Guia de leitura | ADC#8

Camarada
Jodi Dean

Guia de leitura / Armas da crítica #08


De que maneira a forma como nos relacionamos pode nos oferecer instrumentos poderosos para a compreensão de nossas lutas e para a construção de um futuro revolucionário?

Neste ensaio com recortes e análises bastante originais, Jodi Dean nos oferece uma teoria da camaradagem. Camaradas são pessoas que se encontram de um mesmo lado de uma luta política. Unindo-se voluntariamente por justiça, sua relação é caracterizada por disciplina, coragem e entusiasmo. Analisando o igualitarismo da figura do camarada à luz das diferenças de raça e gênero, a autora recorre a um leque de exemplos históricos e literários para mostrar que podemos estar do mesmo lado, ainda que sejamos diferentes.

Junto com o livro do mês, preparamos um livreto com o conto Camarada!, do escritor russo Máksim Górki. Amplamente comentado pela autora no livro, o conto é uma potente leitura sobre o termo então empregado na Rússia a partir 1917, que refletia novas e revolucionárias formas de se relacionar.

autor Jodi Dean
tradução Artur Renzo
orelha Christian Dunker
quarta-capa Manuela D’Ávila, Antonio Negri, Slavoj Zizek e Mark Fisher
edição Thais Rimkus
diagramação Antonio Kehl
capa Porto Rocha & No Ideas
páginas 208

Quem é Jodi Dean?

Jodi Dean é professora de teoria política, de teoria feminista e de mídia no departamento de Ciência Política do Hobart and William Smith Colleges, no estado de Nova York, onde também está engajada em trabalho político de base. Criada nos estados do Mississippi e do Alabama, ela se formou na Universidade Princeton e obteve seus títulos de mestrado e doutorado na Universidade Columbia.

Inicialmente, seu foco foi em estudos soviéticos. No segundo ano de graduação, no entanto, quando a União Soviética ruiu e o campo de estudos se dissolveu, ela migrou para teoria política. Seus livros abordam temas como solidariedade, possibilidades para a democracia, capitalismo comunicativo e construção de uma política que tenha o comunismo como horizonte.

Além de artigos em revistas acadêmicas e na mídia de maior circulação, possui mais de uma dezena de livros publicados. Camarada é sua primeira publicação traduzida para o português.

“Camarada: ao mesmo tempo um nom de guerre e um gesto de amor. Palavra que constrói a organização política e a luta; que faz reviverem os heróis que se foram.”

ANTONIO NEGRI

A quem esse livro se destina?

Os recursos teóricos que uso para o argumento formal vêm da intersecção entre o marxismo e a psicanálise. Recorro às ferramentas conceituais desenvolvidas nessa intersecção para me dirigir a um amplo setor da esquerda: àqueles que podem se considerar revolucionários, a outros que talvez realmente sejam revolucionários e a muitos que, espero, talvez se tornem revolucionários.

Quero fazer com que o problema que a esquerda enfrenta hoje venha à tona: a saber, sua falta de capacidade de estratégia ou tática unificadas. Em outras palavras, quero evidenciar essa falta de capacidade política estratégica ou, visto que para muitos ela já é evidente, explicitar esse fosso onde ela não se manifesta, a ponto de que o desejo por organização e camaradagem seja visto como absoluto e urgente.

Seria essa uma posição partidária? Sim – a verdade é partidária.

[CAMARADA, p.16-17]

“É disto que todas as pessoas engajadas nas atuais lutas por emancipação precisam: uma combinação singular de rigor teórico e avaliação sensata do impasse em que nos encontramos. Para quem ainda nutre ilusões sobre a democracia liberal, devemos simplesmente dizer: leia Jodi Dean

SLAVOJ ŽIŽEK

As quatro teses sobre o camarada

Tese um: “Camarada” dá nome a uma relação
caracterizada por uma condição comum, pela igualdade e pela solidariedade. Para os comunistas, a condição comum, a igualdade e a solidariedade são utópicas, rompendo as determinações da sociedade capitalista.

Tese dois: Qualquer um, mas nem todo mundo, pode ser um camarada.

Tese três: O indivíduo (como lócus de identidade) é o “Outro” do camarada.

Tese quatro: A relação entre camaradas é mediada pela fidelidade a uma verdade. As práticas de camaradagem materializam essa fidelidade, construindo essa sua verdade no mundo.

Os quatro atributos do camarada

Assim como há quatro teses sobre o camarada, o camarada também tem quatro características principais:

  1. disciplina
  2. alegria
  3. entusiasmo
  4. coragem

Esses quatro atributos caracterizam a fidelidade prática do camarada, a maneira como ele responde à descarga igualitária da multidão e trabalha para realizar e estender esse momento como o movimento do povo revolucionário.


Grau zero do comunismo

A camaradagem, em Chevengur, de Platonov, não é uma abundância imaginária de felicidade e bem-estar. Pelo contrário, é o grau mínimo de relação necessário para a resistência, para a esperança.

A camaradagem é uma condição necessária para o comunismo: o coletivo dos que desfrutam uns dos outros se recusa a deixar a propriedade tomar o lugar deles.

A negação de identidade, nacionalidade, classe e propriedade produz algo novo, um novo espaço de relação que exerce uma pressão própria.

Camarada é o grau zero do comunismo.

“O camarada é o grau zero do comunismo porque designa a relação entre aqueles que se encontram do mesmo lado da luta para produzir relações sociais livres, justas e iguais, relações desprovidas de exploração. Sua relação é política, é divisora. E é íntima, entrelaçada com a sensação de quão desesperadamente cada um depende do outro para que todos perseverem.”

[CAMARADA, p.95]

“A camaradagem não é algo
isento de riscos. Não é uma solução mágica para todos os problemas que a esquerda (muito menos o mundo) enfrenta. Mas ela é a única forma por meio da qual esses problemas talvez possam ser resolvidos.

Qualquer coisa a menos que isso nos condenará à concorrência, ao individualismo, ao cinismo e à melancolia em que estamos chafurdados. Para que ao menos sejamos uma esquerda, precisamos ser camaradas.”

[CAMARADA, p.193]


Um significante de resistência

Neste trabalho de reconstrução histórica do sentido da militância e do ativismo, Jodi Dean traz uma oportuna arqueologia da esquecida e seminal figura do camarada. Passando pela literatura, pelo cinema, pela psicanálise e pela história, ela nos mostra como a política é feita de laços e amizades, de sentimentos e apostas. Em torno da noção de camarada, ela nos faz lembrar como o desejo circula nessa formação ética tão particular, capaz de reunir em si disciplina, alegria, entusiasmo e coragem.

A autora nos mostra que o camarada, longe de se ver representado apenas na figura do homem branco europeu – ainda que nascido no contexto do partido –, há muito a supera e transcende. Sob esse significante de resistência, reúnem-se múltiplas formas de vida e identidades caracterizadas por uma condição comum, de luta pela igualdade e pela solidariedade.

Christian Dunker

Psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação, autor de Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros e de A arte da quarentena para principiantes.

“Vivemos tempos de mais sombra que luz e frequentemente nos perguntamos o que será capaz de costurar as pautas e as agendas de quem resiste e luta contra o obscurantismo e a extrema direita.

O que é capaz de nos dar sentido de luta comum em um momento histórico em que, cada vez mais, mesmo nas estruturas partidárias, nos organizarmos atomizados a partir de nossas identidades? Jodi Dean nos propõe a camaradagem como resposta.

Este livro nos lembra de que somos diversos e podemos estar do mesmo lado.”

MANUELA D’ÁVILA

Transformação política é sempre e somente coletiva

O capitalismo comunicativo impõe o imperativo de ser único. Ele exige que sejamos nós mesmos, que nos expressemos, que façamos por conta própria. Conformar-se, copiar e permitir que outra pessoa fale por nós são atitudes reprováveis, que denotam fraqueza, ignorância ou falta de liberdade. A impossibilidade de uma política individual, o fato de que a transformação política é sempre e somente coletiva, é suprimida, deslocada pela vaga convicção de que seríamos determinados por sistemas e forças que estão muito além de nossa capacidade de afetá-los. O clima muda. Nós, não.

Se reconhecermos que o apego à identidade individual é a forma de nossa incapacidade política, poderemos adquirir novas capacidades de ação, as capacidades coletivas de quem está do mesmo lado de uma luta. Poderemos nos tornar mais que aliados preocupados em defender nossa própria identidade individual e dar lições aos outros sobre o que eles devem fazer para nos ajudar nessa defesa. Poderemos nos tornar camaradas lutando juntos para mudar o mundo. Concordo, portanto, com o lembrete crucial de Mark Fisher: “Precisamos aprender, ou reaprender, a construir a camaradagem e a solidariedade, em vez de ficar fazendo o próprio trabalho do capital por ele, condenando uns aos outros, abusando uns dos outros”.

“A análise afiada que Jodi Dean faz dos impasses da esquerda é uma espécie de réquiem para boa parte da fanfarronice 2.0 da última década.”

MARK FISHER

Amor e revolução

Por que repensar o amor nos oferece instrumentos para refinar nossos pensamentos, nossas lutas e nosso horizonte revolucionário? Em Camaradas, Jodi Dean faz uma discussão sobre os sentidos da subjetividade e do pertencimento político. Seu principal argumento é que a noção de camarada oferece um campo de sentidos verdadeiramente revolucionário pois garante, ao mesmo tempo, uma forma de organização política em que as partes são responsivas e responsáveis pela coletividade, e uma forma não-burguesa de experienciar a vida coletiva.

A partir de Aleksandra Kollontai, Dean nos faz pensar que no capitalismo, o amor e o cuidado são circunscritos à esfera doméstica e à unidade familiar, as quais, por sua vez, são instituições atreladas ao modo de produção de mercadorias. Lutar por um socialismo feminista, como fizera Kollontai e como sugere Dean, é lutar também por outras formas de amor, de cuidado, de amizades, de pertencimento ao corpo social e, portanto, significa lutar por outra sociedade.

Ana Flávia Bádue

Doutoranda em antropologia cultural pelo The Graduate Center, CUNY, e mestra na mesma área pela Universidade de São Paulo. Possui pesquisas na área de gênero, família e financeirização e é membra da coletiva Marxismo Feminista.

“Este livro mobiliza a figura do camarada como forma de tratamento, índice de pertencimento e portador de expectativas e apresenta Jodi Dean em sua melhor forma.

Seu texto é espirituoso do começo ao fim; mordaz como é necessário ser contra aqueles que preferem atrapalhar, zombar ou confundir as perspectivas de uma política comunista e socialista igualitária; urgente como um programa de luta comum nestes tempos de autoritarismo, sexismo e racismo renovados”

BRUNO BOSTEELS

Disciplina e liberdade

Algumas pessoas à esquerda são céticas quanto a esse tipo de pertencimento político. Enxergando disciplina apenas como restrição,
não como a decisão de construir uma capacidade coletiva, elas substituem a atualidade da luta e do movimento políticos pela fantasia de que a política pode ser individual.

Essa substituição desconsidera o fato de que a camaradagem é uma escolha – tanto para a pessoa quanto para o partido ao qual ela se filia, conforme exploro adiante. Também ignora a qualidade libertadora da disciplina: quando temos camaradas, somos libertados da obrigação de ser, saber e fazer tudo por conta própria; há um coletivo maior dotado de uma linha, um programa e um conjunto de tarefas e metas. Também somos libertados de nossos impulsos (determinados pelo capitalismo comunicativo) de criticar e comentar notícias e acontecimentos no calor do momento. E, graças ao otimismo prático gerado pelo trabalho fiel, também nos livramos de certo cinismo que procura se passar por maturidade.

A disciplina fornece o apoio que nos libera para cometer erros, aprender e crescer. Quando errarmos – e cada um de nós vai errar –, nossos camaradas estarão lá para nos segurar, nos ajudar a sacudir a poeira e nos colocar na linha. Não somos abandonados para dar conta sozinhos.

[CAMARADA, p.148]

“A camaradagem é uma relação disciplinadora: as expectativas e a responsabilidade de atendê-las limitam a ação individual e geram uma capacidade coletiva. Os camaradas aprendem a deixar de lado o interesse próprio imediato e o desejo de conforto ou progresso pessoais pelo bem do partido, do movimento e da luta.

A disciplina nega e cria. Ela induz a subordinação do interesse pessoal em prol da produção de uma nova força, uma força potente o bastante para suportar os longos anos de luta revolucionária e prevalecer.”


Amor-camaradagem

O ideal de amor da classe operária está baseado na solidariedade de espírito e na vontade de todos os membros; homens e mulheres, na colaboração no trabalho, e portanto, se distingue completamente da noção do amor que tinham outras épocas da civilização. O ideal de amor-camaradagem forjado pela ideologia proletária para substituir ao “exclusivo” e “absorvente” amor conjugal da moral burguesa está baseado no reconhecimento de direitos recíprocos, na arte de saber respeitar, inclusive no amor, a personalidade do outro, em um firme apoio mútuo e na comunidade de aspirações coletivas.

O amor-camaradagem é o ideal necessário ao proletário nos períodos difíceis, de grandes responsabilidades, nos que se luta para o estabelecimento de sua ditadura ou para fortalecer a sua manutenção. Não obstante, quando o proletariado tiver triunfado totalmente e já seja um fato a sociedade comunista, o amor, o Eros de asas abertas, se revestirá de um aspecto totalmente diferente do que tem agora, se apresentará de uma forma completamente distinta, adquirirá um aspecto completamente desconhecido até agora.

Aleksandra Kollontai

Abram caminho para o Eros alado! (Uma carta à juventude trabalhadora), escrito por volta de maio de 1923, publicado pela primeira vez no Molodaia Guardia. Tradução de Antonio Souza para o blog Insurgência.

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos uma seleção de quatro textos de apoio de camaradas de peso: Jodi Dean, Angela Davis, Aleksandra Kollontai e Anita Leocádia Prestes.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Jodi Dean

Neofeudalismo: o fim do capitalismo 


Angela Davis

Por que me tornei comunista


Aleksandra Kollontai

Relações entre os sexos e a luta de classe


Anita Leocadia Prestes

Estudante universitária e militante comunista

Vídeos

Este mês trazemos a apresentação de Camarada feita pela própria Jodi Dean, além de um vídeo especial para a TV Boitempo em que a autora discute a fundo alguns dos principais temas desenvolvidos na obra e uma entrevista concedida ao canal Classe Esquerda.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Neofeudalismo: o fim do capitalismo?, artigo de Jodi Dean na revista Margem Esquerda #36

A revolução das mulheres, organização de Graziela Schneider Urso

Mulher, Estado e revolução, de Wendy Goldman

Viver é tomar partido, de Anita Leocádia Prestes

Uma autobiografia, de Angela Davis

O Estado e a revolução, de Vladímir Lênin

Democracia e luta de classes, de Vladímir Lênin

Às portas da revolução, de Slavoj Žižek

Grifa Podcast: Grifo Nosso – Prefácio: Camarada, de Jodi Dean, jun. 2021.

Grifa Podcast: 017 – Camarada, de Jodi Dean, jun. 2021.

The People’s Forum: Kollontai e a Revolução. Uma palestra de Jodi Dean [em inglês], jul. 2020.

This is Hell!: Rumo à uma política climática revolucionária, com Kai Heron e Jodi Dean [em inglês], jul. 2020.

Liberation Audio: Camarada: de aliados a camaradas [em inglês], maio 2020.

Entrevista com Jodi Dean, com Marcelo Bamonte, Classe Esquerda, 2021.

The New Intellectuals: Comrade [em inglês], com Jodi Dean e Jordan T. Camp, The People’s Forum NYC, 2020.

Kollontai e revolução: não há socialismo sem feminismo! [em inglês], com Jodi Dean, The People’s Forum NYC, 2020.

Camarada: um debate com Jodi Dean [em inglês], com Jodi Dean, The People’s Forum NYC, 2020.

Comunismo ou feudalismo? [em inglês], com Jodi Dean, Sonic Acts, 2019.

Silvia Federici, a exploração das mulheres e o desenvolvimento do capitalismo“, por Jodi Dean, Blog da Boitempo, 2021.

Revolução ou ruína“, por Jodi Dean e Kai Heron, Blog da Boitempo, 2021.

“Derrubar tudo isso é possível”: entrevista com Jodi Dean, por Marcelo Bamonte, LavraPalavra, 2021.

De aliados a camaradas“, por Jodi Dean, TraduAgindo, 2021.

Quatro teses sobre o camarada“, por Jodi Dean, TraduAgindo, 2020.

Amor e revolução”, por Ana Flávia Bádue, Blog Marxismo Feminista, 2020.

Programa do curso Feminismo socialista, por Jodi Dean, Blog Marxismo Feminista, 2020.

O que significa ser um ‘Camarada’?“, por Jodi Dean, TraduAgindo, 2020.

Qual a diferença entre a camaradagem e outras relações sociais?“, por Jodi Dean, TraduAgindo, 2020.

Precisamos de camaradagem“, por Jodi Dean, Jacobin Brasil, 2019.

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