Guia de leitura | ADC#21

O valor da informação
Marcos Dantas, Denise Moura, Gabriela Raulino e Larissa Ormay

Guia de leitura / Armas da crítica #21

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A caixa de julho do Armas da crítica traz um estudo inédito e provocador para a coleção Estado de sítio: O valor da informação: de como o capital se apropria do trabalho social na era do espetáculo e da internet, de Marcos Dantas, Denise Moura, Gabriela Raulino e Larissa Ormay. O livro examina três grandes processos em curso na sociedade capitalista contemporânea: a apropriação do conhecimento pelos direitos de propriedade intelectual, a geração de valor por trabalho não pago dos usuários nas plataformas e redes sociais da internet e a produção e apropriação de rendas informacionais por meio do espetáculo audiovisual, com foco nos grandes campeonatos de futebol.

Com a ótica da teoria marxiana do valor-trabalho aplicada à teoria da informação, os autores apresentam temas extremamente atuais e com o mérito de unir uma teoria tradicional e consagrada a práticas absolutamente modernas – um tema já tratado de forma esparsa por outros autores, mas pela primeira vez reunido de forma consistente e aprofundada numa única publicação.

A caixa ainda é acompanhada do livreto Palavra-chave: internet, da Marcos Dantas.

autores Marcos Dantas, Denise Moura, Gabriela Raulino e Larissa Ormay
orelha Fábio Palácio
edição Frank de Oliveira
capa Artur Renzo
diagramação Antonio Kehl
coordenação de produção Livia Campos
páginas 312

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Quem são os autores?

Marcos Dantas é professor titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Doutor em Engenharia da Produção (COPPE-UFRJ), é professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da ECO (PPGCOM/ECO) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do IBICT/ECO (PPGCI/IBICT-ECO). Já exerceu os cargos de secretário de Educação a Distância do MEC (2004-2005) e de secretário de Planejamento e Orçamento do Ministério das Comunicações (2003), e integrou o Conselho Consultivo da Anatel, entre outras funções públicas.

Denise Moura é doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Letras pela Universidade Federal do Piauí. Possui graduação em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo e especialização em Comunicação e Linguagem pela UFPI. É membro da diretoria da Young Women’s Film Academy (Reino Unido).

Gabriela Raulino é doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. Atua como professora efetiva do Curso de Produção Cultural no IFRN. É mestra em Estudos da Mídia (UFRN), especialista em Políticas Públicas (UFRN) e graduada em Comunicação Social/Jornalismo (UFRN) e em Tecnologia em Lazer e Qualidade de Vida (IFRN).

Larissa Ormay é doutora em Ciência da Informação pelo PPGCI-ECO/IBICT/UFRJ. Atua na Divisão de Relações Multilaterais da Coordenação de Relações Internacionais do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). É graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2008) e mestra em Ciência Política pela UFF (2013).

A informação como principal ativo econômico

A incorporação da tecnologia como força produtiva, a partir das revoluções técnico-científicas e, em especial, da Terceira Revolução Industrial, colocou a informação no centro da problemática econômica. Que tipo de trabalho a produz? De onde vem o valor que incorpora? Trata-se de uma mercadoria como outras ou de um bem compartilhado? Qual é o papel das plataformas digitais no processo de valorização do capital? Por que os conglomerados financeiros detentores dessas plataformas estão entre os mais ricos do planeta?

Em torno dessas questões giram os capítulos de O valor da informação. Seus autores expõem as formas pelas quais o capital se apropria da informação – uma riqueza intangível, de natureza heurística, que só existe como pura atividade e relação sujeito-objeto. Essa riqueza, produzida sob as formas da ciência e da tecnologia, das artes e dos esportes, manifesta-se sob a forma do espetáculo, definido como “modo de existência da produção e do consumo no capital-informação”.

Fábio Palácio

Jornalista, doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP) e professor no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

O valor da informação é uma fértil contribuição ao entendimento da informação como principal ativo econômico no contexto do capitalismo contemporâneo. Realidade que emerge cristalina de uma das frases síntese da obra: ‘O capital é a rede’”.

FÁBIO PALÁCIO

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Um ponto cego no pensamento marxiano

Não há trabalho sem informação, nem informação sem trabalho. O valor da informação é, dessa maneira, valor do trabalho. Porém, aqui vamos nos defrontar com um ponto cego na teoria marxista: os teóricos, mesmo os mais recentes e atuais, ainda não se deram conta dessa relação absolutamente essencial, até mesmo existencial.

Este livro que entregamos aos leitores versa sobre o valor do trabalho informacional a partir do conceito de valor conforme rigorosamente escrutinado por Karl Marx. Ele fala sobre como o capital organiza o trabalho para processar, registrar, comunicar informação nas formas de ciência, tecnologia, artes, esportes, espetáculos, e como age para se apropriar do valor desse trabalho. Tem como objetivo investigar e discutir a natureza do que chamamos capital-informação, essa nova etapa do capitalismo própria do capital no século XXI.

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.12]

“Se a acumulação primitiva de capital nos séculos XVII e XVIII teve como marco o cercamento de terras, um novo tipo de cercamento expandiu-se a partir de meados do século XX: o cercamento dos territórios da mente, da cognição, do conhecimento, da cultura.”

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.13]

Informação, trabalho e capital

Na medida em que o capital expandiu o trabalho material semiótico ou, dito de outro modo, apoiado no desenvolvimento das tecnologias de comunicação, criou ou ampliou indústrias capitalistas basicamente centradas em “trabalho vivo produzindo atividade viva”, todo um amplo campo de atividades socioculturais, até então não consideradas pela economia política, veio sendo incorporado aos processos capitalistas de produção de valor e acumulação, tornando-se também produtor de mais-valor.

Isso porque, no esforço para anular os espaços pelo tempo e, talvez principalmente, de reduzir ao mínimo os tempos de rotação ou efetuar, em um ano, o maior número de rotações possíveis, o capital não apenas desenvolveu meios eficientes de transportar mercadorias como também meios ainda mais eficientes de transportar informação.

Marcos Dantas

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.64]


“Como se começa a constatar, o capital mobiliza uma nova forma de trabalho vivo: o trabalho não pago no tempo de aparente lazer, de bilhões de pessoas nas plataformas sociodigitais e aplicativos de telefonia móvel, por meio do qual captura dados pessoais e empresariais com fins de valorização. Trata-se de uma nova fronteira de acumulação: o capitalismo de plataformas.

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.68]

Propriedade intelectual e rendas informacionais

A indústria, no capital-informação, não se resume à fábrica ou a algum espaço bem definido: ela incorpora todos os momentos do processo de acumulação de capital em que o valor é criado, distribuindo-se entre diversas relações sociais produtivas.

Passam a participar da produção, de maneira crucial, não apenas o setor de P&D das empresas, mas a produção de conhecimento científico e tecnológico em geral, incluindo a academia, ainda que nesse caso o investimento seja público, isto é, provenha do Estado.

Uma vez que o conhecimento científico se torna fundamental para a produção de mercadorias no capitalismo informacional, o trabalho científico foi realmente subsumido ao capital.

Larissa Ormay

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.143]


“Em praticamente todas as esferas da vida social, o trabalho está submetido quase completamente ao capital. Mesmo trabalhos que antes eram classificados como improdutivos no sentido marxiano, desde corriqueiras interações sociais até a pesquisa em instituições públicas, hoje se mostram fundamentais ao processo de produção de mais-valor.”

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.137]

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Capital e trabalho nas plataformas sociodigitais

A proposta econômica do Facebook e do YouTube é clara: capital-dinheiro é investido no desenvolvimento da plataforma (tecnologias, serviços e produtos) para disponibilizá-la gratuitamente como um ambiente de diversão, mas, acima de tudo, um espaço que permita o monitoramento de todos os contatos, comunicações e dados dos usuários.

Com base nessa vigilância estendida a toda internet, essas corporações vendem espaços de publicidade altamente segmentados, direcionados àqueles mesmos usuários que produziram os dados. Dito de outro modo, o valor proveniente das conexões, dos dados delas resultantes e da atenção da audiência é realizado, ou seja, convertido em dinheiro principalmente pela venda de publicidade.

As plataformas sociodigitais produtoras de audiência acumulam capital com base na exploração do trabalho informacional semiótico tanto efetuado por seus cientistas e engenheiros remunerados quanto efetuado por seus usuários, ou audiência.

Gabriela Raulino

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.209]

“A internet oferece, a qualquer indivíduo inserido na sociedade capitalista do espetáculo e consumo, amplas condições de também ser produtor de consumo, participante imediato e direto do espetáculo. Nessa dinâmica, o capital segue avançando ao explorar trabalho não pago que, entretanto, para a grande maioria das pessoas, mostra-se apenas como diversão.”

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.212]

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Capital financeiro e espetáculo

O esporte carrega as marcas-fetiches do consumismo, associando-as às representações identitárias, culturais, distintivas, idiossincráticas dos diversos segmentos de torcedores, agentes também ativos do espetáculo, seja nas arquibancadas das arenas, seja diante da tela de TV, seja exibindo, pelas ruas, as camisetas de seus clubes ou atletas preferidos junto com as marcas que lhes remuneram o trabalho artístico mobilizador do trabalho semiótico geral desses milhões de aficionados.

Para encurtar os tempos de realização do capital, a oferta dos produtos tende a se efetuar nas mais diversas plataformas, assim também incentivando o consumo por todos os meios possíveis. A busca pela aceleração do ciclo do capital amplia as concentrações verticais, horizontais e cruzadas, transformando os conglomerados mediático-financeiros internacionais em poderosos agentes inclusive político-ideológicos, detentores que se tornam igualmente do monopólio da fala.

Denise Moura

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.268]

“O espetáculo expressa, por um lado, a totalidade social da vida capitalista em nossos tempos – a ideologia presente no dia a dia ordinário de todos os homens, mulheres, até crianças, já incorporados a suas condições de existência – e, por outro, a busca incessante do capital por reduzir seus tempos de giro e realização.”

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.268]

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Subsunção total do trabalho ao capital

O sistema capitalista constitui uma totalidade sistêmica cujo objetivo é fazer crescer o capital. Essa é a sua natureza. Contudo, assim como o corpo humano, à medida que cresce, ou envelhece, vai modificando suas necessidades e os meios de atendê-las, também o capital, conforme cresce e, possivelmente, envelhece, modifica suas necessidades e meios de atendê-las. O que alimenta o capital é o trabalho.

Em suas várias fases históricas, à proporção que se modifica e porque se modifica, o capital também altera o trabalho, assim como é por ele alterado em ação recíproca. Implica dizer que, em suas várias fases, a própria constituição social e cultural do que seria entendido por trabalhador igualmente se modifica. […]

Esse capitalismo de plataformas constitui uma nova e mais avançada etapa da evolução do capital, logo também de espoliação dos meios de trabalho humano: da terra, no passado, ao conhecimento, no presente. É um novo momento do processo de submissão do trabalho ao modo de funcionamento do capital, isto é: de subsunção do trabalho ao capital.

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.269-279]

“A pandemia de covid-19 veio para escancarar o tamanho da crise civilizatória em que estamos mergulhando, na medida em que a abundância possível não se traduz em bem-estar generalizado para a imensa maioria da população da Terra precisamente porque o resultado fundante de toda a alienação, conforme Marx, ainda não foi superado: a propriedade privada.”

[O VALOR DA INFORMAÇÃO, p.291]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos um artigo de Shoshana Zuboff sobre o capitalismo de vigilância presente no livro Tecnopolíticas da vigilância, além de duas entrevistas de Laboratórios do trabalho digital: uma com Fernanda Bruno e outra com Jathan Sadowski.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Shoshana Zuboff

Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma
civilização de informação


Fernanda Bruno

Racionalidade algorítmica e
laboratório de plataforma


Jathan Sadowski

Plataformas biopolíticas, dados
como capital e virtudes perversas
do trabalho digital

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro, com a participação dos autores e mediação de Rafael Grohmann, além de um vídeo de Marcos Dantas introduzindo a economia política da internet e duas indicações de documentários para pensarmos o papel das redes sociais.

Para aprofundar…

Uma compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Tecnopolíticas de vigilância, organização de Fernanda Bruno, Bruno Cardoso, Marta Kanashiro, Luciana Guilhon e Lucas Melgaço

O nome da marca: McDonald’s, fetichismo e cultura descartável, de Isleide Fontenelle

Os laboratórios do trabalho digital, organização de Rafael Grohmann

Palavras-chave, de Raymond Williams

Grundrisse, de Karl Marx

O capital [Livro 1], de Karl Marx

O capital [Livro 2], de Karl Marx

O capital [Livro 3], de Karl Marx

Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política, de
Evgeny Morozov (Ubu)

A era do capitalismo de vigilância, de Shoshana Zuboff (Intrínseca)

A sociedade do espetáculo, de Guy Debord (Contraponto)

Público: Como evoluímos para a era do capitalismo de vigilância?, com Pedro Rios e Shoshana Zuboff, 2022.

Dadocracia: #52 A escalada do tecno-autoritarismo no Brasil, 2021.

Guilhotina: Não bote fé nas fake news #04: Como a internet e as redes sociais favorecem a divulgação de mentiras, com Bianca Pyl, Luis Brasilino e Jaciara Ribeiro, 2022.

Tecnopolítica: #129 – As Big Techs e a luta de classes, com Sergio Amadeu e Carol Cruz, 2021.

Ilustríssima Conversa: Pessoas trabalham de graça para redes sociais, com Eugênio Bucci, 2021.

La pinza: Tecnologías de vigilancia en América del Sur, 2021. [em espanhol]

Capitalismo de plataformas: introdução a uma economia política da internet, com Marcos Dantas, Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Economia Política da Informação e Comunicação, Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

Economia política da internet, com Marcos Dantas, Esquerda Online.

Entrevistas para o Brasil com Marcos Dantas, Fundação Perseu Abramo.

Capital, trabalho e valor no século XXI, com Marco Schneider, Arthur Bezerra, Marcos Dantas e Rodrigo Moreno Marques, Escritos IBICT.

Brasil Amanhã #59, com Marcos Dantas, Clube de Engenharia.

Tecnopolíticas da vigilância: debate de lançamento, com Fernanda Bruno, Marta Kanashiro, Rodrigo Firmino, Rafael Evangelista, Bruno Cardoso e Henrique Parra, TV Boitempo.

A internet é o novo ópio do povo?, com Mauro Iasi, TV Boitempo.

A informação como principal ativo econômico do capitalismo contemporâneo“, por Fábio Palácio, Blog da Boitempo, 2022.

Entrevista com Marcos Dantas, por Ruy Alkmim Rocha Filho, Revista Cronos, jul. 2019.

Futebol-empresa: o capitalismo chegou no futebol“, por Marcos Dantas, Vermelho, jan. 2022.

Simbioses entre capitalismo, lazer e mídia“, por Gabriela Raulino e Sebastião da Costa, Culturas Midiáticas, 2013.

A democracia liberal pode sobreviver à corrosão do debate público criada pelo monopólio das big techs?“, por Larissa Ormay, Renata Mielli e Luana Bonone, Revista Desigualdade e diversidade, 2021.

A tecnologia não nos salvará“, entrevista com Paris Marx, Jacobin, 2022.

A internet deveria ser um bem público“, por Ben Tarnoff, Jacobin, 2022.

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