O fantasma da meia-noite

"Certa vez recebi na minha casa, um sítio em Itapecerica da Serra, uma estudante francesa – Melanie – que fazia uma tese sobre Clarice Lispector. A casa era isolada, no meio de um terreno enorme, com vizinhos distantes e uma mata natural que a cercava. A estudante acreditava que o Brasil, com seus terreiros e macumbas, era uma terra propícia a experiências extra-sensoriais..."

Por Flávio Aguiar.

Certa vez recebi na minha casa, um sítio em Itapecerica da Serra, uma estudante francesa – Melanie – que fazia uma tese sobre Clarice Lispector. A casa era isolada, no meio de um terreno enorme, com vizinhos distantes e uma mata natural que a cercava.

A estudante acreditava que o Brasil, com seus terreiros e macumbas, era uma terra propícia a experiências extra-sensoriais. Por isto, além de pelos estudos, fora a nosso país. Entre outras coisas, ela me confiou que tinha certeza – veja bem, certeza – de que em outra encarnação ela e Clarice tinham sido irmãs. Ou melhor, meio-irmãs, porque ambas eram filhas do mesmo pai, um senhor de escravos na região de São Sebastião, litoral de São Paulo. Ou seria em Paraty, no Rio de Janeiro? Não importa. Ela, Melanie, era uma negrinha, filha do senhor com uma de suas escravas. Eu escutava aquilo, entre desconfiado e divertido.

Até que um dia ela me contou que seu ex-namorado morrera num acidente muito parecido ao que deformou um dos braços de Clarice. Ou seja, ele dormiu com um cigarro aceso na mão e o colchão pegou fogo. Ao contrário de Clarice, não sobreviveu ao acidente. Foi para o outro mundo.

E a história foi adiante. Disse ela estar convencida – veja bem, convencida – de que ele – seu espírito – estava tentando entrar em contato com ela.

– Logo aqui, na minha casa?, eu perguntei, entre incrédulo e apavorado.

– Sim, ela confirmou. Por isto eu tenho dormido com a janela aberta.

Ai, ai, ai, eu pensei. Disse-lhe que não era uma boa ideia dormir com a janela aberta. Além do frio (Itapecerica fica a uns bons 1000 metros de altitude), o quarto onde ela dormia, ao lado da cozinha, dava diretamente para o mato próximo. Sei lá o que poderia acontecer. Perguntei:

– Por que você pensa que ele está tentando fazer contato?

– Ele tem batido na porta da cozinha durante a noite, foi a resposta.

Aí eu tremi nas bases. Mas não quis desmenti-la, com medo do que poderia acontecer se eu perdesse o controle da situação. Então, falei:

– Olhe, vamos fazer o seguinte. Esta noite, depois da minha mulher e das crianças dormirem (tínhamos três meninas), ficamos os dois na cozinha, esperando as batidas desse fantasma.

Assim foi dito, assim foi feito. Não disse nada a ninguém. Pretextei um trabalho a fazer, e depois que as quatro dormiram, fui até a cozinha, sentei-me com Melanie à mesa, ficamos bebericando algo, aguardando a manifestação do além.

E não deu outra. Cerca da meia-noite, soaram batidas na porta da cozinha: bam-bam-bam!

– Viu só?, ela perguntou, cheia de razão.

Eu estava cheio era de medo, mas decidido a enfrentar o outro mundo, fui até a porta, e abri-a de supetão.

Meu coração e algo mais em meu corpo gelaram: dei de cara com o nada, ninguém, só a escuridão da noite.

Assustado até o fim da espinha, dei um passo para trás. E aí vi, a meus pés, junto à soleira da porta, minha cachorrinha preta e peluda, Naná, se coçando.

Respirei um dos respiros mais aliviados da minha vida. Mostrei a cachorrinha para a Melanie: era ela que, se coçando, batia com o canto da pata na porta…

Bom, o resultado foi o seguinte. Consegui convencer Melanie a não dormir mais de janela aberta, pois se tentativa de contato havia, era pela porta. O argumento funcionou, porque para a jovem francesa o fato da Naná estar cutucando a porta com a pata era uma prova de que o seu ex-namorado estava, realmente, tentando passar-lhe uma mensagem.

Dias depois, Melanie se foi para o Rio de Janeiro, e dentro de alguns meses voltou para Paris. Defendeu sua tese com brilhantismo. E até hoje não sei se o namorado entrou em contato ou não. O que sei é que alguns anos depois a Naná morreu de morte morrida e me deixou uma saudade danada.

***

Falando nisso | Para saber mais sobre os fantasmas, espectros, vampiros e criaturas sobrenaturais que circulam pelo nosso mundo materialistas, recomendamos assistir a aula de Jorge Grespan sobre fetichismo na TV Boitempo. O vídeo integra uma série conduzida pelo historiador em torno de seu mais novo livro Marx e a crítica do modo de representação capitalista. Afinal, nada mais fantasmagórico que a dialética entre o sensível e o suprassensível que atravessa o conceito de mercadoria desenvolvido por Marx em sua obra máxima O capital.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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