Desespero e entropia

Imagem: Hosny Salah via Pixabay

Por Mauro Luis Iasi

“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte” 
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos 

O universo se expande mais rápido do que a luz rumo à entropia, mas, talvez, seja tarde demais. Um grito surdo ecoa de um pequeno planeta e o universo ignora suas súplicas.

Corpos de crianças destroçados, médicos assassinados, mulheres e bebês estuprados, atletas vendo seus pés feitos em uma massa informe de sangue e carne pelas balas de soldados que riem, escolas destruídas, hospitais bombardeados. Sobre os escombros, a sombra funesta da fome e da doença se prepara para a colheita dos sobreviventes.

Abraço o corpo cinza da menina sem vida e meu grito não sai. Apenas o grotesco rosto da dor se contorce naquilo que um dia foi uma face humana e, da boca aberta e seca, o silêncio explode sem vida… como a criança palestina.

O universo se expande mais rápido do que a luz rumo à entropia, mas é tarde demais. A humanidade teve sua chance, teve muitas chances; o universo a ignora em sua indiferente massa de matéria e luz, de escuridão e energia, de espaço e tempo. A humanidade não merece existir na vastidão das possibilidades. Não apenas pelos assassinos, vermes cruéis de farda e terno, mas igualmente pela massa daqueles que se calam, se ajoelham, veneram, olham para o outro lado e fingem não sentir o forte cheiro metálico do sangue e o odor putrefato dos cadáveres.

Enquanto as crianças morrem, a humanidade burra ergue novamente seu braço direito em riste e saúda os criminosos como messias bem-vindos, profetas e santos que lhe prometem o futuro enquanto roubam-lhe o presente; são cúmplices, jagunços e capangas das tropas do apocalipse. A humanidade se parece com uma doença do planeta, destruindo sua carne, infeccionando seu sangue, tossindo e espalhando sua morte pelo ar escuro e pesado.

Mais uma criança morreu na Palestina, uma família no sul do Líbano é soterrada por sua casa e não existem mais palavras: os papéis se queimarão nas bibliotecas abandonadas, os arquivos digitais sumirão entre as nuvens e as colunas espessas de fumaça negra. Não haverá memória, só esquecimento, não haverá espera, só desespero – até que não reste nada.

O universo se apressa, mas não há mais tempo. Chegamos antes, nos antecipamos, arrancamos o título de humanos e vestimos os bestiais trajes do horror e da maldade, abdicamos.

Abraço os corpos em decomposição das crianças palestinas como se quisesse sentir mais uma vez o calor de suas pequenas vidas ceifadas, mas tudo é frio e ausência, tudo se foi. As águas nos avisaram, os animais nos alertaram, o vento tentou nos acordar com as fortes chuvas… mas não ouvimos, ocupados demais com frivolidades. O mais novo trilionário come iguarias no banquete da República Democrática; faz parte da comitiva de Satã que discute a quem caberá saborear as terras raras… a terra prometida… a Terra rara… um presente do acaso, formado dos restos de uma explosão estelar girando em torno de um astro, bombardeado por destroços e cometas, até que das cicatrizes se fez a terra e o presente da água mantida pelo escudo eletromagnático… o tempo e o presente da vida abundante e fértil até que, por fim, a bactéria humana se espalhou e agora se pergunta se é possível estuprar a terra por mais um tempo antes que tudo acabe para que possa contaminar outro planeta.

Não haverá dois Estados, tampouco um Estado na terra prometida. Haverá uma enorme lápide onde se lerá a epígrafe funesta: aqui jaz a humanidade. Junto aos corpos das vítimas jazem também seus carrascos e cúmplices. Ninguém levará flores e nenhuma lágrima cairá no solo seco.

O universo se expande mais rápido que a luz rumo à entropia. Um grito sem voz escapa do planeta que agoniza, não é mais um grito humano, não tem o corpo do som, não nasceu de cordas vocais, brotou da dor e do ódio. No momento em que tudo tornou-se nada.

Nenhuma forma de vida poderá ouvir tal grito, mas ele estará lá para sempre, mesmo depois das estrelas se apagarem, até que, no meio do vazio absoluto, se poderá ouvir: ASSASSINOS… ASSASSINOS… ASSASSINOS.


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Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e militante do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.


O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência, de Mauro Iasi
Mauro Iasi retoma uma das mais complexas e relevantes questões do mundo contemporâneo: a indagação das possibilidades reais de formação de um sentido de pertencimento de classe em um mundo marcado por diversas fragmentações, individualismos, estranhamentos, desencontros.

Dialogando com autores clássicos como Durkheim, Weber e Marx e polemiza com importantes autores contemporâneos. Isso porque o estudo, que aborda a questão da consciência na teoria sociológica, não se atém exclusivamente à análise no interior do campo de reflexão marxista sobre o tema. Sua discussão vai além, se desdobrando para outros campos, como a sociologia compreensiva (por isso incluindo autores como Foucault e Przeworski).

Abordando questões com rigor e coragem, Mauro Iasi supera as falsas polarizações e dicotomias que os estudos sobre consciência de classe converteram-se, principalmente nas ciências sociais e na história. Para o autor, o empreendimento mais complexo reside na busca das engrenagens teóricas capazes de possibilitar a apreensão tanto das formas de manifestação da consciência empírica e cotidiana das classes sociais como também os nexos mais abrangentes e totalizantes da ação coletiva.

Por tudo isso, O dilema de Hamlet é uma instigante contribuição ao estudo da consciência de classe, escrita de forma leve, mas carregando em si um conteúdo denso, original e ousado.


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