Uma nota sobre Jean Ziegler (1934-2026)
Encontro com Ziegler no Rio de Janeiro, maio de 2013.
Por José Paulo Netto
Na semana passada, a 10 de junho, Jean Ziegler faleceu em Genebra, aos 92 anos. Estava a seu lado, assistindo-o zelosamente, Erica, a companheira da sua vida, ela também uma intelectual respeitada e produtiva, que sempre teve luz própria.
Salvo erro meu, recolhido cá na lonjura do Recreio dos Bandeirantes, as nossas forças e movimentos democráticos pouca atenção deram ao seu passamento – apenas pude ler um belo texto de Paulo Sérgio Pinheiro e rápidas e esparsas notas (entre as quais uma de José Graziano da Silva, outra do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional/Consea e algo no Observatório da Imprensa). E, claro, a manifestação de João Pedro Stédile em nome do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – líder e movimento tão prezados por Ziegler.
Confesso que meu primeiro contato com a obra de Ziegler1 – e com a sua intensa atividade intelectual e política – foi tardio. Até por volta dos anos 1970, dos intelectuais suíços consagrados após o primeiro terço do século XX, eu só conhecia mesmo Jean Piaget, ao qual cheguei levado pela leitura de Lucien Goldmann. Apenas em meados da década de 1970, já no meu exílio, Ziegler entrou no meu radar – topei com o homem lendo a primeira edição de A Suíça lava mais branco, livro que lhe custou processos e muito dinheiro, e tratei de seguir todos os seus passos. Segui-o enquanto ele viveu e o ganho teórico e humano que o conhecimento do seu ingente trabalho me proporcionou é incomensurável.
Foi homem capaz de compreender que a unidade política dos democratas e progressistas, ademais de necessária, só se realiza quando não se suprimem diferenças – unidade não é identidade. Soube conversar longamente com Fernando Henrique Cardoso e com Luís Inácio da Silva e tinha apreço especial pelo Brasil – de que é prova não só o seu encanto pelo país, que visitou muitas vezes, mas ainda o seu respeito pelos nossos intelectuais maiores (como Josué de Castro, sua grande referência).
O reconhecimento mundial de Ziegler – expresso inclusive pelos vários títulos de doutor honoris causa que lhe conferiram universidades de excelência e pelas condecorações de diversos Estados nacionais – nunca resultou de episódios pontuais e/ou de eventos espetaculares. Assenta na sua larga produção intelectual, que conjuga reflexão teórica, pesquisa e crítica social, mobilizada por uma inteligência inquieta, ágil e criativa, vocacionada para o debate e a polêmica, valendo-se de uma textualidade estilisticamente cuidada e límpida.
A qualificação de Ziegler no domínio da teoria social é indiscutível. Fruto da sua formação básica em universidades suíças (Berna e Genebra), pelas quais se doutorou em Sociologia e Direito, desenvolveu-se numa contínua interlocução com os clássicos – e os contemporâneos mais significativos – das ciências sociais e se enriqueceu ao longo da sua carreira como docente universitário em Genebra, Grenoble e Paris.
E como toda qualificação teórico-social fecunda, a de Ziegler alimentou-se de uma intervenção social que desbordou largamente os muros da academia – ele jamais exercitou o academicismo. Desde os anos 1960 vinculado às fileiras da social-democracia, participou ativamente da vida política suíça, elegendo-se inicialmente em 1967 ao legislativo cantonal e depois, de 1981 a 1999, à Assembleia Federal. Herdeiro de tradições da social-democracia clássica, seu protagonismo político-social nunca se restringiu às dimensões nacionais: crítico contundente do capitalismo mundializado, conectou-se à dinâmica europeia e, sobretudo, à emersão planetária das lutas anticolonialistas e de libertação nacional que revolveram as periferias infernais do centro capitalista (não por acaso admirou figuras como Frantz Fanon e Ernesto Guevara). Ziegler compreendeu como poucos, e solidariamente, as lutas dos povos oprimidos da África, da Ásia e da América Latina.
Sendo um exemplar cidadão suíço, Ziegler tornou-se um exemplar cidadão do mundo. Mais: encarnou um tipo de intelectual crítico que, após a morte de Sartre (que ele leu com atenção), vê-se cada vez menos nas sociedades contemporâneas: o grande intelectual público internacional, como Noam Chomsky e Samir Amin.
Coroou esta cidadania planetária o desempenho de Ziegler como servidor da Organização das Nações Unidas: no exercício de suas funções como Relator Especial sobre o Direito à Alimentação (2000-2008) e como membro do Comitê Executivo do Conselho de Direitos Humanos (2008-2012) da ONU, Ziegler deu as mais altas provas práticas dos seus compromissos societários e humanistas, batendo-se corajosamente contra todos os que promovem, em função da lógica capitalista do lucro, a continuidade e o agravamento da fome no espaço mundial.
Nossas relações pessoais se estreitaram tardiamente – resultaram, já neste século XXI, do meu trabalho como tradutor e prefaciador do seu Destruição em massa. Mas não me recordarei de Ziegler tão somente enquanto o notável humanista que ele foi. Sempre o lembrarei com sua verve e sua ironia: numa das suas vindas ao Brasil, discutindo teoria e política, para remarcar nossas diferenças – ele, um social-democrata, e eu, um marxista impenitente –, disse-lhe que éramos companheiros de viagem; ele sorriu e replicou: “Então, você terá uma viagem muito longa pela frente.” Tinha toda a razão.
Notas
- Ziegler escreveu mais de 20 livros. Da sua produção, no Brasil estão editados, entre outros: Manual de sociologia da oposição (Rio de Janeiro, Zahar, 1980), A Suíça lava mais branco (S. Paulo, Brasiliense, 1990), A vitória dos vencidos. Opressão e resistência cultural (Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1996), A Suíça, o ouro e os mortos (Rio de Janeiro, Record, 1999), Ódio ao Ocidente (S. Paulo, Cortez, 2011), Destruição em massa. Geopolítica da fome (S. Paulo, Cortez, 2013), O capitalismo explicado às crianças (S. Paulo, Cortez, 2021); não estão traduzidos Les nouveaux maîtres du monde et ceux qui leur résistent (Paris, Points, 2015), Chemins d’espérance (Paris, Ed. du Seuil, 2016) e Le bonheur d’être suisse (Paris, Points, 2016). Tal produção é adensada pelas centenas e centenas de páginas que ele elaborou como documentos oficiais da Organização das Nações Unidas/ONU. Para conhecer a trajetória de Ziegler, uma boa fonte é Jürg Wegelin, Jean Ziegler: la vie d’un rebelle (Lausanne, Favre, 2012). ↩︎
***
José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista, é amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, coordenando a “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. É autor, entre outros, de Karl Marx: uma biografia (Boitempo, 2020) e Lukács, uma introdução (Boitempo, 2023), além de organizador de Da erótica (Boitempo, 2022), antologia de poemas de Bocage, História e consciência de classe, cem anos depois (Boitempo, 2023) e do guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015).

Karl Marx: uma biografia, de José Paulo Netto
Escrito com maestria e erudição, este livro fundamental é fruto de uma vida inteira dedicada ao estudo da obra marxiana. Entrelaçando realidade sociopolítica e aspectos da vida privada do biografado, o autor dá luz à trajetória do pensamento, da atividade política, da elaboração dos textos, dos afetos e desafetos – enfim, ao grande legado do criador do socialismo científico.
Ao recorrer aos textos produzidos por Marx um a um, entremeando suas reflexões a uma ampla série de citações (escolhidas a dedo), José Paulo Netto oferece ao leitor um rico guia de leitura da vida e da obra de Marx. Também são convocados a participar dessa sinfonia textual outros biógrafos e comentaristas, tornando o quadro ainda mais complexo e instigante, sem nunca perder o fio da meada.
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário