Guia de leitura | Marxismo e política | ADC#44

Marxismo e política: modos de usar
Luis Felipe Miguel
Guia de leitura / Armas da crítica #44
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Quais e quantas combinações são possíveis entre o marxismo e a ciência política? Em Marxismo e política: modos de usar, o cientista político Luis Felipe Miguel debate a relevância do marxismo para a análise da política. A obra busca introduzir e enfatizar a utilidade desse marco teórico para a produção de uma ciência política capaz de entender o mundo social e orientar a ação nele.
Ao longo dos nove capítulos, o autor cruza diferentes temas da tradição marxista com o campo da ciência política, como as classes sociais, o Estado, o gênero, alienação e fetichismo e muitos outros. Em contrapartida, demonstra a importância de uma abertura do próprio marxismo ao diálogo com a produção contemporânea da ciência política. Com isso, ao mesmo tempo evita o dogmatismo e abre caminhos para a pesquisa em ambos os territórios dos quais se propõe a tratar.
Além do livro, marcador e adesivo, nossos assinantes recebem o livreto “Mensagem inaugural da Associação dos Trabalhadores“, de Karl Marx e pôster com o Hino da Internacional Comunista.
autor Luis Felipe Miguel
apresentação Andréa Galvão
orelha Leda Paulani
edição Pedro Davoglio
coordenação de produção Livia Campos
assistência editorial e revisão Marcela Sayuri
preparação Carolina Hidalgo Castelani
capa Daniel Justi
diagramação Antonio Kehl
páginas 208


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Quem é Luis Felipe Miguel?
Luis Felipe Miguel é doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular livre do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL-UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Pela Boitempo publicou Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (2017) e Feminismo e política (em coautoria com Flávia Biroli, 2014).
“Numa batalha, que percorre todo o livro, contra a possibilidade e a pertinência de uma ciência política autônoma, o autor busca mostrar como as categorias marxianas podem ajudar a disciplina a sair do giro em falso da pequena política, bem como a ficar imune a surpresas que desafiam o caráter bitolado de seus modelos, como a corrente crise enfrentada pela democracia.”
LEDA PAULANI


Marx: cientista político?
Quem foi Marx? Um filósofo, talvez? Mas ele justamente brigou com a filosofia quando abraçou o materialismo. Seu livro A ideologia alemã não é outra coisa senão uma antifilosofia.
Economista? Mas sua obra magna, O capital, tem como subtítulo justamente Crítica da economia política e buscava mostrar, a partir de suas próprias descobertas, o caráter não científico da disciplina que nascera no final do século XVIII (que apesar de tudo ele respeitava, por ter dado início à teoria do valor-trabalho) – para não falar do fato de ser ele renegado hoje por 99,9% daqueles que professam a economia moderna e hegemônica (cujos ancestrais Marx chamava de “economia vulgar”).
Historiador… quem sabe? Mas como caberia a ele tal qualificação se, segundo um de seus leitores mais conceituados, Louis Althusser, foi ele o responsável por ter criado “o continente da História”, ou seja, ter viabilizado a promoção dela ao status de disciplina científica?
Em Marxismo e política: modos de usar, aparentemente simples manual para uso eventual de viajantes precavidos, Luis Felipe Miguel acrescenta à lista acima de títulos, que se intervertem ao serem aplicados a Marx, também o de cientista político.
Leda Paulani
Professora do Departamento de Economia da FEA-USP e da pós-graduação em Economia do IPE-USP.
“Ao iluminar as conexões entre as diferentes dimensões da vida social, este livro nos faz um convite à reflexão sobre o potencial e os diferentes horizontes de transformação social. Diante das possibilidades em aberto, ao menos duas certezas se vislumbram: nenhum projeto de transformação verdadeiro pode deixar de promover a articulação entre as distintas formas de dominação e opressão; e nenhuma crítica consequente ao capitalismo pode ignorar a emergência climática e a agenda ambiental, pois não haverá natureza, humanidade e sociedade futura sem uma mudança radical nos modos de produção da vida.”
ANDRÉIA GALVÃO


Modos de pensar e fazer política
Quais e quantas são as diferentes formas de se combinar marxismo e política? Ao promover um diálogo entre os dois termos que dão título a seu livro, Luis Felipe Miguel nos oferece muito mais que a oportunidade de refletir “sobre a utilidade das categorias marxianas ou nascidas da tradição marxista” para a compreensão do mundo social e das possibilidades de transformá-lo.
Com efeito, a conjunção proposta pelo autor se declina em pelo menos três “modos de usar” distintos, mas complementares. Nenhum deles sugere o uso instrumental de um dos componentes do enunciado pelo outro; antes, problematiza a relação entre ambos, descortinando diferentes formas de pensar. Trata-se, em primeiro lugar, e de acordo com a intenção declarada pelo autor, de discutir as contribuições do marxismo para a ciência política, ou seja, para uma disciplina cujas características constitutivas e enfoque predominante a tornaram mais refratária à incorporação dessa abordagem teórico-metodológica.
Em segundo lugar, de situar a política no interior do arcabouço teórico marxista, demonstrando a importância dessa categoria analítica (ou nível, ou instância, nos termos da tradição estruturalista) para a construção do marxismo como teoria voltada para a totalidade social, o que requer enfrentar o debate provocado pelo economicismo e recusar leituras de cunho determinista. Uma terceira possibilidade, que emerge da compreensão do marxismo como filosofia da praxis, consiste em se indagar acerca da indissociação entre marxismo e prática política e, portanto, sobre as condições de produção de uma ciência socialmente engajada.
Andréia Galvão, na apresentação de Marxismo e política: modos de usar
Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) .
“A política é mais bem compreendida como um conjunto de práticas sociais, historicamente determinadas, cuja abrangência é fruto também das lutas sociais. Dito de outra maneira, como o processo pelo qual se obtém acesso ao exercício do poder e, por meio dele, à organização da vida coletiva numa determinada sociedade.”
LUIS FELIPE MIGUEL
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.30]


Política e economia
A política é percebida como a prática que expressa as contradições presentes na sociedade e a arena em que se encontram as soluções, sempre provisórias, para elas. A fórmula gramsciana expressa com clareza: o “político em ato é um criador, um suscitador, mas não cria a partir do nada nem se move na vazia agitação de seus desejos e sonhos. Toma como base a realidade efetiva”. Significa mais do que a frase surrada, atribuída a Bismarck, de que “a política é a arte do possível”, pois entende que a ação política incide também sobre o universo das possibilidades em aberto.
Por isso – e essa é uma lição que Gramsci extrai de Maquiavel – a análise realista do mundo social não pode ser desatenta aos elementos, presentes na própria realidade, que a empurram para além de sua configuração atual. A ciência política, com frequência presa de uma miopia profunda, que a leva a trabalhar com o momento presente como se estive congelado, tem muito a ganhar com esse entendimento.
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.41]
“Uma análise das disputas políticas com atenção às classes já nos força a ultrapassar a visão estreita da política como resumida à disputa de cargos de mando e condicionada às instituições existentes. Força-nos também a entender o Estado não como ente à parte, mas como sempre vinculado aos padrões de dominação presentes na sociedade. Em suma, o foco nas classes, embora não resuma todo o conflito social, ilumina uma parte indispensável dele e amplia nossa compreensão sobre o que é a política.”
LUIS FELIPE MIGUEL
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.58]


As classes sociais
O conceito basilar para a explicação dos conflitos sociais e da transformação histórica, na concepção marxista, é o de classe social. O clichê “a luta de classes é o motor da história” introduz uma simplificação excessiva, mas é fato que, logo no início do Manifesto comunista, está escrito que “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes”.
Criticada por condenar à irrelevância outras clivagens sociais, como gênero ou raça, essa percepção tem no entanto o mérito de apontar um eixo de conflito que estrutura grande parte da dinâmica social e que não pode ser ignorado. É possível lê-la como indicativo de que o conflito de classes é o único conflito social relevante, como fazem correntes do marxismo mais ortodoxo; que tal conflito é o mais central, embora outros também possam ser importantes, como fazem algumas vertentes contemporâneas; ou que ele é central, assim como outros podem ser igualmente centrais, sem estabelecer uma hierarquia a priori, na trilha, por exemplo, do feminismo socialista da segunda metade do século XX. Seja como for, “classe” é um elemento indispensável para pensarmos a sociedade e suas contradições.
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.44]
“Sustentar a relevância da análise de classes para a compreensão da sociedade e da política contemporâneas é tarefa menos espinhosa do que entender a relação entre classes sociais e formas de dominação diversas, como aquelas vinculadas a gênero ou raça.”
LUIS FELIPE MIGUEL
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.60]


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Divisão sexual do trabalho
Há uma divisão sexual do trabalho que confere às mulheres responsabilidades específicas sobre um conjunto heterogêneo de tarefas indispensáveis para a vida humana, mas que tendem a ocorrer em espaços privados e são invisibilizadas como atividade laboral – as tarefas chamadas de “reprodução social”.
As mulheres se encontram distribuídas pelas diferentes classes sociais mas, em cada uma delas, tendem a ser as responsáveis por esses afazeres. A primeira questão para o marxismo, então, é como relacionar as atividades de reprodução social com as relações capitalistas de produção.
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.60]
“Embora o marxismo não tenha desenvolvido uma teoria própria da democracia, a não ser de forma muito embrionária, ele fornece ferramentas fundamentais para estabelecer uma crítica bem fundada das limitações do modelo liberal-representativo e, assim, evitar a tentação de mistificá-lo.”
LUIS FELIPE MIGUEL
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.109]


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Capitalismo e desigualdade racial
É indiscutível que Marx e os primeiros marxistas subteorizaram a questão racial, ainda que ele próprio tenha sido um entusiasta da abolição da escravidão (e, por conta disso, um grande admirador de Abraham Lincoln). Mesmo Lênin, que deu atenção ao tema e pressionou a Terceira Internacional a abraçar, com ênfase, as lutas anticoloniais e da população negra estadunidense, tendia a anexá-lo ao debate sobre a questão nacional e o direito de autodeterminação dos povos. […]
Não é mais possível nem mesmo desejável subsumir todas as demandas emancipatórias, dos diferentes eixos de dominação social, na classe, o que significa que qualquer projeto de transformação social passa hoje pela composição com uma diversidade de grupos e de agendas. E, dada a pluralidade de posições de sujeito, essas demandas se cruzam nos próprios indivíduos e complicam o reconhecimento de porta-vozes de demandas coletivas. O marxismo seguramente não apresenta respostas prontas para todos esses dilemas. Mas ajuda, e muito, a ampliar a complexidade do olhar sobre eles e a afastar saídas enganosamente fáceis.
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR, p.79-93]
“Fazer de Marx um ambientalista avant la lettre ou buscar nele uma presciência milagrosa sobre os desafios ecológicos que enfrentamos hoje tem um quê de ridículo. Mas a crítica ao capitalismo, a seu caráter predatório, à violência que ele engendra, cujos mecanismos foram em grande medida desvendados por Marx e pelos pensadores que seguiram seus passos, tudo isso é essencial a qualquer enfrentamento consequente da crise ambiental.”
LUIS FELIPE MIGUEL
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.177]


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A questão ecológica
Nas últimas décadas, a pauta ambiental ganhou uma centralidade que não tinha no tempo de Marx. Passamos do tema da poluição, com suas consequências nefastas para as pessoas submetidas a ela, ao colapso climático, que coloca em risco o futuro do planeta e a sobrevivência da humanidade.
Há uma consciência crescente de que o relógio corre acelerado e que, caso não sejam tomadas medidas drásticas em curto espaço de tempo, a catástrofe será inevitável. Até lá, a deterioração do meio ambiente reduz a qualidade de vida e as perspectivas de futuro de todos, mas de forma muito desigual – os efeitos são muito mais danosos para os mais pobres, sejam pessoas ou países, e também para as mulheres.
[MARXISMO E POLÍTICA: MODOS DE USAR p.164]

Leituras complementares
Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!
Este mês trazemos um capítulo sobre o aborto, disponível em Feminismo e política, de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli, além de um capítulo de Dominação e resistência, do autor da caixa do mês e outro de Marx: uma introdução, de Jorge Grespan.
Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!
Flávia Biroli
O debate sobre aborto
Luis Felipe Miguel
A participação política
Jorge Grespan
História e revolução

Vídeos
Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Luis Felipe Miguel, Leda Paulani, Felipe Demier e Daniela Mussi (mediação), um vídeo com o autor da caixa do mês comentando as formas de se organizar politicamente e outro em que analisa como o Brasil caminhou da Lava Jato ao bolsonarismo.

Para aprofundar…
Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Dominação e resistência, de Luis Felipe Miguel
Feminismo e política, de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli
Repensar Marx e os marxismos, de Marcello Musto
Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd
Marx, uma introdução, de Jorge Grespan
Teoria econômica marxista, de Osvaldo Coggiola
Marx, esse desconhecido, de Michael Löwy
Marx nas margens, de Kevin B. Anderson

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #3: Como se organizar politicamente?, com Luis Felipe Miguel, ago. 2022.
Guilhotina: #164: A crise das democracias na periferia capitalista, com Luis Felipe Miguel, maio 2022.
Conversas da manhã: Elite brasileira não aceita ideia de democracia relacionada à igualdade, maio 2022.
Opera Mundi: Quais os limites da esquerda moderada?, com Breno Altman e Luis Felipe Miguel, ago. 2022.
Expressão Popular: O colapso da democracia no Brasil: 5 anos do golpe, com Luis Felipe Miguel, ago. 2021.

O marxismo explica a política brasileira?, com Luis Felipe Miguel, Opera Mundi.
Estratégias de resistência política em tempos difíceis, com Luis Felipe Miguel e Esther Solano, TV Boitempo.
Tutaméia entrevista Luis Felipe Miguel, Tutaméia TV.
A democracia na periferia capitalista, com Luis Felipe Miguel, IFCH Unicamp.
Decifrando Bolsonaro, com Luis Felipe Miguel, TV 247.
Governabilidade se constrói com pressão popular, com Luis Felipe Miguel, Opera Mundi.

“Marx: cientista político?“, por Leda Paulani, Blog da Boitempo, jun. 2024.
“Marxismo, classe e identidade“, por Luis Felipe Miguel, Blog da Boitempo, jun. 2024.
“Doze autores marxistas para entender a democracia“, por Luis Felipe Miguel, Blog da Boitempo, maio 2024.
“Marxismo, classe e identidade“, por Luis Felipe Miguel, Blog da Boitempo, jun. 2024.
“O nome do culpado é capitalismo“, por Luis Felipe Miguel, Blog da Boitempo, maio 2024.
“Marx e a liberdade“, por Luis Felipe Miguel, Blog da Boitempo, maio 2021.
A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Mateus Rodrigues.


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