Guia de leitura | Capitalismo racial: uma introdução | ADC#59

Capitalismo racial: uma introdução
Ruy Braga
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Margem Esquerda #45

Guia de leitura / Armas da crítica #59

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Quem é Ruy Braga?

Ruy Braga é professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP (Cenedic). Além de Capitalismo racial: uma introdução, é também autor de A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (2012), A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global (2017) e A angústia do precariado: trabalho e solidariedade no capitalismo racial (2023), todos publicados pela Boitempo. 

A relação intrínseca entre acumulação capitalista e opressão racial

Capitalismo racial é um conceito que surgiu nas décadas finais do século XX para explicar dinâmicas estruturais que envolvem raça e classe. Desenvolvido por sociólogos e ativistas sul-africanos no contexto do apartheid, mostra a confluência entre a reprodução capitalista e a exploração intensiva das classes trabalhadoras racializadas.

Nos Estados Unidos, o conceito ingressou no debate acadêmico e público pelas mãos de Cedric Robinson, que desenvolveu uma teoria da história para dar conta do processo de racialização global, incluindo a formação do capitalismo na Europa. Para ele, o racismo seria pré-condição para a formação do capitalismo, não apenas subproduto do sistema moderno de exploração das classes. Entre nós, nas décadas entre 1970 e 1980, Carlos Hasenbalg, Clóvis Moura e Lélia Gonzalez sustentaram a tese de que a questão racial é intrínseca ao capitalismo no contexto histórico brasileiro.

Na esteira do debate internacional, porém com traço crítico e leitura própria, Ruy Braga recupera essa ideia para explicar a acumulação capitalista e sua relação com a opressão racial sem perder do horizonte as ideologias de dominação e resistências em forma de lutas sociais.

Flavia Rios

Flavia Rios é professora de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Afro/Cebrap.

Não há capitalismo sem racismo

A crise da globalização neoliberal deu origem a um novo interregno mundial, cujos “sintomas mórbidos” — para lembrar Antonio Gramsci — estão por toda parte: aumento do desemprego e do subemprego, desigualdade social galopante, crise sociorreprodutiva, opressão racial, banalização da violência policial, medidas de austeridade impostas por governos reformistas, polarização política, crescente pressão sobre as instituições democráticas, ascensão de lideranças autoritárias, colapso de governos democraticamente eleitos, genocídios e guerras.

Nesse contexto, consolidou-se entre ativistas sociais a percepção de que os efeitos mais devastadores da crise da globalização neoliberal atingem, sobretudo, os trabalhadores racializados. A pandemia e a atual crise climática apenas reforçaram essa compreensão. Em 2020, no maior e mais abrangente ciclo de protestos da história dos Estados Unidos — em reação ao assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis —, inúmeros cartazes exibidos pelos manifestantes evocavam a famosa frase de Malcolm X: “Não há capitalismo sem racismo”.

Esse é o contexto histórico no qual floresceu o debate sobre os significados dessa noção. Este pequeno ensaio busca introduzir ao público brasileiro as principais teses e polêmicas que orbitam em torno da relação — para alguns necessária, para outros, contingente — entre a essência do capitalismo (isto é, a acumulação de capital) e a opressão racial que assola povos e classes sociais subalternas em todo o mundo.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.12-14]

Um olhar negro sobre a modernidade

Publicado originalmente em 1983, Marxismo negro, de Cedric J. Robinson, foi uma das primeiras obras a interpretar a história moderna do capitalismo pelo ângulo cultural da diáspora africana. Seu objetivo principal era criar uma teoria capaz de sustentar a hipótese da inseparabilidade entre racismo e modernidade.

A potência desse livro reside na aparente simplicidade de sua resposta à questão de como a opressão racial se relaciona com a tendência geral da acumulação capitalista: para ele, o racismo é o sujeito que impulsiona a acumulação.

Contudo, Robinson não buscou construir uma crítica da economia política do racismo. Seu esforço intelectual concentrou-se, antes, na revelação dos fundamentos lógicos e ontológicos dos mecanismos culturais que sustentam o desenvolvimento histórico da dominação racial ocidental.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.16-17]

“Embora esteja definitivamente associada ao trabalho de Robinson, a expressão ‘capitalismo racial‘ foi emprestada dos sociólogos marxistas Martin Legassick e David Hemson, que a usaram na década de 1970 para caracterizar as diferentes fases da industrialização sul-africana, apontando que a rentabilidade do capital internacional investido no país dependia do regime racializado de acumulação

RUY BRAGA

Afinidades eletivas entre capitalismo e racismo

Desde Marx, sabemos que o nascimento do
capitalismo se sustentou na expropriação violenta de terras, anteriormente ocupadas pelos camponeses servis, pela Igreja católica e pela pequena aristocracia. Com a formação e a ampliação do mercado mundial, essa violência foi estendida aos povos africanos e indígenas. O colonialismo foi o principal instrumento da universalização dessa violência política.

Ao analisarmos os capitalismos raciais de fato existentes, torna-se evidente a necessidade de articular a universalidade da acumulação capitalista com a particularidade das diversas opressões raciais. No caso da África do Sul pós-apartheid, por exemplo, a dominação política negra — com alguma presença empresarial relevante — sob o governo do Congresso Nacional Africano resultou na consolidação do neoliberalismo no país.

Em outras palavras, a relação entre acumulação capitalista e opressão racial não se sobrepõe perfeitamente à fronteira de cor. Como, então, interpretar a “afinidade eletiva” entre capitalismo e racismo?

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.48 e 52-53]

“A ascensão de lideranças como Donald Trump revela
a atualidade da relação entre racismo e imperialismo.

Infelizmente, essa realidade não é exclusiva dos Estados Unidos. Em diferentes contextos históricos, a ascensão do nacionalismo autoritário e as ameaças à democracia muitas vezes assumem uma forma xenofóbica ou abertamente racista.”

RUY BRAGA

Razões econômicas da opressão racial

O entendimento de que o movimento trabalhista deve ser capaz de construir identidades coletivas mais inclusivas para enfrentar a opressão racial supõe que a reprodução do capitalismo divide a classe trabalhadora.

A própria dinâmica da diferenciação salarial e das condições de trabalho inerentes ao conceito de trabalho socialmente necessário, além da distribuição heterogênea dos trabalhadores na estrutura ocupacional, aprofundaria as desigualdades entre os grupos subalternos que compõem a classe trabalhadora, naturalizando diferenças sociais por meio da alienação econômica a ponto de fixá-las em desigualdades raciais.

Mesmo que não tenham utilizado explicitamente a noção de capitalismo racial, marxistas comprometidos com a centralidade axiológica dos povos e grupos sociais subalternos racializados foram os primeiros a explorar a relação entre capitalismo e racismo, enraizando-a no terreno da exploração classista.

Essa tradição radical incluía intelectuais nascidos no Caribe, nas Américas e na África, e entre seus expoentes estão Amílcar Cabral, Clóvis Moura, C. L. R. James, Eric Williams, Frantz Fanon, George Padmore, Harold Wolpe, Neville Alexander, Oliver C. Cox, Stuart Hall, W. E. B. Du Bois e Walter Rodney.

Em comum, eles compreendiam as raças como construções sociais cujo objetivo era organizar a divisão do trabalho entre aqueles que seriam explorados economicamente e os que seriam expropriados politicamente, em benefício da acumulação de capital. Em outras palavras, para esses autores, a raça define a experiência da consciência da classe trabalhadora.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.65-67]

“Além de associar o surgimento do racismo ao período da acumulação primitiva, essa tradição radical identificou na escravização africana a formação do primeiro sujeito moderno a trabalhar compulsoriamente em escala global.”

RUY BRAGA

Capitalismo racial brasileiro

Entre as sociedades envolvidas no tráfico transatlântico de africanos escravizados, nenhuma foi tão profundamente marcada por seus efeitos culturais, econômicos e políticos quanto a brasileira. Afinal, o país recebeu cerca de 46% de todos os africanos trazidos cativos para as Américas. Ao longo de três séculos e meio, quase 5 milhões de trabalhadores escravizados desembarcaram no Brasil, sustentando, com seu trabalho compulsório, o regime racializado de acumulação conhecido como plantation, que serviu de base para a expansão do colonialismo no Novo Mundo.

No século XIX, no entanto, o escravismo colonial entrou em decadência em razão de uma combinação de fatores internos e externos. O país atravessou, então, um longo e conturbado processo de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, que se estendeu até, pelo menos, a década de 1930, quando as primeiras leis trabalhistas passaram a reconhecer formalmente direitos aos trabalhadores urbanos, inclusive aos negros.

Durante esse período, era necessário ao capitalismo adaptar o uso das formas do trabalho compulsório às novas exigências históricas. Assim, entre os anos 1890 e 1930, não apenas assistimos à transformação do capitalismo racial brasileiro, como também pudemos definir uma de suas características estruturais: o desenvolvimento de bloqueios estratégicos que impedem a população negra de alcançar a igualdade política e econômica em relação aos brancos.

Essa transição forjou uma imensa e heterogênea superpopulação excedente, elemento central na história da formação do mercado de trabalho no Brasil. Trata-se de uma massa que hoje é composta de milhões de ambulantes, babás, cabeleireiros, camelôs, cuidadores sem carteira assinada, diaristas, empregadas domésticas, manicures, trabalhadores de feiras livres, autônomos, trabalhadores de aplicativos e trabalhadores rurais sem contrato formal. É dispensável lembrar que essa massa é predominantemente formada por trabalhadores racializados.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.109-110]

Escravismo e luta de classes no Brasil

Principal representante do marxismo negro brasileiro, Clóvis Moura dedicou mais de quatro décadas a estudar a condição do negro no país, concentrando-se na contradição histórica entre explorados e exploradores. Seu foco na relação social de exploração capitalista o levou a identificar a violência política como eixo organizador da relação entre Estado e sociedade na história brasileira.

Para ele, o recurso sistemático à violência política refletia a necessidade de reprimir as lutas dos escravizados contra seus senhores, assegurando, assim, a reprodução do que Caio Prado Júnior chamou de “empresa colonial”. Com o tempo, consolidou-se um aparato estatal especializado na repressão violenta de qualquer manifestação de resistência ao regime de plantation, resultando em um Estado autocrático.

Moura colocou a luta de classes no centro da formação social do país. A fim de enfrentar o mito da acomodação dos escravizados, ele buscou valorizar essa perspectiva, explorando a complexidade das formas de resistência construídas pelos trabalhadores negros.

Essas manifestações iam desde estratégias individuais, como fugas e suicídios, até modalidades coletivas de resistência ativa, por exemplo rebeliões e formação de quilombos. Para ele, o negro desenvolveu-se historicamente como sujeito social tensionado entre a alienação do trabalho imposta pela escravização e a desalienação política impulsionada pela luta contra o escravismo.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.111-112]

“O quilombo foi, incontestavelmente, a unidade básica de resistência do escravo. […] Era reação organizada de combate a uma forma de trabalho contra a qual se voltava o próprio sujeito que a sustentava.”

CLÓVIS MOURA

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Formas ideológicas do mundo informatizado

Por que compreender o capitalismo racial é tão urgente para quem deseja transformar o mundo social em um lugar mais justo e humano?

A discriminação nos locais de trabalho, somada aos cortes nos gastos sociais, contribui para a compressão artificial do valor da força de trabalho negra, rebaixando seus custos reprodutivos de maneira anômala. Essa dinâmica afeta diretamente os trabalhadores racializados, mas também exerce pressão descendente sobre os salários da classe trabalhadora branca.

É necessário ter em mente que o capitalismo racial constitui, antes de tudo, um sistema mundial de dominação, que explora e oprime a classe trabalhadora em sua totalidade. Ou, como argumentou W. E. B. Du Bois, a divisão racial entre trabalhadores brancos e negros não apenas sustenta, mas aprofunda, a acumulação capitalista em escala global. Essa lógica divisiva, intrínseca à reprodução ampliada do capital, constitui uma das engrenagens centrais do capitalismo racial.

[CAPITALISMO RACIAL: UMA INTRODUÇÃO, p.159 e 161-162]

“Compreender a articulação entre acumulação econômica e opressão racial é indispensável para a construção de uma autêntica unidade internacionalista da classe trabalhadora.

Assumir uma perspectiva comparativa e internacionalista permite iluminar não apenas as formas de dominação, mas também as trajetórias de resistência, solidariedade e articulação política entre as diversas lutas dos povos e grupos sociais racializados ao redor do mundo”

RUY BRAGA

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos o prefácio de Como a Europa subdesenvolveu a África, de Walter Rodney; um capítulo de Raça, nação, classe: as identidades ambíguas, de Étienne Balibar e Immanuel Wallerstein; e um artigo de Marcio Farias publicado no dossiê “Marxismo e questão racial” da revista Margem Esquerda #27.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Walter Rodney

Como a Europa subdesenvolveu a África


Étienne Balibar

O “racismo de classe”


Marcio Farias

Pensamento social e relações raciais no Brasil: a análise marxista de Clóvis Moura

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Ruy Braga, Marcio Farias e mediação de Flavia Rios, além dos links de acesso para as três aulas do curso “Capitalismo racial: uma introdução”, com o professor Ruy Braga. Confira o cronograma:

Aula 1 (25/09, 20h) – Do racismo ao capitalismo: o Marxismo negro de Cedric Robinson
Aula 2 (02/10, 20h) – Do capitalismo ao racismo: Como Europa subdesenvolveu a África, de Walter Rodney
Aula 3 (09/10, 20h) – Desigual e combinado: África do sul, Brasil e Estados Unidos – Reconstrução negra, de W.E.B. Du Bois

* As aulas são síncronas e têm duração aproximada de 1h30. Haverá emissão de certificado de participação para quem frequentar ao menos 2 aulas. Os formulários de presença serão disponibilizados durante os encontros síncronos, através do chat e da descrição do vídeo na TV Boitempo.


Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

O essencial de Marx e Engels, organizado por Marcello Musto

Como a Europa subdesenvolveu a África, de Walter Rodney

Escritos políticos, de Frantz Fanon

Raça, nação, classe: as identidades ambíguas, de Étienne Balibar e Immanuel Wallerstein

As duas faces do gueto, de Loïc Wacquant

Geografia da abolição: ensaios rumo à libertação, de Ruth Wilson Gilmore

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

A história da escravidão, de Olivier Pétré-Grenouilleau

Os jacobinos negros: Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos, de C. L. R. James

África Vermelha, de Kevin Ochieng Okoth

A nova segregação, de Michelle Alexander

Marx nas margens: nacionalismo, etnias e sociedades não ocidentais, de Kevin B. Anderson

Margem esquerda #27 | Marxismo e questão racial

Rádio Boitempo: Léxico Marx #6: O que é o proletariado?, com Ruy Braga, nov. 2022.

Rádio Boitempo: Conversas camaradas #12: Luta anticolonial e democracia, com Juliana Borges e Walter Lippold, nov. 2023.

Rádio Boitempo: Megafone #6: Deivison Faustino lê O CAPITAL, de Karl Marx, com Deivison Faustino, nov. 2022.

Opera Mundi: 20 minutos: Qual o futuro do trabalho?, com Ruy Braga e Breno Altman, out. 2021.

Encruzilhadas de resistência: Amefricanidade, além de um conceito, com Flavia Rios, jun. 2022.

Rádio Boitempo: Democracia, trabalho e socialismo em Marx e Engels, com Ruy Braga, abr. 2019.

Capitalismo e racismo: uma análise estrutural, com Douglas Barros, TV Boitempo.

O que é o precariado?, com Ruy Braga, TV Boitempo.

Neoliberalismo no Sul global, com Ruy Braga, TV Boitempo.

O que é “acumulação primitiva”?, com Virgínia Fontes, TV Boitempo.

Imigração, racismo e resistência, com Angela Davis, TV Boitempo.

Abolicionismo em debate, com Ruth Gilmore, Ricardo Antunes, Kauê Santos, Matheus Gato e Teófilo Reis, TV Boitempo.

200 anos de independência do Brasil: da colônia à República, com Antonio Carlos Mazzeo, TV Boitempo.

Marx é eurocêntrico?, com Jones Manoel, TV Boitempo.

Os comunistas e a revolução anticolonial mundial, com Domenico Losurdo, TV Boitempo.

Uma leitura de referência sobre o capitalismo racial“, por Flavia Rios, Blog da Boitempo, ago. 2025.

Capitalismo racial nas telas: filmes e séries para refletir sobre o regime racializado de acumulação capitalista“, Blog da Boitempo, set. 2025.

Clóvis Moura e a América Latina“, por Gabriel dos Santos Rocha, Blog da Boitempo, jul. 2025.

Os jeans de Sydney Sweeney: reabilitando o eugenismo?“, por Ruy Braga, Blog da Boitempo, ago. 2025.

Trabalhando na necroeconomia“, por Ruy Braga, Blog da Boitempo, dez. 2023.

Nelson Werneck Sodré, questão racial e Revolução Brasileira“, por Jones Manoel, Blog da Boitempo, mar. 2023.

Uma cartografia insurgente em tempos de guerra“, por Juliana Borges, Blog da Boitempo, jul. 2025.

Ficção americana: antirracialista e anti-identitário“, por Douglas Barros, Blog da Boitempo, abr. 2024.

Pecadores: Trump e o projeto de uma nação“, por Erico Andrade e Thais Klein, Blog da Boitempo, mar. 2025.

A edição de conteúdo deste guia é de Carolina Peters e as artes são de Victoria Lobo.