Vladimir Sacchetta também viajou

Foto: Alexandre Linares / Divulgação
Por José Paulo Netto
Faz mais de um ano que aqui, neste Blog da Boitempo, referi-me à morte de meu amigo Dênis de Moraes. Disse do meu recurso para driblar a dor que me assalta quando perdas de tal monta me afetam profundamente: ponho-me a pensar que aqueles que muito prezo iniciaram apenas uma viagem, e que posso prosseguir em meu essencial diálogo com eles. Recorro a tal drible agora, nesta manhã outonal de 16 de maio, abatido ao saber da morte de Vladimir Sacchetta, aos 75 anos.
Recorro à minha hoje falível memória.
Adolescente, li a trilogia de Jorge Amado [1912-2001] Os subterrâneos da liberdade, publicada originalmente em 1954. No primeiro volume (Os ásperos tempos) e ainda no segundo (Agonia da noite), apresentou-se-me o personagem “Abelardo Saquila”, um trotskista dissimulado que operava insidiosamente no interior do PCB em meados da década de 1930. Vi-o como figura quase desprezível.
Já adulto, uns quinze anos depois da minha leitura d’Os subterrâneos da liberdade, soube, pelo saudoso Noé Gertel [1914-2002], que o intelectual que Jorge Amado infamara como “Saquila” na trilogia, escrita por encomenda partidária, era Hermínio Sacchetta [1909-1982]. Só então tive acesso à reação pessoal e imediata de Hermínio, o belo e vigoroso artigo “Jorge Amado e os porões da decência”, republicado no seu livro O caldeirão das bruxas e outros escritos políticos (Campinas, Pontes/Unicamp, 1992).
Conheci Hermínio pessoalmente em 1980 por intermédio de Raul Mateos Castell, o grande semeador de livros que está – felizmente – vivo e saudável. Hermínio, envelhecido, conservava-se intelectualmente ágil, mantinha-se informado e irreverente – conversar com ele, lá na livraria do Raul (rua Sete de Abril), era algo que me deliciava.
No início de 1980, veio à tona a crise do PCB – potenciada, em março, pela autoexclusão de Luís Carlos Prestes [1898-1990] do partido. Na direção central do PCB estava o designado Coletivo Nacional de Dirigentes Comunistas, capitaneado por Giocondo Dias [1913-1987].
Em fins de 1980, Giocondo – com quem sempre tive uma relação cordial – chamou-me para um encontro privado. Primeiro, solicitou-me que contribuísse com mais frequência com o semanário Voz da Unidade, editado em São Paulo, e que circulou de 1980 a 1991. Até então, eu era um colaborador bissexto do jornal – nada animado, posto que um artigo meu, um largo necrológio do marechal Tito [1892-1980], que admirei desde muito jovem, fora impedido de vir à luz (valha a observação: foi a única vez que o partido me censurou – e o censor foi Severino Teodoro de Melo [1917-2023], o vil traidor só tardiamente desmascarado por Marcelo Godoi (ver o seu Cachorros. S. Paulo, Alameda, 2024).
Em segundo lugar, Giocondo convidou-me para organizar um livro a editar-se em 1982, de forma a apresentar um síntese da história do PCB, que naquele ano completaria 60 anos de fundação. Disse-lhe que aceitaria a tarefa com duas condições, a serem rigorosamente cumpridas: que o projeto que eu formulasse não fosse objeto de qualquer intervenção por parte da direção do partido nem que saísse por uma editora do PCB. Giocondo aceitou e fez valer estas condições e, assim, deu o sinal para a elaboração do que seria o PCB. 1922-1982. Memória fotográfica (S. Paulo, Brasiliense, 1982).
Em seguida, procurei Caio Graco da Silva Prado [1931-1992], à época na direção da Editora Brasiliense e que já editara um livrinho meu; expus-lhe um esboço do meu projeto e de pronto ele o estimulou.
Foi então que Vladimir Sacchetta entrou na minha vida.
PCB. 1922-1982. Memória fotográfica é, de fato, uma obra coletiva. De imediato, chamei para o trabalho José Antonio Segatto, que iniciava a sua carreira de historiador. Logo tivemos o apoio de jovens que, àquele tempo, estavam vinculados ao partido: Milton Belintani Filho, Sizenando Alves Silveira e Wagner Nabuco de Araújo (dos quais não tenho notícias hoje). A mim não me coube mais que coordenar os trabalhos da equipe que se formava e elaborar o texto final do livro.
Para o andamento do projeto, pesquisei várias experiências semelhantes de outros partidos comunistas – em especial o italiano, o português e o de Espanha. Porém, encontrei muitas dificuldades para a recolha de imagens e para pensar o projeto gráfico. Nos poucos contatos que então tinha em São Paulo, todos me sugeriam procurar o jovem Vladimir Sacchetta – e a sugestão foi chancelada pelo Noé Gertel, que o conhecia bem.
Já em meu primeiro encontro com Vladimir estabeleceu-se entre nós uma relação baseada na mútua confiança. Eu lhe garanti que o material a resultar deveria superar antigos preconceitos e ressentimentos e, sobretudo, que fosse fiel à factualidade histórica. E a única exigência dele foi que pudesse trabalhar com alguns de seus companheiros – e trouxe para a equipe os talentosos José Ramos Neto e Paulo Cesar de Azevedo. Não indaguei das suas filiações político-partidárias – mas suponho que, àquele tempo, todos eles, inclusive o próprio Vladimir, tinham fortes simpatias para com o emergente Partido dos Trabalhadores (o PT de Lula).
Criou-se na equipe de trabalho assim constituída – todos sem qualquer remuneração – um coletivo que operou sem tensões e conflitos. Impõe-se-me dizer que Vladimir foi o verdadeiro condutor de todo o trabalho: ele empenhou-se de corpo e alma na tarefa, e o que dela resultou lhe deve mais que a qualquer outro de nós. Embora eu tenha sido o editor final do texto, a impressão digital maior é a de Vladimir.
Estou convencido de que PCB. 1922-1982. Memória fotográfica é um marco relevante na bibliografia referente ao PCB. É material que abriu uma visada generosa na recuperação da memória fotográfica não só de PCB, mas da esquerda brasileira.
Obviamente não é uma obra perfeita – muito longe disto. Deve-se avaliá-la também considerando a documentação acessível à época e a juventude dos seus autores. Porém, o que tem de valioso deve ser creditado ao empenho de Vladimir.
Nada une mais as pessoas que o trabalho coletivo.
Da preparação do livro nasceu a amizade entre mim e Vladimir. Publicado (e com sucesso: tirou duas edições logo que lançado pelo Caio Graco), nossas relações se estreitaram: conversávamos semanalmente, e não poucos foram os jantares em minha casa, sempre com a presença de Dona Céres (a mãe de Vladimir, que sobreviveu ao velho Hermínio – ela faleceu com 93 anos). E Dona Céres, que se casara com Hermínio em 1935, sempre louvava os meus dotes culinários…
Minha transferência para o Rio de Janeiro, em 1994, tornou bem menos frequentes nossos contatos. Mas a relação amistosa não foi afetada e prosseguiu.
E há de prosseguir: Vladimir apenas viajou.

Karl Marx: uma biografia, de José Paulo Netto
Escrito com maestria e erudição, este livro fundamental é fruto de uma vida inteira dedicada ao estudo da obra marxiana. Entrelaçando realidade sociopolítica e aspectos da vida privada do biografado, o autor dá luz à trajetória do pensamento, da atividade política, da elaboração dos textos, dos afetos e desafetos – enfim, ao grande legado do criador do socialismo científico.
Ao recorrer aos textos produzidos por Marx um a um, entremeando suas reflexões a uma ampla série de citações (escolhidas a dedo), José Paulo Netto oferece ao leitor um rico guia de leitura da vida e da obra de Marx. Também são convocados a participar dessa sinfonia textual outros biógrafos e comentaristas, tornando o quadro ainda mais complexo e instigante, sem nunca perder o fio da meada.
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José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista, é amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, coordenando a “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. É autor, entre outros, de Karl Marx: uma biografia (Boitempo, 2020) e Lukács, uma introdução (Boitempo, 2023), além de organizador de Da erótica (Boitempo, 2022), antologia de poemas de Bocage, História e consciência de classe, cem anos depois (Boitempo, 2023) e do guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015).
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