Guia de leitura | ADC#19

Capitalismo pandêmico
Ricardo Antunes

Guia de leitura / Armas da crítica #19

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A caixa de maio do Armas da crítica traz uma potente reflexão sobre os impactos da pandemia no mundo do trabalho. Em Capitalismo pandêmico, Ricardo Antunes faz uma análise crítica do momento em que vivemos, apontando também para um outro futuro possível.

Antunes destrincha diversos temas como a relação da pandemia com as reformas trabalhistas feitas nas últimas décadas, o aumento do desemprego, a constante precarização do trabalho e o afrouxamento dos vínculos empregatícios.

Escrito sob o calor dos fatos narrados, este livro é uma oportunidade de conhecer as grandes linhas do pensamento de um de nossos maiores intérpretes do mundo do trabalho, aplicado quase em tempo real a nosso sombrio dia a dia.

A caixa ainda é acompanhada do livreto Introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel, o primeiro texto materialista de Marx, escrito no final de 1843.

autor Ricardo Antunes
orelha Virgínia Fontes
edição Pedro Davoglio
capa e diagramação Antonio Kehl
coordenação de produção Livia Campos
páginas 152

Quem é Ricardo Antunes?

Ricardo Antunes nasceu em São Paulo, em 1953. Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, mestre em Ciência Política pela Unicamp, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, professor titular de Sociologia na Unicamp, Antunes é um dos principais nomes da Sociologia do Trabalho no Brasil. Na Boitempo, coordena a coleção Mundo do Trabalho, que reúne estudos sobre o trabalho e sua centralidade, análises do sindicalismo, questões de gênero e o impacto das transformações trazidas pela globalização.

Pela Boitempo, publicou Os sentidos do trabalho (1999), O caracol e sua concha (2005), O continente do labor (2011), O privilégio da servidão (2020, edição revista e ampliada), Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado (2020) e Curso Livre Engels: vida e obra (2021), em coautoria com Alysson Mascaro, José Paulo Netto, Virginia Fontes e Marília Moschkovich. Também é organizador de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007), Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II (2013), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil III (2014),Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV (2019), Uberização, trabalho digital e indústria 4.0 (2020).

“Caminhar com Ricardo Antunes pela terra arrasada é necessário, pois ele nos mostra que, se as contradições são a cada dia mais agressivas, a luta prossegue ainda mais urgente.”

VIRGÍNIA FONTES

Escrever como ato de resistência

Pensar, estudar e escrever sob as condições desoladoras que nos perseguem nos últimos anos é ato de sobrevivência, de resistência e, sobretudo, de enfrentamento e luta. Nossos tempos são aqueles em que os adjetivos, a cada dia mais dramáticos, parecem perder força. O real é infinitamente mais tenebroso do que nossos textos conseguem retratar.

Essa degradação se apresenta em Capitalismo pandêmico em dois níveis. No âmbito mundial, a palavra dos capitalistas mais poderosos do planeta procura silenciar os demais de maneira brutal, inclusive por algoritmos, e sua voz é ecoada por uma imprensa proprietária que, mesmo sem querer, mostra o quanto o capital é incapaz de lidar com uma pandemia de maneira humana

O segundo nível é o da devastação no Brasil protofascista de Bolsonaro, ainda mais intensa do que em outros países. A defesa descarada dos preconceitos, a perseguição política, o negacionismo científico, o descaso com a população, o estrangulamento do SUS e das universidades, o desmantelamento de conquistas populares históricas, a destruição da natureza pela predação direta e pelo envenenamento agrotóxico, são apenas alguns elementos dessa ruína bolsonarista.

Virgínia Fontes

Historiadora, professora da Pós-Graduação em História da UFF, onde integra o NIEP-MARX – Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o marxismo.

“Nem eu posso trazer o recordo dessa figura. Suas formas não figuravam um desenho de descrever, semelhando um malfeitor vindo dos infernos. Sempre eu só ouvira falar deles, os psipocos, fantasmas que se contentam com nossos sofrimentos.”

MIA COUTO em Terra sonâmbula

A pandemia do capital

Foi no solo da crise estrutural do capital que a pandemia se proliferou intensamente, levando à morte de milhões de pessoas em todo o mundo, além de desempregar milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Pode-se imaginar, então, o tamanho da tragédia na periferia, nos tristes trópicos…como é o caso do Brasil. Desde logo, teremos uma massa de trabalhadores e trabalhadoras sem condições mínimas de sobrevivência, tangenciando ou vivenciando uma fome profunda e sendo enterrada, aos milhares, nos cemitérios.

A esta simultaneidade e imbricação trágica entre sistema de metabolismo antissocial do capital, crise estrutural e explosão do coronavírus podemos denominar, se quisermos usar uma síntese forte, capital pandêmico. Ele tem um claro caráter discriminatório em relação às classes sociais, pois sua dinâmica é muito mais brutal e intensa para a humanidade que depende do próprio trabalho para sobreviver.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.22]

“Uns anjos tronchos do Vale do Silício
Desses que vivem no escuro em plena luz…
No império e nos seus vastos quintais…
Munidos de controles totais… Comandam só seus mi, bi, trilhões… “

CAETANO VELOSO em Anjos tronchos

A metáfora do Bacurau

Agora, entretanto, o rei está nu: a essência perversa e destrutiva do sistema de metabolismo antissocial do capital destrói o trabalho e a humanidade, destrói a natureza, explora e oprime intensamente as mulheres, negros e negras, indígenas, impede a busca vital da igualdade substantiva, a felicidade da juventude, a plena liberação sexual etc. É chegada a hora de obstar, barrar, travar e impedir mais devastação do trabalho, mais sujeição, mais desumanização.

Quando todas as alternativas parecem imprevisíveis, aflora a contundente metáfora do Bacurau. Depois do enorme saque causado por forças poderosas externas e quase invisíveis, o que menos parecia factível ocorreu: o levante popular, a revolta de toda a população da cidade contra o vilipêndio que vinha sofrendo. Isso porque é difícil imaginar que uma sociedade – qualquer que seja – possa ser destroçada ilimitada e eternamente.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.46]


“Assistiu-se a verdadeiros experimenta in corpore vili [experimentos num corpo sem valor], como aqueles que os anatomistas realizam em rãs.”

KARL MARX em O capital

Pandemia e pandemônio

Com a vitória eleitoral de Bolsonaro e a nada esdrúxula combinação de neoliberalismo extremado com autocracia tutelada, os resultados desastrosos em relação ao mundo do trabalho só vêm se aprofundando. A “contrarreforma” trabalhista, que era alardeada como capaz de incrementar o mercado de trabalho, ofereceu uma explosão do número de desempregados, aumentando ainda mais a informalidade da nossa classe trabalhadora.

Pandemia e pandemônio, um global e outro local, são os contornos de nossos trágicos tempos. Por isso, se tivesse que dar outro título a este livro, poderia intitulá-lo Escritos pandêmicos. Foi neste contexto que desenvolvemos a ideia de capitalismo pandêmico ou virótico. Destrutivo, letal e belicista, o sistema do capital finalmente assume sua forma pandêmica e nos traz uma sucessão de vírus horripilantes que são resultado de tantas devastações: da natureza, do trabalho e da própria humanidade. Essa é a fotografia sem retoques do capitalismo de nosso tempo.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.85]

“As alienações, as coisificações e os tantos estranhamentos, as devastações ambientais, as opressões de gênero, raça, etnia, sexo, todas essas aberrações – e tantas mais – estão sendo desencavadas dos porões mais abjetos, das catacumbas mais lúgubres e das cavernas mais ossificadas, que em alguns casos pareciam estar permanentemente cerrados.”

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.16]

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América Latina entre o novo e o velho

É preciso enfatizar que, enquanto o capitalismo industrial se desenvolveu de modo autônomo nos Estados Unidos, nos países da América Latina ele nasceu subordinado e dependente. Gestou-se, aqui, um capitalismo economicamente integrado para fora e socialmente desintegrado para dentro. As burguesias nacionais, associadas e dependentes das burguesias centrais, em especial da norte-americana, acabaram por não constituir um projeto capitalista nacional e autônomo, mas, ao contrário, expandiu-se e garantiu-se sua dominação local, preservando os vínculos de dependência e subordinação. Gestou-se, então, um tipo particular de capitalismo dependente em relação ao centro monopolista e imperialista existente nos EUA.

Tendo como dominante e mandatária uma burguesia dependente, o capitalismo na América Latina desenvolveu uma complexa dialética entre o arcaico e o moderno, entre o novo e o velho. Oscilando entre a modernização e o arcaísmo, fazendo avançar o atraso e retroceder o moderno, lutando contra o domínio imperial da América do Norte, resistindo e rebelando-se contra as enormes iniquidades econômicas e sociais internas, a emancipação da América Latina está em grande medida vinculada à luta pela emancipação com relação à América do Norte.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.93]

“A confluência entre uma economia destruída, um universo societal destroçado e uma crise política inqualificável converteu o Brasil em um forte abismo humano, um verdadeiro cemitério coletivo.”

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.23]

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Do proletariado industrial ao uberizado

O novo léxico corporativo precisava se revitalizar para que o cenário se assemelhasse a algo distinto: além de incorporar expressões como colaborador, parceiro, resiliência, sinergia etc., as plataformas deram novo impulso ao empreendedorismo, materializado em um personagem que sonha com a autonomia, mas na prática defronta-se cotidianamente, como se viu nas reivindicações do breque dos apps, com o adoecimento sem amparo de seguro-saúde ou previdência, com baixos salários, ausência de direitos, acidentes de trabalho, mortes etc., elementos que se acentuaram ainda mais durante a pandemia.

E foi assim que proliferou o que já se convencionou chamar de trabalho uberizado. Transfigurados e convertidos em “empreendedores”, os entregadores ainda arcam com os custos dos instrumentos de trabalho (carros, motos, bicicletas, mochilas, celulares etc.). Sua condição “autônoma” é, portanto, puro falseamento.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.133]

“Devemos reiterar que a questão crucial que a pandemia nos impõe é desenvolver todos os esforços para preservar a vida e, simultaneamente, reinventar um novo modo de vida.”

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.39]

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A batalha pela igualdade substantiva

Não se pense que o trabalho uberizado ou plataformizado está restrito a motoristas e entregadore(a)s. O potencial de expansão é enorme, como pude indicar em O privilégio da servidão. Médicos, enfermeiras, jornalistas, professores, advogados, arquitetos, engenheiros, tradutores, trabalhadoras do care (cuidados), empregadas domésticas, a lista não para de crescer e abrange um leque enorme de atividades desenvolvidas especialmente nos serviços.

Que não se pense, então, que desse flagelo estamos livres. Não há nenhuma garantia de que um PhD hoje não possa ser um uberizado amanhã. Se assim é, o desafio mais urgente e ao mesmo tempo mais imediato em nossos dias é exigir direitos em todas as suas formas e modalidades de trabalho, condição mínima para que sejam garantidos ao menos coágulos de dignidade na atividade laborativa. O que já seria um primeiro passo na batalha pela igualdade substantiva, que se torna, então, um imperativo crucial de nosso tempo.

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.146]

“O trabalho livre e associado; a questão ambiental e o fim da destruição da natureza; a eliminação das opressões de gênero, raça, etnia, geração; a reinvenção da propriedade social, esses são alguns dos pontos centrais para um novo recomeço, se quisermos caminhar social, solidária e coletivamente em direção a um novo modo de vida efetivamente emancipado.”

[CAPITALISMO PANDÊMICO, p.74]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos dois textos de Ricardo Antunes: um capítulo de O privilégio da servidão e um artigo da coletânea Infoproletários. Também compartilhamos uma entrevista com Ludmila Abílio sobre a uberização, presente na coletânea Os laboratórios do trabalho digital.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Ricardo Antunes

Quem é a classe trabalhadora hoje?


Ricardo Antunes

Século XXI: nova era da precarização estrutural do trabalho?


Ludmila Abílio

Uberização como apropriação do
modo de vida periférico

Vídeos

Este mês trazemos a apresentação de Capitalismo pandêmico feita pelo próprio Ricardo Antunes, o lançamento antecipado do livro, que contou com a participação de Ricardo Antunes, Virgínia Fontes, Carolina Catini e Eduardo Atlheman (mediação) e o curso “Privilégio da servidão”, em seis aulas, com o autor da caixa de maio.

Para aprofundar…

Uma compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Os sentidos do trabalho, de Ricardo Antunes

O caracol e sua concha, de Ricardo Antunes

O continente do labor, de Ricardo Antunes

O privilégio da servidão, de Ricardo Antunes 

Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado, de Ricardo Antunes 

Curso Livre Engels: vida e obra, de Ricardo Antunes, Alysson Mascaro, José Paulo Netto, Virginia Fontes e Marília Moschkovich

Riqueza e miséria do trabalho no Brasil, organização de Ricardo Antunes

Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual, organização de Ricardo Antunes

Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II, organização de Ricardo Antunes

Riqueza e miséria do trabalho no Brasil III, organização de Ricardo Antunes

Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV, organização de Ricardo Antunes

Uberização, trabalho digital e indústria 4.0, organização de Ricardo Antunes

Rádio Boitempo: CB#05 Curso Livre Marx-Engels: A constituição da classe trabalhadora, com Ricardo Antunes, abril 2019.

Revolushow: Curso Livre Marx-Engels: proletariado e práxis revolucionária, com Ricardo Antunes, jan. 2021.

Cine Trabalho: #11 – Indústria americana, com Ricardo Antunes, fev. 2021.

Brasil de Fato Entrevista: #36 – Ricardo Antunes: “Pandemia desnuda perversidade do capital contra trabalhadores”, com Ricardo Antunes, jun. 2020.

Rackeando: #6 Rackeando Obras com Professor Ricardo Antunes, ago. 2020

Guilhotina: #25 – Ricardo Antunes, jun. 2019.

Viracasacas podcast: #67 – Trabalho e o desafio da emancipação, com Ricardo Antunes, jun. 2018.

Dia M 2022 – Marx: modos de ler, com Ricardo Antunes.

Uberização, indústria digital e trabalho 4.0, com Ricardo Antunes, Paulo Galo e Luci Praun, TV Boitempo.

Coronavírus: o trabalho sob fogo cruzado, com Ricardo Antunes e Renata Souza, TV Boitempo.

Programa Roda Viva com Ricardo Antunes, Roda Viva.

Ricardo Antunes: Trabalho intermitente e o trabalhador hoje no Brasil, Brasil de Fato.

BDF em Casa #8, com Ricardo Antunes, Brasil de Fato.

Mundo do trabalho, pandemônio e pandemia, com Ricardo Antunes, Instituto de Economia da Unicamp.

Curso “Privilégio da servidão”, com Ricardo Antunes, TV Boitempo.

O que é alienação?, com Ricardo Antunes, TV Boitempo.

Quem foi Karl Marx?, com Ricardo Antunes, TV Boitempo.

A pandemia da uberização e a revolta dos precários“, por Marco Santana e Ricardo Antunes, Le Monde Diplomatique Brasil, abril 2021

8 obras para entender os desafios da classe trabalhadora hoje“, por Ricardo Antunes, Blog da Boitempo, maio 2021.

O laboratório e a experimentação do trabalho na pandemia do capital“, por Ricardo Antunes, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2020

Trabalho virtual?“, por Ricardo Antunes, Blog da Boitempo, set. 2020.

O vilipêndio da COVID-19 e o imperativo de reinventar o mundo“, por Ricardo Antunes, O Social em Questão, abril 2021.

Ricardo Antunes e o proletariado em tempos de pandemia“, por Tarso de Melo, Cult, abril 2020.

Entrevista com Professor Dr. Ricardo Antunes“, por Lucas Martins Soldera, Psicologia em Estudo, 2020.

Bate-papo na labuta” com Ricardo Antunes, Democracia e Mundo do Trabalho, jan.2022.

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