A “tentativa Messias” e o evangelicalismo como problema brasileiro
O problema não é o evangelicalismo por si só, mas como ele participa da reorganização da direita no Brasil.
Foto de ABEL MARQUEZ na Unsplash
por André Castro
I – Pequeno relato de 2022
Na sua última eleição vitoriosa, Lula fez de tudo para se aproximar do eleitorado evangélico, seja lá o que isso significasse exatamente. Foram muitas as tentativas. Eu, que naquele tempo estava ao redor de gente que trabalhava na campanha, vi de perto as diversas investidas que iam em quase todas as direções, desde panfletagens em portas de igrejas, divulgando a mensagem de que “não é pecado votar em Lula”; até campanhas mais partidárias de lideranças evangélicas com o então candidato, como o “Encontro de Lula com apoiadores evangélicos”. Não coloco nesse balaio os milhares de posts e coisas afins que foram despejados nas ditas redes sociais, aos montes. Um mutirão de cientistas sociais da religião foi convocado. Uma das principais indicações que esses cientistas davam à campanha era focar na “conversão” de votos de mulheres, sobretudo as periféricas. Ao final, com a vitória tão celebrada de 1,8%, o trabalho foi considerado vitorioso. Eu também fui para a Paulista naquele 30 de novembro, mesmo com o gosto amargo da eleição do Tarcísio na boca, e acompanhado do medo de ser assaltado naquela cidade. Encontrei amigos e vi que muitos postaram nas redes que estavam lá, enquanto outros também faziam festa em cada parte do país. Claro que estava feliz. E aliviado, talvez? Quando me deparei com a política enquanto um problema, com o qual passei a me envolver, já se tinha aberto o boeiro de 2016. Como se sabe, desde então foi um mar de derrotas para os nossos lados. Mas parecia (ao menos era isso que saía da boca dos nossos pensantes) que finalmente havia chegado o tempo do revide. Reconstrução do país. Do lado dos cientistas sociais da religião e adjuntos, foi sugerida até a criação de um escritório voltado aos evangélicos em Brasília, assim como foi criado um para a reforma agrária, para a questão racial e para os Direitos Humanos. Não há nenhum problema no Brasil que não possa ser remediado por uma parcela dos fundos públicos.
Ninguém pode dizer que os quase quatro anos que vivemos desde então tenham sido um Céu na Terra. Nada de novo, senão a forma cada vez mais frágil e pasteurizada que o projeto político do governo petista teve que adotar para construir sua coalizão. Claro, com a oposição no encalço e uma tentativa de golpe na conta, cancelada pelo sinal vermelho do Big Brother lá de cima. Mas tudo aquilo que o pensamento crítico já havia identificado sobre a administração petista — gestão da barbárie, neoliberalismo progressista ou como quer que se chame — aparece, mais uma vez. Mais uma morfologia do ornitorrinco? A questão é que, como era de se esperar, mais uma vez a promessa se desfez em desgraça. Não que o mercado não tenha tido boa reação. Em termos econômicos, o governo petista foi melhor do que o esperado. Acontece que a vitória no Executivo não anulou a vitória do outro lado no Legislativo. E a proposição do governo, para cada pauta sua, se tornou um jogo de xadrez para saber de onde se poderia retirar forças do outro time. Segundo o próprio governo, algumas vitórias foram conquistas. Agora vimos uma grande derrota desse projeto.
A “tentativa Messias” foi calculada com a mesma racionalidade que estava sendo operada nas eleições de 2022. Claro, sem a chance de apostar em diferentes frentes ao mesmo tempo. Buscou-se um possível indicado para o STF que fosse evangélico. Se tivesse sido eleito, seria o segundo a entrar na corte em razão do seu credo. Para que maioria numérica, se eles têm essa hegemonia? O candidato à cadeira tinha apoio do alto escalão da elite evangélica: foto com o bispo Samuel Ferreira, pastor-presidente de uma das maiores denominações brasileiras, a Assembleia de Deus Madureira; na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, foi saudar o indicado; e contava além disso com o apoio do seu irmão em fé no magistrado, André Mendonça. Foi aprovado na CCJ, mas barrado no Senado. O primeiro indicado a ministro do Supremo rechaçado desde 1894 — mais de 130 anos. Tudo isso, faltando 150 dias para as eleições, cujas pesquisas apontam empate técnico entre o atual presidente e o filho do ex-presidente, atual presidiário, derrotado em 2022. Se essa derrota importa, é muito pouco pelas peças movimentadas por ambos os lados envolvidos, e muito mais pela própria forma como a disputa se organizou.
II – As almas do petismo e o lulismo
Nos termos já muito bem conhecidos de André Singer, a Carta ao Povo Brasileiro, escrita por Lula em 2002 para os agentes do mercado, marcaria a criação de uma outra alma do Partido dos Trabalhadores. Outra porque a primeira teria sido inventada no auge dos anos 1980, em uma confluência entre o novo sindicalismo do ABC, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e intelectuais marxistas. Era uma mobilização política que se fundava em uma visão crítica do modo de reprodução do capital e apostava no enfrentamento político como força de mobilização, que daria chance à construção socialista do Brasil. Um sonho de país. Nos termos do autor, um reformismo forte. Essa história é bem conhecida por todos nós, e a força que o cristianismo de libertação teve no Brasil está relacionada a essa força produtora de política que o cientista chama de “alma”. Já a tal segunda alma, criada nas voltas da eleição de 2002, surgiria com a aceitação do petismo em jogar dentro das regras delimitadas pela economia neoliberal dominante. De um lado, a alma original, do sonho político a ser realizado na prática do conflito social; de outro, a segunda alma, da gestão dos instrumentos estatais de dominação capitalista na busca de uma pequena melhoria. Assim, de um lado, a mobilização em torno da esperança de transformação da sociedade; de outro, os esforços de manutenção dessa mesma sociabilidade. Como demonstra Singer, enquanto o governo Lula formava alianças com as alas mais conservadoras do país, em seus congressos internos continuava-se falando em socialismo, transformação societária, projeto popular, reforma agrária. A coisa estava tão estranha que fomos até a biologia para encontrar alguma metáfora explicativa; ornitorrinco é pouco.
No meio disso tudo, André Singer vai nos dizer que surge algo diferente. O partido passa a ter uma migração do seu apoio eleitoral em 2006. Desconfiada com o mensalão e com suas políticas, a classe média do Sul e do Sudeste retira seu apoio, que passa a vir das populações mais pobres do Norte e do Nordeste — o subproletariado, nos termos de Paul Singer —, que foi enfim integrado às cadeias de valor via Bolsa Família, crescimento da disponibilidade de crédito e aumento significativo do salário mínimo. A tal “classe C” ascendia à possibilidade de ter uma casa, um carro, uma TV. Estava todo mundo com Lula. E ninguém se esquece da foto de Silas Malafaia com o então candidato, em 2002, que logo ganhou o pleito. Mas o que ele quer apontar com essa mudança geográfica do apoio ao petista — do Sul ao Norte, dos ricos aos pobres — é a construção de outra coisa: o lulismo. Esse seria um fenômeno eleitoral sem precedentes. E a chance de ser eleito pela quarta vez demonstra a força desse projeto. Temos, então, a primeira e a segunda almas do petismo, e o lulismo. Não é nada complicado ver o funcionamento dessas três dimensões no partido hoje, nas ações do próprio governo. Também não é nenhum escândalo apontar que 2016 quebrou o equilíbrio entre essas tendências, na derrota do próprio campo. Mas o que apareceu depois disso parece não trazer grandes novidades.
III – Os evangélicos como problema e o problema dos evangélicos
Depois de quatro eleições vitoriosas, o campo democrático-popular perde para um ex-capitão defensor da ditadura. Mas não só isso: venceu não por quartelada ou coisa que o valha, mas por votação, e só ganhou porque teve força também nas periferias. E quem foi visto como vetor dessa adesão popular ao bolsonarismo? Os evangélicos.
Os evangélicos são um problema, seja no sentido de serem inimigos a serem combatidos, seja como uma questão a ser desvendada. Por isso, aparecem em todos os cantos, desde o lançamento de livros de história da filosofia por acadêmicos catedráticos até as notícias diárias do jornalismo esclarecido paulista. É um problema que, por não ter solução, continua sendo debatido. Contrariamente, para outra parcela da população, especialmente aquela que vive nos subúrbios das grandes cidades e no interior, os evangélicos estão presentes. Não são um problema, em nenhum dos dois sentidos já citados. Eles estão por aí, seja na figura de um familiar, de um amigo da escola, da faculdade, do trabalho ou até mesmo do próprio leitor hipotético, que pode ser o tão famigerado evangélico. É certo que essa identidade religiosa se tornou uma questão pela primeira vez quando foi reduzida, pelo senso comum da grande mídia, a interesses econômicos nos anos 1990, com a famosa “teologia da prosperidade”, mas ganhou seu estatuto atual a partir de 2016, como parte significativa do que se consolidou como bolsonarismo. É claro que, como todos sabem, essa situação culmina em 2018. Evangélicos são conservadores, radicais, bolsonaristas. Ao mesmo tempo, vemos um crescimento vertiginoso da comunidade evangélica desde os anos 1980, que ganhou novos tons nos anos 2000.
O problema, portanto, não é o evangelicalismo por si só, mas como ele participa da reorganização da direita no Brasil. O que deixa estarrecidas nossas mentes bem-pensantes, ou deveria deixar, é que essa identidade religiosa cresce e tem, como boa parte de seus membros, mulheres trabalhadoras, em sua maioria negras. A resposta mais fácil, e, portanto, mais repetida, é a culpabilização das lideranças, vistas como perversas manipuladoras das desprotegidas massas incultas, daqueles que ainda não lograram sua própria iluminação e, portanto, seguem um mestre. Em sentido contrário a esse senso comum vai, para citar um entre muitos exemplos, o caso já bem comentado do projeto de lei antiaborto (que ficou conhecido como “PL do estupro”), proposto pela bancada evangélica, e que teve 66% de rejeição entre evangélicas maiores de 16 anos. Não que os evangélicos sejam defensores da descriminalização do aborto, muito pelo contrário; mas como essa pauta não nasceu de dentro do campo evangélico, e sim da suposição de um político, sua rejeição demonstra que não se trata de dominação ou instrumentalização, mas de adesão e coerência de expectativas. É claro: a tese da dominação existe para amortecer nossos cérebros iluminados diante do fato de que essas parcelas das classes dominadas se identificam com as “forças do atraso”, não com o nosso discurso. Mais bem me explico.
O que o nosso grande Antonio Candido chamou de radicalismo (de classe média) tinha como pressuposto a contraposição entre esses radicais e seus irmãos de classe, que faziam a bagaceira e achavam bonito o estalo do chicote. Uma dissidência interna às classes abastadas que, no Brasil, nunca conseguiu realizar uma revolução — como foi feito no México, a título de exemplo. É claro que muita coisa aconteceu desde que surgiram os radicais e a geração de 1930, analisada por Candido, mas talvez não fosse muito exagero ver, nas franjas progressistas que consomem crítica de Brasil e veem o evangelicalismo como um “problema” hoje, seus netos e bisnetos. Se o radicalismo brasileiro não logrou a revolução nacional, o que restava era a esperança de que o povo estava com ele. Não era essa a esperança do jovem Roberto Schwarz, em Cultura e política? Também não era essa a expectativa que Gabriel Feltran tinha ao estudar a periferia de São Paulo no final dos anos 1990? Feltran esperava encontrar os movimentos populares como desenhados nos anos 1980, mas o que encontrou foi o mundo do crime e da igreja, e preferiu estudar o primeiro. O povo brasileiro, celebrado e cantado, não compareceu, ou, ao menos, não era exatamente como se esperava.
É bom lembrar que esses radicais e seus descendentes — que parecem ir ficando cada vez menos inteligentes a cada geração — estavam ao lado dos padres católicos quando caminhavam na mesma direção. O problema, portanto, não é meramente a relação entre religião e política, ou o fato de se fazer política sob os termos da imaginação da fé, mas que a direção política dessa mistura seja a considerada correta. Como uma pequena ala dissidente das classes abastadas, o pior para esses é que os populares evangélicos não se identificam com eles, mas com os seus primos exploradores, e não querem nada além da reprodução do que existe. Os que sobrevivem ao Brasil parecem lutar por si e pelos seus e se identificam com os seus algozes, sempre vivendo o sonho de um dia ser como eles — claro que só com a bênção divina para isso acontecer. Por isso, têm que orar cedo para Deus escutar sua voz e não parar de lutar para não dar brecha para o inimigo.
IV – Acordos e dissensões
Sendo aqui bastante impreciso quanto à definição de Singer, os marcos de cada uma dessas “almas políticas” do petismo seriam produzidos por novas contingências, nas quais cada nova alma aparece como resultado político para lidar com elas. Seria possível comparar a Carta ao Povo Brasileiro, de 2002, que sintetiza a segunda alma do partido, com a Carta Compromisso ao Povo Evangélico, de 2022? Quem sabe a análise de cartas escritas a centenas de mãos sirva para alguma coisa. Senão, vejamos.
A carta de 2002 é um texto de fôlego, com parágrafos extensos e um encadeamento lógico de causa e consequência no argumento. Seu léxico pertence à economia política (vulnerabilidade, juros, superávit primário, compromisso em honrar contratos), e o ritmo da leitura é deliberadamente uniforme. Não há apelo a categorias extrínsecas ao Estado ou ao mercado. Trata-se de uma ferramenta de contenção da volatilidade financeira. Para viabilizar a transição de poder, a “segunda alma” petista precisou registrar em cartório que o reformismo social operaria dentro das margens contábeis do capital.
Vinte anos depois, o alvo da contenção muda. A carta de 2022 abandona a arquitetura argumentativa sobre o Estado para focar no indivíduo e no espaço privado. Fragmenta-se em parágrafos mais curtos, introduz vocativos de proximidade (“Meus amigos e minhas amigas”) e faz uso contínuo de negrito para destacar garantias específicas. O léxico migra para o campo moral e bíblico: vida, órfãos, viúvas, mentiras, família; e o uso de citações do Novo Testamento serve como chancela de pertencimento a um mesmo código linguístico. Mas ao assumir essa postura dialogal, aceitando os termos postos do debate, tampouco existe qualquer visualização que possa ser feita com os olhos da fé. O texto convida seus leitores a guardarem sua imaginação religiosa nos termos estritos da vida íntima e deixarem o jogo político nas mãos dos administradores, como fez Lula nos seus mandatos. Mesmo reiterando que iria pagar a conta, na carta de 2002 ainda havia algum tipo de expectativa em relação ao país, a se realizar. Na mais recente, temos meramente a reiteração das políticas de contenção social já existentes. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que adota o vocabulário religioso, o texto se apressa em neutralizá-lo. Afirma, reiteradamente, que não fará uso político da religião, que respeitará a liberdade de crença, que não instrumentalizará a fé. Aceita falar a língua do interlocutor, mas recusa o terreno em que essa língua opera como força.
Essa força, a mistura entre fé e política, fica na conta do campo adversário. Esses, sim, afirmam que a fé dessa gente implica em defender um determinado projeto político. Mas voltemos ao escorregadio passaggio entre a imaginação religiosa privada de cada crente e o sujeito político que disputa Brasília. Miremos uma imagem. Ainda na campanha de 2022, Jair Bolsonaro e sua primeira-dama são convidados especiais em um evento na Igreja Batista Lagoinha. Era o aniversário de 50 anos de pastoreio de Márcio Valadão, pastor-presidente da igreja durante todo esse tempo. Michelle Bolsonaro sobe ao palco e começa a agradecer aos presentes na primeira fila.
Lá no começo dos anos 2000, nasce o Diante do Trono, resultado do esforço da filha do Márcio, Ana Paula Valadão, em fazer um grupo de louvor de qualidade. Grupos de louvor são aqueles que se organizam nas igrejas para conduzir os cânticos nos cultos. Depois de uma viagem aos Estados Unidos, Ana Paula aprendeu a produzir uma forma musical chamada Praise & Worship. Foram eles os primeiros a trazer essa forma musical, em sua inteireza, ao Brasil. A coisa deu tão certo que tiveram CDs com mais de 2 milhões de cópias vendidas. Nos eventos, que percorreram todo o país, eram gravados CDs e DVDs. As músicas dos álbuns, que saem anualmente, tornaram-se louvores dominicais nas mais diversas tradições evangélicas. Se quiser tirar a prova dos nove, basta assistir aos dez primeiros álbuns do grupo — tudo disponível no YouTube. É muito nítida a criação de uma visão sobre o Brasil. Os álbuns iniciais falam do fiel, de Deus, da salvação individual; quem topar o percurso, porém, verá os momentos em que as referências ao Brasil deixam de ser exceções e passam a ser o mote das orações e letras. As canções começam a anunciar um novo tempo para o Brasil. Um avivamento. Um país que será transformado pelo Senhor. Mas deixemos essa pequena formação do Brasil avivado para o momento correto.
Foi esse Brasil avivado que Michelle Bolsonaro aprendeu com eles, e por isso os agradece. Quando ela utiliza o vocabulário evangélico para falar de política, para muitos crentes, isso não parece uma posição “ideológica”, mas uma derivação da fé que já se tem como modo de orientação da própria vida. A fé que organiza a sobrevivência, sobretudo no pentecostalismo, oferece modos de subjetivação para uma realidade periférica que não dá espaço para a falta de fé. Ao mesmo tempo, os termos dessa própria fé, que não vieram do nada e são produzidos diariamente, apontam para esse novo país que há de nascer.
Era isso que Gabriel Feltran dizia acontecer no nascimento da primeira alma petista. O projeto familiar operário de integração à classe média, enquanto horizonte que dava força à reivindicação sindical, era uma visão defendida no âmbito da fé por uma face da Igreja nova e considerada racionalmente válida pela intelectualidade de esquerda, que via aí a realização do seu projeto de formação nacional. Não foi pouca coisa. A expectativa de melhorar a condição de vida da própria família era a força motriz da luta. Passados alguns anos, ainda entre 1990 e 2000, o que o sociólogo vai apontar como nova forma de defender a melhora da vida familiar é o empreendedorismo. A busca pela vitória, nos termos evangélicos. Um conflito absoluto de todos contra todos, no qual compete ao Estado a mera administração da violência, que deve conter os que ficaram de fora e que vão usar o que têm para entrar. A batalha diária da sobrevivência, subjetivada nos termos da fé, que lhes dá experiências de esperança. Não só a mudança é visível, mas também a batalha diária se torna racionalizável. É essa fé como práxis que opera no nível cotidiano de mais de 30% da população, que a mobiliza. Nela se produz a gramática cotidiana, seu modo de encarar as desgraças e de anunciar as melhoras. A esperança da sua redenção pela cruz de Cristo torna-se motor da sua adesão política.
Como reagir a isso? Bom, ao menos sabemos que uma carta não chega nem perto do que está acontecendo. E que esse Brasil avivado só pode ser combatido com uma outra imaginação de Brasil que também tenha uma matriz prática, que derive em uma imaginação radical do que haverá de ser. Para nós, da intelectualidade de esquerda, talvez um primeiro passo seja admitir que o evangelicalismo é um problema brasileiro como qualquer outro. Temos um longo arsenal crítico de interpretação dos modos como formas culturais do centro do capitalismo são nacionalizadas à sua maneira no Brasil, e também uma sólida tradição de interpretação da relação entre a prática da fé e a imaginação da política. Mas quando se trata dessa forma de religiosidade, parece que esquecemos de tudo isso e voltamos aos frágeis termos de importação, cópia, manipulação, dominação.1
Eis uma nova visão de Brasil, que dá gramática a um outro sujeito político. Os petistas e suas almas parecem não conseguir reagir à altura da coisa. A rejeição de Messias, redigida pelos interesses eventuais dos políticos de então, parece ser um pequeno anúncio das eleições de outubro. O lulismo poderá fazer acordos com todas as lideranças evangélicas do país; sem um outro Brasil para se sonhar enquanto se encaram os problemas diários, onde as soluções da vida privada serão dadas pela visualização do país a ser construído, nada feito. É curioso que o campo democrático-popular tenha esquecido disso tudo: não foi ele filho dessa mesma intangível e concreta mescla entre imaginação religiosa popular e ação política própria da nossa vida popular periférica?
Notas
- Tento dar uma contribuição a essa questão no livro Eis aí, o povo Brasileiro (2026) que estou lançando agora. ↩︎
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André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO
Margem Esquerda #46 | Que horas são?
Os desafios e dilemas da luta feminista no Brasil são o tema do dossiê deste semestre. Organizado por Maria Lygia Quartim de Moraes e Cecília Brancher, a seção reúne intervenções de cinco intelectuais sobre a urgência do enfrentamento das diferentes dimensões do patriarcado e da opressão da mulher. Ivana Jinkings, Milton Temer e Virgínia Fontes conduzem a entrevista com José Paulo Netto: “Em uma conversa descontraída, repleta de anedotas saborosas e deslizes freudianos, ele apresenta um retrato de seu percurso intelectual, político e afetivo – um percurso indissociável da história do seu partido, o PCB”, escreve o editor Artur Renzo na apresentação.
A edição conta ainda com três artigos inéditos, um deles escrito por André Castro, que retoma um debate entre Roberto Schwarz e Alfredo Bosi para refletir sobre os caminhos e descaminhos da tradição crítica brasileira, à luz da ascensão e consolidação da extrema direita evangélica no país. Para comemorar a publicação da primeira edição brasileira de Reconstrução negra, trazemos na seção Documento desta Margem Esquerda um esquema que W. E. B. Du Bois preparou para seu editor, resumindo as teses de sua obra máxima sobre a revolução social perdida que inaugurou os Estados Unidos modernos.

Margem Esquerda #44 | Evangelho
Nos últimos anos, o tema da religião tem comparecido cada vez mais nos discursos de esquerda, seja como enigma, lamentação ou bode expiatório – ou, ainda, pelas suas afinidades eletivas com os traços apocalípticos da conjuntura global. Partindo do mote durkheimiano de que “a religião é coisa eminentemente social”, o dossiê de capa desta Margem Esquerda investiga o fenômeno religioso e sua relação com a política no Brasil para além dos chavões e lugares comuns condescendentes. Organizada por Carly Machado, a seleção traz um rico mosaico de textos que abrangem a alarmante ascensão da extrema-direita católica no judiciário, a questão do movimento negro evangélico, a relação entre religião e o debate sobre as fake news, a retórica salvacionista dirigida contra as mulheres evangélicas e até a influência do papado sobre a política doméstica.
A entrevistada da edição é a cientista social Maria Lygia Quartim de Moraes, figura importante do marxismo feminista brasileiro. Em seu tom caracteristicamente ácido e bem humorado, ela repassa sua intensa trajetória política e intelectual e não mede palavras para comentar os impasses e desafios da esquerda no Brasil. A edição ainda traz artigos de fôlego sobre Malcolm X, Clóvis Moura, Fredric Jameson, Paulo Arantes e Antonio Candido, além de um erudito roteiro de estudos sobre Luís de Camões elaborado por ninguém menos que José Paulo Netto. Na seção de homenagens, prestamos tributo a Beatriz Sarlo, Michael Burawoy e Paula Vaz de Almeida. O artista convidado desta edição é Sérgio Romagnolo; a poesia é de Amiri Baraka.
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