O jornalismo alternativo como alternativa? 

As estruturas da comunicação digital, antes associadas à liberdade e à democratização, revelam hoje seus limites e as incertezas quanto ao futuro 

Imagem: WikiCommons

Por João Pedro Piza e Vitor Forini Lima.

Diversos autores têm apontado que o tempo presente é marcado por uma sobreposição de crises. Entre elas, duas se articulam de forma particularmente intensa: a crise da democracia liberal e a crise informacional. Ambas não apenas coexistem, como se reforçam mutuamente, e o jornalismo encontra-se no epicentro desse processo. Instituições reguladoras, sistemas de representação política, práticas jornalísticas profissionais e a própria ideia de debate público livre e plural enfrentam um processo de erosão que compromete sua legitimidade e sua capacidade de mediação social. 

Ainda que não haja consenso sobre um marco inaugural dessas crises, seus sintomas tornaram-se cada vez mais evidentes. A democracia liberal sofre abalos profundos quando representantes eleitos deixam de cumprir o papel de gerências das demandas sociais e como isso é incorporado por decisões políticas, seja por capturas institucionais, constrangimentos econômicos ou estratégias deliberadas de despolitização. Nesse vazio, atores e movimentos de caráter autoritário, muitas vezes de extrema-direita, mobilizam ressentimentos, exploram frustrações coletivas e se apresentam como alternativa ao establishment, não para aprofundar a democracia, mas para desestabilizá-la no interior da disputa concorrencial pelo poder. 

O jornalismo, historicamente concebido como uma das instituições centrais da vida democrática, é diretamente afetado por esse fenômeno. Sua função de organizar o debate público, produzir inteligibilidade social – isto é, tornar-se capaz de produzir mediações simbólicas que tornem visíveis as relações estruturais, históricas e políticas que organizam a experiência social – e tensionar o poder encontra-se comprometida por transformações estruturais no ecossistema comunicacional. A passagem para um regime pós-industrial de produção de notícias, profundamente dependente das plataformas digitais, reconfigurou não apenas os meios de circulação da informação, mas as próprias condições de ação comunicativa. 

Nesse cenário, as condições materiais, técnicas e econômicas da comunicação tornam-se crescentemente antagônicas à sua função democrática. O deslocamento do debate público para plataformas privadas, orientadas por lógicas de engajamento, visibilidade desigual e extração de dados, compromete a soberania informacional e subordina a circulação de conteúdos à racionalidade do capital informacional. O problema, portanto, não se reduz à proliferação de desinformação ou à fragilização ética da prática jornalística, mas diz respeito a uma transformação estrutural das mediações. 

É nesse cenário que o jornalismo passa a operar sob um regime que pode ser compreendido à luz daquilo que Herbert Marcuse entende como “tolerância repressiva”. A crítica não é silenciada; ao contrário, circula amplamente. Denúncias são publicadas, e narrativas contra-hegemônicas encontram espaço. No entanto, essa circulação ocorre sob condições que neutralizam e bloqueiam sua potência política. A pluralidade de vozes não garante a incidência efetiva da crítica sobre as estruturas de poder –ela é meramente formal. 

A tolerância à crítica, nesse sentido, não amplia o debate democrático, mas o administra. O jornalismo crítico é incorporado ao ecossistema comunicacional como mais um conteúdo, submetido às métricas de visibilidade e engajamento que regem as plataformas. Sua presença é permitida, desde que não altere os fundamentos do sistema que a absorve. Ele acaba se tornando um nicho do mercado editorial, não um valor ético capaz de orientar sua prática. 

Essa dinâmica se articula ao realismo capitalista de Mark Fisher: a sensação difusa de que não há alternativas viáveis fora do horizonte do próprio capitalismo digital. Mesmo quando o jornalismo expõe desigualdades, abusos de poder ou falhas institucionais, o faz frequentemente dentro de um enquadramento que não consegue romper com a naturalização das estruturas existentes. O futuro aparece como mera variação do presente, e a crítica tende a se limitar à gestão dos danos, não à imaginação de outros arranjos possíveis. 

É nesse ponto que se torna necessário abandonar leituras idealizadas do papel do jornalismo na democracia. Pensá-lo apenas como mediador neutro, árbitro do debate público ou garantidor automático do pluralismo implica ignorar as transformações profundas que atingiram suas condições de atuação. O deslocamento das mediações não é um desvio temporário, mas um processo histórico e estrutural, marca das mutações do capital e sua influência na política. Desde a consolidação da comunicação de massa, sua atuação esteve atravessada por determinações econômicas, pela lógica publicitária, pela concentração de propriedade e pela integração às dinâmicas da indústria cultural. Assim, mais do que um declínio a partir de um passado normativamente realizado, o que se observa é a intensificação e a reconfiguração das formas de captura e instrumentalização que atravessam o fazer jornalístico. 

Pode-se afirmar que a mediação neutra constitui um horizonte normativo da profissão – um princípio ético e político que orienta sua autocompreensão –, mas sua realização material sempre foi condicionada pelas estruturas do capital e pelas formas históricas de organização do campo comunicacional. A perda de capacidade transformadora do jornalismo tradicional, nesse sentido, não decorre apenas de um desvio moral ou de uma crise recente, mas da radicalização de processos de instrumentalização já presentes no modelo industrial e agora aprofundados no presente cenário. 

Isso não significa, contudo, decretar a irrelevância do jornalismo. Significa, antes, reposicionar sua função. O que se observa, especialmente no jornalismo alternativo, é menos uma tentativa de recompor a mediação perdida e mais a construção de práticas que operam em outra chave. O jornalismo alternativo contemporâneo já não media a sociedade no sentido clássico; ele treina linguagem, elabora sentidos e preserva regimes discursivos para um futuro incerto, mas que demanda luta no presente. 

Essa atuação deslocada não deve ser lida como fracasso, mas como adaptação crítica. Inserido em um ecossistema comunicacional hostil à mediação democrática, o jornalismo alternativo assume uma função que é, ao mesmo tempo, mais modesta e mais radical. Ele não resolve a crise da democracia liberal, não substitui instituições esvaziadas e não recompõe uma esfera pública idealizada. Sua potência reside em outro lugar: na capacidade de formular problemas, criar vocabulários e tensionar naturalizações que bloqueiam processos de emancipação. 

Pensar o jornalismo como prática dialógica exige abandonar a ideia de diálogo como harmonia, consenso ou simples soma de vozes. O diálogo, aqui, não se confunde com interação nem com engajamento. Comentários, curtidas e compartilhamentos não constituem, por si só, práticas dialógicas. Tampouco o pluralismo formal – entendido como a equivalência entre posições estruturalmente desiguais – garante diálogo democrático. 

Sob condições de tolerância repressiva e realismo capitalista, o jornalismo dialógico só pode existir como prática crítica. Seu papel não é pacificar conflitos, mas torná-los inteligíveis; não é representar todas as posições, mas expor as assimetrias que estruturam o debate público; não é fechar sentidos, mas mantê-los em disputa. Trata-se de uma prática que reconhece o conflito como elemento constitutivo da vida democrática e recusa sua neutralização pelo ruído informacional. 

Além disso, o jornalismo alternativo opera em uma temporalidade distinta daquela imposta pelas plataformas digitais. Ele insiste em temas, acompanha processos, constrói memória. Em um ecossistema orientado pelo imediatismo e pela obsolescência acelerada, essa insistência é, em si, um gesto político. Preservar a memória, retomar debates interrompidos e sustentar questões incômodas ao longo do tempo são formas de resistir à lógica que transforma tudo em fluxo descartável. 

É nesse ponto que o jornalismo alternativo revela sua principal contribuição para as democracias no presente. Não como solução sistêmica, mas como prática de negatividade simbólica. Formular problemas, criar vocabulários e tensionar consensos ainda é uma forma de poder simbólico. Em um contexto em que o capitalismo digital tende a dissolver conflitos no ruído e a neutralizar a crítica pela tolerância, preservar linguagens dissidentes torna-se uma tarefa fundamental. 

Entretanto, essa potência deve ser objeto de exame crítico, pois o jornalismo alternativo também se encontra submetido a limites estruturais, econômicos e internos do capitalismo digital que condicionam sua atuação. Do ponto de vista estrutural, ele depende das mesmas plataformas digitais que organizam a visibilidade do jornalismo tradicional, estando submetido às métricas de engajamento, à lógica algorítmica e à economia da atenção. Opera, portanto, não fora, mas nas frestas deste estágio do capitalismo, o que impõe restrições à circulação de seus sentidos e à sustentabilidade de seus projetos. 

A segunda dimensão dos limites diz respeito à capacidade das iniciativas alternativas de sobreviver economicamente na conjuntura em que se inserem. O capitalismo digital frequentemente as empurra para modelos de negócios marcados pela precariedade e pelo voluntarismo, o que, em muitos casos, conduz à informalidade e à instabilidade organizacional. Ao adotarem, majoritariamente, formas independentes de captação de recursos, essas iniciativas acabam restritas a campanhas de financiamento coletivo, a colaborações de um número reduzido de assinantes e a receitas limitadas, o que as coloca em situação de permanente fragilidade existencial. 

Do ponto de vista interno, sua legitimidade não pode repousar apenas na negação do mainstream ou na apropriação acrítica das epistemologias de categorias consagradas pelo jornalismo tradicional. Se reproduz os mesmos critérios de noticiabilidade, as mesmas concepções de objetividade e os mesmos enquadramentos metodológicos, ainda que com orientação ideológica distinta, o alternativo corre o risco de apenas ocupar uma posição periférica no mesmo modelo que pretende tensionar. Sua potência crítica depende da construção de método próprio, de práticas que reorganizem a temporalidade, os critérios de validação e a forma de estruturação do conflito discursivo. 

Essa aposta na crítica não garante transformação imediata nem devolve ao jornalismo uma centralidade que talvez nunca tenha sido plena. Trata-se, antes, de sustentar abertas as condições de interlocução em uma conjuntura que tende a estreitá-las. Nesse registro, o jornalismo não promete reconciliação nem se apresenta como solução redentora. Sua tarefa é outra: insistir. Insistir em desnaturalizar consensos aparentes, em expor contradições invisibilizadas e em sustentar formas de diálogo que não se reduzam à lógica da circulação mercantil da informação. 

Em tempos de crise da democracia liberal e de colonização da esfera pública pelas plataformas, talvez essa insistência seja o gesto mais profundamente democrático que o jornalismo ainda pode realizar. Não o de garantir consensos, mas o de recusar o silêncio imposto pela abundância de ruído. Não o de representar a totalidade, mas o de manter vivo o conflito como condição da democracia. 

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João Pedro Piza, jornalista formado pela Unesp, é mestrando no Programa de Pós-graduação em Mídia e Tecnologia na mesma instituição. 

Vitor Forini Lima, graduando em Comunicação Social – Jornalismo pela USP e fundador do jornal independente Desconhecido Juvenal. 

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).


Colonialismo digital, de Deivison Faustino e Walter Lippold
Quais são os impactos das tecnologias em nossa sociedade? Que consequências enfrentamos com a concentração das principais ferramentas tecnológicas que regem a vida de milhões de pessoas no domínio de um punhado de empresas estadunidenses? De que maneira é possível relacionar algoritmos a racismo, misoginia e outras formas de violência e opressão?

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