Os colonizadores vieram erguer uma empresa, não um país

Conheça o clássico inédito de Caio Prado Júnior

Por Lincoln Secco

O Brasil não é um país subdesenvolvido, como se estivesse destinado a superar uma fase de atraso. Em vez de progressão linear que pressupõe um desenvolvimento necessário, Caio Prado Júnior revela uma totalidade contraditória em que os processos históricos se desenrolam em sentidos opostos: crescimento e deterioração se combinam.  

Se fizermos um corte na curva de crescimento da economia brasileira, veremos em qualquer época diferentes ciclos superpostos, uns em plena juventude, outros maduros e alguns decadentes. Tais formas capitalistas mostram-se assim porque não expressam a economia nacional. Vêm de cima e de fora. Segundo o autor, disso resulta uma feitoria comercial disfarçada de sociedade, afinal os europeus vinham aqui erguer uma empresa, não um país

Caio Prado Júnior defende “um ponto de vista que seja nosso” em economia e que nos dê uma visão de totalidade. E esse ponto de vista é o da história. A teoria do desenvolvimento, embora apresentasse premissas históricas, não recuava o suficiente no tempo. Nosso autor propõe uma epistemologia adequada ao Brasil e rejeita com vigor as teses racistas, o fatalismo geográfico e o dualismo. 

Para ele, os dados não existem fora da história. Na década de 1950, a indústria voltada ao mercado interno, cuja produção superava o total das exportações, parecia dar fim ao sentido da colonização. Mas o crescimento industrial continuava dependente de divisas obtidas com a exportação de gêneros tropicais e sofria os abalos da balança de pagamentos. Caio Prado Júnior dizia isso quando muitos estavam embriagados pelo desenvolvimentismo associado ao capital estrangeiro.  

Hoje, aquele crescimento deixou ruínas ambientais e humanas em um país que permanece dependente da exportação de commodities.  

Diretrizes para uma política econômica brasileira, livro quase desconhecido, agora encontrará seu lugar: o de um clássico que segue atual.

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Lincoln Secco
é professor livre-docente de História Contemporânea na Universidade de São Paulo e autor de Caio Prado Júnior: o sentido da revolução (Boitempo, 2008).


Preparado como monografia para o concurso à cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da USP em 1954, Diretrizes para uma política econômica brasileira, de Caio Prado Júnior, nunca foi publicado comercialmente – teve apenas algumas cópias distribuídas à época.  

Na obra, o autor discute o processo histórico brasileiro, a questão do mercado interno e externo, o “marginalismo” de algumas regiões do país, os ciclos econômicos, o papel do capital estrangeiro, a indústria, o imperialismo e a questão agrária. Caio Prado Júnior defende “larga reorganização e redistribuição dos elementos estruturais do país” e apresenta uma compreensão das contradições existentes no território nacional com o objetivo de assegurar uma democratização real não restrita às esferas jurídicas e políticas.  

“Devemos notar muito bem o dualismo que observamos na economia brasileira, a saber, de um lado, o sistema colonial que nele prevalece; de outro e esboçando-se no interior daquele sistema, novas formas econômicas que apontam na direção de um desenvolvimento diferente daquele que sempre tivemos no passado. Essa distinção é essencial para se ter um panorama adequado da economia brasileira e para nele se orientar, pois de outro modo resulta a ilusão, tão frequente na observação e interpretação de nossa economia, que podemos passar como que automática e espontaneamente de uma para outra linha de desenvolvimento”, escreve o autor.  

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