O fim da escala 6×1 e o escravismo hipertadio
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Por Mauro Luis Iasi
“Não tendo pois o servo o castigo, como há de há de fazer sua vontade? (…) porque o castigo pode saber bem; da muita continuação dele nasce outro inconveniente não pequeno. Porque sabendo o escravo que o senhor não lhe não passa em claro falta alguma (…) vendo que não tem outro remédio para evitar os rigores do mesmo senhor… foge.”
— Jorge Benci (apud Clóvis Moura)
O senhorzinho Tarcísio Gomes de Freitas, financiado em sua empreitada pelo mui respeitado presidiário Vorcaro e seu banco Master, disse que não se pode cuidar do trabalhador sem cuidar do empregador, que sofre com as mazelas da dura perseguição governamental. Não por outro motivo que não a mais alta preocupação com os pilares da pátria, abençoada pelo Senhor nosso Deus e majestosa por natureza por Ele também criada, os ocupantes da Casa de Leniência Parlamentar encrustada no centro da nação apresentaram iniciativas contra a ameaça das forças demoníacas que querem acabar com a escala 6×1, privando os cidadãos daquilo que lhes é mais caro, ou seja, o trabalho.
Diante do clamor do populacho, embriagado pela preguiça herdada da raça, que anseia por menos trabalho para se dedicar ao ócio, ao pecado e a libertinagem, os reais representantes do povo apresentaram certas medidas para, pelo menos, mitigar a inevitável agressão aos pobres empresários diminuindo a riqueza da pátria e, consequentemente, a parte que cabe a cada uma das forças vivas da nação como seu quinhão, doado em troca de favores e mesmo na produção de peças cinematográficas de irrefutável qualidade.
São exemplos de tais iniciativas a proposta de um prazo razoável para a implementação do fim da escala 6×1 de dez anos, ainda que radicais tentem diminuir em cinco anos o período para tal implantação. Como parece inevitável tal retrocesso nas amistosas relações de trabalho, fundadas não em outra coisa senão no caráter benévolo do patronato e no efeito de séculos de miscigenação racial, que diluiu a raiva e fúria irracional de negros e índios bravios, se fazem necessárias certas medidas de compensação àqueles que venham a ser atingidos por tal dispositivo legal, ainda que ilegítimo.
Entre as compensações possíveis, os parlamentares pensaram em isentar os empresários de custos como o INSS ou tributos. Tudo a fim de, pelo menos, amenizar os graves sofrimentos que advirão à dura noite de privações que os empregadores terão que enfrentar diante da perda da companhia daqueles que mais amam, seus queridos trabalhadores, por um dia inteiro que antes lhes pertencia. A medida mais interessante, no entanto, vem da proposta do digno relator da Proposta de Emenda à Constituição: ele sugere que, durante este curto período de transição de cinco ou dez anos, as horas extras necessárias para manter os negócios diante da execrável afronta às liberdades constituídas não sejam acrescidas de nenhum valor, mas pagas como as horas normais que são e sempre foram, como medidas de tempo que Nosso Senhor, em sua sapiência, estabeleceu como medida do valor da alma do homem.
Apenas com o intuito de contribuir com esta santa e patriótica iniciativa de nossos representantes, que se lançam de peito aberto contra as espadas da iniquidade das forças das trevas que se encastelaram no bastião maior da nação, é que ouso apresentar algumas sugestões para que a inevitável tragédia do fim da escala 6×1 amenize os sofrimentos das castas que empreendem e, assim fazendo, engrandecem a Nação.
Uma vez que interrompeu-se o fornecimento de braços selvagens vindos da longínqua África, numa flagrante afronta ao direito de ir e vir e do livre comércio, forçando-nos a contar apenas com a natural e insaciável sexualidade do povo para a produção de crias, podemos propor, como regra de transição, que o fim da escala 6×1 passe a valer imediatamente apenas para aqueles que a partir da promulgação da lei venham a nascer, ganhando, assim, desde que do ventre se livrem, um dia a mais em sua semana.
No mesmo espírito cristão e humanitário, propomos que, da mesma forma, seja permitido um dia a menos de trabalho àqueles que alcancem a idade de 60 anos, com 35 anos de devida contribuição para homens e 30 para mulheres, para que possam usufruir plenamente de sua vida junto aos membros da família que não estiverem trabalhando.
Finalmente, vencido o período de prudente transição de dez anos, certamente reestabelecida a Monarquia, ou mesmo, se sorte tivermos, estando elevados à condição de Reino Unido aos Estados Unidos, que a princesa Laura Firmo Bolsonaro, em nome do mítico pai (que ainda se encontraria preso faltando-lhe cumprir 17 anos de sua injusta sentença) e de seus virtuosos irmãos – infelizmente envoltos em calúnias e mentiras –, assim como de sua cristianíssima evangélica mãe, a rainha Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro, possa proclamar no dia 13 de maio do ano de Nosso Senhor de 2036 a abolição da escala 6×1, para a grandeza da Pátria e de Deus.
Todos os trabalhadores libertos, os jovens nascidos livres e os sexagenários, então com 70 anos, irão às praças e ruas saudar a princesinha nascida de uma fraquejada, festejando por dois dias, depois dos quais deverão retornar às senzalas e canaviais modernos oferencendo de bom grado sua força de trabalho por longos cinco dias por semana, até que alcancem a idade que a nova reforma da previdência estabelecerá para que possam, enfim, morrer ao lado da família – se não for no meio da semana.
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Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e militante do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho, de Ricardo Antunes
Extremamente atual, a obra analisa como o trabalho abstrato possibilitou, por meio de uma classe trabalhadora excluída do processo produtivo, o crescimento de uma sociedade descentralizada do ato laboral. Da ascensão do neoliberalismo ao longo dos anos 1990 ao capitalismo de plataforma do século XXI, assunto abordado também no novo apêndice, o texto Antunes mantém a contemporaneidade.
“Com a ampliação do universo digital, por meio de tecnologias de informação e comunicação presentes cada vez mais na produção (em sentido amplo), encontramos novos componentes que merecem uma análise cuidadosa, de modo a captar qual é o papel que essas tecnologias vêm desempenhando nas formas de acumulação presentes no capitalismo contemporâneo”, escreve Antunes.
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