Mary Shelley e sua criatura

Imagem de divulgação do filme Mary Shelley (2017).

Por Michel Goulart da Silva

Centrado na juventude da famosa escritora que escreveu a obra sobre o monstro de Frankenstein, o filme Mary Shelley narra o envolvimento amoroso da protagonista com o poeta Percy Shelley e a inserção da aspirante a escritora, ainda uma adolescente de dezesseis anos, em um universo literário britânico predominantemente masculino. Tendo circulado em festivais a partir de 2017, o filme apresenta alguns fragmentos biográficos e familiares e, também, aproxima elementos de sua mais famosa obra a aspectos da vida da escritora.

Um dos elementos destacados no começo do filme é o diferencial na formação intelectual de Mary. Filha do filósofo William Godwin, que também é personagem do filme, e da escritora Mary Wollstonecraft, que morreu logo após o seu nascimento, a protagonista foi criada com influência de ideias liberais mais críticas que aquelas predominantes na época. Pode-se pensar Mary inserida no “romantismo revolucionário”. Essa expressão do romantismo, “[…] recusando tanto a ilusão de um retorno puro e simples às comunidades orgânicas do passado quanto a aceitação resignada do presente burguês ou seu aprimoramento por meio de reformas, aspira – de uma forma que pode ser mais ou menos radical, mais ou menos contraditória – à abolição do capitalismo ou ao advento de uma utopia igualitária em que se recuperariam certos traços e valores das sociedades anteriores”.1

Em 1792, Mary Wollstonecraft publicou obra clássica, intitulada Reivindicações do direito da mulher, mencionado no filme, em que criticava a constituição revolucionária francesa, aprovada no ano anterior, por não incluir as mulheres na categoria de cidadãs. Como consequência de um “sistema de educação falso”, segundo Mary Wollstonecraft, “as mulheres civilizadas do nosso século, com raras exceções, anseiam apenas inspirar amor, quando na verdade deveriam nutrir uma ambição mais nobre e exigir respeito por suas capacidades e virtudes”.2

O começo do filme parece ser uma história de amor comum entre dois jovens que possuem um forte vínculo intelectual. Contudo, ao longo da narrativa são apresentados uma série de problemas que vão aos poucos desgastando a relação. Um deles se trata do fato de Percy ser casado e possuir um filho com outra mulher, o que, ainda que não impeça o relacionamento com Mary, faz com que a jovem se veja obrigada a romper com a família para manter o relacionamento. O segundo problema passa pelos constantes problemas financeiros do casal, devido em grande medida ao escândalo provocado pelo seu relacionamento. Um terceiro elemento, bastante trágico, se refere à morte prematura da primeira filha do casal, que provoca uma profunda depressão em Mary.

Paralelo a isso, Shelley procurava viver sempre em festa, bebendo e tentando encarnar o hedonismo que parecia permear os ideais de muitos jovens escritores românticos do começo do século XIX. Contudo, esse estilo de vida não apena corroía os parcos recursos do casal, como criava uma espiral de dívidas. Shelley, ainda que possuísse relativa fama, não era um nome consolidado como escritor e a jovem Mary apenas fazia seus primeiros rabiscos.

O filme mostra o encontro de Mary e Percy com Byron e Polidori, no qual se sugere que cada um deles escreva sua própria “história de fantasma”, em voga na época por conta do sucesso das obras associadas à escola gótica. O livro “Frankenstein” nasce desse desafio entre os amigos, em meio ao aprofundamento do desgaste da relação entre Mary e Percy. O suicídio da primeira esposa também é algo que abala bastante Percy. O seu relacionamento com Mary viria a passar por outras turbulências, incluindo o período em que estiveram separados. Mary vive com o sofrimento de se sentir sozinha, tendo de tomar decisões sobre o rumo de sua vida mesmo sendo uma jovem que ainda está aprendendo como o mundo funciona.

No filme sugere-se que a criatura inventada por Mary talvez seja uma representação que a jovem escritora construiu sobre si mesma. O monstro de Frankenstein era “como um grito de assombro emudecido na garganta, diante de um mundo que se tornava mais e mais irreconhecível e assustador”.3Essa criatura, um amálgama que reunia pedaços de cadáveres humanos, é vista por todos como algo estranho e até mesmo perigoso, em grande medida por conta de sua aparência externa. Mary parece se enxergar como um conjunto de fragmentos, afinal é, ao mesmo tempo, uma jovem escritora que despreza o estilo de vida hedonista e quase irracional de seus colegas, mas também é uma jovem mulher que causa estranhamento em seus contemporâneos por ser uma livre pensadora, como sua mãe.

Alguns desses fragmentos que constituem Mary e causam tanto estranhamento à sociedade são mostrados ao longo do filme. Em uma cena, Mary é criticada como hipócrita por Percy, pois defende a liberdade de escolha afetiva como uma decisão livre de impedimentos externos para todos, mas em sua vida privada escolheu se dedicar a apenas uma pessoa. Percy, que parece não entender a livre escolha da própria companheira, em realidade parece estar buscando uma forma de justificar seu envolvimento com Claire, irmã de Mary. Em outro momento do filme, Byron mostra-se descontente com a postura de Mary. Byron então afirma que as mulheres deveriam ter inteligência suficiente apenas para entender o que ele escrevia e não a capacidade de questionar suas afirmações. Contudo, Mary não se encaixava nesse perfil, como parecia não se encaixar em lugar algum daquele contexto.

Possivelmente o ponto mais importante do filme se dá quando Mary procura um editor para publicar seu livro, o grande clássico “Frankenstein”. No contato com essa realidade, descobre que uma mulher, sem recursos financeiros e ainda por cima tão jovem, não teria chances no universo literário da época. No filme mostra-se uma cena em que um editor chega a sugerir que, em realidade, a obra seria de Percy e não dela, um sentido para o qual ironicamente acaba se encaminhando o desfecho de sua busca, quando outro editor aceita publicar a obra desde que seja com autoria anônima e com uma introdução de Percy. No final, “quando consegue uma editora, especializada no filão de temas ocultistas e sobrenaturais, Mary sente-se cansada de revisar tantas provas e dá carta branca para Shelley sugerir as alterações que quisesse, sem contar que muitas editoras julgavam que a obra era dele”.4

Durante algum tempo, inclusive, se atribuiu a Percy a autoria de Frankenstein. Na introdução à edição publicada em 1831, Mary afirmou que “não devo a meu marido a sugestão de qualquer incidente ou, nem remotamente, de qualquer linha de raciocínio”.5 Pelo contrário, sua trajetória de sofrimentos, marcada pela “morte da mãe, de parentes próximos e a perda de um bebê durante a escrita do romance”, parecem tornar “plausível o seu interesse por uma narrativa fantástica na qual a criação da vida humana é concebida em laboratório, sem envolver os riscos naturais de uma gestação”.6

O romance de Mary se tornou um clássico, conhecido e reconhecido em todo o mundo, adaptado em várias formas de expressão artística, e sua autora um dos nomes mais importantes da literatura de horror. Entre as escritoras do começo do século XIX, Mary, principalmente devido à enorme importância conquistada por sua obra, seria uma das poucas a ser lembrada, ao lado de Ann Radcliffe e de Emily Brontë. O filme, lançado na época do bicentenário da publicação de sua mais conhecida obra, mostra-se uma bela homenagem à sua importante personalidade.


Notas:

  1. LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da Modernidade. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 102. ↩︎
  2. WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos direitos da mulher. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 25. ↩︎
  3. VUGMAN, Fernando. A invenção do monstro. Rio de Janeiro: Luva. 2018, p. 91. ↩︎
  4. AGUSTINI, Lucas Zaparolli de. Vida e aventuras de Mary Shelley. In: Mary Shelley. Frankenstein ou o Prometeu Moderno. São Paulo: Clepsidra, 2023, p. 292. ↩︎
  5. SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o Prometeu Moderno. São Paulo: Clepsidra, 2023, p. 52-3. ↩︎
  6. PRIMATI, Carlos. Páginas do diário de uma viagem literária. In: Mary Shelley. Frankenstein ou o Prometeu Moderno. São Paulo: Clepsidra, 2023, p. 312-3. ↩︎

*** Michel Goulart da Silva é doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e servidor técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).


A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política 
Muryatan Santana Barbosa

Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.


Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.


Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

📕📱 Livro A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, de Muryatan Santana Barbosa, em formato impresso e e-book
🎁 Livreto O Futebol como Arte, de Raí Oliveira.
🎁 Adesivo e marcador de páginas exclusivos
📰 Materiais multimídia para expandir a leitura
🛒 30% de desconto em todos os livros da Boitempo em nosso site


Descubra mais sobre Blog da Boitempo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário