Guia de leitura | ADC#10

Goethe e seu tempo
György Lukács

Guia de leitura / Armas da crítica #10


A décima obra da coleção Biblioteca Lukács chega em primeira mão para os assinantes do Armas da crítica. Em Goethe e seu tempo,  György Lukács se debruça sobre a obra de Johann Wolfgang von Goethe em um conjunto de cinco ensaios escritos durante a década de 1930.

Considerado um dos pontos culminantes da literatura humanista burguesa, Goethe tem sua trajetória esmiuçada e contraposta à de outros contemporâneos seus, em uma análise engajada do grande romance moderno e de seu conteúdo progressista. Os dois primeiros textos tratam de obras específicas de Goethe e sua construção, ao passo que os três seguintes discutem o contexto social e literário no qual o escritor estava imerso, propondo percepções originais a respeito das motivações, contradições e desafios enfrentados por sua obra.

Junto com o livro do mês, preparamos o livreto Lukács: retorno ao concreto, que conta com uma entrevista concedida a Naïm Kattall para a revista La Quinzaine Littéraire (1966).

autor György Lukács
tradução Nélio Schneider com colaboração de Ronaldo Vielmi Fortes
prefácio Miguel Vedda
orelha Ronaldo Vielmi Fortes
edição Pedro Davoglio
diagramação Antonio Kehl
capa David Amiel
páginas 216

Quem foi György Lukács?

György Lukács nasceu em Budapeste, Hungria, em 1885. Doutorou-se em ciências jurídicas e depois em filosofia pela Universidade de Budapeste. No fim de 1918, aderiu ao Partido Comunista e, no ano seguinte, foi designado vice-comissário do povo para a Cultura e a Educação Popular. 

Em 1933, mudou-se para Moscou, onde desenvolveu intensa atividade intelectual. Em 1945, retornou à Hungria e assumiu a cátedra de Estética e Filosofia da Cultura na Universidade de Budapeste. Morreu em sua cidade natal, em 1971, em plena atividade e empenhado na organização de uma ação internacional de intelectuais para a libertação de Angela Davis.

Foi um dos mais influentes filósofos marxistas do século XX. Seus estudos no campo marxiano estiveram relacionados à estética e aos princípios humanizadores da atividade artística e literária, além da elaboração de uma ética marxista. 

Dele, a Boitempo publicou Prolegômenos para uma ontologia do ser social (2010), O romance histórico (2011), Lênin e Para uma ontologia do ser social I (2012), Para uma ontologia do ser social II (2013), Reboquismo e dialética (2015), Marx e Engels como historiadores da literatura (2016), O jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista (2018) e Essenciais são os livros não escritos (2020). 

“Sou contra a discussão abstrata. O marxismo nos reconduz sempre ao concreto.”

GYÖRGY LUKÁCS 

Análise imanente das condições históricas

Os ensaios de Goethe e seu tempo coincidem com uma virada nas posições de Lukács frente à cultura burguesa, marcada por uma reavaliação das relações entre ela e o fascismo em ascensão. Uma particularidade, já sugerida no título, é relacionar os diversos autores com seu tempo e com as condições políticas e sociais de um modo mais intenso e complexo.

Não menos importante é a atenção dada à historicidade das obras literárias e críticas, confirmando que as análises lukacsianas são tanto mais incisivas e provocativas quanto mais consequente é sua perspectiva historicista e quanto menos são orientadas para a busca de princípios universais.

Uma motivação mais geral se refere ao método e a atitudes práticas em relação às circunstâncias históricas com as quais temos de lidar. Lukács pensa que um tempo essencialmente contraditório e dialético como a modernidade requer a determinação do nosso campo de pensamento e ação a partir de uma análise imanente das próprias condições históricas, não da imposição violenta de alguns princípios ossificados. Esse foi o ensinamento que ele extraiu de Goethe e Hegel, bem como de Balzac e Marx, e que vai além das coordenadas particulares em que foi formulado.

Miguel Vedda

Doutor em Letras e professor de Literatura Alemã da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, membro da Internationale Georg-Lúkacs-Gesellschaft. Assina a introdução de Goethe e seu tempo.

“Contra corrente e vento percorrem-se tão somente pequenos trajetos.”

JOHANN WOLFGANG VON GOETHE

O despertar da atividade universal do homem

Goethe e seu tempo foi elaborado em um período de grande importância na construção do pensamento de Lukács e, não por acaso, coincide com um momento decisivo da história da humanidade. As reflexões são desenvolvidas em meio às tentativas de compreensão do período conturbado da primeira metade do século XX, tempo em que se processaram profundas inflexões no curso da história universal, desde a Revolução Soviética de 1917 até o aparecimento do nazismo na Alemanha.

Para Lukács, Goethe participa das tendências iluministas alemãs. O filósofo húngaro destaca ainda o caráter cosmopolita de Goethe, os elementos universalistas de suas figurações estéticas, na medida em que alcança uma “compreensão tão profunda das forças motrizes, das contradições fundamentais, que a importância de sua crítica transcende em muito a de uma crítica das condições em que se encontra a Alemanha atrasada”.

Goethe exibe, assim, aquilo que caracterizará uma das contribuições fundamentais de sua obra: a reflexão sobre aquele novo homem que surge no decorrer da preparação para a revolução burguesa e a busca “por aquela humanização, por aquele despertar da atividade universal do homem produzido pelo desenvolvimento da sociedade burguesa – e, ao mesmo tempo, condenado tragicamente à ruína”.

Ronaldo Vielmi Fortes

Doutor em filosofia e professor adjunto na Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“Em um sentido histórico amplo e profundo, a saber, no sentido da ligação íntima com os problemas fundamentais da revolução burguesa, as obras do jovem Goethe constituem uma culminância revolucionária do movimento do Iluminismo europeu, da preparação ideológica para a grande Revolução Francesa.”

GYÖRGY LUKÁCS

Goethe e a ação no tempo

Para Lukács, os românticos, diferentemente de Goethe, não conseguiam viver no tempo presente e procuraram criar uma experiência comunitária e um mundo novo no qual o poeta encontraria uma nova pátria. Ao tentar poetizar a vida, contudo, os românticos concentraram na poesia o cerne da sua concepção de mundo. O que acabou por resultar na “poetização do destino”, isto é, numa “arte de viver” que era adaptação a todos os acontecimentos da vida, mesmo com a elevação à necessidade de tudo o que lhes dava o destino.

Enquanto isso, a realidade efetiva desaparecia diante de seus olhos; eles “criaram um mundo homogêneo, unitário e orgânico e o identificaram ao mundo real, mas sem realidade corporal”; não fizeram a experiência dos limites, separando mundo criado e mundo real, confrontando, assim, criação poética e realidade, como Goethe o fizera, para quem, aliás, toda criação é limitação, pois jamais algo pode ser realizado sem escolha. Enquanto em Goethe havia poder configurador, isto é, domínio das coisas nelas mesmas e não atitude passiva diante da experiência vivida, nos românticos existia uma recusa da vida em nome da arte romântica de viver. […]

Lukács sustenta que a diferença entre Goethe e os românticos residia na relação com o tempo; o bom êxito da poesia em Goethe decorria do fato de ele ter organizado suas formas com base na vida presente, de modo que o que era método e tendência nos românticos era nele ação no tempo.

Arlenice Almeida da Silva em Estética da resistência (p.90)

Doutora em filosofia e professora de estética e filosofia da arte no Departamento de Filosofia da Unifesp.

“Um dos últimos períodos progressistas do pensamento burguês, uma de suas últimas revoluções intelectuais, sucedeu justamente na Alemanha do tempo de Goethe, e não é por acaso que esse desenvolvimento foi coroado pelos – igualmente alemães – Marx e Engels com o método mais avançado da filosofia, com a descoberta da dialética materialista.”

GYÖRGY LUKÁCS


O antagonismo insolúvel

Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, não é apenas a proclamação dos ideais do humanismo revolucionário, mas é, ao mesmo tempo, também a figuração consumada da contradição trágica desses ideais. Werther, portanto, não é só um ponto culminante da grande literatura burguesa do século XVIII, mas simultaneamente também o primeiro grande precursor da grande literatura realista orientada a problemas do século XIX.

O conflito de Werther, sua tragédia, já é a do humanismo burguês, já evidencia o antagonismo insolúvel entre o desenvolvimento livre e universal da personalidade e a própria sociedade burguesa. Esta naturalmente aparece em sua figura pré-revolucionária, alemã, semifeudal, absolutista de pequenos Estados. Porém, no conflito em si já se divisam claramente os contornos das oposições que mais tarde apareceriam com toda a nitidez. E é diante destes que Werther, em última análise, de fato sucumbe.

[GOETHE E SEU TEMPO, p.56]

Os sofrimentos do jovem Werther é um dos maiores romances de amor da
literatura mundial porque Goethe concentrou nessa tragédia de amor toda a
vida de seu tempo com todos os seus conflitos.”

GYÖRGY LUKÁCS


O abismo trágico

Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, é o mais importante produto da transição da literatura romanesca do século XVIII para o século XIX. Ele porta os traços dos dois períodos de desenvolvimento do romance moderno, tanto em termos ideológicos quanto em termos artísticos.

Wilhelm Meister se situa ideologicamente na fronteira entre duas épocas: figura a crise trágica dos ideais burgueses de humanidade até o início de sua extrapolação – por ora utópica – do quadro da sociedade burguesa.

O fato de Goethe ter pintado esse caráter de crise com as cores vívidas da perfeição artística, do contentamento ideológico esperançoso, foi reflexo da vivência da Revolução Francesa. Porém, essa explosão de cores não é capaz de encobrir o abismo trágico que se abre aqui para os melhores representantes da burguesia revolucionária.

Tanto ideológica quanto artisticamente, Wilhelm Meister é produto de uma crise de transição, de um tempo muito breve de transição. Do mesmo modo que não pôde ter predecessores imediatos, tampouco pôde ter um real sucessor artístico.

[GOETHE E SEU TEMPO, p.78]

“Uma reorientação ideológica, cultural e literária é impossível sem uma nova investigação, uma nova avaliação das correntes da história mundial do passado, em especial do passado mais recente.”

GYÖRGY LUKÁCS

A matéria imediata da vida

Documentos de artistas importantes sobre sua prática e seus esforços teóricos para o aprofundamento dessa prática sempre são extraordinariamente significativos. Eles são importantes tanto para o desenvolvimento de nossa estética quanto para aproximar pedagogicamente o público leitor do acesso aos grandes problemas da arte.

Da natureza do assunto decorre que essas manifestações diretas dos grandes artistas em cartas, conversas, diários etc. acabam sendo a melhor forma de estudar os problemas mais íntimos da prática artística. As questões mais importantes e teoricamente mais difíceis de compreender, como a do tratamento artístico da matéria imediata da vida, aparecem nelas de maneira concreta, vinculadas de modo vital com a prática.

Podemos estudar as obras de arte em seu processo de nascimento, comparando os primeiros projetos e os estágios intermediários com as obras acabadas e, desse modo, acompanhar passo a passo o valor artístico da aclaração teórica e do melhoramento prático. Nesses documentos do processo de criação de artistas importantes jaz um tesouro ainda não prospectado de nossa herança crítica e teórico-literária.


[GOETHE E SEU TEMPO, p.83]

“Não se escolhe nem o lugar nem a data de nascimento. Dizemos sim ou não à realidade que existe a despeito de nós. O homem é um ser que ‘responde‘. Depende dele dizer sim ou não à realidade tal como ela existe. E essa realidade é aquela de hoje.”

GYÖRGY LUKÁCS

A dilaceração do homem burguês

A contradição básica da sociedade capitalista, aquela entre produção social e apropriação privada, torna cada vez menos transparentes para os escritores burgueses as reais forças motrizes de seu ser social: na superfície se tornam visíveis acontecimentos e destinos puramente pessoais, privados no nível imediato, e aquelas forças sociais que interferem nesses destinos privados e que, em última análise, os determinam, assumem para os observadores burgueses uma figura cada vez mais abstrata, enigmática.

E, à medida que a economia capitalista se expande, a superestrutura (especialmente o Estado) vai assumindo formas cada vez mais etéreas, elevadas em relação à vida real dos indivíduos, o lado citoyen do homem burguês vai se tornando cada vez mais uma abstração vazia de conteúdo. Em contrapartida, paralelamente o bourgeois aparece cada vez mais como “mônada” isolada e, quanto menos a realidade social objetiva corresponde a essa aparência, tanto mais diretamente essa aparência se mostra
na referida forma. […]

A dilaceração do homem burguês em citoyen e bourgeois desloca os problemas vinculados com a vida material real do homem para a esfera da vida meramente privada e oferece como matéria para o páthos da esfera pública apenas a abstração etérea rarefeita do citoyen. A literatura burguesa jamais encontrou uma solução artisticamente consumada para a vinculação
figuradora do privado com o público.

[GOETHE E SEU TEMPO, p.128-133]

“O que defendo é a integridade do homem e me oponho a uma literatura que leve à destruição dessa integridade.”

GYÖRGY LUKÁCS

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos uma seleção de três textos de apoio: uma entrevista de Lukács do livro Essenciais são os livros não escritos, e dois artigos de renomadas pesquisadoras do filósofo húngaro: Ester Vaisman e Arlenice Almeida.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

György Lukács

A Alemanha, uma nação de
desenvolvimento tardio?


Ester Vaisman

Lukács: crítica romântica ao capitalismo ou “romantismo revolucionário”?


Arlenice Almeida

O jovem Lukács: a superação da estética romântica

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento de Goethe e seu tempo, de György Lukács e Estética da resistência: a autonomia da arte no jovem Lukács, de Arlenice Almeida da Silva, além da apresentação de Miguel Vedda sobre o livro do mês, o curso livre completo György Lukács e José Paulo Netto reforçando a atualidade do filósofo húngaro.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Estética da resistênciaa autonomia da arte no jovem Lukács, de Arlenice Almeida da Silva

O romance histórico, de György Lukács

Reboquismo e dialética, de György Lukács

Marx e Engels como historiadores da literatura, de György Lukács

O jovem Hegel, de György Lukács

Para uma ontologia do ser social I e II, de György Lukács

Essenciais são os livros não escritos, de György Lukács

Prolegômenos para uma ontologia do ser social, de György Lukács

Lênin, de György Lukács

György Lukács e a emancipação humana, Marcos Del Roio (Org.),

O conceito de dialética em Lukács, de István Mészáros

Lukács e a atualidade do marxismo, de Maria Orlanda Pinassi (Org.)

Lukács: um Galileu no século XX, de Ricardo Antunes e Walquiria D. L. Rêgo (Org.)

Ontocast: O Realismo Literário de György Lukács (parte 1), com Gabriel Carvalho, Ohana Meira e Ana Cotrim, nov. 2020.

Ontocast: O Realismo Literário de György Lukács (parte 2), com Gabriel Carvalho, Ohana Meira e Ana Cotrim, nov. 2020.

Ontocast: #19 – A Estética de György Lukács, com Elton Costa, Hian Sousa e Ranieri Carli, out. 2020.

Kátharsis Podcast: #3 – As ideias estéticas de Marx e Engels, com Bruno Bianchi, abril 2021.

Navio dos Loucos: #54 – Os sofrimentos do jovem Werther, ago. 2021.

O marxismo de Lukács, com Ana Cotrim, TV Boitempo, 2020.

Minicurso: Para uma ontologia do ser social, com Mário Duayer, Paulo Henrique Furtado de Araújo, Ronaldo Vielmi Fortes e Ester Vaisman, LabLegal, 2020.

As últimas entrevistas de Lukács, com Ester Vaisman e Ronaldo Vielmi Fortes, TV Boitempo, 2020.

Resgatando Clássicos com Antonio Carlos Mazzeo: György Lukács, Antonio Ugá, 2020.

Introdução à estética de Lukács, com Miguel Vedda, Instituto Lukács, 2020.

Minicurso: Introdução à Estética de György Lukács, com Ronaldo Vielmi Fortes, Maurício Martins, Ranieri Carli, Ronaldo Rosas e Juarez Duayer, LabLegal, 2019.

A Estética Literária em György Lukács, com Miguel Vedda [em espanhol], Efrain Maciel e Silva, 2013.

György Lukács, 50 anos depois“, por Maurício Vieira Martins, A Terra é redonda, mar. 2021

O lirismo em György Lukács“, por Arlenice Almeida da Silva, A Terra é redonda, jan. 2021

Breves considerações sobre a metafísica ontologia de Lukács“, por Arthur D’Elia, LavraPalavra, out. 2020.

As últimas entrevistas de Lukács“, por Anderson Deo, Blog da Boitempo, set. 2020.

O fascismo alemão e Hegel“, por György Lukács, LavraPalavra, jun. 2020.

Teses de Blum – A ditadura democrática”, por György Lukács, LavraPalavra, dez. 2019.

Uma introdução à ontologia de Lukács“, por Nicolas Tertulian, Blog da Boitempo, set. 2019.

György Lukács, o profeta da revolução“, por Douglas Rodrigues Barros, LavraPalavra, ago. 2017.

Reificação em História e consciência de classe: de Max Weber a Karl Marx“, por Ricardo Musse, Blog da Boitempo, maio 2015.

O testamento filosófico de György Lukács“, por Antonio Rago Filho, Revista Cult.

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