Hegemonia imperialista em crise, tarifaço e a ameaça do PIX

Imagem: Pexels

Por Iago Montalvão

Há mais de um ano Trump iniciou seu carrossel de ameaças ao Brasil por meio de tarifas comerciais. Depois de implementações breves e recuos consecutivos, o governo dos Estados Unidos voltou a anunciar essas medidas para uma série de produtos importados do Brasil, dessa vez com uma alíquota de 25%. Entre os motivos elencados por uma suposta investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) estão — as também supostas — barreiras comerciais ao etanol estadunidense no Brasil, a fragilidade na aplicação de leis anticorrupção, tarifas preferenciais concedidas a países como México e Índia, e até acusação de frouxidão no combate ao desmatamento ilegal. Além disso, mencionam o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, em que misturam, num mesmo balaio, questões de regulamentação das plataformas digitais e big techs e o principal serviço de pagamentos digitais instantâneos utilizado no país, de criação originalmente brasileira e oferecido gratuitamente, o PIX.

O uso de tarifas comerciais como instrumento de subjugação política, diplomática e econômica foge a todos os acordos multilaterais estabelecidos e não encontra respaldo legal, nem legítimo, na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas se tornou o principal instrumento de chantagem dos EUA frente à sua própria decadência, ao crescimento de outros polos econômicos e geopolíticos no mundo e, consequentemente, ao temor da perda de sua influência sobre regiões onde busca manter sua hegemonia imperialista. Ao Brasil, enfrentar com firmeza essas intimidações e construir alternativas no comércio e na estrutura produtiva nacional são movimentos indispensáveis à manutenção da soberania econômica, digital e política.

O insistente apelo de Trump por tarifas comerciais como instrumento de chantagem — ou subjugação — não é meramente casuístico ou aleatório, mas tem embasamento num projeto claro e que se estrutura em reação à situação desconfortável que vive o império estadunidense, com o declínio de sua hegemonia e a ascensão de novos polos de poder geopolítico e econômico no mundo, especialmente a China.

Mas vamos por partes. E aqui quero me valer de três etapas para conduzir essa história: 1) os abalos na hegemonia dos Estados Unidos no mundo, tomando emprestado o conceito de dominação sem hegemonia cunhado por Gramsci e utilizado nas reflexões de Arrighi; 2) as estratégias de Trump para tentar reparar esses buracos no casco de uma gigantesca embarcação em lento naufrágio, com destaque para o papel das tarifas comerciais; 3) e por fim, porque nesse cenário o Brasil, as plataformas digitais e o PIX são tão relevantes.

Uma hegemonia em crise

Comecemos pelos tremores na hegemonia estadunidense. Em 2008, o economista italiano, e de tradição marxista, Giovanni Arrighi sentou-se para escrever a última obra de sua vida, Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. E o título não é mera provocação. A tese é que a ascensão chinesa — e, com ela, a de outras potências asiáticas — não é uma cópia tardia do capitalismo ocidental, mas o desdobramento de um caminho próprio: aquele que o velho Adam Smith batizou de “caminho natural” do desenvolvimento, baseado no mercado, mas não necessariamente capitalista, de uso intensivo de mão de obra e — repare nesse detalhe, que voltará a nos assombrar — poupador de energia. Onde o Ocidente acumulou capital e poder de forma “interminável”, a Ásia teria trilhado uma via mais horizontal. E é justamente aí que Arrighi enxerga a semente de uma “sociedade mundial de mercado baseada em maior igualdade entre as civilizações”, como sonhara Smith, e, no mesmo gesto, o lento declínio da hegemonia estadunidense.

Escrevendo ainda sob a fumaça da invasão do Iraque, Arrighi lança mão de um conceito afiado para dar nome ao que via: a dominação sem hegemonia. A ideia é colhida de Ranajit Guha e apoiada no conceito elaborado por Gramsci, e aqui convém não simplificar. Hegemonia, para Gramsci, não é mero convencimento, mas uma força que repousa sobre um alicerce bem concreto: poderio econômico, político e militar de fato conquistado. O grupo hegemônico dirige porque é central na economia, porque comanda as instituições, porque, no limite, tem superioridade militar; e é sobre esses alicerces que ele faz concessões reais aos grupos subordinados e consegue vestir seus próprios interesses com a roupagem do interesse geral. A coerção não some nesse arranjo: fica de prontidão, discreta, na retaguarda. Hegemonia é, nas palavras de Arrighi, a capacidade dos grupos dominantes de apresentar seu domínio como se servisse não só aos seus próprios interesses, mas também aos dos grupos subordinados. Quando essa capacidade se esgota e sobra apenas o porrete escancarado, não há mais hegemonia, há dominação nua e crua.

E foi isso, argumenta Arrighi, que a guerra no Iraque revelou: os Estados Unidos saíram politicamente derrotados daquelas incursões, revelando sua incapacidade de liderar pelo consenso e pela força das instituições globais. Sobrava-lhes a força bruta. Uma possível comparação com os recentes ataques ao Irã não se trata de mera coincidência. Nesses momentos, a tentativa de impor domínio se veste de farda militar; nada impede, porém, que se manifeste de outras formas, como a arma econômica e a chantagem diplomática, encarnadas, hoje, em sanções comerciais ou nos malfadados tarifaços.

A ascensão da China como protagonista global na corrida tecnológica, uma enorme liquidez de capital para financiamento externo, aliada a um imenso mercado consumidor e a uma enorme demanda por importações, dinamizou o comércio com diversas partes do mundo. Essa nova possibilidade reduziu a dependência comercial — e, por vezes, até financeira — de vários países em relação aos Estados Unidos e à Europa. E essa dinâmica não apenas se confirmou, como se tornou tendência. No Oriente Médio, a exportação de petróleo se deslocou majoritariamente para a Ásia; a África se consolidou como fornecedora de importantes minerais críticos e metais estratégicos; e o Brasil, de um lado, viu sua balança comercial melhorar com o aumento substancial das exportações de alimentos e, de outro, tornou-se um destino cada vez mais relevante do investimento estrangeiro direto chinês.

No âmbito financeiro, as transformações ocorrem em ritmo mais lento, mas já podem ser percebidas. Depois de se consolidar no topo da hierarquia monetária, os Estados Unidos passaram a registrar déficits comerciais gigantescos, sustentados pela imensa demanda por dólares e por títulos do Tesouro estadunidense — a principal moeda das transações comerciais e de reserva de valor internacional — de que os demais países precisam para liquidar seus negócios e guardar suas reservas. Esse processo foi, em boa medida, alimentado pela própria ascensão chinesa: entre 2000 e 2024, de acordo com dados do próprio governo da República Popular da China, suas importações saltaram de cerca de US$ 225 bilhões para aproximadamente US$ 2,59 trilhões — um crescimento superior a 1.000%[1] —, enquanto suas reservas internacionais saltaram de US$ 165 bilhões, em 2000, para cerca de US$ 3,4 trilhões, em 2025, após alcançarem um pico de quase US$ 4 trilhões em 2014.[2] Ao acumular esse colossal volume de reservas — em grande parte aplicado em ativos denominados em dólar —, a China tornou-se uma das principais financiadoras do déficit norte-americano.

No entanto, ao menos três movimentos vêm corroendo o papel do dólar. O primeiro é o avanço dos investimentos e empréstimos externos chineses. O segundo é a ascensão lenta, porém persistente, do renminbi: embora ainda modesto nos pagamentos globais — cerca de 3,1% em janeiro de 2026, na quinta posição, atrás de dólar, euro, libra e iene —, o yuan já responde por perto de metade das transações transfronteiriças da própria China (num recorte em que o dólar caiu de cerca de 80% para 50%) e por aproximadamente 6% do financiamento ao comércio mundial. O terceiro é a redução deliberada e sustentada das reservas de títulos do Tesouro estadunidense pelo Banco Popular da China: de um pico de US$ 1,32 trilhão, em novembro de 2013, para cerca de US$ 680 bilhões no fim de 2025 — uma queda de quase 50% que fez a China recuar do primeiro para o terceiro lugar entre os maiores credores estrangeiros dos EUA, atrás de Japão e Reino Unido.[3]

Evidentemente, essa movimentação nas placas tectônicas do capitalismo global não passaria ilesa a uma reação irritada do imperialismo estadunidense. E aliás, em certa medida chega a ser grosseira a similaridade na propaganda e na estratégia utilizadas por Donald Trump, ao ressuscitar o movimento “Make America Great Again”, com o momento em que essa expressão foi cunhada, durante o governo de Ronald Reagan, contexto também marcado por inflação elevada e desemprego crescente, que já prenunciava o fim da era dourada da economia do pós-guerra. A década de 1980 representou a superação do capitalismo regulado e do Estado de bem-estar social associados aos acordos de Bretton Woods. Esse período viu a concentração de renda nos Estados Unidos disparar para patamares inéditos, impulsionada por inovações financeiras que permitiram ganhos estratosféricos por meio de instrumentos de capital fictício, cada vez mais descolados dos ativos reais da economia.

Mas esse declínio também tem raízes internas. A mesma globalização financeira que reorganizou a economia norte-americana — com a desintegração vertical das empresas, o offshoring e o outsourcing rumo à mão de obra barata asiática — aprofundou uma fratura dentro dos próprios Estados Unidos. A produtividade líquida da economia disparou cerca de 90% entre 1979 e 2025, mas a remuneração do trabalhador mediano cresceu apenas 33% no mesmo período: a riqueza foi gerada, mas cada vez menos distribuída. Sob o “capitalismo de gestão de ativos”, fundos de investimento impuseram uma lógica de curto prazo voltada ao valor para o acionista, e executivos passaram a ser remunerados maciçamente em ações e bônus — de modo que a razão entre o salário de um CEO e o de um trabalhador típico saltou de 31 vezes, em 1978, para 280,7 vezes em 2024 (chegando a 408,5 vezes em 2021).[4] A hegemonia estadunidense, portanto, corrói-se por fora e por dentro ao mesmo tempo: perde terreno no tabuleiro global enquanto concentra renda e ressentimento em casa. É diante dessa dupla crise que o governo dos Estados Unidos ensaia suas respostas para tentar preservar o próprio império.

A reação de um império em declínio

Não por acaso Trump lança mão das mesmas estratégias adotadas por Reagan. Para decifrar essa estratégia, é fundamental examinar as ideias de Stephen Miran, ex-presidente do Conselho de Consultores Econômicos de Trump e que atuou, ainda, como conselheiro na Casa Branca e atual governador do Federal Reserve. Considerado um dos arquitetos do “Acordo de Mar-a-Lago”, Miran publicou, no final de 2024, “Um guia do usuário para a Reestruturação do sistema de comércio global” quando ainda era estrategista na empresa de consultoria Hudson Bay Capital. Suas teses repousam sobre o objetivo de “reconfigurar os sistemas globais de comércio e finanças em benefício dos Estados Unidos” (Miran, 2024, p. 38, tradução livre) e confrontam Wall Street ao defender que o Estado pode influenciar a taxa de câmbio do dólar por meio de ferramentas multilaterais ou unilaterais.[5]

Entre as medidas unilaterais, Miran chega a sugerir a compra de moedas estrangeiras, a venda massiva de dólares, restrições legais a transações cambiais e até uma taxação de uso sobre títulos do Tesouro dos EUA detidos por governos estrangeiros. No entanto, as tarifas comerciais emergiram como sua ferramenta preferencial, isto é: “um instrumento pelo qual se pode obter com sucesso alavancagem de negociação — e receita — junto a parceiros comerciais” (Miran, 2024, p. 38, tradução livre), provavelmente sendo usadas antes de qualquer intervenção cambial.

O objetivo principal é financiar o déficit em conta corrente dos EUA, mas também reduzir o déficit fiscal e proteger a indústria nacional da concorrência internacional — notadamente a chinesa — e da desvantagem cambial. Contudo, as consequências desse tipo de estratégia já se manifestam: a elevação do custo global do financiamento da economia estadunidense, pressões inflacionárias adicionais sobre o consumo e o afastamento de aliados históricos, que podem se sentir prejudicados pela postura coercitiva.

Políticas multilaterais de desvalorização cambial não são novidade, como demonstram os Acordos do Plaza e do Louvre nos anos 1980 (período em que Reagan também buscava “tornar a América grande novamente”). No entanto, o uso de ferramentas unilaterais e coercitivas como na forma atual é inédito e expressa uma característica do conceito de dominação sem hegemonia.

Num cenário em que os alicerces do sistema monetário internacional baseados no dólar estão abalados e a força do comércio global se desloca da centralidade nos Estados Unidos, fica evidente que esse país vê seu poder ameaçado; suas fundações, contudo, permanecem sólidas e com raízes profundas. Um marco tecnológico fundamental reforça essas fundações: o paradigma da tecnologia da informação. As plataformas digitais passaram a permear quase todas as esferas das relações sociais, e são parte cotidiana da sociedade moderna. Por deter o domínio tecnológico e de propriedade das principais plataformas utilizadas no mundo, os Estados Unidos mantêm capacidade de sustentar sua hegemonia que se espalha por meio desses serviços. E os serviços de intermediação financeira digital estão intrinsecamente ligados a esse processo.

A centralidade do Brasil e do PIX para a reação estadunidense

A lógica coercitiva com que os EUA tentam sustentar seu domínio materializa-se, de forma exemplar, no caso brasileiro. As tarifas de 25% anunciadas em julho de 2026 apoiam-se numa investigação do USTR sob a seção 301 que, a pretexto de práticas “desleais”, apenas reembala acusações já mencionadas (do etanol às tarifas preferenciais, do “combate à corrupção” ao desmatamento). Entre elas, uma se destaca e revela o alvo real: o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, com foco nas ordens judiciais a plataformas como X, Meta e Google e no suposto favorecimento ao PIX. O próprio Representante de Comércio, Jamieson Greer, resumiu o espírito da medida ao afirmar que proteger os interesses econômicos americanos contra práticas desleais seria o fundamento da política “América Primeiro” de Trump. Por trás do discurso, porém, o que está em jogo é mais profundo: não uma lista de queixas comerciais, mas os próprios alicerces, monetários e tecnológicos, sobre os quais os Estados Unidos ainda sustentam seu poder.

Nesse tabuleiro, o Brasil se torna peça-chave por pelo menos três razões. A primeira é geopolítica: sua posição estratégica no comércio disputado entre Estados Unidos e China. A segunda é econômica: trata-se de um amplo mercado consumidor sob influência histórica dos EUA, sobretudo para serviços de tecnologia da informação. E a terceira, a que mais importa aqui, é a construção de alternativas financeiras, como a aproximação com os BRICS em torno de plataformas de pagamento e instituições próprias e, no centro dela, o PIX. É esse terceiro canal que ganha relevância especial no contexto atual, e é para ele que voltamos nossa atenção, pelo simbolismo que representa para o país.

Os desdobramentos que a consolidação do PIX traz consigo podem não parecer óbvios à primeira vista, mas têm uma amplitude que vai muito além da disputa propagandística. A evolução dos sistemas digitais de pagamento está diretamente ligada ao monopólio de empresas estadunidenses (algumas já amplamente conhecidas, como Visa e Mastercard), mas a grande virada nessa história é a entrada das big techs nesse tipo de serviço. O modelo que faria do WhatsApp, controlado pela Meta, a principal plataforma de pagamentos do Brasil já estava lançado e prometia revolucionar um mercado prestes a ser dominado por uma big tech estrangeira, à semelhança do que o WeChat faz na China, com a “singela” diferença de ser uma empresa nacional, submetida a forte regulação e supervisão estatal.

Em um outro trecho do documento de Miran, na seção “financial extraterritoriality”, ele descreve como o controle do dólar permite aos EUA congelar ativos, cortar países do SWIFT e restringir acesso ao sistema bancário, ou seja, o poder de coagir “without having to mobilize a single soldier”(Miran, 2024, p. 10, tradução livre). O PIX pôde, ao mesmo tempo, frustrar a possibilidade das big techs estadunidenses se consolidarem no setor de pagamentos digitais num mercado importantíssimo e levantar possibilidades de acordos internacionais envolvendo transações instantâneas e gratuitas, que podem servir, inclusive, de base para o desenvolvimento de outras inovações tecnológicas financeiras também para transações transfronteiriças, a exemplo do que se busca desenvolver com o BRICS Pay.

A perda desse mercado não significa apenas a perda de possibilidades de lucro, mas da capacidade de controle de uma imensa quantidade de dados e informações financeiras num país de grande relevância geopolítica e cuja capacidade política de impor normas e regulações sobre a ingerência de empresas estrangeiras é ainda muito limitada. Portanto, a existência do PIX é, de antemão, uma proteção indispensável à soberania financeira do Brasil, além de tantas outras vantagens oferecidas ao cidadão brasileiro em suas transações bancárias cotidianas. O PIX é um avanço civilizacional, um serviço de utilidade pública que possibilita reduzir custos e distâncias, facilitar o trabalho de pequenos produtores, autônomos e empresários, agilizar processos, num mundo moderno permeado pela quase essencialidade de serviços digitais, tornando-se então um avanço em termos de serviços essenciais ao cidadão brasileiro. Questionar o PIX em relação à concorrência de empresas privadas seria como questionar a oferta de vacinas gratuitas pelo SUS por competir com as empresas privadas da indústria farmacêutica, é uma contradição humanitária.

O enredo que se desenrola desde o anúncio de tarifas por Trump, que vai desde as justificativas políticas, como os processos movidos contra Bolsonaro, até todos esses interesses não ditos, evidencia o caráter político dessas tarifas. Mas essas medidas descumprem todas as normas e regras estabelecidas nos acordos internacionais e nas instituições multilaterais, e mesmo que sempre tenham atuado como um braço da hegemonia dos EUA, seguem paralisadas e sem capacidade — ou sem interesse — de reagir, um exemplo claro é a inércia da OMC. E quanto mais medidas ilegais são levadas a cabo, menos as regras e acordos estabelecidos têm funcionalidade.

O governo brasileiro acerta quando reage com firmeza na defesa do PIX e não aceita as tarifas. Negociações e instituições multilaterais devem sempre ser um canal a se utilizar, mas esse momento se apresenta também como uma encruzilhada histórica. As pressões e chantagens dos Estados Unidos não vão cessar com base na negociação e tampouco por medidas da OMC, portanto cabe também ao país construir uma estratégia de soberania de longo prazo e estruturada, o que pressupõe a diversificação de parceiros comerciais, o avanço na consolidação de uma estrutura produtiva diversificada e de maior teor tecnológico, a construção de novos blocos de transações financeiras que reduzam o poder do dólar e o desenvolvimento de novas tecnologias da informação que reduzam a dependência das big techs estrangeiras, especialmente no setor de transações financeiras, e nisso o PIX é um grande trunfo.

Esse cenário cria aberturas para o fortalecimento de alternativas, ainda que incipientes, como as iniciativas dos BRICS. O papel de liderança do Brasil e de Lula no bloco, somado ao desgaste da extrema-direita brasileira após as tentativas de golpe frustradas, contribuiu para que o país se tornasse um alvo preferencial. Mas ser alvo, aqui, é também sinal de que há o que defender: resistir a essas chantagens e apostar em alternativas soberanas é cada vez mais uma necessidade — e, nesse tabuleiro, o PIX é menos um meio de pagamento do que a prova de que outros caminhos são possíveis.

Iago Montalvão é economista, doutorando em Economia no IE-Unicamp, pesquisador no Transforma-Unicamp e no Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).


[1] Disponível em: http://english.customs.gov.cn/

[2] Disponível em: https://www.safe.gov.cn/en/2025/1207/2372.html

[3] Disponível em: https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3337010/china-cuts-us-treasury-holdings-lowest-level-2008-amid-debt-ceiling-fears

[4] Dados disponíveis no Economic Policy Institute: https://www.epi.org/blog/ceo-pay-increased-in-2024-and-is-now-281-times-that-of-the-typical-worker-new-epi-landing-page-has-all-the-details/

[5] MIRAN, Stephen. A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System. [S.l.]: Hudson Bay Capital, nov. 2024. Disponível em: https://www.hudsonbaycapital.com/documents/FG/hudsonbay/research/638199_A_Users_Guide_to_Restructuring_the_Global_Trading_System.pdf. Acesso em: 26 ago. 2025.


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