Guia de leitura | Imperialismo e questão europeia | ADC#29

Imperialismo e questão europeia
Domenico Losurdo

Guia de leitura / Armas da crítica #29

Quais características deve possuir hoje um movimento de emancipação para ser considerado como tal? Contra qual antagonista devemos concentrar as nossas energias? O que devemos entender por imperialismo? Esses e outros questionamentos são debatidos no livro da caixa de março: Imperialismo e questão europeia, obra póstuma de Domenico Losurdo, organizada por Emiliano Alessandroni, com base em um conjunto de artigos escritos entre 1978 e 2017, tematizando a União Europeia em diferentes fases.

Losurdo contribui para lançar luz sobre alguns nós não desatados do nosso presente: o legado da tradição colonial e do nazifascismo, a democracia moderna e a identidade política da União Europeia. Os artigos selecionados fornecem os instrumentos analíticos com os quais é possível refinar a nossa perspectiva de conflitualidade, libertar-se de uma representação mecanicista das contradições sociais e adquirir, tanto do ponto de vista espacial quanto temporal, um olhar muito mais amplo e profundo sobre os grandes conflitos que inflamaram e continuarão a inflamar os nossos tempos.

A caixa ainda é acompanhada do livreto Revolução e rebeldia intelectual: o legado de Domenico Losurdo, de Jones Manoel, além de um bloco de notas exclusivo para os nossos assinantes.

autor Domenico Losurdo
tradução Sandor José Ney Rezende
organização e introdução Emiliano Alessandroni
posfácio Stefano G. Azzarà
orelha Rita Coitinho
edição Pedro Davoglio
diagramação Antonio Kehl
coordenação de produção Livia Campos
capa Maikon Nery
páginas 264

Quem foi Domenico Losurdo?

Domenico Losurdo nasceu em 14 de novembro de 1941 em Sannicandro de Bari, no Sul da Itália. Doutorou-se com uma tese sobre Karl Rosenkranz e foi professor de História da Filosofia na Universidade de Urbino.

Intelectual e militante comunista, voltou-se para o estudo de filósofos alemães como Kant, Hegel, Nietzsche e Heidegger. Após o fim da União Soviética, no início dos anos 1990, dedicou-se a quatro eixos centrais de pesquisa com análises eruditas e afiadas: a crítica do liberalismo, o balanço das experiências socialistas, a crítica do imperialismo e do colonialismo, e a crítica do marxismo ocidental. Faleceu em 28 de junho de 2018, deixando uma obra que marcou profundamente o marxismo do século XXI.

Pela Boitempo, publicou A linguagem do império (2010), A luta de classes (2015), Guerra e revolução (2017), O marxismo ocidental (2018), Hegel e a liberdade dos modernos (2019), Colonialismo e luta anticolonial (2020), A questão comunista (2022) e Imperialismo e questão europeia (2023).

“Acredito que deveríamos lançar uma palavra de ordem em escala internacional: deveríamos lutar em todos os países e em todas as regiões para que os Estados Unidos fossem denunciados e estigmatizados como senhores da guerra e invasores.”

DOMENICO LOSURDO

O conceito de imperialismo

Com esta coletânea de artigos, esperamos não só atender aos seus últimos desejos e contribuir para dar a conhecer o seu pensamento sobre o tema aqui exposto, mas também lançar luz, precisamente, sobre a controversa questão europeia e sobre o conceito de imperialismo.

Os textos que aqui reunimos conservam, salvo algumas pequenas alterações realizadas para evitar a perda da lógica temática, a ordem cronológica em que surgiram, e abrangem um período que vai de 1978 a 2017. A maioria dos títulos manteve-se inalterada e, aonde foram feitas alterações, o título original foi indicado em nota.

Emiliano Alessandroni na introdução de Imperialismo e questão europeia

“Um raciocínio, sem dúvida, de grande originalidade nos marcos do marxismo de nossa época, que recoloca em chave criativa os desenvolvimentos de Lênin, Mao e Gramsci. Uma leitura imprescindível para os nossos dias.”

RITA COITINHO

O lugar dos Estados Unidos

Losurdo enfrenta a questão antieuropeísta retornando a Lênin, para quem “o capital financeiro é uma força tão grande e tão decisiva em todas as relações econômicas e internacionais, que é capaz de subordinar, e de fato subordina, mesmo os Estados que contam com uma independência política mais completa”. Retoma também Mao Tsé-Tung, que já apontava a supremacia dos Estados Unidos no cenário internacional.

A luta contra a subjugação política das nações intensifica-se e, diante dela, a União Europeia não se constitui como o adversário, mas como possível mecanismo de articulação das nações continentais em uma luta de resistência ao domínio dos Estados Unidos.

Ao identificar no imperialismo dos Estados Unidos a principal força de contenção do desenvolvimento soberano dos povos e nações de todo o mundo, Losurdo retoma a questão da formação dos blocos regionais, entendendo-os como alternativas de reposicionamento das lutas nacionais, que as fortalece, e não como ameaças à independência e à soberania. 

Rita Coitinho

Socióloga, doutora em Geografia Humana, escritora e tradutora.

“Amplamente imunizada pela ideologia imperial-religiosa, que se espalha além do Atlântico, a Europa, no entanto, revela-se incapaz de compreender adequadamente esse entrelaçamento entre fervor moral e religioso, por um lado, e uma busca lúcida e inescrupulosa de hegemonia política, econômica e militar em âmbito mundial, por outro. Mas é esse entrelaçamento, esse fundamentalismo peculiar que permite aos Estados Unidos, graças à sua consagração divina, considerar irrelevante a ordem internacional vigente, as leis puramente humanas.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.77]

L’Ouverture e Lênin

A Europa e o Ocidente adoram exibir seu “individualismo” como um título de glória que os distingue positivamente do restante do mundo. Mas se por essa categoria entendemos o reconhecimento de todo indivíduo, independentemente de renda, sexo ou raça, como sujeito titular de direitos inalienáveis, é claro que não podemos compreender esse resultado sem a contribuição da tradição revolucionária que vai de Toussaint L’Ouverture a Lênin, sem a contribuição de personalidades e movimentos que a ideologia dominante ainda hoje luta para considerar estranhos à Europa e ao Ocidente autêntico. […]

Mas quem melhor expressa o “individualismo” europeu ou ocidental, Toussaint L’Ouverture, que levando a sério a declaração dos direitos humanos, lidera a revolução dos escravos de Santo Domingo (“nenhum homem, nascido vermelho, preto ou branco pode ser propriedade de seu semelhante”), ou Napoleão Bonaparte, que tenta reintroduzir a escravidão (“sou pelos brancos, porque sou branco; não há outra razão senão esta, mas esta é suficiente”). O expressa melhor Lênin, que lança o apelo aos “escravos das colônias”, para que quebrem suas correntes, ou Mill e seus seguidores em terra inglesa ou francesa, que teorizam a “obediência absoluta” das “raças” consideradas “inferiores”?

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.40-41]


Toussaint L’Ouverture e Lênin movem-se à margem do mundo europeu e ocidental, mas assimilaram a sua cultura mais elevada, sem nunca perder o profundo vínculo que os une ao próprio povo e à própria terra.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.41]

A crítica da Europa e do Ocidente

A crítica mais radical e incisiva da Europa e do Ocidente é aquela que sabe valorizar as categorias e os materiais elaborados por suas correntes de pensamento e por seus movimentos políticos mais avançados. O enfraquecimento ou desintegração de uma posição capaz de unir a crítica do Ocidente ao reconhecimento de seus pontos altos e do valor universal de sua herança explica o fato de que, hoje em dia, os movimentos de resistência à política hegemônica e imperial do Ocidente tendem a tomar cada vez mais a forma de uma guerra religiosa e civilizatória.

Rompido o equilíbrio entre a crítica ao Ocidente e a herança de seus pontos mais altos, a guerra santa do Ocidente corresponde à guerra santa do Islã. Eis, então, o clash of civilisations [choque de civilizações], ou o choque entre kin-countries [países-afins], isto é, entre linhagens diferentes e opostas.

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.42]

Socialismo e comunismo nada têm a ver com igualdade na miséria e na austeridade dos costumes: se mesmo durante todo um período persiste o problema de uma distribuição de algum modo justa da escassez, em primeiro lugar ‘o socialismo significa a eliminação da miséria‘.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.47]

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Marxismo e populismo

Como resulta da leitura da história do movimento comunista internacional, das posições tomadas pelos movimentos revolucionários e, acima de tudo, da análise concreta da situação concreta, colocar as grandes potências capitalistas num mesmo nível não é de forma alguma sinônimo de rigor revolucionário e comunista. Antes, cabe perguntar se nessa atitude purista não há um resíduo de populismo, que percebe como elemento perturbador toda análise que emerge do esquema da contradição única (aquela entre humildes e poderosos) e como elemento de contaminação qualquer relação que vá além do mundo dos humildes.

Mesmo que a contradição humildes/poderosos assumisse uma forma estatal e se configurasse como contradição entre os países pobres do Terceiro Mundo e os países ricos e imperialistas, continuaria a afirmar-se como uma contradição única e permaneceria no contexto do populismo.

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.53]

“A reconstrução de um ponto de vista marxista e comunista, com a neutralização das influências populistas, envolve, portanto, a superação das velhas polêmicas entre stalinismo e trotskismo, bem como entre titoísmo e antititoísmo ou entre maoísmo e antimaoísmo. É necessário saber acolher Trótski e Stálin junto de Lênin e Bukhárin em um panteão revolucionário ideal; Tito e suas vítimas leais ao Cominform e à União Soviética; Mao junto de Liu Shaoqi e Deng Xiaoping.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.57]

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O papel da China

O imperialismo também tem uma dimensão ideológica, a exemplo dos Estados Unidos, que se autodefine como uma “nação eleita” e “única” e que reivindica seu direito de intervir e cumprir sua “grande missão” em todos os cantos do mundo. Diametralmente oposta é a ideologia reafirmada pelo recente Congresso do PCCh que, no plano internacional, reafirma os princípios da coexistência pacífica e da igualdade entre os diferentes países e, no plano interno, exige redobrar os esforços para manter a “estabilidade” e garantir o bem-estar geral de uma população que equivale a um quinto da humanidade! […]

É uma reedição do “grande jogo” que levou à derrota e ao desmembramento da União Soviética. E, portanto, mesmo partindo do pressuposto (arbitrário) da restauração do capitalismo na China, suas contradições com os Estados Unidos não poderiam ser definidas como competição entre “polos imperialistas”. Seria preocupante se os comunistas reconhecessem e apoiassem uma luta pela libertação ou independência nacional apenas quando ela ocorre em condições desesperadoras ou muito difíceis!

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.63]

“Infelizmente, as reivindicações ‘universalistas’ do imperialismo continuam a ser apoiadas pela esquerda ocidental, que muitas vezes apoia as ‘guerras humanitárias’ ou revela-se incerta e hesitante em combatê-las.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.173]

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A União Europeia

É claro que a União Europeia é dominada internamente pela burguesia e que somente um milagre poderia permitir que outra classe exercesse esse domínio. Mas eu não acredito em milagres. A burguesia domina a Europa há cerca de dois séculos e, em minha opinião, continuará a ser dominante por muito tempo. A diversidade de períodos históricos deve, portanto, ser levada em conta.

Os defensores da União Europeia são, sem dúvida, chauvinistas que levaram a Europa a uma nova catástrofe e que continuarão repetindo essa catástrofe se não forem detidos. No entanto, considero-me um modesto sucessor de uma cultura europeia que, com Montaigne, os iluministas franceses, Marx e Lênin, revelou os horríveis crimes cometidos pela Europa e pelo Ocidente. Acredito que devemos assumir essa nobre tradição europeia, ou, nas palavras de Lênin e Gramsci, acredito que devemos assumir essa herança. Isso significa, portanto, lutar contra o imperialismo e nunca esquecer que o inimigo principal em escala internacional é o imperialismo estadunidense.

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.96-97]

“Devemos esperar que a batalha pela independência da Europa em relação aos Estados Unidos continue, naturalmente sem que, por isso, seja preciso calar sobre o papel imperialista que a União Europeia desempenhou na Ucrânia ou no Oriente Médio.”

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.103]

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China, Vietnã e Cuba

O capitalismo retornou à Europa oriental, agora amplamente incorporada à Otan. Por outro lado, a China, o Vietnã e, nos últimos tempos, também Cuba já não se apresentam como um modelo alternativo ao dominante em âmbito internacional, já não pretendem mais ser o “farol do socialismo” nesta ou naquela parte do mundo.

Estão empenhados, em primeiro lugar, em alcançar os países industrial e tecnologicamente mais avançados e em elevar o nível de vida da população, a fim de também ampliar e consolidar a base social de consenso para o Partido Comunista no poder e frustrar as tentativas de desestabilização postas em prática pelo Ocidente e em particular pelo seu país-líder.

Isso não significa que a orientação socialista seja negada, mas em virtude da nova escala de prioridades, China, Vietnã e Cuba tendem a fazer parte do Terceiro Mundo.

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.174]

“Como Lênin havia intuído em parte algumas vezes, no próprio coração da Europa, bem longe de ser ‘apenas proletária’, a revolução acabou sendo anticolonial e nacional.

[IMPERIALISMO E QUESTÃO EUROPEIA, p.264]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos o prefácio de O marxismo ocidental, a apresentação de Losurdo no evento dos 100 anos da Revolução Russa e o prólogo de Caetano Veloso para Colonialismo e luta anticolonial.

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Domenico Losurdo

Antiamericanismo


Domenico Losurdo

A luta de classes entre marxismo e populismo


Vladímir Lênin

Imperialismo, estágio particular do capitalismo

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado de Imperialismo e questão europeia, com Jones Manoel, Rita Coitinho e Gustavo Gaiofato (mediação), uma aula de introdução a Domenico Losurdo com Jones Manoel e um vídeo do próprio Losurdo discutindo o sentido do século XX a partir do embate entre a tradição colonial e as revoluções anticoloniais.

Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Rádio Boitempo: Megafone #4 | João Carvalho lê A linguagem do império, de Domenico Losurdo, set. 2022.

Ontocast: Especial Domenico Losurdo – um balanço de sua contribuição (Parte 1), com Gabriel Carvalho, Ciro Domingos, Rômulo Caires e André Brandão, nov. 2020.

Ontocast: Especial Domenico Losurdo – um balanço de sua contribuição (Parte 2), com Gabriel Carvalho, Ciro Domingos, Rômulo Caires e André Brandão, nov. 2020.

Navio dos loucos: #20 -Contra-história do liberalismo, com Mateus Gusmão, Douglas Coutinho e Matheus Viug, out. 2020.

Revolushow: 90 – A obra de Domenico Losurdo, com Zamiliano, Larissa Coutinho, Jones Manoel, Diego Miranda e João Carvalho, set. 2020.

Revolushow: 21- Domenico Losurdo e o marxismo ocidental, com João Carvalho, Diego Miranda e Marina Machado de Magalhães Gouvea, ago. 2018.

Guerra de revolução, de Domenico Losurdo, com Anita Prestes,TV Boitempo, 2022.

A questão comunista, de Domenico Losurdo, com Jones Manoel, Marcos Aurélio Silva e Rita Coitinho,TV Boitempo, 2022.

Por que ler Losurdo?, com Jones Manoel, TV Boitempo, 2020.

Losurdo explica: nazismo, fascismo e comunismo, com Domenico Losurdo, TV Boitempo, 2020.

O que é revisionismo histórico?, com Domenico Losurdo, TV Boitempo, 2021.

Lutas de classes hoje, com Domenico Losurdo, André Singer e Ruy Braga, TV Boitempo, 2016.

Colonialismo e luta anticolonial, Domenico Losurdo por Jones Manoel, TV Boitempo, 2021.

A análise de Domenico Losurdo sobre a China, com Jones Manoel, Jones Manoel, 2020.

Jones Manoel explica a obra de Domenico Losurdo, TV247, 2020.

Curso Domenico Losurdo e Frantz Fanon: introdução ao marxismo anticolonial, com Jones Manoel, Classe Esquerda, 2020.

Domenico Losurdo avesso a neopopulismos“, por Rita Coitinho, Blog da Boitempo, mar. 2023.

Losurdo e a luta contra o atual estado das coisas“, por Marcos Aurélio da Silva, Blog da Boitempo, mar. 2022.

Domenico Losurdo, um crítico da hipocrisia liberal“, por David Broder, Jacobin, nov.2019.

Domenico Losurdo e a luta anticolonial“, por Marina Machado Gouvêa, Blog da Boitempo, jan. 2021.

O Hegel de Losurdo“, por Gianni Fresu, Blog da Boitempo, ago. 2019.

Como nasceu e como morreu o ‘marxismo ocidental’“, por Domenico Losurdo, Blog da Boitempo, jun. 2018.

Oriente e Ocidente: do cristianismo ao marxismo“, por Domenico Losurdo, Blog da Boitempo, jun. 2018.

A Revolução Russa e o revisionismo histórico“, por Domenico Losurdo, Blog da Boitempo, ago. 2017.

A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Victoria Lobo.