A vida sob a dívida: por que a vida não melhora mesmo com a economia “melhorando”?
Por Ederson Duda
Nos últimos anos, tem se difundido no Brasil uma percepção social aparentemente paradoxal: mesmo diante de indicadores macroeconômicos que sugerem alguma estabilidade ou melhora relativa, amplos setores da população afirmam que a vida não melhorou – e, em muitos casos, dizem que ela piorou. Essa percepção não é difusa nem meramente subjetiva, mas encontra expressão material no avanço persistente do endividamento das famílias, no comprometimento crescente da renda com o pagamento de dívidas e na ampliação das dificuldades de acesso às condições básicas de existência.
Dados recentes do Banco Central (BC) indicam que o endividamento das famílias brasileiras atingiu 49,9% em fevereiro de 2026, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas alcançou 29,7% – ambos os maiores níveis da série histórica. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que mais de 80% das famílias possuem algum tipo de dívida, com quase um terço delas em situação de inadimplência prolongada. Esses dados, produzidos por diferentes metodologias, convergem para um mesmo diagnóstico: o endividamento deixou de ser um fenômeno episódico e passou a integrar, de forma estrutural, as condições de vida.
Esse processo se torna ainda mais evidente quando se observa a natureza dessas dívidas. Uma parcela significativa não está associada a investimentos de longo prazo (como a compra de um imóvel), mas a despesas correntes, como alimentação, medicamentos e custos básicos de sobrevivência. Como demonstra a pesquisa Datafolha, há um mal-estar generalizado em relação à situação financeira, com destaque para as mulheres e famílias de menor renda. Proporcionalmente, são elas que mais relatam uma piora nas condições materiais e maior impacto da situação econômica sobre a saúde mental.
À primeira vista, esse quadro poderia ser interpretado como resultado de uma diferença entre indicadores econômicos e percepção subjetiva, ou ainda como efeito conjuntural de dificuldades transitórias. No entanto, o que esses dados demonstram não é uma distorção passageira, mas uma transformação mais profunda nas formas de organização da reprodução social no capitalismo contemporâneo. Em outras palavras, o aumento do endividamento das famílias e a sensação generalizada de deterioração das condições de vida não constituem desvios em relação a um padrão anterior de estabilidade, mas a própria forma historicamente específica pela qual a reprodução da vida social vem sendo reorganizada sob a hegemonia do capital financeiro.
Nesse contexto, o endividamento deixa de ser compreendido como uma consequência contingente de escolhas individuais ou de desequilíbrios momentâneos entre renda e consumo, passando a assumir o estatuto de mediação estrutural da reprodução social. O acesso à moradia, à educação, à saúde e, em muitos casos, à própria sobrevivência cotidiana passa a depender crescentemente da capacidade de mobilização de crédito, isto é, da inserção dos indivíduos e das famílias nos circuitos da valorização financeira1. Trata-se, portanto, de um deslocamento qualitativo: aquilo que anteriormente se organizava, ainda que de forma desigual e limitada, por meio de direitos sociais e mecanismos coletivos de proteção, passa a ser progressivamente subordinado à lógica da mercadoria e da dívida.
Essa transformação não ocorre de maneira espontânea ou desordenada. Como aponta Clara Mattei, em A ordem do capital, ela se articula diretamente ao avanço de políticas de austeridade e à reconfiguração do papel do Estado, que deixa de atuar prioritariamente como garantidor de direitos universais para se tornar um agente ativo na criação e sustentação de mercados financeiros voltados à reprodução social. Ao mesmo tempo, esse processo exige e produz formas específicas de subjetivação, nas quais a responsabilidade pela própria sobrevivência é deslocada para o indivíduo, naturalizando o recurso à dívida como solução privada para problemas socialmente produzidos2.
É nesse terreno que se torna possível compreender por que o endividamento generalizado convive com a persistência – e mesmo o aprofundamento – de formas de legitimação baseadas na responsabilidade individual, no esforço pessoal e na gestão de si. Antes de constituir uma contradição, essa articulação revela a emergência de uma forma social historicamente determinada, na qual a vida endividada e o modo de vida meritocrático se reforçam mutuamente como expressões complementares da dominação do capital sobre o trabalho na atualidade do capitalismo.
Endividamento como forma da reprodução social
A centralidade assumida pelo endividamento das famílias no Brasil contemporâneo não pode ser compreendida como uma distorção periférica do funcionamento “normal” da economia, tampouco como resultado contingente de desajustes entre renda e consumo. Assim como a financeirização não constitui um desvio em relação a um suposto capitalismo produtivo, o endividamento deve ser apreendido como expressão de uma transformação interna às formas de acumulação do capital, na qual a reprodução social passa a ser diretamente incorporada aos circuitos da valorização financeira.
Nesse sentido, a expansão do crédito às famílias, antes de representar apenas um mecanismo de inclusão econômica ou ampliação do consumo, opera como mediação fundamental do acesso às condições materiais de existência. A moradia, a educação, a saúde e o próprio consumo cotidiano deixam de ser garantidos, ainda que de forma desigual, por mecanismos coletivos ou por rendimentos relativamente estáveis do trabalho, passando a depender crescentemente da capacidade de endividamento. O recurso ao crédito, nesse contexto, não se apresenta como escolha excepcional ou estratégia complementar, mas como condição ordinária da reprodução da vida social.
Esse deslocamento expressa uma transformação qualitativa, a saber: a substituição progressiva de formas coletivas de proteção social por soluções individualizadas e financeirizadas. A retração de políticas públicas universais, combinada à expansão de instrumentos de crédito (como o consignado, o financiamento habitacional, o crédito estudantil e os cartões de crédito), não apenas amplia o acesso imediato a determinados bens e serviços, mas reconfigura estruturalmente a forma pela qual esse acesso se realiza3. Direitos sociais, que pressupõem formas coletivas de garantia e distribuição, são progressivamente convertidos em ativos financeiros, cuja fruição depende da inserção individual nos mercados de crédito. Não por acaso, o endividamento se concentra de maneira mais intensa entre estratos de menor renda, isto é, cerca de 81% das famílias que recebem até três salários mínimos possuem dívidas, evidenciando que a financeirização da reprodução social incide de forma mais aguda justamente sobre aqueles com menos capacidade de absorver seus custos4.
Trata-se, portanto, de um processo no qual o Estado não “reduz” a sua presença, mas reorganiza ativamente as condições da reprodução social sob a lógica da valorização financeira. Ao invés de garantir diretamente o acesso a bens fundamentais, o Estado passa a operar como indutor e garantidor da expansão dos mercados financeiros, criando condições institucionais, jurídicas e macroeconômicas para a difusão do crédito como forma dominante de mediação social, mecanismo já analisado por Leda Paulani em Brasil delivery.
A elevação persistente do comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida – que se aproxima de metade dos rendimentos – não indica apenas um aumento quantitativo do endividamento, mas revela a intensificação dessa dependência estrutural. A renda do trabalho, já marcada pela instabilidade e pela precarização, passa a ser permanentemente antecipada, comprometida e capturada por fluxos financeiros, de modo que o futuro do trabalhador se converte em garantia de sua sobrevivência presente.
Nesse processo, a fronteira entre exploração e expropriação tende a se tornar mais porosa. Se, por um lado, o trabalho continua a ser fonte fundamental de produção de valor, por outro, a dívida se afirma como mecanismo complementar de apropriação da renda e de captura de parcelas crescentes do tempo social dos trabalhadores. A financeirização da reprodução social não substitui a exploração do trabalho, mas a rearticula sob novas bases, ampliando os mecanismos pelos quais o capital se apropria das condições de vida. Dessa forma, o endividamento das famílias não pode ser reduzido a um problema de “educação financeira” ou de gestão inadequada do orçamento doméstico. Ele representa uma reconfiguração estrutural na forma de organização da vida social.
É precisamente nesse terreno que podemos compreender o deslocamento para a dimensão subjetiva do problema. Pois, ao transformar a dívida em condição ordinária da existência, esse processo exige também formas específicas de comportamento, de percepção e de organização da vida cotidiana, nas quais a responsabilidade pela própria reprodução é internalizada como tarefa individual. O endividamento, enquanto forma social, não apenas reorganiza as condições materiais da existência, mas estabelece as bases para a constituição de um modo de vida historicamente adequado à sua reprodução.
Austeridade como fundamento político dessa transformação
A reconfiguração da reprodução social sob a mediação da dívida não pode ser compreendida como um processo espontâneo ou resultado automático da dinâmica econômica. Trata-se de uma transformação politicamente produzida, cuja consolidação depende da atuação ativa do Estado na reorganização das condições de vida sob a lógica da valorização financeira. Nesse contexto, as políticas de austeridade ocupam um papel central, não como resposta técnica a desequilíbrios fiscais, mas como instrumento estratégico de reordenamento das relações entre capital, trabalho e Estado.
A interpretação dominante tende a apresentar a austeridade como uma necessidade econômica; um conjunto de medidas voltadas à contenção de gastos públicos, ao equilíbrio das contas do Estado e à estabilidade macroeconômica. No entanto, essa leitura obscurece sua função histórica mais profunda. Como demonstra a literatura crítica recente, e em especial os trabalhos de Clara Mattei, a austeridade deve ser compreendida como uma forma de disciplinamento de classe, orientada à reconfiguração das condições de reprodução social de modo compatível com as exigências da acumulação capitalista em sua fase financeirizada.
Sob essa perspectiva, a redução do gasto social, a focalização das políticas públicas e a restrição de direitos não constituem efeitos colaterais indesejados, mas componentes estruturais de um projeto político. Ao limitar a provisão pública de bens e serviços essenciais, a austeridade não apenas comprime o custo fiscal do Estado, mas desloca sistematicamente para os indivíduos a responsabilidade pela garantia de sua própria reprodução5.
Dessa forma, a austeridade e a financeirização não operam como esferas separadas, mas como dimensões complementares de um mesmo processo. Enquanto a primeira atua pela via da retração e reconfiguração das políticas públicas, a segunda avança pela incorporação da reprodução social aos circuitos de valorização financeira. O resultado dessa articulação é a substituição progressiva de mecanismos coletivos de proteção por soluções individualizadas, nas quais o acesso a bens fundamentais passa a depender da capacidade de endividamento. A dívida, nesse sentido, não surge apesar da austeridade, mas através dela.
Esse movimento implica uma transformação qualitativa no papel do Estado, que passa a assumir funções decisivas na construção e sustentação das condições institucionais que viabilizam e reproduzem a expansão da financeirização. Isso inclui a regulação dos mercados de crédito, a garantia de contratos financeiros, a criação de instrumentos de financiamento e a condução de políticas macroeconômicas orientadas à preservação da rentabilidade do capital financeiro6. A austeridade, nesse quadro, não representa a ausência do Estado, mas sua reorientação ativa em favor da valorização financeira. Ao mesmo tempo, esse processo redefine a própria natureza da proteção social. O que antes se organizava, ainda que de forma limitada e desigual, como direito social, passa a ser mediado por relações mercantis e financeiras. A seguridade social e o acesso aos serviços públicos deixam de constituir garantias coletivas para se converterem em serviços acessíveis mediante pagamento ou endividamento7.
É nesse ponto que a austeridade revela sua dimensão mais profunda. Ao deslocar os custos da reprodução social para o plano individual, ela não apenas reorganiza as condições materiais da vida, mas também estabelece as bases para a internalização desses custos como responsabilidade pessoal8. A insegurança econômica, o desemprego, a precariedade e o endividamento deixam de aparecer como expressões de determinações estruturais e passam a ser vividos como problemas de gestão individual. A austeridade, portanto, não apenas restringe recursos, mas produz um enquadramento social no qual a adaptação às condições impostas pelo capital se apresenta como única alternativa possível.
Nesse sentido, a articulação entre austeridade e financeirização da reprodução social não apenas transforma os mecanismos de acesso às condições de vida, mas também prepara o terreno para formas específicas de subjetivação. Ao impor a individualização da sobrevivência e naturalizar o recurso à dívida, esse processo exige a constituição de sujeitos capazes de gerir permanentemente sua própria inserção em um contexto marcado pela instabilidade, pela concorrência e pela incerteza. É precisamente nesse ponto que a análise do endividamento como forma social encontra sua continuidade na compreensão do modo de vida meritocrático como forma subjetiva historicamente adequada a essa transformação.
Subjetividade endividada e o modo de vida meritocrático
A transformação do endividamento em mediação estrutural da reprodução social não se limita à reorganização das condições materiais de existência. Como toda forma social historicamente determinada, ela implica também a constituição de formas específicas de subjetividade, isto é, de modos de sentir e organizar a própria vida em consonância com as exigências da reprodução do capital9. Nesse sentido, a generalização da dívida não apenas redefine o acesso às condições de vida, mas estabelece as bases para a emergência de um modo de vida ajustado à sua lógica: um modo de vida no qual a gestão permanente da própria existência se torna condição para a sobrevivência.
Ao depender crescentemente da antecipação financeira da renda futura, a reprodução social passa a exigir dos indivíduos uma relação contínua com o tempo, com o trabalho e com o consumo mediada pela dívida. A vida cotidiana deixa de se organizar predominantemente em torno da renda disponível e passa a ser estruturada pela administração de compromissos financeiros futuros, pela necessidade de manter fluxos regulares de pagamento e pela constante avaliação dos riscos associados à instabilidade do trabalho. Nesse contexto, a existência social se converte em um processo permanente de cálculo, no qual decisões relativas à moradia, à educação, ao trabalho e ao consumo são subordinadas à lógica da solvência.
Essa transformação material exige, simultaneamente, uma forma específica de subjetivação. A responsabilidade pela reprodução da vida, progressivamente deslocada das mediações coletivas para o indivíduo, passa a ser vivida como tarefa pessoal de gestão eficiente de recursos escassos e de maximização das próprias capacidades. É nesse ponto que o modo de vida meritocrático se afirma como forma subjetiva adequada à financeirização da reprodução social, na medida em que não se limita a um discurso ideológico, mas passa a orientar escolhas e estruturar a maneira pela qual os indivíduos interpretam sua inserção em um contexto marcado pela instabilidade e pelo endividamento.
Sob essas condições, o indivíduo é interpelado a se comportar como gestor de si mesmo, responsável por equilibrar permanentemente renda, dívida e expectativas de futuro. Essa reconfiguração da experiência social implica um aprofundamento das formas de estranhamento social. Ao internalizar como responsabilidade individual aquilo que é produzido por determinações estruturais – como a precarização do trabalho, a retração das políticas públicas e a generalização da dívida –, os indivíduos passam a se perceber como únicos responsáveis por seu sucesso ou fracasso. A instabilidade deixa de ser compreendida como expressão das contradições do modo de produção capitalista e passa a ser vivida como falha de planejamento, insuficiência de esforço ou incapacidade de adaptação.
Ao mesmo tempo, a dívida exerce um papel disciplinador direto sobre a conduta dos trabalhadores. A necessidade de garantir o pagamento de obrigações financeiras impõe limites concretos à recusa do trabalho precarizado, à participação em formas de organização coletiva e à disposição para o conflito. A submissão às condições impostas pelo mercado de trabalho não decorre apenas da coerção econômica imediata, mas é reforçada pela pressão contínua exercida pela dívida, que transforma o futuro em garantia do presente e vincula a sobrevivência à manutenção da renda, por mais instável que esta seja. Nesse sentido, a dívida não apenas organiza a reprodução material da vida, mas atua como mecanismo de controle social.
A articulação entre endividamento e modo de vida meritocrático revela, assim, uma transformação mais profunda na forma de dominação social. A exploração do trabalho e a expropriação financeira passam a operar de maneira combinada, sustentadas por uma forma de subjetivação que naturaliza a adaptação às condições impostas pelo capital. A concorrência entre trabalhadores, intensificada pela instabilidade estrutural do trabalho e pela necessidade de manter a solvência individual, é reorganizada sob a forma de responsabilidade pessoal, obscurecendo suas determinações sociais e históricas.
Nesse quadro, o modo de vida meritocrático não aparece como simples justificativa ideológica da desigualdade, mas como uma racionalidade prática que torna possível a reprodução de uma sociedade na qual a sobrevivência depende simultaneamente do trabalho precário e do endividamento contínuo. Ao converter a insegurança em problema individual e a dívida em instrumento ordinário de gestão da vida, essa forma de subjetivação contribui para estabilizar, na vida cotidiana, as condições de uma reprodução social estruturalmente instável.
É precisamente a partir dessa articulação entre forma social e subjetividade que se torna possível compreender por que o endividamento generalizado não produz, de maneira imediata, uma ruptura com as formas dominantes de organização social, mas tende a reforçar mecanismos de adaptação individual. A crítica a esse processo, portanto, não pode se limitar à denúncia das desigualdades ou à exposição dos excessos da financeirização, devendo alcançar as formas pelas quais essas determinações são vividas, internalizadas e reproduzidas na experiência cotidiana.
Novas mediações: plataformas, crédito digital e a financeirização da vida cotidiana
A generalização do endividamento como mediação estrutural da reprodução social não se realiza apenas por meio de mecanismos tradicionais de crédito ou das instituições financeiras clássicas, mas se articula, no período recente, à emergência de novas infraestruturas tecnológicas que ampliam e intensificam essa dinâmica. Plataformas digitais, aplicativos financeiros, sistemas de pagamento online e algoritmos de concessão de crédito não constituem apenas inovações técnicas, mas operam como mediações centrais na incorporação da vida cotidiana aos circuitos do capital e da valorização financeira.
Nesse contexto, a expansão do crédito se torna simultaneamente mais capilarizada e mais opaca. A oferta de empréstimos, financiamentos e limites de crédito passa a ser mediada por sistemas automatizados, integrados a plataformas digitais que acompanham, em tempo real, os padrões de consumo, renda e comportamento dos usuários. Essa infraestrutura permite não apenas ampliar o alcance do crédito, mas também intensificar sua utilização, reduzindo fricções, acelerando decisões e incorporando a dívida de maneira ainda mais imediata à vida cotidiana. O endividamento deixa de aparecer como decisão pontual e passa a se constituir como fluxo contínuo de interação digital, no qual consumo, crédito e pagamento se tornam praticamente indissociáveis.
É nesse ambiente que se consolidam formas específicas de financeirização que operam na fronteira entre consumo, entretenimento e investimento. Entre essas formas, destacam-se as plataformas de apostas online, cuja expansão recente revela uma etapa da incorporação da reprodução social aos circuitos financeiros. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), as chamadas “bets” já se configuram como um dos principais fatores de pressão sobre o endividamento das famílias, superando inclusive mecanismos tradicionais como o aumento das taxas de juros e a expansão do crédito convencional. O volume movimentado por esse setor atinge dezenas de bilhões de reais mensais, com crescimento acelerado e forte penetração entre as camadas de menor renda, justamente aquelas mais expostas à instabilidade econômica e ao endividamento prévio.
Diferentemente de formas clássicas de crédito, as apostas online introduzem uma mediação na qual a relação com o dinheiro é reorganizada sob a lógica do risco permanente e da expectativa de ganho imediato. A promessa de retorno rápido, associada à gamificação das plataformas e à utilização intensiva de algoritmos de recomendação, contribui para a produção de comportamentos recorrentes e para a intensificação do engajamento dos usuários. Levantamentos recentes indicam que uma parcela significativa dos apostadores mobiliza recursos originalmente destinados ao consumo básico ou à poupança, enquanto cresce de forma expressiva o número de indivíduos que contraem dívidas diretamente associadas a esse tipo de prática. Nesse sentido, as bets não constituem um fenômeno isolado, mas uma extensão das formas contemporâneas de financeirização da vida cotidiana.
A integração dessas plataformas ao ecossistema digital mais amplo reforça ainda mais essa dinâmica. Sistemas de pagamento instantâneo, carteiras digitais e aplicativos bancários permitem a circulação contínua de recursos entre consumo, crédito e aposta, reduzindo barreiras e ampliando a velocidade das transações. Ao mesmo tempo, os dados gerados por essas interações são capturados, processados e utilizados para retroalimentar a oferta de crédito e a indução ao consumo, aprofundando a integração entre diferentes esferas da vida econômica. Essa infraestrutura é sustentada por grandes plataformas tecnológicas, que operam como base material dessa nova etapa da financeirização da vida social.
Nesse contexto, a distinção entre dívida, consumo e investimento tende a se tornar cada vez mais difusa. A reprodução social passa a se realizar em um ambiente de integração contínua entre essas esferas, no qual a exposição ao risco, a instabilidade e a antecipação financeira do futuro são permanentemente intensificadas. Ao mesmo tempo, a emergência dessas novas mediações não substitui as formas anteriores de endividamento, mas as rearticula e intensifica. O crédito consignado, os financiamentos tradicionais e o uso do cartão de crédito continuam a desempenhar papel central, agora integrados a uma infraestrutura digital que amplia seu alcance e aprofunda seus efeitos.
É nesse sentido que as plataformas digitais e as apostas online devem ser compreendidas não como fenômenos marginais ou desvios comportamentais, mas como expressões de uma etapa avançada da financeirização, na qual a própria vida cotidiana, em suas dimensões mais ordinárias, se converte em terreno direto de valorização do capital. Ao integrar consumo, crédito, dados e comportamento em um mesmo circuito, essas mediações aprofundam a subordinação da reprodução social à lógica financeira, ao mesmo tempo em que produzem novas formas de dependência, controle e instabilidade.
Consequências políticas e tarefa da esquerda
O avanço do endividamento das famílias redefine o terreno da disputa política contemporânea. Ele não apenas agrava as desigualdades, mas reorganiza a forma pela qual elas são vividas, percebidas e enfrentadas. Quando a sobrevivência passa a depender estruturalmente da dívida, e quando essa dependência é acompanhada pela internalização da responsabilidade individual por sua gestão, as formas tradicionais de crítica tendem a se mostrar insuficientes. A denúncia das desigualdades, embora necessária, não alcança o núcleo do problema se não for capaz de apreender as formas pelas quais essas desigualdades são produzidas, mediadas e vividas na experiência social.
Nesse contexto, respostas centradas na educação financeira, no consumo consciente ou na responsabilização individual não apenas falham em enfrentar o problema, como tendem a reforçar a própria lógica que o sustenta. Ao pressuporem que o endividamento decorre de decisões inadequadas dos indivíduos, essas abordagens obscurecem seu caráter estrutural e deslocam a crítica das condições de reprodução social para o plano da conduta individual, reiterando a forma de subjetivação que sustenta a própria expansão da dívida.
Do mesmo modo, abordagens que se limitam à regulação pontual do sistema financeiro ou à mitigação de seus efeitos mais extremos, embora possam produzir alívios parciais, não alteram a lógica que subordina a reprodução da vida à valorização do capital. A centralidade da dívida não resulta de excessos corrigíveis, mas de uma forma histórica de organização da vida social que integra diretamente as condições de existência aos circuitos financeiros.
Diante disso, a tarefa política que se coloca não pode ser reduzida à gestão mais eficiente dos mecanismos existentes, mas exige a reconstrução de mediações coletivas capazes de deslocar a reprodução social para fora da lógica da dívida. Isso implica recolocar no centro do debate a questão dos direitos sociais universais, não como complementos ao mercado, mas como formas de organização da vida social que rompem com a necessidade de sua financeirização. Ao mesmo tempo, esse deslocamento exige enfrentar a própria reconfiguração do trabalho no capitalismo contemporâneo. A precarização, a instabilidade e a fragmentação das relações de trabalho não apenas ampliam a dependência da dívida, mas também dificultam a construção de formas coletivas de organização e resistência. Reconstituir essas formas, ainda que em condições distintas das que marcaram períodos anteriores, é condição para romper com a atomização social produzida pelo modo de vida meritocrático e pela concorrência generalizada entre trabalhadores.
Nesse sentido, a disputa política não se limita ao plano institucional, embora passe necessariamente por ele. Processos eleitorais, debates públicos e formulação de políticas constituem momentos importantes dessa disputa, na medida em que podem abrir ou fechar possibilidades de reconfiguração das formas de reprodução social. No entanto, quando a insatisfação social se expressa como percepção individual da deterioração das condições de vida, fortemente atravessada pela experiência do endividamento, ela tende a permanecer fragmentada e vulnerável a interpretações igualmente individualizantes.
A relação entre endividamento e percepção negativa da economia evidencia que a experiência material da dívida exerce impacto direto sobre a forma como os indivíduos avaliam a realidade social e orientam suas escolhas políticas. Contudo, sem mediações coletivas capazes de traduzir essa experiência em termos de conflito social e de antagonismo de classe, ela tende a se converter em frustração difusa, facilmente apropriável por discursos que deslocam o problema para o plano moral ou cultural, sem questionar suas bases materiais.
Nesse cenário, a tarefa política central consiste em reconectar experiência e estrutura, isto é, tornar inteligível que a deterioração das condições de vida não decorre de falhas individuais, mas de uma forma de organização social que subordina a reprodução da vida à valorização financeira. Isso implica não apenas denunciar os efeitos da dívida, mas disputar as formas pelas quais ela é vivida e interpretada no cotidiano.
Essa disputa não se dá apenas no nível das políticas públicas, mas também no terreno da produção de sentido e da organização do consenso. A naturalização da dívida, a valorização da autonomia individual e a internalização da responsabilidade pela sobrevivência operam como elementos constitutivos de uma forma de dominação que se reproduz tanto material quanto subjetivamente, apresentando a adaptação às suas exigências como horizonte aparentemente inevitável.
Em última instância, enfrentar a centralidade da dívida na reprodução social contemporânea exige mais do que reformas pontuais: exige a construção de um horizonte político capaz de romper com a forma social que a sustenta. Isso não significa ignorar a importância de medidas imediatas, mas situá-las em uma estratégia mais ampla, orientada a desfinanceirização da vida social e a reconstrução de formas coletivas de organização, proteção e solidariedade. A crítica à dívida, nesse sentido, não se limita ao plano econômico, mas constitui um ponto de partida para questionar a forma contemporânea de dominação do capital e reabrir o campo das possibilidades políticas para além dos limites impostos por sua reprodução.
Notas
- Desde os anos 2000 e, com maior intensidade, a partir da década de 2010, observa-se uma expansão contínua do crédito às famílias, acompanhada por um crescimento persistente do comprometimento da renda com o serviço da dívida. ↩︎
- RUBIN, Pedro. A financeirização da privação: os pobres por dívida. In: LAVINAS, L; MARTINS, N.M.; GONÇALVES, G.L.; VAN WAEYENBERG, E. (orgs.). Financeirização: crise, estagnação e desigualdade. São Paulo: Contracorrente, 2024, pp. 1011-1038. ↩︎
- LAVINAS, L.; Gonçalves, G. L. A expropriação dos direitos universais no lastro da assetização do bem-estar. In: LAVINAS, L; MARTINS, N.M.; GONÇALVES, G.L.; VAN WAEYENBERG, E. (orgs.). Financeirização: op. cit., pp. 421-456. ↩︎
- LAVINAS, Lena; BERTRAN, Maria Paula. Dívida e endividamento: o novo normal das famílias brasileiras. Boletim Lua Nova, 2025. ↩︎
- LAVINAS, L.; Gonçalves, G. L. A expropriação dos direitos universais no lastro da assetização do bem-estar. In: LAVINAS, L; MARTINS, N.M.; GONÇALVES, G.L.; VAN WAEYENBERG, E. (orgs.). Financeirização: op. cit., pp. 421-456. ↩︎
- No caso brasileiro, programas recentes de renegociação de dívidas, como o Desenrola, ilustram esse papel ao renegociarem dezenas de bilhões de reais e alcançaram milhões de pessoas, não eliminando a centralidade da dívida, mas restabelecendo a capacidade de endividamento das famílias e, com isso, a continuidade dos circuitos financeiros voltados à reprodução social. ↩︎
- Segundo dados do BC, taxas como as do rotativo do cartão de crédito, que ultrapassam 400% ao ano, e do crédito pessoal não consignado, acima de 100% ao ano, opera como forma de extração intensificada da renda. ↩︎
- LAVINAS, Lena; BERTRAN, Maria Paula. Dívida e endividamento: o novo normal das famílias brasileiras. Op. cit. ↩︎
- GRAMSCI, Antonio. Americanismo e fordismo. In: Cadernos do Cárcere: volume 4. 7ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023. ↩︎
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Ederson Duda é doutorando em Ciências Sociais pela Unifesp.
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO


Brasil delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico, de Leda Paulani
Desvendando a guinada conservadora na política econômica brasileira pós-Lula, a autora revela a transformação do país em plataforma de valorização financeira global. Analisando o neoliberalismo, destaca a estratégia de emergência econômica como instrumento singular.
A ordem do capital: como economias inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo, de Clara E. Mattei
Estudo profundo e interdisciplinar sobre a relação entre austeridade e ascensão do fascismo. Um novo olhar sobre a história da austeridade, intrinsicamente conectada com a economia moderna e com o poder político contemporâneo.
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