O Leste é Punk: cinco bandas da China contra guerras, muralhas e tequila
Festival de música na China. Fonte: WikiCommons
Por Bruno Prado Prates
Em “Uma jornada a Wuhan” falamos sobre a relevância da cena punk na China. Ali, buscamos estabelecer um paralelo entre a autenticidade punk, a história comunista do país e a busca pelo desenvolvimento econômico. A partir de 1978, com a política de Reforma e Abertura, a China se reposicionou nos fluxos globais de conhecimento, buscando absorver a ciência e a tecnologia estrangeiras para se modernizar. Esse processo de modernização também foi um fenômeno cultural. Com a abertura, a cena do rock floresceu no país, mesclando referências estrangeiras com a realidade local.
Nesse contexto, é impossível não mencionar nomes como Cui Jian崔健, que captou em suas canções as contradições do início do crescimento econômico; Tang Dynasty唐朝, que gravou uma versão heavy metal do hino comunista “A Internacional” (國際歌); Black Panther黑豹, responsável por “Don’t Break My Heart”, uma das baladas mais cantadas nos karaokês chineses; e dois dos principais precursores da cena punk: SMZB生命之餅 e Brain Failure脑浊, respectivamente de Wuhan e Beijing.
Para conhecer um material mais atual, um bom começo pode ser a coletânea 八小时合辑 No Future, que, sob o lema “Stay Punk”, reuniu alguns destaques do underground do país, do reggae ao black metal. Essa variedade talvez diga algo sobre a heterogeneidade desses espaços por lá.
A seguir, listamos cinco bandas relativamente mais recentes e ainda ativas na cena, cujos shows tive o prazer de assistir. A seleção busca cobrir parte da diversidade do território chinês, passando por cinco cidades espalhadas por diferentes províncias e regiões.
Dummy Toys
Formada em 2015, em Qingdao, e composta somente por mulheres. Energia de mosh pit sem parar, moicanos brilhando em cores neon e provavelmente a melhor festa punk que se pode encontrar na China. Depois de Not a Puppet, de 2020, e War Is Nightmare, de 2023, lançaram, em 2026, o álbum The Point of No Return. As músicas são socialmente engajadas e passam por temas como violência de gênero, discriminação, guerra e precarização do trabalho. Vale conferir “Flying Young Girl”, sobre o trágico caso de uma jovem que, após denunciar o assédio de um professor, saltou de um edifício enquanto parte dos espectadores filmava e incentivava o ato. “Stop Your Control” parte das dificuldades vividas em sala de aula para criticar o modelo educacional do país; “Artificial Inefficiency” expressa a ansiedade provocada pelos avanços da inteligência artificial, abordando o desemprego, a perda de privacidade e outros dilemas trazidos pela tecnologia. Tive o prazer de vê-las em Chengdu, cidade conhecida pelo ritmo menos acelerado do cotidiano (exatamente o oposto do ritmo do show), por ser a capital dos pandas, pela cena LGBT e por uma cena punk especialmente bem organizada. Apesar do estilo diferente, a energia ao vivo me lembrou o Manger Cadavre? aqui no Brasil.
Xiaowang小王
Formada em 2017, em Beijing. Uma mistura de punk com rock alternativo. Música esquisita no melhor sentido. A banda se define como “kawaii-core”: uma estética fofinha em contraste com um som pesadíssimo. O primeiro álbum, KACHAKACHA, foi viabilizado por financiamento coletivo, em uma campanha que arrecadou cerca de 70 mil yuans (aproximadamente 53 mil reais). O disco foi gravado em um antigo templo daoista transformado em casa de shows e estúdio, antes de ganhar lançamento internacional em 2024. As músicas transitam entre vigilância, sexismo, consumismo, sonhos, romances e danças. Ao lado de referências ocidentais como Bikini Kill, a banda menciona inspirações chinesas como Dummy Toys e o indie rock da Hedgehog刺猬 – uma das minhas favoritas, mas que não se encaixaria tão bem neste texto. Xiaowang é uma ótima desculpa para conhecer os porões da capital chinesa que não aparecem nos cartões-postais.
Gaiwaer街娃
Punk/Hardcore de Chengdu, formada em 2014. Carregam a cidade até no nome: uma expressão do dialeto de Sichuan para algo como “molecada da rua”. Em 2025, lançaram o álbum 梦境中的夏天 (Verão em um sonho), com faixas sobre a passagem do tempo, a vida urbana e a necessidade de dizer o que se pensa. No mesmo ano veio o 负能量快滚 (Energia negativa, cai fora!), um trabalho de aproximadamente cinco minutos que aborda relações familiares. Também lançaram um single cujo título pode ser traduzido como “Espero que a China tenha uma lei de proteção animal”. É o tipo de show em que, a todo momento, alguém te joga no chão e logo depois estende a mão para te levantar. Memórias do Mukeka di Rato, Surra e Budang, em terras brasileiras. Uma das músicas que mais marcaram aquela noite falava sobre odiar tequila (我恨龙舌兰), justamente a bebida que me foi oferecida pelo vocalista ao final do show, junto com um exemplar do novo álbum. Também descobri que o baixista carrega na perna uma tatuagem do Soulfly, banda liderada pelo nosso orgulho nacional Max Cavalera. A descoberta rendeu interações divertidas sobre o papel do Brasil nisso tudo. Abandonei o show de drones da cidade para passar o Ano Novo com esses caras.
Aberration越轨
De Wuhan, formada em 2007. Uma energia de punk mais classicão, com direito a cover dos Ramones. Com quase duas décadas de estrada, continua sendo presença recorrente na cena da capital do punk na China. Em 2017, lançaram o álbum 逍遥路与冷漠心Rambling Road ‘n’ Cold Heart (Estrada errante e coração frio), incorporando elementos de blues, hard rock e country. As músicas falam sobre bebida, estrada e indiferença: “O coração é frio, a canção é quente”. A Aberration parece ter certa responsabilidade em preservar a fama de Wuhan como um dos grandes centros do punk chinês. No livro etnográfico Punk Culture in Contemporary China, publicado em 2018 pela pesquisadora Jian Xiao, um dos entrevistados apresenta a banda como um marco da cena local e interpreta a interrupção de suas atividades, em 2011, como símbolo do declínio do punk na cidade. A retomada, em 2014, talvez indique uma sobrevida do espírito punk de Wuhan.
The Noname無名
Punk de Xi’an, formada em 2001. Estrelas do Punk Heart Festival 2025, no qual tocaram com os espanhóis do Non Servium (que também me presentearam com o novo álbum). O trabalho mais recente é Fortress Besieged圍城, lançado em 2024. O nome faz referência ao romance satírico chinês de Qian Zhongshu e à imagem de uma fortaleza cercada: “Quem está do lado de fora quer entrar; quem está do lado de dentro quer sair”. A imagem também parece ecoar a cidade da banda, cujo centro histórico é cercado por uma belíssima muralha. A intenção inicial do grupo era dedicar as músicas aos primeiros dos Trinta e Seis Estratagemas, antigo conjunto chinês de máximas sobre guerra, conflito e poder. A ideia acabou se desdobrando em outros lançamentos. O álbum também funciona como uma celebração internacional da cultura punk. Em “ANTI-”, tributo a Joe Strummer, do The Clash, a banda conta com a participação de membros do Bad Co. Project/Oxymoron (Alemanha) e do Acidez (México). O projeto da faixa reúne ainda participantes da Indonésia, Grécia, Japão, Tailândia, França, Holanda, Suécia e Myanmar. As colaborações continuam em “Waiting for That Day”, gravada com o Non Servium (Espanha); “Scream to the World”, com o Big D and the Kids Table (Estados Unidos); “Warrior of Faith”, com o The Choices (França); e “Go Down in History”, com o Perkele (Suécia). O álbum se encerra com “One Shot”, que utiliza versos sobre a brevidade da vida extraídos de 短歌行 (Canção breve), poema atribuído a Cao Cao, militar, estadista e poeta do final da dinastia Han. É curioso como, partindo da imagem de uma fortaleza cercada, a The Noname constrói uma rede aberta, conectando integrantes da cultura punk de várias partes do mundo ao mesmo tempo em que resgata elementos da cultura tradicional chinesa.
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Bruno Prado Prates é doutorando em Economia pelo Cedeplar/UFMG, onde pesquisa China, inteligência artificial e inovação.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO


URSS, um Novo Mundo e O Mundo do Socialismo, de Caio Prado Júnior
Dois “livros de viagem” singulares que revelam a visão do autor sobre a URSS, de 1930 à “Era do Degelo” em 1960. Uma jornada em seu mundo intelectual e ideário político, explorando a sociedade soviética e reflexões filosóficas sobre liberdade e política.
Como a China escapou da terapia de choque, de Isabella M. Weber
Análise original e fecunda do caminho da China para o sucesso econômico, questionando as teorias convencionais. Explora o papel do controle estatal de preços e destaca a singularidade da abordagem chinesa. Obra premiada que oferece uma perspectiva única sobre o modelo econômico chinês.


China: o socialismo do século XXI, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele
Análise crítica e ponderada do socialismo chinês e seu papel como alternativa ao capitalismo. Os autores exploram a ascensão da China e sua complexa relação com o sistema econômico global, destacando seu desenvolvimento econômico e suas contradições.
Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China, de Elias Jabbour e Roland Boer
Elias Jabbour dá sequência ao debate iniciado em China: o socialismo do século XXI. Lançado em 2021, em parceria com Alberto Gabriele, a obra traz ao leitor uma abordagem materialista, com análise peculiar das relações de propriedade e das ferramentas de planejamento vigentes no país. Já em Poder e socialismo, escrito em parceria com Roland Boer, a dupla aprofunda as questões tratadas no primeiro livro e explora a nova economia chinesa enquanto forma histórica mais avançada de nossos tempos, enfatizando agora aspecto político e a estrutura de governança do país.
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