Guia de leitura | A tentação ecofascista | ADC#65

A tentação ecofascista: ecologia e extrema direita
Pierre Madelin
Guia de leitura / Armas da crítica #65
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É possível relacionar a extrema direita à defesa do meio ambiente? Essa junção pode parecer estranha e nada óbvia, mas já é observável em diferentes países e grupos. Em A tentação ecofascista: ecologia e extrema direita, Pierre Madelin apresenta essa ligação e demonstra de que forma ela está presente em ações, teorias e falas ao redor do mundo.
“Tentarei identificar os desafios intelectuais e políticos que as ideologias ecofascistas impõem às ecologias políticas que se preocupam em articular a defesa do mundo não humano com uma radicalidade emancipatória para os próprios seres humanos”, escreve.
Além do livro em versão impressa e e-book, os assinantes do Armas da Crítica de março de 2026 receberão um postal produzido em diálogo com cooperativa agrícola palestina Land and Farming, além de adesivo e marcador de páginas.
autor Pierre Madelin
orelha Virginia Fontes
quarta capa Michael Löwy
tradução Mariana Echalar
edição Pedro Davoglio
coordenação editorial Thais Rimkus
coordenação de produção Juliana Brandt
assistência editorial Marcela Sayuri
assistência de produção Livia Viganó
preparação Mariana Zanini
revisão Karina Okamoto
capa Livia Viganó
diagramação Antonio Kehl
coleção Estado de Sítio
páginas 208


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Quem é
Pierre Madelin?
Pierre Madelin é um filósofo e tradutor especializado em temas ambientais. Cresceu em Cuba e em Paris. Vive e trabalha em San Cristobal de las Casas, no México. Publicou e traduziu diversos livros, como Après le capitalisme: essai d’écologie politique (2017) e Faut-il en finir avec la civilisation ? Primitivisme et effondrement (2021).
Ecologia em disputa
Este é um livro inquietante, instigante e fascinante. Pierre Madelin nos leva a um périplo sobre a aproximação entre os marrons (fascistas) e os verdes (ecologistas), alertando para uma enorme quantidade de falsificações intelectuais nesse percurso.
Ora os ecologistas foram acusados de fascistas pelos desenvolvimentistas do capital, ora teorias naturalistas e biologizantes se apresentam como modelo normativo para a vida social, desconsiderando os processos sócio-históricos, territoriais e volitivos, ora os fascistas aderem a teorias ecologistas. Essa adesão pode ser verdadeira ou oportunista, mas envolve argumentos fortes e, eventualmente, sedutores.
O enfrentamento da questão ambiental é estratégico para a superação do capital e do capitalismo.
Virginia Fontes
Historiadora, professora-pesquisadora da EPSJV e da Universidade Federal Fluminense


“Se o fascismo fóssil, representado por sinistros personagens como Donald Trump ou Jair Bolsonaro – um fascismo climatonegacionista e visceralmente hostil a qualquer forma de ecologia –, predomina no mundo hoje, não podemos subestimar o potencial de correntes fascistas ‘verdes’, que associam a ‘defesa da natureza’ com o nacionalismo racista e o ódio aos imigrantes. É esse fenômeno que Pierre Madelin analisa e desmascara neste importante livro.”
MICHAEL LÖWY
Autor, entre outros livros, de Marx naródnik: os populistas russos, o comunismo e o futuro da revolução
Uma aparente contradição
Comecemos reconhecendo que o conceito de ecofascismo não é óbvio; mal a palavra é pronunciada e imediatamente surgem inúmeras objeções.
O conceito de ecofascismo não é uma mera atualização do conceito histórico de fascismo no contexto da crise ambiental contemporânea. Embora possa apresentar certos traços dos fascismos do século passado – e mais amplamente da grande família das ideologias identitárias e nacionalistas –, o ecofascismo não se reduz a eles.
Devemos reconhecer que não é nada fácil encontrar nas diferentes ecologias da direita radical um único critério que permita subsumi-las sob a bandeira do ecofascismo.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 11, 13-14]


Raízes do ecofascismo
Após 1945, as sociedades ocidentais tiveram um crescimento econômico e demográfico sem precedentes. Na Europa, o campo se esvaziou, o êxodo rural se acelerou e o campesinato secular foi engolido pouco a pouco pela modernização agrícola.
Foi o relatório do Clube de Roma sobre os “Limites do crescimento”, publicado em 1972, que causou impacto e sinalizou uma maior conscientização das elites políticas e econômicas mundiais a respeito dos desafios ambientais. Reunindo economistas, funcionários governamentais, políticos e industriais, e presidido pelo italiano Aurelio Peccei, membro do conselho de administração da Fiat, esse relatório pretendia provar, com o auxílio de modelos matemáticos, que a dinâmica exponencial do crescimento econômico e demográfico das sociedades industriais colidiria, em algum momento no futuro, com a finitude dos recursos terrestres e anunciaria ao mesmo tempo o fim iminente do crescimento.
Ora, entre os militantes e teóricos mais radicais da época, esse novo interesse pela ecologia nos círculos próximos do poder era visto com desconfiança. A ecologia corria o risco de se tornar um instrumento de gestão de um capitalismo inevitavelmente condenado à crise pelo esgotamento dos recursos naturais e pela degradação da biosfera.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 30 e 32]
“De fato, é muito provável que a gestão autoritária da escassez e da sobrevivência, se viesse a ocorrer, não afetaria os seres humanos de maneira indiferenciada.
No longo prazo, poderia conduzir, em nome do ‘interesse geral’ e da preservação dos equilíbrios da biosfera ou dos ‘ecossistemas nacionais’, ao sacrifício de certos grupos humanos, num primeiro momento restringindo drasticamente seu acesso a recursos e riquezas naturais e, por fim, contestando seu direito à existência, enquanto estigmatiza seu impacto ambiental suposto ou real.”
PIERRE MADELIN


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O “ecologismo” do
Terceiro Reich
O termo “ecologia”, criado por Ernst Haeckel, existia desde o fim do século XIX, assim como a disciplina científica de mesmo nome. Mas a ecologia no sentido moderno do termo, ou seja, a vontade de preservar as condições de habitabilidade da Terra em sua totalidade, ainda não ocupava nos anos 1930 a posição preeminente que ocupa hoje.
Assim, interrogar-se sobre um eventual “ecologismo nazista” não seria aceitar os termos do debate tal como foram estabelecidos por aqueles que ressuscitaram o fantasma do passado para desacreditar o movimento ecologista contemporâneo e aprisionar o futuro?
Sem dúvida, o nazismo foi um regime naturalista e biologizante em seus fundamentos ideológicos, particularmente preocupado em respeitar a natureza no sentido mitológico e ancorar na própria natureza o conjunto das relações sociais.
Mas a natureza dos nazistas – bem mais do que a natureza da ecologia científica, então em pleno desenvolvimento – é a do darwinismo social, e a “lei da natureza”, constantemente invocada, é a da guerra implacável entre as raças.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 51-53]
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A preocupação em fundar a ordem social na natureza e reconhecê-la como instância legisladora imperativa não conduziu de forma alguma os nazistas a adotar políticas eficientes de proteção da natureza, o que os alemães chamam de Naturschutz. Se acreditarmos nos dicionários da época, a Natur em questão designava sobretudo “o campo, composto de florestas e terras cultivadas”, e sua proteção se confundia com frequência com o Heimat (“onde nos sentimos em casa”), que na maior parte do tempo correspondia a uma paisagem fortemente antropizada, “na qual o Volk [povo] imprimiu sua marca e pela qual ele exprime o seu ser”.
Houve algum ambiente natural que escapou ao prometeísmo nazista, à obsessão produtivista e à busca insaciável de poder? Por exemplo, os pântanos e as zonas alagadas? A vontade de transformar em área de cultura agrícola a maior parte do território alemão e assegurar a soberania alimentar do Reich logo conduziu à defesa da drenagem e da “melhoria” dessas zonas. Os rios? Basta citar o Ems, na Vestfália, que em 1934 foi submetido a grandes obras, e fotos tiradas antes e depois dos trabalhos em um mesmo local mostram a extensão da devastação. O curso sinuoso do rio, que antes passava por uma espessa vegetação, foi literalmente endireitado e as ribanceiras foram aplainadas para prevenir enchentes e alimentar as culturas da região; criou-se uma paisagem desolada, em que as linhas retas eliminaram as mínimas curvas da paisagem anterior.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 57 e 59]


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Ecofascismo hoje
Do século XIX até o fim da Segunda Guerra Mundial, o que prevaleceu nas sociedades ocidentais foi uma concepção naturalista da raça: na América, na África, na Ásia ou na Oceania, as populações brancas originárias da colonização ou da imigração europeia eram apresentadas como intrinsecamente superiores às populações autóctones e às pessoas escravizadas e aos descendentes destas. Na Europa, segundo o imaginário nazista, por exemplo, as populações “arianas” eram consideradas intrinsecamente superiores aos judeus e aos eslavos. Tanto num caso como no outro, a teoria da evolução e, mais especificamente, o darwinismo social foram usados para legitimar uma hierarquia sociorracial implacável.
Mais tarde, esse racismo biológico desapareceu, mas a extrema direita não dera ainda a sua última palavra e, a partir do fim dos anos 1960, alguns de seus ideólogos mais finórios iniciaram uma virada importante.
Mudança ideológica real ou adoção progressiva de um racismo “culturalista” no qual não se trata mais de estabelecer uma hierarquia entre raças biológicas, mas de demarcar fronteiras estanques entre “culturas” ou “civilizações” homogêneas em sua composição interna e totalmente heterogêneas em relação umas às outras?
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 81-82 e 86]
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Pós-colonialismo de direita?
O etnodiferencialismo da Nova Direita se exprime com frequência em termos diretamente inspirados na antropologia social, a ponto de certos pesquisadores não hesitarem em falar de “literatura pós-colonial de extrema direita”. A expressão pode parecer absurda ou até mesmo chocante, quando se sabe quanto a extrema direita francesa se construiu ou reconstruiu, no período pós-guerra, rejeitando os processos de descolonização.
Na perspectiva dessas críticas, os grupos dominantes – brancos, ocidentais, europeus etc. – é que estariam ameaçados de perder sua identidade e perpetuidade por conta da proliferação das “minorias” e de suas reivindicações.
Portanto, a denúncia da colonização europeia dos séculos passados e da dominação da qual muitos povos do Sul global continuam a ser objeto hoje é, antes de tudo, para lançar luz sobre a colonização da qual a própria Europa seria vítima; a “grande substituição” e o “etnocídio” (ou melhor, o “genocídio por substituição”, em suas versões mais exageradas), dos quais europeus seriam vítimas hoje, seriam de certo modo a cópia fiel do genocídio e do etnocídio que as populações nativas da América, da Ásia, da África e da Oceania sofreram entre os séculos XV e XIX.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 86-88]


“Mas se os congoleses se sentem mais à vontade nas margens dos seus rios, os árabes nos seus desertos e os papuas nas suas florestas, o que deve ser feito com os que tiveram a infelicidade de desembarcar ‘no nosso país’? Prejudicial à identidade das sociedades que as acolhem, a presença dessas pessoas não é incompatível também com a preservação de um meio ambiente ao qual não estão adaptadas? Elas não teriam de ser devolvidas às suas “etnias”, às suas terras de origem, em resumo, “reimigrar” por razões indissociavelmente culturais e ecológicas? Essa é a conclusão a que chegam manifestamente diferentes autores ecofascistas.”
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 102]
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Ideologias sacrificiais para um mundo em colapso
Num contexto de agravamento da crise ambiental, a degenerescência autoritária neofascista poderia levar a um “carbofascismo” ou um “ecofascismo”.
O “carbofascismo” implica uma fuga adiante em todos os níveis. Viciado em combustíveis fósseis, totalmente indiferente às condições ambientais de sua sobrevivência, se dispõe a levar com ele para o túmulo o legado de vários bilhões de anos de evolução. Em todos os países (ou quase) onde são uma força eleitoral importante e onde subiram ao poder, como no Brasil de Jair Bolsonaro e nos Estados Unidos de Donald Trump.
O ecofascismo designa uma política de gestão do capitalismo em crise que cuidaria do ambiente de vida sem reduzir prioritariamente a pegada ecológica das nações e das classes que lucram com as relações sociais capitalistas; ao contrário, perpetuaria as condições socioecológicas do acesso privilegiado dessas nações e classes à abundância material e energética, em especial pela marginalização ou eliminação dos grupos e dos indivíduos entendidos como supranumerários.
[A TENTAÇÃO ECOFASCISTA, p. 164-167]


“Para os movimentos ecologistas Contemporâneos que continuam a se reconhecer num ideal internacionalista de emancipação universal, não é fácil enfrentar os ímpetos ‘antiglobalistas’ e ‘localistas’ de certas franjas da extrema direita, como bem devemos admitir. Pois não há como não reconhecer que é indispensável decrescer, exceto se aderirmos ao mito do crescimento verde.”
PIERRE MADELIN

Leituras complementares
Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!
Este mês trazemos a introdução de Vivendo no fim dos tempos, de Slavoj Žižek; um capítulo da coletânea Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico, organizada por Laura Luedy; além de um artigo publicado na revista Margem Esquerda #41 que discute a relação entre marxismo e ecologia.
Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!
Slavoj Žižek
Vivendo no fim dos tempos
Jean Carlos Hochsprung Miguel
Além do negacionismo: análise de crises e lutas no vértice das mudanças climáticas
Flávia Braga Vieira e María Julia Giménez
Marxismos, ecologia política e a questão ambiental contemporânea

Vídeos
Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Paulo Arantes, Virgínia Fontes, Henrique Tahan Novaes e mediação de Bruno Araújo (@brunopeloclima); uma explicação do conceito de “decrescimento” por Ana Paula Salviatti; um episódio da coluna Impertinências, em que Virginia Fontes aborda a relação entre capitalismo e colapso ecológico; e um debate com Paulo Arantes sobre “neoextrativismo depois da catástrofe”.

Para aprofundar…
Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Vivendo no fim dos tempos, de Slavoj Žižek
Extinção, de Paulo Arantes
O capital no antropoceno, de Kohei Saito
O ecossocialismo de Karl Marx, de Kohei Saito
Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos, de Vandana Shiva
Abundância e liberdade, de Pierre Charbonier
Enfrentando o Antropoceno, de Ian Angus
Margem esquerda #42 | Crise ecológica
Margem Esquerda #41 | Terra arrasada

Rádio Boitempo: Conversas camaradas #13: Enfrentando a crise climática, com Thiago Torres e Ingrid Sateré Mawé, dez. 2023.
Opera Mundi: Capitalismo verde ou ecossocialismo?, com Michael Löwy, dez. 2022.
Em Movimento: O que é ecossocialismo?, com Michael Löwy, set. 2022.
Tese Onze: Dicas de leitura em ecossocialismo, com Sabrina Fernandes, jun. 2021.
Présages: Primitivismo e ecofascismo [em francês], com Pierre Madelin, nov. 2021.
Lundi soir: A hipótese ecofascista [em francês], com Pierre Madelin, dez. 2023.

A questão política
decisiva do século XXI,
com Michael Löwy,TV Boitempo.
Feminismo, comuns e ecossocialismo, com Silvia Federici e Sonia Guajajara, TV Boitempo.
Marx e o ecossocialismo, com Kohei Saito e Sabrina Fernandes, TV Boitempo.
O que é ecossocialismo?, com Michael Löwy, TV Boitempo.
Marx se preocupou com a ecologia?, com Michael Löwy, TV Boitempo.
Marxismo, capitalismo e ecologia, com Ana Paula Salviatti, Arlindo Rodrigues, Luiz Marques e Michael Löwy, TV Boitempo.
Marx e o meio ambiente, com Michael Heinrich, TV Boitempo.
Como unir marxismo e ecologia?, com Silvia Federici, TV Boitempo.

“O que é ecofascismo? – e como combatê-lo“, por Virginia Fontes, Blog da Boitempo, mar. 2026.
“A preocupação ecológica de Marx para a superação da ordem capitalista destrutiva“, por Murillo van der Laan, Blog da Boitempo, mai. 2021.
“O que é imperialismo ecológico?“, por Maria Orlanda Pinassi, Blog da Boitempo, set. 2024.
“O fim do capitalismo como alternativa ao fim do mundo“, por Alexandre Araújo Costa, Blog da Boitempo, out. 2023.
“Ecodecálogo: dez mandamentos para salvar a vida neste planeta“, por Michael Löwy, Blog da Boitempo, jun. 2023.
“De quem é realmente a culpa da crise climática?“, por Kohei Saito, Blog da Boitempo, set. 2024.
“Conservadorismo verde: ecofascismo e movimento verde de extrema direita na Alemanha“, por Tatiana Poggi, Anais do congresso Marx e os marxismos, 2021.
A edição de conteúdo deste guia é de Carolina Peters e as artes são de Mateus Rodrigues.


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