Data centers na América Latina: novas veias do extrativismo

Imagem: WikiCommons

Por Lucas Zinet

Em diversos países da América Latina tem ocorrido um processo intenso de planejamento e construção de data centers. Essa dinâmica está associada à ampliação do uso da chamada Inteligência Artificial generativa, que aprofunda a voracidade das Big Techs na busca por lugares que comportem, geográfica e socialmente, as instalações de seus data centers.

Os impactos e conflitos socioambientais que emanam dessa investida são variados e, em que pese tenham uma roupagem de dilema contemporâneo, expressam tensões antigas nas sociedades latino-americanas. Neste artigo, analisaremos mais de perto os casos da Argentina e do Brasil, buscando identificar como o extrativismo, que marca ambas as nações, se relaciona com os desafios ambientais da crise climática em um mundo onde imperialismo e extrema direita avançam sobre recursos naturais e a força de trabalho.

Data centers e o impacto ambiental

Data centers são estruturas de armazenamento e processamento de dados de imensas proporções, que operam sobretudo para que sistemas de Inteligência Artificial funcionem. A capacidade operacional das chamadas Inteligências Artificiais generativas é significativamente mais complexa que modelos anteriores, esse alto desempenho exige mais energia e espaço físico para operar.

Um data center nada mais é do que uma grande edificação onde todo o equipamento associado a esse processo é instalado e operado. A título de exemplo, vale citar o maior data center do mundo em área física, o China Telecom Inner Mongolia Information Park. Localizado em Hohhot, ele possui cerca de 1.000.000 metros quadrados e é o centro das operações de hiperescala da empresa China Telecom.

O principal impacto ambiental causado pelos data centers é o elevado consumo de água, utilizada para esfriar o maquinário gigantesco que, durante o processamento de dados, se superaquece. No caso dos países com maior dependência de água para geração de energia elétrica, como é o caso do Brasil, a demanda de energia de um data center compõe um segundo escoamento significativo dos recursos hídricos da região.

Por aqui, esse é o centro do principal conflito socioambiental associado à instalação de data centers. A etnia indígena Anacé que vive no estado do Ceará, organizou uma série de manifestações contrárias à instalação de um data center no município de Caucaia, onde o empreendimento vem sendo realizado por um conjunto de empresas associadas ao Tik Tok.

Os números envolvendo o projeto são bastante relevantes. A previsão é de que as instalações ocupem uma área equivalente a 12 campos de futebol. Do ponto de vista hídrico, diariamente o volume de água consumido pode equivaler ao consumo de 2,2 milhões de pessoas, considerando a média por indivíduo no Brasil. A localidade já vive uma situação de vulnerabilidade hídrica – nos últimos 21 anos, vale lembrar, a região declarou emergência hídrica 16 vezes.

O processo de estudo e início da construção remonta a tendências gerais que os Estados latino-americanos historicamente vêm reproduzindo em obras de grande impacto ambiental. Truculência institucional e social se articulam em um processo repleto de ilegalidades e de construção de uma narrativa determinista em relação a um suposto desenvolvimento econômico.

Do ponto de vista legal, um elemento chama atenção no caso do data center de Caucaia: a ausência de consulta prévia do povo Anacé é atentatória à Constituição brasileira e à convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário. Tanto o texto constitucional quanto o acordo internacional determinam que grupos e etnias que sofrerão impactos causados por grandes obras devem ser consultados antes de suas implementações.

As ilegalidades, embora relevantes no processo de luta, são quase um detalhe em um capitalismo marcado pelo extrativismo que drena força de trabalho e recursos naturais há séculos nessa região do mundo. Ainda que associada a uma tecnologia inédita, a conduta se insere na mesma dinâmica de pilhagem que Rosa Luxemburgo (e, antes dela, o próprio marx Marx) reconheceu ao descrever os processos de aquisição de terras ao longo do desenvolvimento capitalista. Mais recentemente, autores como Maristella Svampa e Eduardo Gudynas designaram os processos contemporâneos de lida com recursos naturais na América Latina como neoextrativismo.

As grandes obras de infraestrutura são chaves de leitura importantes, porque condensam em tempo mais curto e num território menos vasto um profundo conflito sobre o uso da terra, que marca parte significativa das atividades econômicas latino-americanas no século XXI. É o caso da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, que foi construída e atualmente opera mesmo com intensas mobilizações de povos indígenas por ela impactados.

Ainda que haja significativas diferenças entre as realidades locais, a colonização na América Latina estruturou uma lógica de espoliação da natureza que destruiu biomas a partir de atividades sobretudo de mineração, pecuária e agricultura. Essa é a marca da agricultura brasileira (monocultura e latifúndio atravessam nossa história); da exploração de prata na região de Potosí, na Bolívia; e da pecuária argentina, que criou uma dinâmica de exportação de lã, couro e, evidentemente, carne bovina.

São processos nos quais há uma articulação social e política que permite a concentração de poder e privatiza os ganhos financeiros da extração de valor da natureza (e do trabalho), enquanto socializa o passivo ambiental resultante de uma lógica de acumulação que opera a partir de um “paradigma de Eldorado”, no qual os biomas latino-americanos aparecem no imaginário dos setores proprietários como um uma infinita fonte de riqueza.

Na Argentina, o RIGI (Régimen de Incentivo para Grandes Inversiones) é o programa que Milei tem utilizado para que grandes empresas de tecnologia acessem o solo e os recursos argentinos, expandindo seus mercados, transferindo passivo ambiental e promovendo hiperconcentração de renda.

No que diz respeito aos data centers, o projeto Stargate Argentina é ilustrativo. Trata-se de um empreendimento para instalação de data centers na Patagônia, ainda sem local definido (há rumores de que possa ser na província de Neuquén ou na de Río Negro). A Open IA e a Sur Energy são as empresas envolvidas, e a proporção das instalações será gigantesca, com capacidade anunciada de 500 MW, o que exige recursos hídricos e, de forma geral, naturais na mesma proporção. Desse modo, com a anuência e o incentivo do governo argentino, a dinâmica que se estabelece é que a Argentina fornecerá energia, água, território e incentivos fiscais, enquanto o principal valor econômico gerado pela computação e pelos modelos de IA permanecerá concentrado em corporações globais.

Dilemas e enigmas da emancipação latino-americana

Embora os impactos ambientais da construção de data centers sejam inegáveis, há setores sociais que sustentam que tais impactos poderiam estar subordinados a uma lógica de construção de autonomia tecnológica dos Estados da América Latina, de modo que, apesar do ônus ecológico, os centros de processamento de dados fariam parte de um processo de fortalecimento da soberania e do desenvolvimento nacional. Essa é a posição que o próprio governo federal brasileiro vem expressando, tanto em falas do presidente Lula quanto de Fernando Haddad, antigo Ministro da Economia e atual candidato a governador de São Paulo pelo Partido dos Trabalhadores.

Nesse sentido, o exame histórico de tendências do extrativismo na região ajuda a compreender que empreendimentos associados à apropriação colossal da natureza tendem a não contribuir com processos de emancipação social de setores populares. Uma possível exceção seria, talvez, o caso venezuelano, que é atravessado por tensões e contradições próprias. Contudo, antes de qualquer coisa, deve-se notar que foram conduzidos em um contexto de alteração radical das dinâmicas do poder.

Já o que se observa nos países que não romperam (nem se propõem a romper) com o capitalismo é que empreendimentos assim acabam operando para aprofundar desigualdades, reafirmar a reprimarização da economia e impor pesados passivos socioambientais às comunidades atingidas. Afinal, o extrativismo na América Latina tem como uma de suas características fundantes e principais a total adequação de suas estruturas à divisão internacional do trabalho.

Em que pese a importância do desenvolvimento tecnológico nacional em todos os países da região, não parece ser esse o caminho aberto pelos data centers. Mais que isso, esse mesmo tipo de argumento tem sido historicamente reciclado repetidas vezes para justificar, além dos data centers, empreendimentos como mega-hidroelétricas e estradas que atravessam biomas, como a Amazônia.

Pode-se argumentar que a construção de data centers não é propriamente uma atividade extrativista, mas o que importa aqui é considerar como e sob qual lógica recursos hídricos em proporção gigantesca serão utilizados. Inclusive e principalmente porque, diante da crise climática, o acesso a água potável é um dos elementos mais críticos colocados à humanidade.

Como lembra Michael Löwy em artigo publicado na revista Margem Esquerda #42 | Crise Ecológica, a crise climática “já é a questão social e política mais importante do século XXI. Sua importância só aumentará nos próximos meses e anos”. Nesse contexto, as disputas sociais em torno dos recursos tendem a se intensificar.

Nesse sentido, é importante considerar que as iniciativas de construção dessas infraestruturas de grande escala têm sido protagonizadas não pelos Estado (nem no caso brasileiro, nem no argentino), tampouco por empresas nacionais (o que poderia ao menos tensionar as tendências históricas do extrativismo), mas pelo setor privado internacional, em particular as Big Techs. Ou seja, apostar que os data centers vão operar uma lógica de fortalecimento da soberania e da autonomia tecnológica é, em primeiro lugar, ignorar as tendências históricas das obras de grande impacto associadas aos interesses do capitalismo internacional.

Mas há, além disso, mais um elemento à ser considerado. É preciso também reconhecer que esse tipo de tecnologia tem sido dominada por um setor político e social que opera na expansão dos interesses da extrema direita. A investida pela construção de grandes data centers na América Latina não tem ocorrido em uma realidade abstrata, na qual poderia representar uma democratização do acesso à tecnologia e à informação, ao contrário, a materialidade na qual esse processo se dá indica uma associação perigosa entre Big Techs, Inteligência Artificial, redes sociais e extrema direita.

Avanço digital e extrema direita

O fenômeno internacional da extrema direita no capitalismo contemporâneo não é, evidentemente, uniforme; ele apresenta semelhanças e distinções em cada realidade nacional. Há temas que se repetem e há assuntos específicos de determinados grupos locais, mas talvez o espaço de um domínio mais profundo em todos esses grupos sejam as redes sociais.

As redes sociais e o avanço do uso de tecnologias em aparelhos individuais ocorreu há algumas décadas e, no início, projetava um clima de inovação, ou mesmo de ruptura que, mesmo em sintonia com o capitalismo neoliberal, estava distante do conservadorismo social. Nos últimos anos, e em particular após a segunda eleição de Donald Trump, esse espírito mudou radicalmente. Houve um profundo ajuste de rota por parte dos donos dessas companhias, que passaram não apenas a demonstrar publicamente apoio aos grupos e ideias de extrema direita, como participaram do alto escalão de governos da extrema direita. Elon Musk e Mark Zuckerberg são representativos de todo um conjunto de bilionários com essas características.

A identificação de que redes sociais favoreciam a circulação de ideias de extrema direita foi apenas o início de um processo em que bilionários donos de redes sociais e outras Big Techs passaram a defender publicamente uma visão de mundo e uma agenda política que têm na espinha dorsal a exclusão de grupos étnicos, a privatização de bens da natureza, o descontrole das redes sociais e a hiperconcentração de renda. A articulação desse setor com Israel, com Milei, com os Bolsonaro e, claro, com o governo dos Estados Unidos foi quase automática.

No ano de 2026, em particular, esse setor ainda intensificou suas investidas imperialistas, apontando suas armas para governos que representavam algum tipo de obstáculo a mercados e, sobretudo, recursos naturais necessários ao desenvolvimento do capitalismo fóssil. São bastante explícitas, talvez como nunca antes na história, as intenções do governo Trump na invasão à Venezuela e nos ataques ao Irã. O imperialismo e a escalada de armas da extrema direita no século XXI são marcados por objetivos extrativistas.

É nesse contexto que se articula o avanço sobre as terras raras e os minerais críticos, a construção de data centers, a exploração de força de trabalho na construção e operação na infraestrutura tecnológica (há relatos de extrema exploração de trabalhadores de países de língua inglesa na periferia do capitalismo), assim como a destruição de qualquer tipo de legislação de controle social e estatal em relação às redes sociais.

Sem deixar de reconhecer que há disputas políticas e sociais que podem subverter tais tendências, é esse programa da extrema direita para a gestão da vida social e dos recursos ambientais que deve ser considerado para entender a construção de data centers no Brasil.

O capitalismo internacional encontra-se diante de uma multiplicidade de crises, talvez suas principais expressões sejam as crises climática e política. A superação dessa situação, do ponto de vista das classes populares, exige o fortalecimento de laços sociais (que rompam com o individualismo e consumismo das redes sociais) e a construção de paradigmas de interação com a natureza que rompam com a lógica da super exploração.

Esse caminho, urgente e necessário, não parece mais próximo com a facilitação da construção de data centers no território brasileiro.

Referências

GUDYNAS, Eduardo. Extractivismos: ecología, economía y política de un modo de entender el desarrollo y la naturaleza. Cochabamba: CEDIB (Centro de Documentación e Información Bolivia).

LÖWY, Michael. Teses sobre a catástrofe (ecológica) iminente e as formas (revolucionárias) de evitá-la. Margem Esquerda #42 | Crise Ecológica. São Paulo: Boitempo, 2024.

LUXEMBURGO, Rosa. A acumulação do capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo. São Paulo: Nova Cultural.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política, Livro I. São Paulo: Editora Boitempo, 2013.

SVAMPA, Maristella. Debates latino-americanos: indianismo, desenvolvimento, dependência e populismo. São Paulo: Elefante.

SVAMPA, Maristella; VIALE, Enrique. Maldesarrollo: la Argentina del extractivismo y el despojo. Buenos Aires: Katz Editores.

TAMARI, Mariana. Entre a algoritmização dos territórios e a monocultura de dados: há caminhos para uma IA que respeite direitos e a vida? Association for Progressive Communications (APC), 2025.

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Lucas Zinet é professor de Direito da Universidade Anhembi Morumbi e doutorando na Faculdade de Direito da USP.


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