Soberania sob cerco: o Brasil entre o tarifaço, as terras raras e a nova Doutrina Monroe 

Paula Coradi investiga como a soberania nacional está ameaçada pelo imperialism nos Estados Unidos, e como o 7 de setembro pode se tornar uma data de reafirmação da nossa autonomia

Por Paula Coradi

Não é exagero retórico afirmar que o Brasil não vivia uma ameaça tão concreta à sua soberania desde 1964. Naquele ano, foi um golpe interno articulado com o apoio de Washington que interrompeu os rumos do país. Sessenta e dois anos depois, a pressão volta a vir de fora — mas desta vez de forma aberta, declarada e quase administrativa: tarifas, investigações comerciais, cobiça por minerais estratégicos e uma intervenção militar direta no continente que reabilita, sem pudor, a lógica do “quintal” latino-americano. O segundo governo de Donald Trump tratou de deixar claro que a América Latina voltou a ser, para a Casa Branca, uma questão de segurança nacional dos Estados Unidos — não um conjunto de nações soberanas. 

Nada representa melhor essa ofensiva do que o ataque ao Pix. O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central brasileiro — gratuito, popular e utilizado diariamente por centenas de milhões de cidadãos — tornou-se alvo formal de uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, o mesmo instrumento historicamente empregado para coagir países a renunciarem a políticas soberanas sob a ameaça de sanções. O argumento oficial é técnico. As operadoras estadunidenses de cartão de crédito alegam que a autoridade monetária favorece indevidamente o arranjo nacional. Contudo, o que está em jogo é outro fato. É a capacidade do Brasil de construir, à margem das bandeiras transnacionais, uma infraestrutura pública de pagamentos que dispensa a intermediação de Visa, Mastercard e das grandes fintechs estadunidenses. Um relatório do próprio USTR (United States Trade Representative, ou Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, em tradução livre), a agência governamental dos EUA responsável por formular, negociar e executar a política comercial internacional do país, chegou a classificar a autonomia regulatória brasileira sobre plataformas digitais como uma “prática irrazoável”, expondo a real natureza do incômodo: não se trata de concorrência leal, mas de controle financeiro e tecnológico. 

Some-se a isso a corrida global por minerais críticos. O Brasil detém uma das maiores reservas de terras raras do planeta — elementos essenciais para semicondutores, baterias, sistemas de defesa e inteligência artificial — justamente no momento o qual Washington busca reduzir sua vulnerabilidade em relação à cadeia produtiva chinesa. Instituições como o Eximbank já sinalizaram a intenção de financiar projetos de lítio e terras raras em território nacional, integrando uma estratégia mais ampla dos EUA para garantir acesso preferencial a recursos estratégicos pelo mundo. A disputa geopolítica hegemônica entre Washington e Pequim pelo domínio dessas cadeias de suprimento transforma o subsolo brasileiro, mais uma vez, em alvo direto da cobiça externa, reeditando velhos ciclos de exploração primária da história econômica do país. 

Esse cerco não seria completo sem a atuação de setores da extrema direita brasileira ajudando a articulá-lo. Integrantes da família Bolsonaro mantiveram uma rotina de lobby direto em Washington, defendendo publicamente a concessão de reservas estratégicas brasileiras ao governo americano e demandando sanções contra autoridades e instituições do próprio país sob o pretexto de “perseguição política”. O próprio governo estadunidense chegou a registrar, em documento oficial, que medidas tarifárias contra exportações brasileiras foram concebidas como instrumentos de pressão política interna. Trata-se de um caso explícito de agentes políticos nacionais atuando para que uma potência estrangeira puna o próprio Estado em prol de um projeto de poder particular. 

Esse movimento brasileiro não é um fenômeno isolado — ele se insere numa reconfiguração mais ampla do tabuleiro regional. Na Argentina, Javier Milei transformou o alinhamento automático com Trump em projeto de governo, aparecendo ao lado de Flávio Bolsonaro em atos de campanha e tratando o apoio da Casa Branca quase como garantia de sobrevivência política para a disputa de 2027. Na Colômbia, o governo progressista de Gustavo Petro terminou em junho, com a vitória apertada do conservador Abelardo de la Espriella, saudado publicamente pelo secretário de Estado Marco Rubio como um parceiro esperado por Washington. O Peru também não escapou dessa maré conservadora. Em uma disputa definida voto a voto por poucos milhares de sufrágios, a direitista Keiko Fujimori superou o esquerdista Roberto Sánchez, confirmando a hegemonia da direita na região, ainda que por uma margem mínima que escancara a profunda polarização do país. O que esses três processos eleitorais revelam, em conjunto, é uma América do Sul cada vez mais dividida entre governos dispostos a alinhar-se automaticamente aos interesses de Washington e uma esquerda que resiste, mas em terreno cada vez mais estreito. 

O limite dessa lógica revela-se cruamente na intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro e na instalação de uma administração interina alinhada a Washington. O desfecho imediato foi o anúncio de um acordo que confere aos EUA participação direta na exploração das jazidas petrolíferas venezuelanas — classificado por Trump como “o maior negócio de petróleo da história”. Diante do mal-estar internacional, a liderança interina do país precisou vir a público assegurar que a soberania sobre o recurso permanecia resguardada, um esforço discursivo que apenas escancara a fragilidade dessa garantia. Analistas e a imprensa global já nomeiam o fenômeno abertamente como Doutrina Monroe 2.0 — ou “Doutrina Donroe”. Duzentos anos após a declaração do então presidente James Monroe da “América para os americanos”, o receituário reaparece sem mediações: pressão militar, coerção econômica e chantagem diplomática para alinhar governos e capturar ativos estratégicos. 

Esses episódios não são incidentes isolados; constituem engrenagens de um mesmo mecanismo geopolítico. Um governo estadunidense disposto a transformar tarifas em armas políticas, enquadrar recursos naturais alheios como ativos de sua segurança interna, redesenhar regimes vizinhos pela força econômica aliada à ameaça militar e contar com a colaboração ativa de elites domésticas dispostas a terceirizar a soberania em troca de ganhos conjunturais. A questão central não é retórica.  Qual é a capacidade real do Estado brasileiro e de sua sociedade civil de resistir a essa ofensiva sem repetir as fraturas de 1964? A defesa da soberania exige a compreensão de que a disputa ocorre simultaneamente no sistema de pagamentos, no subsolo mineral, nas diretrizes da política externa e no processo democrático interno. Identificar a engrenagem é o primeiro passo para neutralizá-la. 

É diante dessa conjuntura que a data de 7 de setembro adquire um peso que ultrapassa a liturgia dos desfiles cívicos. Celebrar a data nacional em meio a pressões tarifárias, assédio sobre recursos minerais e intervenções armadas na região não pode ser um ato meramente protocolar. É a oportunidade de definir se o Brasil atuará no cenário internacional como uma nação altiva — capaz de ditar os termos de uso de suas riquezas, proteger sua moeda e sustentar uma diplomacia autônoma — ou se aceitará rebaixar suas escolhas soberanas às exigências de potências estrangeiras e de seus intermediários locais. Declarada em 1822 como um ato de ruptura, a independência nacional exige uma decisão coletiva urgente: consolidar essa autonomia ou resignar-se à necessidade de reconquistá-la. 

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Paula Coradi é professora, historiadora e presidenta nacional do PSOL. É natural de Vila Velha, Espírito Santo. Iniciou sua trajetória política no movimento estudantil da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em 2006. Três anos depois, em 2009, filiou-se ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o único partido ao qual pertenceu. Entre 2014 e 2016, integrou a direção nacional da Intersindical — Central da Classe Trabalhadora, reforçando sua atuação na luta em defesa da educação pública. Desde 2015, faz parte da direção nacional do PSOL e, em 2023, foi eleita presidenta nacional do partido. 


“É preciso pensar tanto a psicanálise como sintoma do Brasil quanto o Brasil como sintoma da psicanálise.”
— Christian Dunker em Psicanálise nos trópicos

Em meio a debates sobre regulamentações e afins, em Psicanálise nos trópicos: mitos e percursos lacanianos, Christian Dunker apresenta ao leitor, de forma pioneira, o trajeto da psicanálise lacaniana e sua influência no Brasil. O autor argumenta que a recepção de Jacques Lacan no país não se reduz à simples importação da teoria francesa, mas expressa tensões profundas da formação cultural brasileira.  

A obra perpassa a história desde a recepção de seu estilo, como a oralidade, o barroco, a negatividade e o surrealismo, até se desdobrar nas hipóteses sobre a lógica do condomínio no cenário brasileiro, tema iniciado no premiado Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, lançado em 2015, também pela Boitempo.

O autor se questiona se existe uma psicanálise brasileira, e a obra investiga essa indagação: “Percorrendo essa tapeçaria histórica a partir de suas simetrias e suas assimetrias, Dunker propõe para jovens analistas uma espécie de mapa dos mitos que organizam caminhos e descaminhos já trilhados pela psicanálise no Brasil”, escreve Gabriel Tupinambá na quarta capa. 

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