De quarto de despejo de Fortaleza a praia de campeões: conheça a comunidade do Titanzinho
Crias do Titanzim (Boitatá, 2026), de Cláudio Rodrigues
Por Cláudio Rodrigues
“Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas”
(Leia esse artigo ouvindo “Yáyá Massemba”, na voz de Maria Bethânia, no álbum Brasileirinho)
Quando, em 2013, recém-chegado a Fortaleza para assumir cargo de professor de literatura na Universidade Federal do Ceará, amigos novos cearenses me levaram para conhecer um projeto de cinema popular nas ruas da comunidade do Titanzinho, jamais eu poderia imaginar que o chão desse território de quebrada me levaria, mais de uma década depois, a publicar um livro tendo esse lugar como cenário para as aventuras de um caranguejo exótico rapper e um menino surfista.
Naquele fim de tarde, nós entramos na pequena comunidade, espremida entre o cais do Porto do Mucuripe e a famosa Praia do Futuro, e vi o farol velho em ruínas, mas imponente, na sua formação octogonal, cujas fachadas ostentavam grafites dos artistas locais. Vi o movimento do entra e sai de moradores, trabalhadores chegando dos seus serviços, pescadores nas jangadas aproadas no paredão, retirando o pescado, crianças e jovens aproveitando as últimas ondas do dia, as barraquinhas na beira do mar vendendo cerveja e peixe. E uma estaca com várias placas onde se lia “good vibes”, “Titan paz e amor”, “bem-vindo”…
Numa ruela, cuja saída dava para o mar, situava-se a sede da Associação de Moradores, e foi numa parede dali que estenderam um pano para projetar mini-docs produzidos pela comunidade com a parceria de projetos da universidade federal. As crianças eram a maioria por ali, alegres, apontando os personagens conhecidos da tela e das ruas, enquanto comiam pipoca. Era uma sessão do Cine Ser Ver Luz, organizada pelo Laboratório de Artes e Micropolíticas Urbanas, do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFC. Pensei: “Essa comunidade se orgulha de sua existência. Preciso pisar mais nesse chão.”
Uma semana depois, eu voltava, agora sozinho, para ver Titanzinho durante o dia. O movimento da comunidade é intenso: pessoas, carros, motos e ônibus disputam cada pedaço do lugar. As casas, simples, de cômodos pequenos, algumas com fachadas de lojas diversas, outras com sobrados, formam uma espécie de labirinto, como o que prende o Minotauro. Mas aqui moram outros seres, míticos à sua maneira: são os Titãs. Na mitologia grega, os titãs foram os deuses primordiais, que representavam o céu, o oceano, o tempo, a luz e o fogo, a lua… Eu vi esses deuses passeando por aquela quebrada. Alguns carregando peso nas costas, como o titã Atlas, outros empunhando suas pranchas de surfe como se carregassem um troféu; outros, ainda, jogavam conversa fora nas portas de casa, ou nas pedras onde rebentavam as ondas, como se louvassem a titã da memória, a Mnemósine. É verdadeiramente uma comunidade titânica.
Passei a visitar e percorrer silenciosamente a comunidade, sem medo das más-línguas que diziam que ali era um lugar perigoso, por causa das drogas e de outras más influências. Sentava-me nas pedras da praia e desenhava a galera pegando onda e a meninada fazendo aula de surfe. Caminhava pelas vielas e capturava com o celular os gestos pequenos e grandiosos dos moradores, humanos e bichos. O fato de ter sempre gente de fora por ali, não apenas para surfar, mas também para fazer uma imersão com fins de pesquisa acadêmica, além dos muitos projetos sociais, me fez querer saber as origens do povo que se considera guardião do farol que, inclusive, está na bandeira do Ceará, naquela época abandonado pelos poderes públicos.
Então, fui atrás da história através dos livros de fotografia sobre a região do grande Mucuripe. Conheci as belíssimas fotos de Mucuripe (2000), de Chico Albuquerque, fotógrafo famoso por ter sido escolhido para integrar a equipe do cineasta estadunidense Orson Welles, quando este se encantou com a história de três pescadores dessa região que, em 1940, se lançaram ao mar numa frágil jangada na direção do Rio de Janeiro, capital federal, para solicitar uma audiência com o presidente Getúlio Vargas. Queriam reivindicar melhorias na situação dos pescadores e de seus direitos trabalhistas. O doc de Welles, que se chamaria It’s All True, não chegou a ser finalizado porque um desses pescadores morreu nas gravações no mar do Rio de Janeiro. Mas as fotos e imagens gravadas no Mucuripe, uma região de altas dunas e com um litoral de coqueiros e casebres de pescadores, são uma espécie de patrimônio imagético de Fortaleza. Nessas fotos, sobretudo aquelas de dez anos depois da passagem de Wells pela capital cearense, Chico Albuquerque captura o farol já em vias de apagamento do seu facho de luz e prestes a ser aposentado após a construção de outro farol, mais alto e na mesma região.
De um salto temporal, vi as fotos do fotógrafo Nelson Bezerra no livro Cidade, Saudade: Fortaleza anos 70 (2013), que mapeia imagens urbanas da década de 1970, todas em preto e branco. Essas fotos mostram o Mucuripe ainda com sua última grande duna exposta em sua exuberância, mas já com o início da ocupação humana. Hoje, quem passa pela Avenida da Abolição não vê mais a duna, sob prédios e mais prédios. Essas fotos também mostram o porto ampliado e um espaço ao sul do farol com uma série de tanques enormes para armazenagem do gás que chega nos navios que atracam por ali.
No final da primeira metade do século XIX, quando os fortalezenses viravam as costas ao mar e a zona costeira não era ainda cobiçada pela burguesia, o farol do Mucuripe foi construído, entre os anos de 1840 e 1846, por mãos escravas. Por muitas décadas, não só guiou as embarcações, como mostrava-se imponente na orla, justamente porque não havia os edifícios que hoje encobrem o horizonte. Nas primeiras décadas do século XX, o antigo porto da Praia do Peixe, a famosa Praia de Iracema de hoje, foi ficando pequeno e perigoso para as embarcações. Era preciso buscar outro local propício para uma nova zona portuária. E o Porto do Mucuripe começou a ser construído, entre as décadas de 1930 e 1950. Sobre essa construção, o Arquivo Nirez tem um acervo fotográfico precioso, que mostra o farol silencioso e já depauperado observando as máquinas trabalhando no seu entorno. É por essa época que o entorno do Velho Farol foi sendo povoado por uma legião de excluídos: flagelados da seca do sertão, pobres expulsos do centro por conta do afrancesamento do centro, a Belle Époque cearense, trabalhadoras sexuais expulsas do centro, estivadores, pescadores tradicionais de outras praias do interior… A comunidade do Serviluz, onde fica o Titanzinho, nasceu como “quarto de despejo” da sociedade fortalezense, tal qual Carolina Maria de Jesus intitulou a favela paulista de Canindé.
O nome titã, se hoje é uma licença poética e política vinculada à luta dos moradores, origina-se de uma máquina de tamanho descomunal, um guindaste de 180 toneladas que, sobre uma estrada de ferro, levava pedras para a construção do dique de proteção da enseada. Um gigante colossal. O povo do Velho Farol pegou emprestada a força do gigante de ferro para se autodenominar amorosamente Titanzinho. Estava escrita aí sua sina.
A comunidade de excluídos, que ocupou um espaço de dunas móveis, morada de caranguejos grauçás, nunca pode habitar tranquilamente o território. Com a valorização das praias a partir da década de 1970 e a verticalização da cidade, restaram poucos moradores tradicionais das praias. Mas no caso do Serviluz-Titanzinho, o problema é que a comunidade era um entrave na expansão das obras do Porto do Mucuripe e na zona de armazenamento do gás que ali chega, a zona de tancagem. Não foram poucos os momentos em que os moradores se viram ameaçados de expulsão. Na década de 1990, o Titanzinho também já tinha virado um point da galera do surfe. Há, pelo menos, cinco picos para essa prática nas ondas dali. O surfe, que chegou ao Brasil na década de 1970 e era eminentemente um esporte de brancos burgueses, encontrou no Titanzinho uma gente que disse que surfar era coisa também para pobres. Filho de peixe, peixinho é. E outros titãs dos mares surgiram aí para defender terra e água. É o caso de Tita Tavares, filha de pescadores da praia, que surfou desde os cinco anos e “foi a primeira mulher a tirar nota dez no feminino do Campeonato Mundial de Surf de 1996” (Rios, 2013, p. 58).
Mais recentemente, nos anos 2009, um projeto de construção de um estaleiro ameaçou a destruição daquela praia. E em 2019, um projeto com o nome cretino de Aldeia da Praia pretendia desalojar os moradores de duas ruas em frente à praia para se construir uma avenida em nome de uma urbanização excludente. A lista de tentativas de despejo não é pequena (Pinheiro; Pequeno, 2020). “Titan não se vende” era o que se via nos muros da comunidade, nas placas de protesto dos moradores nas ruas e nas sessões públicas onde políticos insistiam em decidir os destinos da comunidade. É daí que vêm os líderes da comunidade, suas associações e os parceiros de luta oriundos das universidades e ONGs. Os titãs estão aí afirmando – seja no coletivo, seja nas artes de rua, na fotografia, no cinema, no surfe, nos estudos acadêmicos – que a máquina de moer gente em face do progresso não vencerá.
O meu Crias do Titanzim (2026), portanto, é um modo de celebrar a história dessa comunidade que nos ensina todo dia a fazer política. É uma história sobre vários letramentos, não apenas o letramento da leitura da palavra. Quem conta a história é um caranguejo, o Ocy, um grauçá, morador daquela praia. É sobre a amizade que nasce em meio a um dilema que o menino Quim precisa resolver, que é aprender a ler para não ter que deixar de fazer o que ele mais ama, que é surfar. Na escola do surfe, um projeto social, o lema é “Vetim que é vetim surfa nas ondas e nas letras”, mas Quim não sabe ler. É aí que entra em cena o caranguejo, que também manda bem no surfe e é rapper. Ele é o narrador da história, isso quer dizer que também é um escritor. É uma amizade e é também uma bela parceria.
O primeiro letramento é o da leitura da palavra. Mas como diz Paulo Freire, n’A importância do ato de ler, a leitura do mundo vem antes da leitura da palavra. É através da amizade com o caranguejo que o menino vai sendo letrado nas práticas das experiências com a comunidade. Quim começa a ver melhor o lugar onde vive, enquanto Ocy sai da toca e acompanha o garoto em diferentes atividades. O alfabeto da amizade é soletrado aí. O menino aprende a ser poeta, um rapper ou slamer, e até ganha a batalha de poesia da escola no final do ano letivo. Quim não só descobre que sabe ler, mas se descobre poeta. Ele manda bem nas ondas e nos versos.
Um letramento que fiz questão de sublinhar foi a experiência da comunidade com o culto de matriz africana. Mesmo sabendo que a comunidade do Titanzinho é plural em matéria de cultos (a presença de capela católica, templo evangélico, espírita e ao menos quatro terreiros). O umbandomblé está referenciado justamente no dia da Regata da Rainha, uma disputa de jangadas para Yemanjá. É durante essa regata que Quim descobre que sabe ler. Ele lê justamente a frase “Odoiá, louvada seja, minha mãe”, numa vela de jangada que tem a representação mais famosa da Orixá das águas salgadas. Isso é um duplo letramento. Para mim, a mãe de Quim é da Umbanda, e o menino sabe disso. Não à toa, desenhei na jangada velejada por Quim e Ocy duas palmas da planta chamada “Espada de Ogum”, leitura, clara para uns ou subentendida para outros, sobre as raízes de Quim. Depois dessas cenas, também quis fazer referência ao alfabeto dos céus, um letramento na leitura das constelações. A leitura do céu noturno das constelações é feita pelos pescadores simples e sem formação escolar. Eles são letrados em estrelas. Os pescadores remanescentes dessa comunidade, jangadeiros e barqueiros, têm conhecimento do céu, leem a cartilha das estrelas. Então quis colocar isso no texto. O caranguejo mostra pro menino que também o céu é um livro que deve ser lido. Eu coloquei justamente duas constelações próximas: o herói Hércules e o caranguejo. É uma licença poética que cometi, porque, de fato, essas duas constelações nunca estão próximas. É um espelhamento também dos protagonistas, pois eu queria que Ocy dissesse para Quim que há uma cópia deles no céu. É a Odisseia no céu e aqui no chão do Titanzinho.
Hoje, o Farol do Mucuripe está revitalizado, entregue no final de 2025, mas fechado porque a comunidade quer também participar da gestão, afinal, eles são o povo do farol. Titanzinho agora é também uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), do Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001), que mapeia os lugares que devem ser protegidos da especulação imobiliária, dos projetos faraônicos em nome do lucro para poucos. Boa parte dos moradores dali ainda espera pelo documento de posse do seu imóvel. É sempre uma espera angustiante pela paz do território.
Os titãs da mitologia nasceram do caos e organizaram o mundo. Isso é muito simbólico para uma comunidade que adota o nome Titanzinho. Do nascimento caótico, de sucessivos despejos, a comunidade precisou entender que sozinho ninguém movimenta o mundo. E isso tem a ver com o que chamo de letramento social e político. Juntos eles souberam cantar “Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas” nessa cirandeira que é trabalhar, estudar e fazer política. Um povoamento caótico, formado por vidas precárias alijadas de políticas públicas, aprende a gritar “Titan não se vende!”.
Quim é fictício, mas tenho certeza de que há muitos Quim de carne e osso mandando a letra e surfando na poesia ali na comunidade. E eu saúdo e celebro essas crias do Titanzim com um grande Aloha!
CONHEÇA A OBRA

Crias do Titanzim, de Cláudio Rodrigues
Quim, um menino negro morador da praia do Titanzinho, na capital do Ceará, tem um problema: não consegue ler, porque sua cabeça só pensa mar. Mas, na escolinha de surfe da praia, o lema é: “Vetim que é vetim surfa nas ondas e nas letras”. Quem narra a aventura de Crias do Titanzim, de Cláudio Rodrigues, é Ocy, caranguejo poeta e rapper. E é nas conversas com Ocy que o menino Quim descobre outras formas de aprender, de olhar e de ler o mundo.
Outras sugestões de leitura para conhecer o Titanzinho
ALBUQUERQUE, Chico. Mucuripe. Fortaleza: Terra da Luz Editorial, 2000.
BARRA, Tiago Bruno Areal. Os movimentos sociais, as favelas e a pedagogia de Paulo Freire: histórias de vida de educadores sociais do Titanzinho. Orientador: João Batista de Albuquerque Figueiredo. 2022. 206 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2022.
BEZERRA, Nelson Ferreira. Cidade, saudade: Fortaleza anos 70. Fortaleza: Terra da Luz Editorial, 2013.
GORCZEVSKI, Deisimer; SOARES, Sabrina Késia de Araújo. Ilhas que resistem: Titanzinho, em Fortaleza: arquipélago, em Porto Alegre. In: GORCZEVSKI, Deisimer (org.). Arte que inventa afetos. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2015, p. 187-202.
NOGUEIRA, André Aguiar. Surfando nas ondas do Titanzinho: corpo, memória, natureza e cultura em Fortaleza (1960-2010). Tese (doutorado), PUC-SP, História Social, 2014.
NUNES, Paula Autran. “Infâncias titânicas”: cenas do cotidiano no Serviluz e seus efeitos na produção de modos de ser criança. Dissertação, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, UFC, 2021.
PINHEIRO, Valéria; PEQUENO, Renato. Planejamento Popular como estratégia de resistência e existência frente à ameaça de remoção do Serviluz/Titanzinho em Fortaleza. In: MOREIRA, Fernanda Accioly; ROLNIK, Raquel; SANTORO, Paula Freire. Cartografias da produção, transitoriedade e despossessão dos territórios populares [livro eletrônico]: observatório de remoções: relatório bianual 2019-2020. São Paulo: Raquel Rolnik, 2020.
RIOS, Audifax. Mucuripe. Fortaleza: [s.n], 2013.
ROCHA, Liana Lima. Surfando para a vida: um estudo sobre o papel do surfe como prática pedagógica libertadora. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Fortaleza, 2017.
* Este texto foi originalmente publicado no boletim Papo para Boitatá. Assine e fique por dentro de todas as novidades da editora Boitatá, a irmãzinha mais nova da Boitempo.
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Cláudio Rodrigues é da terra das palmeiras e do bumba meu boi. Maranhense de nascimento, mas agora cearense, pois mora em Fortaleza. É professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Ceará, atuando na formação de professores para a educação básica, e tem três livros infantojuvenis publicados. Fora da sala de aula, passa os dias fazendo colagens e desenhando; gosta de mesclar formas analógicas e digitais no processo de criação, como você pode ver neste livro.
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