Contrarrevolução da natureza: Simone de Beauvoir e Perry Anderson explicam o que é ser de direita – um ensaio

Imagem: Wikimedia Commons

Por Ronaldo Tadeu de Souza

“Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem [e a mulher], a iniquidadeo filho [e a filha] da perdição, o adversário [e a adversária]aquele [e aquela] que se levanta contra tudo o que é sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de vos dizer estas coisas, quando estava ainda convosco? Agora sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplandecer de sua vinda.”
— Paulo, Segunda epístola aos Tessalonicenses (grifos meus)

Este ensaio é parte de um estudo muito maior sobre as linhagens do pensamento político de direita no século XX. O argumento central do trabalho trata de ideia de contrarrevolução da natureza – diante do impulso transformador, insurrecional e emancipatório da subjetividade moderna em suas variadas manifestações políticas (e sociais), as obras de Carl Schmitt e Eric Voegelin; Hannah Arendt e Michael Oakeshott; Joseph Schumpeter e Leo Strauss; Russell Kirk e Roger Scruton são “todas”, e à sua maneira (as modalidades), a conformação imanente da busca pelo soerguimento intransigente da natureza (como hierarquia, como imutável, como comportamento, como instituição, como epistemologia e como cultura) contra a busca dos sujeitos modernos por liberdade, reconhecimento e igualdade efetivas. A seguir, apresento o que pode ser lido como uma “introdução”, partindo da reconstrução de dois artigos: “O pensamento político de direita hoje”, de Simone de Beauvoir, e “A direita intransigente no fim do século XX”, de Perry Anderson1. Comecemos, então, por expor o que nos disse Beauvoir (e depois passemos a Anderson) sobre o pensamento, a filosofia e a teoria política de direita no decurso do século XX.

A preocupação primeva da teórica feminista é delinear as ideias modernas da direita. Seu estudo, com vistas a responder às inquietações que a orientam, procura equilibrar uma estrutura comum de pensamento com argumentações de autores particulares expressivos da teoria política (e social) de direita. (Diferentemente de Perry Anderson e por estar envolvida visceralmente na vida intelectual de seu país, Simone de Beauvoir dedica espaço considerável aos escritores conservadores franceses do período.) Com efeito, o núcleo de reflexão das ideias políticas de direita, para Beauvoir, é a compreensão do momento decadente da civilização ocidental. Nas palavras de Oswald Spengler, a quem nossa autora se refere ao construir sua argumentação interpretativa (geral), o Ocidente está prestes a morrer (Beauvoir, 2000 [1955]). Se a natureza do homem europeu é o cultivo de sua liberdade de espírito e todas as implicações que daí decorrem, então, é essa ideia de natureza – ou ela própria enquanto tal – que está, profundamente, ameaçada. A morte do Ocidente significa o esfacelamento angustiante da natureza do homem como existência mesma da liberdade de espírito. Com isto, Simone de Beauvoir estabelece os pressupostos mais gerais do sentido do pensamento político de direita no século XX. Dessa formulação explicativa, derivam-se algumas considerações específicas na ensaística da filósofa francesa acerca do conservadorismo. A rigor, ao menos três modalidades conformam-se no estudo da feminista a partir do seu diagnóstico do temor da direita face ao ocaso do Ocidente: o anticomunismo; a teoria das elites; e a história da natureza humana. Tratemos brevemente os modos pelos quais Beauvoir comenta o anticomunismo consoante ao sentido da morte da natureza do homem ocidental.

É óbvio que o espectro do comunismo era entendido pela filosofia política de direita ao longo do século XX, e com maior intensidade e angústia nas circunstâncias que compuseram o arco das revoluções que se expandiram pela Europa após a insurreição de outubro de 1917 na Rússia, como evento responsável pela extirpação do espírito e da cultura do Ocidente. A característica distintiva da leitura de Simone de Beauvoir é o modo pelo qual consegue averiguar a posição de repulsa do pensamento de direita, não com as ideias comunistas enquanto expressão teórica e filosófica – ou mesmo um modelo abstrato de entendimento das sociedades humanas. É inegável que essa questão sempre compôs o cenário de preocupações de conservadores e liberais, ao menos desde que Karl Marx escreveu o Manifesto do Partido Comunista em 1848 e suas ideias foram difundidas pelos oprimidos de diversos países da Europa. É o ressentimento, nos termos em que o pensamento de direita o compreendeu (e compreende), que constitui a inflexível aversão ao comunismo. Se a realidade de sofrimento material de homens e mulheres, sobretudo dos trabalhadores/ras, permanentemente os levou a indignarem-se com tais circunstâncias, e isso, de certo modo, era aceitável para os teóricos de direita; a não aceitação social e prática, o inconformismo radical, a disposição em lutar, o impulso para a ação política daqueles que passam boa parte da existência afetados por condições materiais aviltantes foi e é vista pelo pensamento de direita como: a vingança do ressentimento (Beauvoir, 2000 [1955]). A feminista francesa é categórica aqui: em suas palavras, a “noção de ressentimento tem tido uma extraordinária fortuna entre os pensadores de direita” (Beauvoir, 2000 [1955]). Não aceitar a situação humana de inferioridade, haja vista o fato, também humano, da presença daqueles que são superiores por quaisquer eventualidades (voltarei a esta questão à frente, quando tratar da ideia de natureza) significava explicitar suscetibilidades ingênuas com as coisas do mundo. Entretanto, conservadores e liberais sabem, argumenta Beauvoir, que a distância entre o ressentimento e a irrupção da consciência revolucionária é percorrida com rapidez. O comunismo, o socialismo e seus agentes são agitadores dos dispositivos a organizar o caminho dos ressentidos. Rebeldes contra a natureza, os comunistas, para o pensamento de direita, coordenam e planejam, perigosamente, o “descontentamento difuso” (Beauvoir, 2000 [1955]) das massas ressentidas. A desordem das sociedades ocidentais decorre da virulência subjetiva e ativa das classes proletárias ao não corroborarem as condições que possuem, diz um conservador citado por Simone de Beauvoir. Tratava-se, para o pensamento de direita, de postulações (por vezes de caráter prático) que fossem persuasivas concernentes à ordem da existência natural das coisas humanas. Inferioridade cultural, aceitação da luta pela vida, liberdade para alguns poucos, escassez econômico-material, virtudes da aristocracia e governo da minoria – eram efeitos de uma lei universal (eterna), pela qual a ideia comunista de transformá-las seria “inútil” (Beauvoir, 2000 [1955]). Porém, ao incentivar a agitação social, o comunismo oferece esperança efetiva às neuroses do povo.

Ora, mais do que uma teoria social que explique a dinâmica de conformação do mais-valor – sem importância política, dirá Pareto, segundo ela – o comunismo e o marxismo, para o pensamento de direita, são filosofias da subjetividade. Simone de Beauvoir compreendeu de maneira singular um dos traços que conformam o conservadorismo (e certos liberalismos), sobretudo no decurso do século XX. É que a subjetividade se transfigura em potência humanista e crítica no âmbito do mundo moderno, de modo que aqueles obstáculos à sua efetivação devem ser submetidos, e até extintos, ao impulso transformativo daqueles que a portam (na história). Assim, a família, a pátria – “o amor à pátria” (Beauvoir, 2000 [1955]) – e Deus estão constantemente em risco. No entanto, há uma construção imanente na teoria política de direita que Beauvoir aborda em seu ensaio. Conquanto tenha tido repulsa à subjetividade humanista do comunismo, a ansiedade pelos destinos da modernidade que exprimem Pareto, Toynbee, Spengler, Maulnier, Aron e outros estava associada, de acordo com a filósofa, ao “impulso irracional” (Beauvoir, 2000 [1955]) que Marx e os marxistas incentivavam com a interpretação comunista da sociedade. O problema do ressentimento, novamente, configura a interpretação de Beauvoir – mas, aqui, com outro eixo de elaboração. Pois bem, na medida em que há disjunções entre a subjetividade humanista e a sociedade capitalista, o efeito da disposição emancipatória torna-se mais radical e violento. Por outras palavras – o sujeito moderno ao perceber a intransigência concreta dos grupos e instituições do mundo burguês intensifica a busca incandescente por outra realidade social, bem como o sentimento insubmisso de recusa a essa ordem de coisas. O que Simone de Beauvoir nomeou como “vontade ética” revolucionária (Beauvoir, 2000 [1955]), o pensamento político de direita atribui ao qualificativo de ressentimento “religioso” por outra vivência. Para os conservadores (e liberais), portanto, de ciência da história, o marxismo e o comunismo passarão a ser um culto religioso “qualquer” (Beauvoir, 2000 [1955]). Eles exortam o “instinto religioso das massas” (Beauvoir, 2000 [1955]) na procura incessante por uma vida com menos sofrimento e degradação. Para isso, certos eventos seriam inevitáveis – como a “dissolução e destruição da ordem” (Beauvoir, 2000 [1955]). Assim, não bastaria a presença do ressentimento e/ou da vontade ética insurrecional, o comunismo visto da perspectiva de uma religião secular, dirão os teóricos da direita – “drena os ressentimentos, [os] organiza e torna eficazes os impulsos que rebelam os homens contra as sociedades em que têm nascido” (Beauvoir, 2000 [1955]). (Os intelectuais, aqui, serão decisivos; voltarei a esse tema mais à frente.) Daí que para a estrutura de sentimentos conservadora, observa Beauvoir, haja uma inabalável aversão ao comunismo e às massas trabalhadoras que o seguem; pois a consequência de toda essa pulsão histórica era a ideia e a prática da revolução. A expropriação violenta e “assombrosa […] [pelo] homem coletivo” (Beauvoir, 2000 [1955]) das coisas que grupos da elite entendiam por natureza pertencerem a si mesmos era o sentido mesmo da transformação radical desejada e tramada pelos comunistas; o pensamento de direita somente vê o terror neste possível acontecimento histórico, político e social (da modernidade). É que, como dizem seus representantes, “a revolução é a explosão vitoriosa do ressentimento” (Beauvoir, 2000 [1955]) contra a natureza eterna – e que se entende e se quer imutável.

A força da interpretação de Simone de Beauvoir está na percepção teórica da intelectual francesa concernente às variadas e diversificadas ramificações que constituem o pensamento político de direita no século XX. Ainda que analisando predominantemente o caso do conservadorismo e do liberalismo na França dos anos 1950 e 1960, “Pensamento político de direita hoje” tem pressupostos conceituais que tornam sua especificidade social e histórica em teoria política densa enquanto narrativa e crítica. É dessa forma que a feminista francesa observa a seguinte feição do pensamento de direita: a assimetria especulativa acerca da elite política, econômica e cultural. Ou seja, se por um lado o comunismo é a religião delirante de todos os grupos ressentidos da sociedade moderna, por outro a teoria das elites se constitui como verdade eterna e peculiar da humanidade. O sentido imanente da assimetria considera com toda a imponência o fato de os comunistas, os intelectuais e as massas populares ressentidas não aceitarem a realidade – “proletário ou intelectual, ambos estão radicalmente separados da realidade” – e pondera que a elite, os privilegiados, a aristocracia da cultura, a “aceita” (Beauvoir, 2000 [1955]).

Beauvoir segue, então, comentando as implicações destes modos intransigentes de se compreender a relação entre os homens (e mulheres). Como grupo virtuoso, a elite possui algumas características peculiares. As que mais chamam a atenção no ensaio são: a aceitação da realidade existencial presente nas sociedades humanas, o entendimento cético a respeito do homem, a autopercepção do privilégio (o seu lugar por natureza no mundo) e a visão transcendente da vida. O problema dos teóricos de esquerda é o infindável desejo que professam de transformar o homem; este projeto intelectual e político não é capaz de examinar sem o véu da inocência maléfica as verdades incontestáveis da ordem do mundo. É que por definição “o homem”, para as ideias de direita, “é um animal […] estúpido” (Beauvoir, 2000 [1955]). Não observar tal circunstância humana é o pecado que tem de ser abolido da esquerda – e daqueles nas sociedades existentes que agem por paixão com vistas à felicidade de todos. Mas o núcleo subjacente das teorias de direita, argumenta a filósofa, reside não em recusar na sua completude os fundamentos da ordem social; o que não se aceita são as expressões mesmas pelas quais o ideal de sociedade há muito sustentado pela elite está distante de adquirir efetividade. A pobreza, a violência, as guerras de nações, a cultura egoísta são a face espelhada de um mundo construído à imagem da flor elegante da sociedade. Assim, com “atitude cínica”, a teoria das elites responsabiliza os homens “piolhentos, famélicos, bárbaros e [infantis]” – seria um erro fatal acreditar que qualquer mudança histórica poderia alterar este estado de coisas. Ora, Beauvoir argumenta: “este é o motivo pelo qual toda a literatura que desacredita o homem faz [e é] o jogo [do pensamento] da direita”. Daí que se deva, irredutivelmente, renunciar a todo modo de teoria, filosofia e reflexão das coisas do mundo que tenha a ideia e o plano da consecução da justiça universal. (“A burguesia deseja ter de seu lado a direita [expressa na teoria social das elites]”.) Sem mais, conservadores e liberais consentem com a ordem natural do firmamento. São “humildes” e defendem esse édito da existência com persuasão e por vezes com realismo indômito. Afinal, aquiescem com o fato inarredável de que Deus os escolheu para governar aos homens para toda a eternidade. Entendem, perfeitamente, que “todo poder vem de Deus” e agem na política, na cultura e na sociedade para tornar concreto o que um monge do século IX afirmava a seus seguidores: “[ele o soberano bem, a quem chamamos] Deus […] tem desejado que entre os homens uns fossem senhores e outros servos […] os senhores devem venerar e amar Deus, e os servos devem venerar e amar a seus senhores” (Beauvoir, 2000 [1955]). A interpretação de Simone de Beauvoir nesse ponto de suas considerações é decisiva para qualquer leitura crítica de esquerda, e mesmo progressista, sobre o significado do pensamento político de direita no decurso do século XX e inícios do XXI. Vejamos, mais detidamente, a observação da feminista francesa concernente às implicações teóricas (e políticas) dessas últimas reflexões.

Na teoria das elites que conservadores e liberais mobilizam para construir e difundir pela sociedade, na qual há um grupo minoritário destinado à hierarquia de governo e uma esmagadora maioria dos deserdados, daqueles que buscam igualdade, atenuar seu sofrimento material e um futuro menos à sorte dos infortúnios das disposições burguesas e capitalistas – existem lacunas que tinham de ser preenchidas. Ainda que persuadidos a serem submissos e a aceitarem a ideia das distinções e assimetrias da vida, o que poderia de fato garantir que os ressentidos, trabalhadores de todo tipo, pobres insatisfeitos com múltiplas concepções de vida, consentissem com a subordinação imperturbável e, supostamente, real que atribui às elites o lugar designado para governar? A filosofia divina tinha de ser complementada por uma modalidade de alegação que transitasse entre misticismos altamente etéreos e a imediatidade do cotidiano forjado. Esse questionamento implícito trazia no seu arranjo de significados uma difícil posição para o pensamento de direita: o mundo governado pela elite e a sociedade que guarda um lugar de diferenciação para ela são, enquanto tais, espaços de vida não só inglórios, mas de guerras, disputas mesquinhas, líderes políticos corruptos e afeitos à violência. Com efeito, Beauvoir propõe que, tendo de responder a essas eventuais indagações, as ideias de direita sustentam que a elite ou a aristocracia virtuosa, como “a classe privilegiada, participa de uma realidade transcendente que sublima sua existência” (Beauvoir, 2000 [1955]). Essa projeção transcendente que caracteriza certos homens faz deles os únicos a terem autoridade e legitimidade para decidir sobre questões políticas e sociais importantes para todos. Aqui, consolida-se a asserção imanente do pensamento pelo qual há nas sociedades humanas uma hierarquia distintiva, imutável, eterna, perene, contínua, permanente; uma conformação aristocrático-transcendente que deve necessariamente ser obedecida. E os outros “homens [portanto] constituíam [uma] massa” (Beauvoir, 2000 [1955]) de indivíduos – vivendo, de maneira inconteste, os flagelos da realidade.

“Pensamento político de direita hoje”, após a análise da teoria das elites, chega ao ponto talvez mais relevante de sua argumentação acerca da filosofia política conservadora, liberal, de direita: a ideia de natureza – e a maneira pela qual os teóricos e divulgadores daquelas, incessantemente, buscam restaurá-la diante do percurso da historicidade moderna. Daí que, para os pensadores em debate, “[a natureza], [e] a natureza humana, é perversa e imutável” (Beauvoir, 2000 [1955]); isso é suficiente para recusar, com intransigência, a ciência da história. Ou quando muito reescrever a história a partir do quadro referencial da (contra) revolução da natureza. Por outras palavras; a história, se é que existe, tem de ser construída partindo da concepção inabalável da ordem natural. Assim, se pudermos sedimentar uma definição sistemática do que é o pensamento político de direita, a partir da interpretação de Beauvoir, ele pretende e significa uma intercessão da natureza (decaída, perversa, hierárquica, eterna, gradativa e desigual) na estrutura narrativa da história: mas uma narrativa histórica que possui variedades sem fim de subjetividades políticas e sociais em busca de sua autotransformação (dialética). Podendo em circunstâncias históricas peculiares serem impetuosamente incontidas. Não foi sem razão que Raymond Aron combateu o “romantismo revolucionário” (Beauvoir, 2000 [1955]) dos necessitados materialmente, e que Arnold Toynbee subordinou a ciência da história ao “cosmo [natural e transcendente]” (Beauvoir, 2000 [1955]). De maneira que, o ímpeto moderno – seja dos trabalhadores, seja dos intelectuais públicos e engajados, seja dos comunistas, ou simplesmente daqueles e daquelas insatisfeitas com o sofrimento humana – para a transfiguração secular da sociedade de classes e suas consequências mais indignas é, fundamentalmente, extirpada do horizonte teórico e política dos conservadores (e liberais). São um equívoco “utópico” as “aspirações por um mundo melhor” (Beauvoir, 2000 [1955]), dirão os escritores da ordem originária transcendente. Pois, a ordenação ingênita da história humana, que estipula o que é de cada um por natureza, torna a luta por justiça efetiva algo despropositado. O pensamento político de direita (e seus representantes conservadores e liberais-conservadores), portanto, impõe a toda forma de experiência subjetiva de transformação as condições eternas do universo natural transhistórico. E as exigências desse, sua sabedoria divina, autoridade, virtude da aceitação, a pureza do ser, aristocratização guerreira da vida, autopercepção real da superioridade, é que tem de assumir (por natureza) o governo concreto das sociedades humanas ocidentais – por outras palavras, a “exigência do transcendente” (Beauvoir, 2000 [1955]) deve extinguir, intransigentemente, a ação política dos que se propõe a mudar a “ordem estabelecida” (Beauvoir, 2000 [1955]) e seus efeitos desesperadores e cruéis.

Foi a partir da noção de intransigente que Perry Anderson escreveu o ensaio tratando do pensamento político de direita no século XX. Entretanto, há um aspecto peculiar em “A direita intransigente no fim do século”: ele não aborda as características espirituais e gerais do pensamento político de direita como faz Simone de Beauvoir (mesmo que essa o faça referenciada pelo contexto e pela cultura franceses).

Localizando, histórica e culturalmente, autores que alcançaram o auge de sua produção teórica em meados do século XX, mas que tiveram sua notável influência nos estertores daquele, Anderson analisa quatro dos mais importantes filósofos políticos de direita da contemporaneidade. Sua crítica marxista se dirige para as vozes de Leo Strauss, Friedrich von Hayek, Carl Schmitt e Michael Oakeshott, os sofisticados clamores de Direito natural e história, O caminho da servidão, O conceito do político e Racionalismo em política (dentre outros) foram ouvidos nas chancelarias nos anos 1970, 1980 e 1990. Ao terminar o ensaio, o historiador inglês afirma que “o quarteto que consideramos aqui teve a coragem política de suas convicções. Mas estas estavam de acordo com o grão da ordem social. Assim, embora marginais, […] excêntricos […], suas vozes eram ouvidas nas chancelarias” (Anderson, 2002, p. 344). Qual o argumento de Perry Anderson, então?

Diferentemente de Beauvoir, mesmo tendo abordado autores conservadores (e liberais) americanos, alemães (como James Burnham e Karl Jasper, respectivamente) e franceses – esses últimos com maior circunspecção, desdobrando deles significados universais –, Anderson parte para uma ofensiva intelectual (e política) contra teóricos que conseguiram lograr o “ápice” da glória acadêmica. Afinal, Strauss, Oakeshott, Hayek e Schmitt construíram carreiras nas mais importantes instituições de ensino da Europa e dos Estados Unidos. Ainda assim, Anderson insiste em sustentar que suas ideias, sua filosofia política e sua compreensão dos problemas cruciais das sociedades ocidentais moldaram a “forma [de] grande parte do mundo mental da política […] no final do século” (Anderson, 2002, p. 320). Vindos de áreas distintas das humanidades – Carl Schmitt, do direito; Friedrich von Hayek, da economia; Michael Oakeshott, da história, e Leo Strauss, da filosofia –, eles trataram com erudição o campo da política; o esforço teórico destes eminentes professores foi dispensado para apresentar uma avaliação impiedosa da modernidade. E com isso, resolutamente, demonstrar com intransigência, sem qualquer traço judicioso, quais as respostas e atitudes deveriam ser estabelecidas diante de tal crise enfrentada pelo Ocidente. Ora, Perry Anderson estabelece assim esta formulação histórica sobre a direita intransigente: o que os quatro tinham em mente era a “experiência formativa […] da sociedade europeia durante os anos [do] entre-guerras” (Anderson, 2002, p. 320). Ali, nos termos do ensaísta britânico, eles tiveram que enfrentar o surgimento das revoltas da classe operária organizada, as oscilações morais da classe média e a desagregação da ordem econômica vigente. Carl Schmitt sintetizou esse momento de aflição de modo preciso. Em O conceito do político, ele alertou que as sociedades na Europa viviam sob o “olhar dos russos” (Anderson, 2002, p. 321). Com efeito, a ação política dos bolcheviques e o sucesso dos primeiros anos da Revolução de Outubro de 1917 haviam chegado à Alemanha, à Áustria, à Itália e à França. (O historiador Eric Hobsbawm estava correto ao nomear esse evento como uma “revolução mundial”.)

Não importa neste contexto específico explicitar o que Perry Anderson disse de cada um dos teóricos da direita intransigente. Contudo, duas de suas considerações, uma geral-indicativa e outra crítico-imanente, são imprescindíveis para este texto. A primeira encontra-se no início do ensaio, pelo que o intelectual da New Left Review sugere para as gerações vindouras de pesquisadores que “as quatro figuras do conservadorismo e liberalismo contemporâneo” merecerão trabalhos e estudos mais “documentados” e amplos, de sorte a se averiguar “a teia e ligações [e de problemas] entre eles [e que] formaram um padrão impressionante” (Anderson, 2012, p. 320) e, de certa maneira, coerente com os projetos e o Zeitgeist que viveram. A segunda consideração é fundante do argumento que estrutura este meu trabalho. São as passagens localizadas nas páginas 342 e 343 do artigo (incluídas na edição brasileira de 2002 do livro As afinidades seletivas, publicado pela Boitempo). O que encontramos nelas?

Ali, Perry Anderson, com erudição imponente, mobiliza a Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses (que ele, por sua vez, nos diz que havia sido uma das imagens pelas quais Carl Schmitt orientou seus últimos trabalhos). Aqui surge o Katechon [Κατεχόν]. Se pudéssemos e desejássemos expressar o sentido imanente do pensamento político de direita no século XX, o termo e/ou noção de Katechon encontra-se em perfeita consonância descritiva e crítica-interpretativa. A ação dos que buscam a transformação social da ordem (natural) existente está fundamentalmente consolidada concernente à percepção inconformada em termos éticos, materiais e subjetivos dos negócios humanos. Por outras palavras, a subjetividade política moderna é a articulação dialética entre a recusa do horizonte imediato de sofrimentos facultativos, a autocompreensão da historicidade da existência, as formas contingentes de luta de classes e o impulso intrínseco de desejo constante do novo. Com efeito, nenhum grupo ou classe, movimento e organização política que entenda, mesmo que sensivelmente, o significado efetivo do martírio, do padecimento, da miséria e do infortúnio da maioria dos indivíduos deixaram (ou deixará) de agir para eliminar as condições concretas e psicológicas desse estado de coisas. Assim, o fervor na negação (por vezes radical) dos elementos institucionais que se tornam obstrutivos à ação política transformadora é recorrente naqueles e naquelas que buscam a redenção – que, circunstancialmente, pode ser revolucionária. É isto o que a Carta de Paulo (o Katechon), apropriada por Carl Schmitt e pelo pensamento político de direita, quer extirpar das sociedades humanas ocidentais. O sopro violento da contrarrevolução da natureza quer eliminar aqueles e aquelas que irão se manifestar sem lei (cf. Anderson, 2002, p. 342). Se na aurora do mundo moderno, os consensos públicos e racionais em torno da lei foram, eventualmente, suficientes para restringir os que caminhavam na terra das injustiças, no século XX, isso já não seria mais possível. Pois os aspectos constitutivos de conformação dos consensos “restritivos” haviam se transfigurado na “caminhada do mal”, na força do demônio que a tudo nega e que não mais aceitou a ordem natural nos seus variados sentidos. O que restava ao pensamento político de direita – e às chancelarias que o ouvissem (Anderson, 2012, p. 344) – era afastar, ou mesmo não considerar social e moralmente os que procuravam romper a estrutura hierárquica desigual e imutável. Numa formulação lapidar, o lendário editor da New Left Review afirma que Oakeshott, Strauss, Schmitt e Hayek procuravam, na verdade, afastar e “restringir os perigos da democracia [de massas]” (Anderson, 2012, p. 343) como fresta da irrupção política dos que sofrem as iniquidades da vida terrena e secularizada. As barreiras que levantaram expressam a intransigência na busca incessante para a restauração da natureza – a contrarrevolução da natureza. O argumento que eu procurarei expor no livro, ainda em progresso, é a extensão e/ou execução do acima comentado e analisado nos ensaios de Simone de Beauvoir e Perry Anderson. Aguardemos…

Notas 

 

  1. Para Simone de Beauvoir (2000), usei a edição em espanhol publicada pela Ediciones elaleph.com. Ela pode ser consultada neste link aqui (as traduções das citações são minhas). Também existe uma edição em português da Paz e Terra, de 1967, com reimpressões em 1980 e 1991. Sobre Perry Anderson, o ensaio “A direita intransigente no fim do século” faz parte dos livros Afinidades Eletivas e Espectro: direita e esquerda no mundo das ideias (2012), ambos publicados pela Boitempo. Recomenda-se para melhor compreensão do sentido da reflexão de Anderson neste debate o artigo “As ideias e a ação política na mudança histórica”, publicado na revista Margem Esquerda #1, 2003. ↩︎

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Ronaldo Tadeu de Souza é professor do Departamento de Ciência Política no IFCS-UFRJ, pesquisador no Centro de Estudos em Cultura Contemporânea-CEDEC, no Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria GPDET (UFRJ-CNPq) e coordenador do LIEPPC-Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Política e Pensamento Crítico (DCP-UFRJ).


Considerações sobre o marxismo ocidental/ Nas trilhas do materialismo histórico, de Perry Anderson
Análise consagrada da evolução do marxismo no Ocidente, destacando como intelectuais moldaram sua relação com a política e a sociedade, trazendo à tona temas culturais e filosóficos. Exame minucioso de uma vertente complexa do pensamento marxista.

Brasil à parte: 1964 a 2019, de Perry Anderson
Um panorama da história política e econômica recente do Brasil, desde o Plano Real até o governo de Bolsonaro. Os ensaios revelam a percepção do autor sobre os desafios e mudanças no país, abordando os bastidores do poder e debates intelectuais.

A política externa norte-americana e seus teóricos, de Perry Anderson
Reconstrução dos principais acontecimentos e inflexões da política externa dos EUA desde o fim da Segunda Guerra até os dias atuais, destacando a contínua hegemonia norte-americana no cenário mundial. O autor examina o debate contemporâneo e as estratégias futuras do poder norte-americano.


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