores é irreversível.

É bom pensar nisto justo no momento em que “comemoramos” os 50 anos do golpe anti-povo que se queria “irreversível”. 

***

Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!” e “A classe média fora de lugar“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

A classe média fora do lugar

14.03.13_A classe média fora do lugarPor Flávio Aguiar.

Visitar o Brasil – desde que moro na Alemanha, e já lá se vão sete anos – é sempre muito instrutivo e original.

Atualmente o Brasil é o único país no mundo que, indo bem melhor do que antes, incomoda muita gente – assim como aquele elefante da conçoneta infantil.

Muita gente – um certo Brasil – está exasperada com a melhora. Com o que se chama seja lá como for: ‘nova classe média’, ‘inchaço da classe média’, além dos correlatos mais sofisticados, como ‘economia superaquecida’, ‘bolha de consumo’, indo até ‘o mal que o pleno emprego faz ao país’, aumentando salários e portanto o famigerado ‘custo Brasil’. Que bem faria ao país os pobres voltarem a ser simplesmente pobres sem outro futuro que não o de serem eternamente pobres!

É sabido que o Estado – em qualquer lugar do mundo (até nos finados regimes comunistas) – tem uma dupla função acoplada: assegurar direitos e administrar privilégios. Acontece que historicamente no Brasil o primeiro pólo desta bipolaridade de humor foi muito dismilinguido, enquanto o segundo foi a chave de ouro do soneto social brasileiro. Algumas exceções pontificaram, é verdade: as leis trabalhistas de Vargas, o desenvolvimentismo dos anos 50/começo de 60, entre uns poucos outros. E, é claro, os últimos dez anos, os tais que agora exasperam muita gente.

Em resumo, o Brasil não foi feito para muita gente. Pelo menos um certo Brasil. Vejam só: quanto mais empregos há, mais gente precisa se deslocar de casa para o trabalho, e vice-versa. Quanto mais estudantes há, mais gente ainda precisa se deslocar entre a casa e a escola ou universidade. O resultado é que os ônibus lotam; como o transporte público (ao contrário, por exemplo, de grande parte das cidades europeias) é densamente privatizado, os preços das pessagens tendem a subir, enquanto as frotas de delapidam a olhos vistos, o metrô de S. Paulo ameaça parar e a dar ‘pitis’, etc.

Mais: como há mais dinheiro disponível, mais gente compra carros. Mas as cidades brasileiras não foram feitas para a circulação de tantos carros! Não defendo o carro, defendo o transporte coletivo. Mas durante décadas ter um carro era um privilégio de consumo. Não me esqueço do bate-boca que presenciei, vinte ou trinta anos atrás, entre uma jovem bem jovem e um porteiro de galeria, na rua Augusta, que fechara prematuramente (para ela) um dos portões de entrada/saída. A dita jovem enchia a boca: ‘Eu’ – assim com maiúscula – ‘sou uma consumidora!’. Ser consumidor(a) era um privilégio: agora não é mais (e vem mais gente por aí). Isto exaspera os antigos consumidores, que vêem seus ‘direitos’ – “privilégios” – ameaçados, desde a vaga na faculdade para os pimpolhos até as filas de aeroportos – outro capítulo da exasperação geral.

O exemplo mais estapafúrdio desta exasperação encontrei num artigo do Zero Hora de minha cidade natal. O articulista reclamava que as ‘novas classes médias’ (uso o termo livremente, deixo o debate sobre ele pro Marcio Pochmann, a Marilena Chauí, o Guido Mantega e outros mais entendidos do que eu nestes assuntos) não sabiam aplaudir nos espetáculos a que iam. Aplaudiam de pé qualquer coisa, quando na verdade a boa formação manda que se aplauda de pé apenas o excepcional (quem sabe o que é excepcional é apenas, claro, o autor do artigo). Era o aplauso fora do lugar. Pior: este aplauso destrambelhado contagiava os artistas, que apluadiam juntos com o público quando, segundo ainda o autor do artigo, deveriam fazer uma comedida reverência. A futilidade besta do tema lembrou-me de outro artigo, lido há cinquenta anos ou mais, no Correio do Povo da mesma minha cidade, em que o autor (outro), visitando a então União Soviética, lamentava ver pessoas em mangas de camisa – operários, talvez, aaargh! – nos teatros de Moscou, na platéia, nas frisas, nos camarotes. O autor lembrava com lágrimas nostálgicas nas entrelinhas dos tempos faustosos em que aqueles assentos eram ocupados apenas pelas figuras excelsas da aristocracia moscovita e de alhures.

Mutatis mutandis, o tema do recente aplauso é da mesma jaça. Ou laia.

Mas há mais. Em pri meiro lugar, não esqueçamos que este clima de exasperação é centuplicado pela velha mídia, exasperada ela mesma por contar, para contrabalanço do atual panorama político, com um candidato bola murcha que tem de encher continuamente, um outro que faz alianças com desde o verde musgo da pré-candidata sem candidatura até o roxo cardinalício (vermelho jamais) dos ex-PFL e o vago ‘homem da toga preta’, mistura de Cacareco (para quem lembrar) com Jânio Quadros (tembém para quem lembrar) e Collor de Mello (para quem não esquece).

Em segundo lugar porque a exasperação contamina também a esquerda, pelo menos uma certa esquerda, já que a melhora que se verifica não é exatamente a de seus sonhos – ou devaneios. Para uma parte desta, o Brasil e o mundo estào à beira de um cataclisma revolucionário, e quem atrapalha a erupção pronta para eclodir é a dupla formada pelo nordestino e a mineira-gaúcha de plantão. E chovem artigos – no Brasil e no exterior – falando, por exemplo, dos ‘limites’ da política de transferência de renda, e tanto quanto a direita, da ‘prisão’, da ‘dependência do Estado’, da ‘falta de uma porta de saída’ dos programas de assistência social, etc. São até incapazes de ver – tanto quanto a direita – que a porta de saída será, muito provavelmente, cruzada pela próxima geração porque, como apontam estudos já conspícuos da ONU, a miséria é algo que tende a se reproduzir.

Lamentavelmente, a indigência mental também. Pelo menos quem entre nela tende a não ver porta de saída. Porque se há coisa difícil neste mundo é reconhecer o próprio equívoco.

***

Leia também “Libertemos os ricos e a extrema riqueza!“, na coluna de Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: Cinema, homossexualidade e solidão

14.02.13_Flávio Aguiar_Crônicas de Berlim_Cinema homossexualidade e solidãoPor Flávio Aguiar.

Anualmente, em fevereiro, Berlim vira a capital internacional do cinema durante dez dias.

A cidade vive e transpira cinema.

A Berlinale – como é chamado o Festival Internacional de Cinema de Berlim, hoje em sua 64ª. Edição – tem um dos modelos deste tipo de evento mais atraente dentre os que conheço.

Há a questão do porte:  juntando filmes, seminários, workshops, entrevistas coletivas, etc., o número de atividades vai à casa do quase milhar, se não ultrapassá-la. Neste ano 69 países estão representados, com mais de 250 filmes.

É claro que há o tapete vermelho e o desfile de estrelas entre flashes e spots de iluminação, transmissão das entrevistas em telões na praça Marlene Dietrich, que é o centro nervoso do festival, perto da Potsdammer Platz.

Mas isto é apenas a ponta do iceberg – o teaser, para usar uma linguagem adequada – da Berlinale.

Porque o segredo do Festival é que ele toma a cidade inteira. O Festival ocupa quase todos os cinemas de Berlim, vai para os bairros, chama as escolas, além de gente que vem da Europa inteira e também de outros continentes apenas para conhecer/viver a Berlinale.

Há sessões e mostras especiais para adolescentes e crianças, com júris e prêmios próprios. Além dos filmes que concorrem ao cobiçado Urso de Ouro (melhor filme) e aos Ursos de Prata (melhor ator, fotografia, música, curta, documentário, etc.), há as mostras chamadas de Fórum e de Panorama. A primeira põe em evidência diferentes tendências do cinema contemporâneo, como se fizessem um debate entre si. A segunda faz uma mostra do ‘estado da sétima arte’, digamos. Além disto há retrospectivas, mostras especiais, homenagens, seminários com grandes diretores, cinegrafistas, roteiristas, etc., dirigido a jovens cineastas. Para se inscrever o jovem deve apresentar algum projeto que queira desenvolver para ser aprovado. O Festival financia a vinda dos jovens. Em geral mais de 200, dos cinco continentes, acompanham estes seminários e workshops práticos. Uma curiosidade: pode-se dizer que o inglês é a ‘língua oficial’ da Berlinale. Todos os filmes apresentados – inclusive os alemães – têm legendas em inglês.

O Brasil costuma sair bem no filme. Desta vez tem um filme na competição: Praia do Futuro, dirigido por Karim Aïnouz, com Wagner Moura – que é ‘velho conhecido’ de Berlim desde que foi o protagonista do ‘Urso de Ouro’ Tropa de Elite I, de José Padilha. Tropa de Elite II, também com ele e do mesmo diretor, não concorreu mas foi homenageado em sessão especial. Desta vez Wagner Moura interpreta mais um militar: um salva-vidas do Corpo de Bombeiros de Fortaleza, onde fica a mencionada praia. Ele e um turista alemão (ex-soldado no Afeganistão) cujo amigo morre afogado se apaixonam um pelo outro. Donato (Wagner) vem para Berlim por causa desta paixão, rompendo com a família: duas irmãs, um irmão menor e a mãe. Anos depois, o irmão – já um rapaz crescido – vem para Berlim em busca dele. Os encontros, desencontros e conflitos são inevitáveis.

Não acredito que o filme venha a receber o Urso de Ouro. A fotografia é belíssima, o desempenho dos atores é excelente, mas o roteiro é falho (solto demais). O filme não despertou entusiasmo, embora tenha chamado a atenção pelas ousadas cenas de sexo entre os dois apaixonados. Talvez receba alguma menção por aqueles atributos positivos. A impressão que fica é que Karim (que já fez o excelente Madame Satã, lançado em 2002) quis fazer um filme mais poético do que narrativo, mas afrouxou demasiadamente a corda.

Mais entusiasmo despertou – pelo menos para mim – o filme/documentário de Davi Pretto, da Casa de Cinema de Porto Alegre, chamado Castanha, que não está na competição, mas no Forum. É um documentário com partes de ficção rememorativa sobre a vida do personagem-título, um conhecido travesti das casas noturnas gays da capital gaúcha. Castanha interpreta o próprio papel, e sua mãe, Da. Celina, o seu. O desempenho de ambos é sensacional, sendo que para mim o desta rouba a cena, sendo a primeira vez que faz um trabalho de representação.

A Berlinale é um reconhecido reduto cinematográfico da homossexualidade. Tem até um prêmio especial para filmes que tratem deste tema, o ‘Teddy’. Uma explicação: ‘Teddy’ é o nome que se dá, em inglês e alemão, aos ursinhos de pelúcia das crianças. Mas neste ano o tema ganhou muita relevância e espaço no Festival. São inúmeros os filmes que o abordam, de uma ou de outra maneira. Mas ele veio associado a um outro tema que também está onipresente nos filmes: a solidão, seja no meio urbano ou no rural, uma contra-facção crítica em relação ao individualismo que o estilo de vida promovido em sociedades dominadas pelas crenças supersticiosas nas virtudes universais do culto aos mercados – financeiros ou outros que não aquele Mercado Público que em geral é um centro prazeroso.

Além da abordagem de temas da contemporaneidade a Berlinale é uma ótima oportunidade para se ver filmes que estarão certamente fora deste ‘mercado’. Filmes da Índia (para além dos de Bollywood), Equador (primeira vez em que assisti um filme deste país, Feriado, que também toca no tema da homossexualidade), Uzbequistão, Palestina e etc., e ponha etc. nisto.

Uma oportunidade de ouro para se conhecer cinema – e Berlim. Se não conhece ainda a Berlinale e a capital do cinema em fevereiro, não perca a próxima oportunidade, em fevereiro de 2015.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: A Europa na cadeira de rodas

14.01.30_Flávio Aguiar_Crônicas de Berlim_A Europa na cadeira de rodas.jpgPor Flávio Aguiar.

A metáfora não podia ser melhor. A chanceler Angela Merkel declarou, no seu primeiro discurso perante o Bundestag em 2014 que a Alemanha é “o motor da Europa”. Lembra? São Paulo, a Locomotiva do Brasil…

Só que ela estava assentada numa cadeira de rodas. Restava saber: o motor da Europa seria o motorzinho elétrico da cadeira ou alguma caldeira superaquecida de uma economia vibrante? Acho que a situação está mais para o motorzinho…

O fato é que a Europa vai mal das pernas. O que isto quer dizer? Que os índices – todos, dos espirituais aos numéricos – estão indo para baixo.

Falo com amigos latino-americanos, europo-fãs. Dizem, apostando no que apostaram anos atrás, quando vieram para cá, pelos mais variados motivos: a Europa vai sair da crise, a América Latina não. Caramba! Fogem da questão: que Europa vai sair da crise? Que América Latina não vai sair da crise?

A Europa que vai sair da crise – e vai – é muito diferente da Europa que conhecíamos. É uma Europa avessa a políticas sociais, estranha a direitos sindicais, envolta numa crise que tem ares de permanência. A crise não é mais crise: é a realidade.

A América Latina não vai sair da crise. Que crise? A crise de ver seus espaços públicos ocupados por quem não deveria ocupá-los. Quem? O povo. A classe média tradicional e a burguesia não gostam disto. A América Latina vai continuar em crise, porque crescer é uma crise.

O Brasil não foi feito para muitos, embora tenha sido feito por muitos. Não havia nem há sequer tantos espaços para carros nas ruas das metrópoles, porque o Brasil não foi feito para que tanta gente tenha carro. Não que eu ache carro uma maravilha, pelo contrário. Só que o Brasil foi feito para os poucos que tinham carros, não para ônibus ou metrôs, nem para muitos terem carros. Só que agora falta ônibus e falta metrô. Sobram carros. Maldito salário mínimo que aumentou!

A Europa vai sair da crise, mas para trás. Vejam a Ucrânia: máfia contra máfia, sem saída nem entrada. Não há mocinhos nem… aliás, só há bandidos, não há mocinhos. O principal partido que está mobilizando as manifestações chama-se Svoboda (“liberdade”, em ucraniano). Pois é. Mas é um partido cujos jovens recentemente foram surpreendidos distribuindo panfletos com textos de Goebbels. Quem? É, Goebbels, o Ministro da Propaganda do Regime Nazista. E a direção do partido é conhecida por suas declarações antissemitas, anti-direitos humanos, anti-estrangeiros, etc. E estes manifestantes são descritos em boa parte da mídia do Ocidente como os heróis da democracia…

Parece a década de 30. A Europa namora o seu fim.

Torçamos contra.

***

A Bíblia segundo Beliel. da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook), por metade do preço do livro impresso na Travessa e na Gato Sabido.

***

Confira a aula de Flávio Aguiar sobre o livro, no departamento de letras modernas da USP:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Crônicas de Berlim: O disco fora do lugar

14.01.15_Flávio Aguiar_Crônicas de Berlim_Disco fora do lugarPor Flávio Aguiar.

Graças sobretudo ao passado nazista, é muito complicado falar em ‘brio nacional’ na Alemanha.

Mas ele existe. Na surdina, mas existe. Por exemplo: faz parte do brio nacional alemão a indústria automotiva do país, a começar pela Volkswagen, e na fila vem nomes como Mercedes, Daimler-Benz, BMW e por aí afora. Além de ser uma pedra fundamental da industrialização alemã logo após sua primeira unificação como Império, e de ter sido um dos carros-chefe da recuperação econômica durante o regime nazista, a indústria de carros foi uma pedra-de-toque da reconstrução alemã depois da 2ª Guerra Mundial e do monte de escombros – físicos e espirituais – a que a tresloucada época nazista reduzira o país.

E há outros. Alguns nem é necessário destacar: a cerveja. Cada cidade tem a sua marca e até o seu tipo de copo. E ai de quem tomar no copo errado. Já um elemento do brio alemão menos conhecido é o chocolate. Costumo dizer que se as melhores cervejas alemãs são as tchecas (já ofendi o brio!), os melhores chocolates suíços são os alemães (recuperei o moral!).

Hoje em dia o futebol é marca contraditória do brio – mas faz parte de qualquer brio autêntico ter os seus contraditórios. Há quem se orgulhe da alegre seleção multiculti da Alemanha, cheia de nomes poloneses, turcos, africanos e até brasileiros. E há quem torça o nariz: quando da Copa de 2010 cheguei a ler depoimentos dos mais tradicionalistas, saudosos de quando o time alemão parecia uma divisão Panzer em campo; ou de outros, que diziam só torcer quando os jogadores de clara ascendência alemã pegavam a bola. O futebol tem dessas coisas. Vamos ver em 2014.

Mas se há uma coisa que faz parte do brio alemão é o princípio da Ordnung, cujo sentido é muito diferente daquele contido no nosso lema positivista “Ordem e Progresso”. No nosso lema, a “Ordem” tem um princípio de contenção, senão de restrição. Mas aqui entre o Reno e o Oder (fronteira com a Polônia), a Ordnung significa praticamente uma liberação: a liberdade de fazer as coisas “em ordem”. O princípio se prende à ideia de que é impossível – até moralmente inaceitável – fazer algo sem um planejamento prévio, um roteiro estabelecido e devidamente documentado. Isto se aplica desde a complicadas decisões governamentais até a um simples passeio entre amigos. É impensável fazer um passeio sem consultar antes o mapa; sem levar o mapa; sem olhar o mapa depois e comprovar que o passeio foi realizado de acordo com o mapa. Nada mais estranho a este mundo alemão da gema do que o universo do flâneur francês, do que o perder-se por ruas, labirintos e vielas sem lenço nem documento.

Pois se algo entrou em crise na Alemanha, neste início de 2014, foi o princípio da Ordnung. Tudo ficou e está fora de lugar.

O ex-campeão Schumacher teve um acidente grave esquiando, aparentemente por ter saído da pista regular. Em todo caso, além de torcer pela sua recuperação, esperemos o devido inquérito, dentro do espírito da mesma Ordnung. Nada de especulações precipitadas, embora na mídia mundial tenha chovido interpretação apressada.

Logo depois a chanceler Angela Merkel fraturou a bacia, também esquiando. Está, dizem, governando da cama, coisa mais fora de ordem do que, por exemplo, se o primeiro-ministro britânico governasse falando com o sotaque de Woody Allen.

Como se isto não bastasse, o próprio governo alemão, recém empossado, fraturou a bacia, ou quebrou os canecos. O arqui-conservador primeiro-ministro da Baviera, Horst Seehofer, desembainhou a espada de Sigfried e se botou para cima dos agora esperados imigrantes búlgaros e romenos, que devem acorrer aos borbotões e catadupas ao Valhala germânico agora que a União Européia liberou, conforme seus estatutos, a livre circulação dos cidadãos daquelas nacionalidades em seus territórios.

Aos olhos dos puristas, como Thilo Sarrasin, autor do best-seller A Alemanha que se autodestrói [Deutschland schafft sich ab], onde investe contra os imigrantes turcos e muçulmanos, a Alemanha agora será invadida e descaracterizada por uma horda de ciganos (que preferem se chamar roma e sinti) e búlgaros (cuja palavra, que no latim medieval designava o “herege”, o “não cristão”, está na origem, através do francês, do nosso carinhoso substantivo “bugre”). De resto, na visão daqueles, estes novos “turistas da desordem” viriam a esta ilha de propsperidade em meio à débâcle européia provocada pelos “excessos” dos “povos do sul”, apenas para aproveitar-se do seu sistema de seguridade social. Tais considerações levaram o Sr. Seehofer, inspirando-se em exemplos nobres, como da Marine Le Pen francesa e do Gert Wilders holandês, a proclamar que o governo alemão deveria restringir – leia-se impedir – a vinda imigrantes “pobres” para o país, onde “pobres” vale como um eufemismo palatável para “ciganos, romenos e búlgaros”.

O fato é o que o ministro de Relações Exteriores, o social-democrata Franz-Walter Steinmeier, não gostou da declaração do bávaro, e respondeu que tal princípio contrariava o estatuto da União Europeia. A própria Comissão Europeia veio à arena germânica para dizer que aquilo seria inaceitável. E pronto: o banzé que não estava no script armou-se, e agora o novo governo alemão, saindo da Ordnung, parece cartucho de fogos explodido, ou bolo abatumado, com a pobre chanceler, da cama onde está entrevada, tentando botar panos quentes em tudo e levar de novo o bolo ao forno. A oposição – Verdes e Linke – assiste de cadeirinha ao engalfinhamento.

Mas isto não é tudo. O inverno – outro elemento do brio alemão, do berlinense em particular, está fora de ordem. Enquanto nos Estados Unidos campeiam temperaturas siberianas envoltas em nevascas canadenses, aqui a temperatura está decididamente primaveril, mantendo-se entre alguns graus acima de zero de manhã e vários outros graus acima pela tarde. Uma vergonha, que me tem provocado comentários decididamente sádicos e maldosos em relação a meus amigos, dizendo que os cuscos (vira-latas, em gauchês) em Vacaria, no sul do Brasil, padeceram mais no recente inverno, quando nevou em mais de 130 das nossas cidades, do Mato Grosso do Sul ao Chuí) do que os nobres pastores têm sofrido aqui. Falar de neve no Brasil é decididamente um insulto ao velado brio hibernal berlienense, em meio a estas temperaturas e outono porto-alegrense.

Como se não bastasse, em meio ao inverno pífio, a polícia recentemente descobriu 140 quilos de cocaína em caixotes de bananas no depósito de um supermercado em Berlim. O fato inusitado provocou a manchete hilária no jornal sensacionalista Bild: “Em Berlim, 12 graus e 140 quilos de neve”. “Neve”, por aqui, é o mesmo que “pó”, por aí. Não sei o que fere mais o brio: se a descoberta do crime, ou se a constatação de que alguém – provavelmente um banana – na cadeia do tráfico achou que aqueles caixotes de banana deveriam conter apenas bananas, e mandou-os para o endereço errado, algo que não estava no script, decididamente uma quebra da Ordnung da desordem.

Ainda no terreno da contravenção, somente neste começo de ano os amigos do alheio (por aqui também os há) explodiram vinte caixas eletrônicos em Berlim, atrás do tutu, e em Euro.

Como digo, Berlim está virando uma metrópole “normal”, o que, se contraria a Ordnung, insere a cidade em outra “Ordem”, a “Desordem Global” da Urbs mundial.

Enquanto isto, o centro de Hamburgo foi ocupado pela polícia, num clima de estado de sítio, devido a conflitos entre sem-teto, organizações radicais de esquerda, artistas alternativos com o aparato da Ordnung, numa confusão digna das jornadas de junho em outros pagos. Só dizendo: O tempora, o mores.

Mas o melhor ainda está por vir. Ou já veio, e está por conferir. Outro dia, a Alemanha estarrecida leu no jornal, ouviu no rádio e viu na TV e na internet a notícia de que o aeroporto de Bremen fora fechado durante três horas. Vôos foram suspensos, aviões foram impedidos de levantar vôo, grande confusão. Por quê? Algum atentado? Não! Tempestade de neve? Nem pensar, neste clima semi-tropical. Tratava-se de um OVNI! Isto mesmo, um Objeto Voador Não Identificado, o popular disco voador da ficção científica.

Foi e é demais. Convenhamos, disco voador é coisa de Varginha, Quênia, Triângulo das Bermudas, ou de cidade dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Mas aqui, na sagrada terra de Goethe, Hegel, Fritz Walter e Franz Beckenbauer?! Unmöglich! Impossível!

É mas assim foi. Lá estava ele, com sua luz estranha, avermelhada, segundo testemunhas, seu ir e vir, fora da Ordnung, fora do script, fora das quatro linhas, fora e dentro de tudo: algo unforhersehbar, imprevisível, o Zwischenfall, o imprevisto, o incidente que não estava no plano, uma palavra de construção curiosa, que poderia ser traduzida literalmente por “a entrequeda”, “a queda entre”, “a queda no meio”.

O que seria, afinal? As autoridades apressaram-se a trazer o objeto não identificado para a Ordnung. Criaram-se várias hipóteses: a mais fraca, que se trataria de um helicóptero perdido. Muito improvável, helicóptero é reconhecível e por menor que seja faz barulho. Aparentmente não havia barulho. Outra: algum teste militar. Se for o caso, a agência responsável fechou o bico e vai continuar com ele fechado. A mais forte: era um “Drone”, um “VANT”, em português, um “veículo aéreo não tripulado”. Claro que esta solução gerou outra pergunta: se era um “drone”, que “drone”era este? De onde vinha, para onde ia, como apareceu, como sumiu? Seria, por exemplo, um veículo de espionagem – quem sabe da National Security Agency dos Estados Unidos. Mas aí o assunto seria com o celular da chanceler, ainda de cama e com a crise de seu governo a mil.

Houve ainda quem dissesse que era “o espectro do comunismo” rondando mais uma vez a Alemanha e a Europa. Impossível? Como sempre, não vamos ser precipitados nestas terras: aguardemos as investigações.

Vi de passagem a reafirmação mais uma vez, desta vez por linhas tortas, do contido brio alemão; uma policial declarou, animada:

– Estamos preparados para a invasão.

Resta saber do quê. Marcianos? Búlgaros? Romenos?

Vá se saber. Fora da Ordnung, tudo é possível.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Beliel em Berlim

Ilustração de Ricardo Bezerra para "A Bíblia segundo Beliel", de Flávio Aguiar

Ilustração de Ricardo Bezerra para “A Bíblia segundo Beliel”, de Flávio Aguiar

Por Flávio Aguiar.

Estava eu posto em sossego, em meu aprazível tugúrio em Berlim, mas mourejando intensamente junto às teclas de meu laptop, quando fui literalmente assaltado por singular ocorrência.

Labutava eu na tradução deste livro estranho  e curioso, apaixonante e apaixonado, Os diários de Berlim: 1940 – 1945, da princesa russa Marie Vassiltchikov, para a Boitempo Editorial. Eu estava só: Zinka, minha esposa, fora a Hamburgo, para encontro de professores de língua portuguesa, e passaria a noite lá. E eu ficara ali, entre os braços, quer dizer, entre as linhas da princesa.

Era um dia de fim de outono, destes  que deixam Berlim permanentemente gris e desfolhada, em que a noite começa às quatro da tarde e só termina depois das oito da manhã seguinte, se é que termina. Não sei porque azo do destino a calefação não funcionava, meus dedos estavam encarangados de frio, mas continuavam batucando obstinadamente as teclas do alfabeto à minha frente, enquanto meus olhos buscavam mais e mais mergulhar nas linhas atravancadas pelas descrições dos horríveis bombardeios sobre a cidade, além da trágica Operação Valquíria, a da fracassada tentativa de mandar Adolf Hitler desta para a pior.

O ar dentro de casa estava tão frio que eu pensava estar não em Berlim, no mês de dezembro, mas em Vacaria, no planalto gaúcho, no mês de junho. Inutilmente procurava eu aquecer minha insone faina com goles de um Riesling Johannisberg Speziell  Reserve, quando, em meio aos vapores que me subiam à mente e saíam pelas narinas sob a forma daquelas verdadeiras névoas  que exalamos ao respirar ou bafejar em climas árticos, percebi que eu não estava só.

Em meio ao lusco-fusco da sala envolta em obscuras sombras em que me encontrava dedilhando a sinfonia da Segunda Guerra nas palavras melodiosas da princesa, divisei, sentada à cadeira de leitura, sobre o pelego de campanha que a cobre, uma sombra algo vaga e sinistra. A sombra foi se delineando mais e mais, e então eu vi, para meu assombro, medo e gutural espanto, a figura de um homem, de barbicha preta, bem aparada, cabelos puxados para trás e cobertos por uma  brilhantina discreta, mas brilhantina, terno preto e olhar suspicaz que ele ergueu dos sapatos de bico fino, pretamente brilhosos, me encarando.

Parecia um yuppie, destes que devem votar no DEM, e que agora podem estar prestes a entrar no PSB, desfraldando a bandeira socialista.

Procurando controlar e disfarçar meu sobressalto, ao mesmo tempo intrigado, sem saber como ele entrara, perguntei:

- Quem és?

- Ora, não me reconheces? Retrucou a sombra.

- Como assim?

- Sou tua criatura.

- Não tenho criatura nem criado aqui em Berlim! Como entraste? De onde vens? O que queres? Saia já, senão eu chamo a vizinha de cima, que não gosta de barulho e sempre bate com a vassoura no teto do nosso apartamento quando se sente incomodada pela nossa música, disse eu, ameaçadoramente.

- Ora, ora…  Calma, meu Jeová, meu Criador, como entrei? Saí de tua mente, de teu livro, sou o teu Beliel, o anjo que fizeste recontar a história do Livro Sagrado…

Seria um pulha? Um rufião? Resolvi testá-lo:

- Diga como começa a página 30!

E ele recitou:

- “Lua cheia – assim em itálico – e depois: Rodei e rodei pelo mundo, talvez setenta e sete vezes. Nunca me liguei a ninguém. Nas cidades que criei e que abandonei conheci mulheres atraentes…” Não te lembras, caro autor de meus dias? É do livro de Caim, por ele mesmo…

Pasmo, tive de reconhecer que ou ele falava a verdade ou decorara bem o livro.

- Se és quem dizes que és, que me queres? Perguntei agressivamente.

- Venho te propor um pacto…

- Um pacto? Como assim? Se és Beliel, és o anjo que fiz renarrar a Bíblia, em meu livro A Bíblia segundo Beliel. Pacto com anjo, nunca ouvi falar. A gente faz pacto com o demônio, de sangue, de morte, até com Deus se faz pacto, como quis fazer o Salieri, aquele músico da peça e do filme sobre o Mozart…

- Aliás, muito injustiçado o Salieri, tanto na peça, como no filme… Na verdade ele era um bom músico, e ajudou muito o pobre e irrequieto Mozart… Mas deixemos isto de lado. Sou um anjo sim, mas podes fazer um pacto comigo, por que não? Ademais, conforme me criaste, posso ser considerado, assim, o diretor de uma verdadeira holding de narradores e personagens, na qual também tomam  parte alguns demônios, como Lúcifer, Misgodeu…

- Pois é, disse eu. Conforme deixei vocês, tu e o Misgodeu deveriam estar tomando conta do Fim do Fim do Juízo Final, no que resta do Paraíso Terreal…

- É verdade, caríssimo autor. Mas podes encarar a coisa assim: ou isto só vai acontecer depois de muuuuuitos anos-luz, ou anos-trevas, ou então simplesmente eu peguei um desvio da história, e aqui estou. Ademais, eu e o Misgodeu, aquele ex-factotum do Inferno, conversamos a respeito, e decidimos dar uma nova feição ao tal de Paraíso  Cristão. Vamos transformá-lo, vamos contratar algumas virgens do Paraíso Muçulmano, mais umas anjas paraguaias, destas que gostam de aparecer nos estádios das Copas do Mundo com algumas de suas virtudes a mostra e vamos criar o Paraíso Turismo Incorporado Sociedade Anônima: venha ser o tal, venha conhecer o verdadeiro Paraíso Terreal, agora sob nova administração e cheio de inferninhos… eheheh!

Mal podendo acreditar em tais heresias – religiosas e literárias – ainda perguntei:

- Mas o que me ofereces?

- Ora, acabo de te dar uma dica do que venho te trazer: a oferta de uma cratividade sem fim, desde que continues a tua historieta, para depois do Juízo Final, assim, desta forma que estou te sugerindo, com novos desdobramentos menos canônicos, menos ortodoxos, mas que podem te levar ao encontro das cornucópias da riqueza e do prazer sem fim… Podes te tornar um Paulo Coelho do Paraíso…

- Vade retro! Como me provas que não és Satã disfarçado de anjo narrador?

- Ora, e faz diferença? Criação é criação, venha ela de Deus ou do Diabo, nesta Terra sem Sol, esta Berlim de todas as guerras, bênçãos e maldições, de acordo mesmo com este livro que traduzes febrilmente… E não faças esta cara de anjo inocente. Foste tu mesmo quem despertaste em mim esta pujança dos poderes infernais, com teu desejo blásfemo de renarrar o já sagradamente narrado. És o culpado, até provares tua inocência! Não conheces a Teoria do Domínio do Fato, hoje tão em voga em teus pagos natais? Ao réu cabe o ônus de provar sua inocência, e quanto mais ele queira prová-la, mais culpado se mostra, não é mesmo?

Nesta altura notei que o personagem à minha frente tinha mudado completamente. Estava vestido de toga preta, como um juiz, e bufava e falava num tom peremptório e arrogante, em altos brados…

- Olha, disse eu, fala baixo, senão eu chamo a vizinha, e vais ver com quantos cabos se faz uma vassoura… Mas como podes mudar assim?

- Meu amigo, retrucou a Sombra, dás pena, em teu afã de fingir-te inocente. Leste ou não leste o Dr. Faustus do Thomas Mann? O Mefistófeles que aparece ao músico Adrian Leverkühn e lhe concede o dom da criatividade infinita muda de forma várias vezes, não é mesmo? Ou querias disfarçar, dizendo que não te inspiraste também nele? Teu caso vai de mal a pior, e assim serás condenado ao Inferno em regime sempre fechado, ao invés do regime semi-aberto que ainda estou te oferecendo…

- Preciso pensar, respondi, para ganhar tempo.

Ele de novo mudou de forma. Parecia agora um Black Bloc, de lenço negro cobrindo o rosto, capuz e tudo, vestindo um bermudão e tênis Reebok legítimo da Vinte e Cinco de Março. E falou, já levantando um coquetel Molotov de estopim aceso:

- Não tens muito tempo. É dá ou sobe: ou dás a resposta agora, ou já sobes para o teu Juízo perante o Senhor e Lúcifer! Nós outros estamos e estaremos muito ocupados, preparando as manifestações para próxima Copa do Mundo, além de fazermos todas as urucubacas possíveis e impossíveis para produzir uma nova hecatombe igual àquela  de 16 de julho de 1950, no Maracanã. Não temos tempo, é pegar ou pegar, senão te deixo na mão, o que, se não é uma solução, pelo menos é uma rima. Pobre, mas rima.

- Mas não me dás opção, disse eu, só para continuar a rima. Afinal, como já disse algum dos Andrade, José Bonifácio, Oswald ou outro, nós somos na Terra o Milagre do Ão. E logo a mim, ajuntei, que sou ateu não-praticante, não sou muçulmano, budista, animista ou cristão…

Agora ele estava com o ar de um padre daqueles pançudos, c om uma batina castanha, a carequinha rotunda sobre os cabelinhos esparsos da fronte à traseira da nuca.

- Queres te safar, mas não te deixo em paz…  Nós estamos em toda a parte, nos espalhando que nem bolinhas de mercúrio. O Bergoglio está fazendo um esforço para nos conter, está metendo a mão até na cumbuca do Banco do Vaticano, mas não adianta, Mais Fortes são dos Poderes do Polvo que nós somos, vamos te assombrar até o fim dos teus dias, cristão ou ateu, muçulmano ou à toa…

E dando uma risada cavernosa ele soltou um enorme PUF! E se esfumou no ar.

Apesar do frio reinante, eu suava em bicas. Deveras preocupado, corri até a estante, peguei meu A Bíblia Segundo Beliel, folhei-o àvidamente, e constatei com alívio que estava tudo como dantes, Beliel placidamente terminando a reescrita do Livro Sagrado sob as folhas da palmeira, como a jandaia de Alencar.

- Ufa! Me disseram os meus botões, pensando por mim. Que encrenca nos arranjastei. Como vamos sair desta? Fou tudo alucinação, ou verdade, ou ambas as coisas?

Para deixar de tormentos e em busca de um pouco de paz, alisei os botões, repus o Beliel na estante e voltei logo à princesa e à Segunda Guerra.

Bíblias, nunca mais! Ou será que… quem sabe… eu poderia… um dia…

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Analfabeto na Alemanha é dureza

Flávio AguiarPor Flávio Aguiar.

Sempre achei que podia ter algo torto em dizer que Deus escreve certo por linhas tortas. Isto me parecia algo como querer desculpar os sofrimentos pelos quais a gente acaba passando. Mas acabo de ler uma matéria no jornal Bild, de Berlim – uma espécie de Notícias Populares (quem lembra?) daqui – dizendo que há 316 mil analfabetos funcionais na capital alemã, em idade adulta (mais de 18 anos). Isto é um pouco menos do que 10% da população da cidade (3,4 milhões). São filhos de imigrantes? Não. São imigrantes? Não.

São pessoas de todos os tipos que tiveram dificuldades escolares variadas, ao que parece, motivadas também por razões variadas, que vão desde problemas emocionais, lares desfeitos, confusões escolares e profissionais.

Em todo caso, é muita gente.

Com um detalhe: ser analfabeto na Alemanha é dureza.

O drama daquele filme (o romance é muito bom) – O leitor – só poderia se dar na Alemanha. A protagonista prefere confessar um crime que não cometeu – elaborar uma lista de prisioneiros a serem transferidos, e eles morrem por causa disto – a confessar que não sabe ler nem escrever. Só na terra de Martin Luther e Max Weber combinados isto pode acontecer. Max Weber deu um retoque sociológico às teses de Lutero.

Porque se você não sabe ler a culpa é sua.

Martin Luther é o grande reformador alemão da cristandade. Um deles, mas o maior. E a reforma protestante, com muito boas intenções, criou um problema ético gigantesco. Uma das coisas que a reforma aboliu foi a confissão.

Claro: a confissão era uma fonte de manipulação política sem fim. Todas as casas reais da Europa tinham seus confessores. Eles formavam uma espécie de rede social secreta, por onde informações confidenciais passavam por baixo do pano para os poderes vaticanos e afins.

Mas a abolição da confissão colocou o ser humano nu diante de Deus. Nu: sem confessor, sem santo (porque o culto aos santos e a imagens foi abolido), sem despachante, sem intermediários.

É uma situação terrível.

Eu me criei boa parte da infância e primeira adolescência (a última ainda está por chegar) em colégio jesuíta. A confissão era cercada por rituais sagrados e frases tremendas. “Padre, dai-me a bênção porque pequei…” E a gente tinha de saber os mandamentos de cor, para dizer contra qual tinha pecado. Daí vinham aquelas perguntas capciosas: “foi sozinho ou acompanhado, meu filho”…

A gente suava frio, mas saía de lá, tendo ouvido a absolvição, rezava umas quantas ave-marias e outros tantos padre-nossos (naquele tempo era padre-nosso) e pronto: estava com a alma ficha limpa, pronta para ser novamente recoberta de pecados.

Depois, crescendo mais, passei a abominar essa prática retroalimentada por padres retrógrados (nem todos, é bom que se diga) que vinham trovejar nas aulas sobre excomunhões, infernos, blasfêmias, etc. Teve um até que falou do inferno com uma caveira na mão – que não sei de onde ele tirou. Era tudo muito dramático, impressionante. Outro pegou um papelzinho com uma daquelas correntes de Santo Antônio e rasgou-o em plena aula de religião, dizendo que aquilo tinha parte com o demônio. Minha avó – santa avó – passava as correntes de Santo Antônio. Como ela era semianalfabeta – mal sabia escrever o nome e um pouco mais – eu datilografava os bilhetinhos da corrente pra ela. Daí eu pensei: minha avó tem parte com o demônio? Impossível. Se ela tiver, coitado dele! Ela vai querer mandar no inferno como manda na cozinha da nossa casa: com mão de ferro! Comecei a desacreditar naquela coisarada toda.

Mas meu assunto é outro: Minha avó era semianalfabeta – analfabeto funcional, se diz hoje. Mas não sentia a menor culpa por causa disso. Até mesmo porque de vez em quando ela se sentava na sua cadeira de balanço e fingia ler o jornal. É: fingia. Não se contentava em olhar as fotografias. Murmurava coisas, manchetes inexistentes, coisas assim. Era divertida e divertido.

Mas juntando confissão e leitura, foi aqui na Alemanha que descobri a outra volta do parafuso. Vários amigos meus, protestantes, que aqui no norte do país são a maioria, me confessaram que invejavam seus amigos católicos. Por quê? Por causa da confissão, disseram.

Sem confessor, sem santo padroeiro para pedir a intervenção, sem Nossa Senhora Aparecida para socorrer, eles tinham de pedir perdão a Deus diretamente, assim como se fosse na linha vermelha entre o Kremlin e a Casa Branca. É mole? Não é. Contaram-me que pedir perdão a Deus era um ato de terror, mais do que de contrição. Era uma coisa sem palavras, uma culpa infinita.

Mais ou menos como o terror que assalta a protagonista daquele filme quando ela se vê interrogada sobre o documento que não escreveu. Prefere confessar que escreveu o que não escreveu a confessar que não podia, na verdade, escrever nada. Porque não aprendera a ler. Na terra de Goethe, isto é um crime tão gigantesco quanto aquele de que ela era acusada. Pelo menos para a sua consciência, absolutamente desnuda e desprotegida por diante de sua falta.

Fico pensando nestes 316 mil analfabetos funcionais em Berlim. Que o sofrimento lhes seja leve, e que possam de alguma forma aprender logo a ler e a escrever, se tiverem vontade.

Depois ainda penso: ainda bem que me livrei da confissão e daquela tralha toda do catolicismo repressivo. Mas penso também: ainda bem, quem sabe, que tive de passar por este labirinto para ter alguma compaixão pela humanidade – até por mim mesmo, sem virar um autocomplacente.

Vai ver que Deus escreve mesmo por linhas tortas.

***

A Bíblia segundo Beliel: da criação ao fim do mundo, como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar, já está disponível em versão eletrônica (ebook) por metade do preço do livro impresso aqui. Confira abaixo um capítulo do livro recitado pelo próprio autor:

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Hoje voltamos todos a Brasília

13.11.14_Flávio Aguiar_Hoje voltamos a BrasíliaPor Flávio Aguiar.

Hoje voltamos todos a Brasília
Com os despojos do nosso eterno presidente

Seremos recebidos todos com as honras e as cicatrizes de um futuro que não houve
E de um passado que não passa

Hoje voltamos todos a Brasília
Para cantarmos tudo o que não cantamos
Arrepanhar as almas penadas que ficaram dentro de nós
As  dos que se foram antes do tempo
E a nossa que aos pedaços com eles também se foi

Hoje voltamos todos a Brasília
Levamos em nossos olhos
Os olhares dos que ficaram para trás
Mas deixaram suas marcas em nossas retinas
E levamos junto os olhos de nossos filhos, de nossos netos

Com a esperança de que eles não vejam o que vimos
O futuro ser roubado de gerações inteiras

Hoje voltamos todos a Brasília
Com o peso do que perdemos no coração
E as asas
E as asas
E as asas

Batendo nas vidraças
Passando pelas grades
Ruflando na escuridão
Entre as estrelas

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

É Brasil…

13.10.17_Flávio Aguiar_Eh BrasilPor Flávio Aguiar.

Depois da Feira do Livro de Frankfurt, eu e a Zinka tomamos o avião de volta para Berlim, no domingo, final de tarde.

Por mais exíguo que seja o assento (e é), por mais parco que seja o serviço de bordo (e é), sempre é uma oportunidade para relaxar. Lamentei até que o voo fosse tão curto: 50 minutos. Porque depois viria a azáfama, o corre-corre de pegar mala, arrastá-las pelos corredores, tomar condução, descer no Zoo (antiga estação central da ex-Berlim Ocidental), arrastar de novo as malas, tomar o metrô, descer, arrastar de novo as malas, chegar ao edifício, subir ao primeiro andar…

Nos primeiros instantes de meu relaxamento, lembrei-me de alguns atos típicos da nova brasilidade que estamos vivendo, desde que setores da velha classe média e black bocs pirados resolveram desencadear uma campanha anti-governo brasileiro, com ânimos exacerbados por toda parte e por todos os lados envolvidos.

Há um certo frenesi de soltar a franga, convenhamos, em qualquer lugar e de qualquer jeito. Fala-se tudo o que se pensa e sobretudo o que não foi pensado, mas veio aos borbotões para fora – sempre com acolhida na velha mídia, desde que seja contra o governo. E também em boa parte da mídia internacional, onde grassa um desejo obsessivo de “desconstruir” o Brasil, uma vez que ele se tornou um pulgão – talvez um enorme percevejo, quem sabe uma mutuca das boas, na camisola neo-liberal que, esfrangalhada, teima em se esticar para ocultar a crise de teoria e práxis que está vivendo.

Duas reações da brasilidade me vieram à tona, ambas na sessão de abertura. A primeira foi ao final do discurso do Luiz Ruffatto: um discurso duro, expondo as mazelas seculares da nossa terra, com um pequenino parágrafo de duas frases mais ou menos, dizendo que “nos últimos dez anos as coisas tinham melhorado”. Ao fim, em meio aos ensurdecedores aplausos de pé, um prestigioso intelectual brasileiro presente levantou-se e gritou que era melhor o Ruffatto “mudar-se do país”. Tudo bem: apesar da justiça do discurso dele, achei-o um pouco exagerado e algo complicado para o momento, de abertura da feira, devido ao exagero. Mas não é por isso que vamos reeditar um “Brasil, ame-o ou deixe-o”, não é mesmo?

A segunda ocasião veio ao final do discurso do vice-presidente Michel Temer, que fez muitos elogios ao Brasil do Bolsa Família, do aniversário da Constituição Cidadã (como a velha mídia calcou depreciativamente este nome dado por Ulysses Guimarães!), etc., com exageros de vice-presidente, é claro. Na segunda parte do discurso o vice-presidente (haverá aí algum complexo de vice, dado exemplos anteriores, tipo “Marimbondos de fogo”?) evocou suas primeiras experiências de leitura, atravessando pelo campo 6 km a pé, ainda menino, para ir até a Biblioteca Pública mais próxima, e seu primeiro livro de poemas, recentemente editado. Ao final, no assomo de não-sei-o-quê, um grupo de umas 20 pessoas brasileiras, situadas à minha direita, no fundo, ensaiou uma vaia, que sumiu debaixo dos aplausos, mesmo que protocolares se assim o fosse. Os alemães não devem ter entendido nada. A velha mídia brasileira também não entendeu, mas captou o instante e as manchetes lascaram: “Temer vaiado em Frankfurt”, ou algo assim. Parecia que a cidade inteira estava vaiando o vice, quando, na verdade, o que acontencera fora um gesto de deseducação por parte de uma pequeníssima parcela das mais ou menos duas mil pessoas que lotavam o auditório (cerca de 1%, ou menos ainda, se levarmos em conta o pessoal do lado de fora, que não entrara).

Ficava eu pensando, de olhos fechados, nestes sintomas de desarrazoamento espiritual que vem assaltando brasileiros em momento de rápidas mudanças sociais, e como isto afirma velho hábito de muitos viajantes de falar mal do Brasil, ou vaiá-lo simbolicamente, quando no exterior, achando que isto agrada europeu, quando assaltou-me a apreensão da conversa no banco de trás, para que a Zinka me chamou a atenção.

Eram duas vozes, uma masculina, que falava mais, e outra feminina, que concordava com tudo. Visivelmente, ou melhor, auditivamente eram marido e mulher, que viajavam e comentavam as benesses da viagem – logo apreendi – à “civilização”, para longe da “nossa barbárie”…

Espremido na poltrona menor que os sete palmos medidos do poema do João Cabral, ouvi a voz masculina dizer: “como o voo aqui é melhor do que o da… (a companhia nacional com que tinham chegado a Frankfurt)! O serviço de bordo é muito melhor!”.

Aí veio a informação principal: “até o gelo daqui tem gosto melhor do que no Brasil!”.

E a voz feminina concordava.

Só falta elogiarem o café, eu pensei.

Daí a conversa concentrou-se abaixo do avião.

“Olha como tem verde!”, disse a máscula voz. “Muito mais do que no Brasil!” (Pobre Floresta Amazônica, eu pensei). “É”, disse a fêmina consorte, “mas olha como tem folhas amarelas. Por que será?” O silêncio que se seguiu deixou-me em dúvida: seria um silêncio obsequioso, diante da estupidez da pergunta, ou seria um silêncio filosófico, manifestando igual perplexidade diante de uma natureza exótica e abstrusa? Lembrei-me de outra ocasião, de outro comentarista igualmente perplexo diante de tais manifestações da alteridade, de uma natureza “outra”, no caso hibernal, aqui em Berlim, diante das árvores que tinham perdido esmagadoramente suas folhas: “Nossa! Eu não imaginava que a Segunda Guerra tivesse feito tanto estrago!”.

Daí o másculo sábio comentou: “Você se lembra da neve que vimos lá embaixo?” (Deve ter sido atravessando os Pirineus, eu conjeturei). “Como era bonita vista daqui de cima, tudo branquinho… É, mas pra quem vive lá embaixo a neve é um inferno!”. Bom, pensei, ele deve ter lido Dante, pois no fundo do inferno o poeta encontra gelo (que também deve ser melhor do que o do Brasil) ao invés de fogo. Não pude também reter o pensamento: serão eles membros da nova ou da velha classe média? Oh, dúvida cruel… E o Marcio Pochmann não estava ao alcance da voz para me esclarecer… nem o Ricardo Antunes, nem a Marilena Chaui… Meu iPad não tinha internet no avião… Eu estava perdido… Mas salvou-me o próximo capítulo, aquoso.

“Olha o rio! Que bonito!”, disse a voz feminil. “Pois é”, retrucou a macha voz, “pode ser o Reno”. Tudo, pensei eu, menos o Reno, que fica pros lados da França. Pode ser até o Elba. “Mas olha”, continuou a virília voz, “parece um espelho. Sabe, aqui na Europa os rios são todos limpos. Não há rios barrentos como .” Puxa, eu pensei, se o Gonçalves Dias tivesse ouvido esta conversa… Teríamos: “Os rios que aqui correiam/Não barreiam como ”. Perdeu-se um grande poema!

“Você vai ver”, atacou de novo a máscula garganta, “como as estradas daqui são melhores. São lisinhas, não têm nenhum buraco! A gente pode passar de 100 numa boa!”. Imaginei que a admiração subiria de tom se ele soubesse que os alemães adoram andar a 300, e ficam furiosos porque nos outros países, como a França, as auto-estradas têm limite de velocidade. Mas não pude deixar de reconhecer: de fato, as estradas europeias são, em geral, melhor conservadas do que as brasileiras. A voz marcara um ponto.

Mas logo adiante ela desfez o ponto que fizera. O avião pousava. E ela, a voz: “Veja esta pista, é perfeita! Parece uma seda!”.

Ufa!, pensei. Chegamos. Felizmente o voo era curto. E logo viria a azáfama, o corre-corre de pegar as malas, arrastá-las pelo corredor, tomar a condução… e fugir, fugir, fugir daquelas vozes, que, no entanto, os anos não apagarão jamais.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.